quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

sujeito-homem

Abraço-me escrevendolendo
e já tiro do colo o que sou agora

de mim, sou linguagem pura, a pureza de milhões!
conhecer-me, sem pitacos alheios é ser discípulo de mim


- Vou parir todos para saber quem sou

parto-me à dor - a luz apaga e a coluna dói -
após, aliviado - posso ser visto por olhos distantes

ao ler-me, já não (in) divíduo o que sou
unifico-me ao caminho dos outros - à procura do homem

sábado, 11 de dezembro de 2010

Psicanálise

Psicanálise é aprisionar o desconhecido num frasco (comum a toda gente!)

Abri-lo e cheirá-lo é que depende de bravura e sabedoria
(análise-do-eu-não-privatizado...)

Literatura-viva

Literatura-viva



I

Fazer-se a partir da fantasia revelada ao outro





Literatura é metáfora-viva! É fazer-se no outro; compreender-se (melhor, compreender o outro). Há de fato apenas o desconhecido - premissa constatada por quem ultrapassou os limites da caverna. Informação importante: somos a imagem e semelhança do outro - ah, e viviemos para satisfazê-lo! É exatamente por isso que caminhamos cegos e aprisionados querendo pagar a dívida oriunda de relações escusas... à caverna só é possível ver sombras descompassadas do outro. Ao outro é o nosso desejo, ao outro é nossa abdicação... ao outro me fiz eu! Afinal, que é o outro? ... melhor agora é aprofundar na caverna d'alma e entender os grilhões que nos separam de nosso cordão (cortado?).


Um universo dual se fez, é o nascimento de uma criança. O pequeno ser cheira, toca, chora e mama... ele é a mãe! A mãe, por sua vez, resolve parte da inquietação mundana, agora, ela tem o tão sonhado pênis (mas ele vai falar ainda!). A criança é, para a mãe, o que faltava, o que nunca tivera... é sonho, o maior desejo que uma mulher pode ter... o que o homem tem, e teme perder! De volta ao pequeno, ele dorme, acorda, chora, toca e mama... eu e ela são eles! Não, não é um objeto, é pênis incorporado à mãe, é a própria mãe. Não, não é mãe, sou o todo, mãe e filho! Mas eis que nessa caverna há regras e maneiras de se comportar perante o outro. É a angústia permante! A pobre criança será aprisionada, acorrentada, mãos e pés, pior, será obrigada a se separar da mãe. Pobre- pobre criança! Agora entende que não é a própria mãe, que é um ser preso numa caverna escura, repleta de regras e não há um só que fuja disso, será que romperá os grilhões? Ora mãe, percebeu? Não tem mais o tão sonhado pênis... ele agora já é um sujeito... ele fala! - Meu falo!



A trajetória é árdua e escura! Se a mãe é filho também, deve aparecer o pai. “Morte ao pai!”, desejo feroz, inquietante... Pai faz o filho não ser santo! O pai com suas regras e censuras conduz o filho para um mundo solitário, doentio, neurótico. Papai e suas doces regras... “não-não-não-não, vou dormir com sua mamãe!”... agora o filho já não é a mãe, consequentemente, não existe filho santo. Todo relacionamento entre o falo da mãe e mãe é rompido... foi castrada! Agora sou eu! É tortuoso se separar da família e ir à escravidão só.



Mas a vida é escrava dos verdadeiros momentos felizes - quando mãe e filho (falo) eram um só. Sim, mas a mãe deixa um espírito pairando... não digo que seja santo, pelo contrário, é apenas a voz do outro (melhor, da outra!) que ficará após as regras impostas pelo pai. Mas o que tem o pai com tráfico de crianças? Ora, ora, ora... a ingenuidade é a faceta do esquecimento! O pai descobriu que não se pode dividir o que se quer. Aliás, é lucrativo o comércio de crianças, contudo é perigoso roubar pequenos alheios. Então, nada melhor que o velho papo da autonomia, do crescimento independente, nada melhor. Vem, vai... “filho meu, meu amor é tão grande que matei meu próprio filho!”. O pobre já sabe que não é a mãe, mas leva dela a (proteção?) de seu espírito.



“Vai, vai querido pequenino, vai sonhando com os tempos de menino!”. Mas sonhar não é tão fácil quanto parece, melhor é não lembrar dos sonhos. O tempo faz esquecer o que é duro de se lembrar... A caverna revela a infância através das sombras refletidas na parede oposta à entrada. Mas o constante mover da caverna remete o então rapaz aos momentos em que era Deus, que era criança. E vendo os reflexos na parede da caverna começa a suspeitar que na verdade fora vendido pelo pai. Ali não há nada de caverna... é um navio negreiro! Seus colegas também estão sem pais, perdidos, aprisonados, e pensam sob o julgo de uma voz recorrente, a voz do outro.



O que era pequeno, agora já é jovem e já entendeu arrepiado onde estava. Os sinais estavam no ar... ele os captou, mas posso confessar que o entendimento do rapaz é limitado porque procura o que é objetivo, racionalizado. Entretanto, ele não sabe explicar por que deseja coisas tão estranhas (não podemos ter contatos com essas vontades, é muito perigoso!)... mas posso adiantar que ele entendera o que era aquele lugar escuro, fechado, com bastante grilhões... era um navio ou algo similar que se movimentava, além de carregar diversas pessoas sem pais, sem história, aculturados, rumo ao desconhecido (Ah, como queria saber quem tinha o colocado ali!). O rapaz era pura razão! (será?) Todavia naquela razão havia a voz espiritual do outro, daquela que fora obrigado a se afastar ainda muito novo.



O rapaz sabia que vivera uma vida feliz (podia ser em outra vida!), mas naquele momento tudo era perdição. Viver com pessoas que desconhecem a própria existência é também desconhecer a si! Não há dúvidas, ele já tinha vivido um tempo de paz. Nesse ínterim que notou, ao lado dos ferros que o prendiam, um líquido que ora banhava os pés de forma gélida, ora voltava como se nada quisesse... a ele, aquilo era um chamado - curiosidade sempre foi metáfora viva! A partir daí, entendeu que a mensagem marítima era um convite para degustar aquela estranha substância - possibilidade de fuga. Agachou-se e bebeu...






II



O silêncio diz mais que milhões de vozes




Foge amor! Foge...

Os sete cavalos estão vindo pelas montanhas, posso ouvi-los. Não os ouve? Não os ouve porque não é daqui, claro! Não entende como é aqui... mas eu os vejo, eles estão bem próximos. Vai, foge, foge amor! A vida não deve exigir o sacrifício d'alma!

Aproxima, vai. Não falta muito para fazer do seu sangue metal. Morto, não poderemos amar! Não, não... você precisa ir! Os cavaleiros foram criados para matar, exterminar todos que amam verdadeiramente. É bem verdade que temos um amor bastante tumultuado, mas assim deve ser nesses dias de inveja. Eu, que o amarei eternamente, permanecerei aqui. Vai bebê, vai...






O rapaz, ainda meio entorpecido, acordou. Mal retornara ao lugar escuro e já sentia uma terrível dor de cabeça - devia ser um sinal de que realmente tinha voltado. Ele agachou-se e fez com que a cabeça encostasse aos joelhos e, de cócoras, deixou-se retomar às experiências que tivera com o líquido estranho. "Assim deve ser nesses dias de inveja"... a frase soava como um sino que anuncia as horas. Relembrar aquela mulher de voz doce, terna, o deixava bastante aflito. Era como presente estragado dado à criança - bastava recordar o acontecido para ser tomado por um (des)conforto descomunal. Para alguém que dorme acorrentado, sonhar-liberdade é ser alforriado.


O rapaz, após levantar-se, pensava tão somente em voltar ao verdadeiro lar, ao lado da maravilhosa amada. Queria interromper imediatamente a dor que sentia e ouvir a voz daquela que o encantara. Pensou nos acalentadores momentos da infância... não digo que pensava em algo específico, mas o perfume exalado pela bela-adormecida o tomava completamente. Esse era o mesmo odor deixado pela mãe no dia em que fora vendido - cheiro distante!...



Resolveu deitar-se, mas uma dúvida o abateu e o fez meio curvado antes de se esticar completamente. Continuar ali morrendo (bastava olhar os (in)divíduos ao lado) ou buscar a trilha do amor... beber novamente? É, o passaporte continuava como tentação permanente. Ele, que estava meio deitado, passou a observar a cor, espessura, a forma do líquido que o banhava - certeza, é lama! E era tão carregada que às vezes parecia estar no estado sólido ou numa núvem densa, repleta de descargas elétricas.



Voltemos à embarcação... não se usava conversar ali, isso porque cada falante possuia uma língua diferenciada. Aquele que comprava os seres estava prevenido - misturá-los para dificultar uma revolta! Todavia, a comunicação não é feita apenas pela via oral, ou seja, era possível estabelecer um diálogo com a moça ao lado. Ela estava deitada e ele deitou-se também. Olhos nos olhos, mas nada familiar... logo sentou-se e, apesar das mãos estarem presas, tentou gesticular apontando para o fluido. A resposta foi limitada a alguns grunidos - um animal não faria com tanta perfeição! Desistiu de olhar àquela que mais parecia fragmentos de rocha que gente e pôs-se a pensar solitariamente.



Por que fora vendido? Por que fora deixado tão solitário? Dizem por aí que mães cuidam severamente dos filhotes, mas... ah, a fé é a habilidade dos desperados! Começava um caminho rumo à vida, embora metaforizado pela linguagem da moça, aquela dos sonhos. O perfume... item de desiquílibrio de qualquer pensamento. Pensava na moça e ela... ela, que durante toda fala estivera sentada, tinha um quê de gerente, dona de um estabelecimento, já a voz, às vezes um tanto desesperada, havia a mesma fragrância do cheiro de mãe. Era suave, mas agressiva, além do mais, cativador - capaz de paralizar sentidos outros. Por uns segundos só sentia a inseparável dor de cabeça e o odor de mãe. Ela tinha exigido que fosse embora, mas é óbvio que era amor... proteção contra os cavaleiros perigosos, evidente... tão claro que ela falou que, que?... não é possível saber exatamente as falas daquele devaneio. Devaneio? Ora, ali sim tinha vida, morte, delírio, era continuar acorrentado e com a terrível dor. Tudo bem, não digo devaneio, mas a experiência foi acalentadora. O silêncio diz mais que milhões de vozes!





III




A repetição é fruto do que foi mal digerido


- O líquido-tentação foi ingerido novamente...

(continuação em breve)

domingo, 5 de dezembro de 2010

super-homem de Fernanda Padilha

E eis que o super-homem aparece como uma epifania. E é de seu feitio ser super sempre...sempre enquanto lhe apraz. E como ele aprecia levar as pessoas para o céu em seus vôos intempestivos... o público se encanta e ele mais ainda de si mesmo. Em sua plateia interativa, temos ali uma bailarina, que sempre, sempre tenta se equilibrar na ponta dos pés e se manter no mais alto possível, mas nunca, nunca antes havia alcançado os céus. Queria agradar a todos, reconhecia seus erros – assumindo inclusive aqueles que nem eram seus – e queria ser perfeita, mesmo sem nunca atingir as alturas. No entanto, o super-homem apareceu e, estando uma vez no céu, não queria a bailarina voltar à prosaica terra que lhe doía a perfeição de seus pés de passos acertados. Acontece que, com o tempo, sentindo-se sozinha num céu de nuvens imaginárias, a bailarina caiu bruscamente à terra. Foi quando ela notou que o super-homem gostava de levar as pessoas pro céu muito mais pra se sentir no alto, e que, tão logo a emoção das alturas já não fosse mais capaz de comover nosso heroi, pouco importava a ele onde ou como estava a bailarina ou quem quer que fosse entre aqueles de sua pateia. Seu objetivo já havia sido alcançado, seu prazer de herói já lhe havia rendido as palmas desejadas e era ele mesmo quem fechava suas cortinas, sem se dar conta da queda livre à sua volta. Mas seu público tem fome. E nossa bailarina tem sede, de tudo. Contudo, é orgulhosa demais pra pedir novamente as alturas, pois crê que o céu é seu lugar e por isso mesmo não faz sentido clamar por algo que é de seu direito. Então a bailarina se cala. De uma mudez sem fim nem começo, repleta de sentir e sentidos. E assim permanece, silenciosamente na ponta dos pés, a fim de não errar e não acordar seu herói, que dorme, saciado e distante, atrás das cortinas que ele mesmo fechou.

Fernanda Gonçalves Padilha (minha preta)

vitória dum presidiário

quando as roupas embranquecem e os insetos são dedetizados
(já não há bolhas!)

a alegria do condenado parece reinar

se não há moscas e apenas ouve-se o chiar da chuva

sos
se
ga
da
men
te

ou, no motel, já veio o gozo
e a tranquiladade da noite paira, o sono vem!

são faces aprisionadas da insensatez


(mas peste não é metáfora para a morte!)

só o gozo, sono ou chuva sossegada fazem da morte minha ressurreição

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Terra vazia

Os jornais estão sangrando... as pessoas, desconcertadas, vagam incansavelmente por lugares incertos. E eu, olhar meu, olhar incestuoso frustrado, não consegue distinguir as cenas que passam com tanta rapidez, são retinas deslocadas.

Sentado, sou introspecção... apenas os jornais me ligam ao mundo exterior. Parece mesmo que preciso de sangue alheio para sentir o coração batendo. As mortes no Rio de Janeiro não me fazem chorar, muito menos me causam arrepios, mas me dão a terrível sensação de existência. É, minha subjetividade aprendeu a ler desgraças, o que antes era apenas exótico já tornou-se essencial. Mas o jornal me liga a mim. Essa corrida veloz faz qualquer piloto tentar olhar à arquibancada.

Abri o jornal e trouxe a xícara de café para mais perto. Meus olhos pulam nas Coréias e sinto-me em São Paulo de guerra. As torturas policias "Ministério Público investiga possíveis casos..." são mais indícios da minha existência. Encontro-me perdido, mas o sofrimento alheio me conforta! Percebo que procuro me matar todos os dias com as notícias. Matar e ressucitar-me numa xícara de chá ou café. Percebo que minha vida está diretamente ligada às mortes, à minha morte principalmente. Se desaparecessem os jornais!... hipótese suicida, não sou imortal ainda. Meus olhos continuam procurando sangue (as notícias de ontem estão pobres!...). Desencontro-me e continuo perdido!

O café é o esquecimento da minh'alma! Enquanto morro nas notícias sangrentas (talvez só aí eu exista de fato), desloco-me à terra solitária de mim num gole de bebida. Vou-me e, às vezes, voo de mim. Talvez a verdadeira morte esteja no esquecimento (ou seria o contrário?). Talvez só esteja verdadeiramente vivo quando pressinto a morte... (e morro ao esquecer de mim?)

-Devaneios são sempre confusos e os lapsos são comuns...

Continuo sentado solitariamente. Mesmo diante da inscrição "Sala dos professores", continuo repensando sobre meus jornais. Meu pensamento é um mosaico de sangue! A vida só existe quando há notícias trágicas o suficiente para fazer o sangue circular. O que é morte se faz vida em mim. Sou um jornal de mortes e vidas... ontem era um menino que sonhava ser mestre em capoeira, mas fui interrompido por uma bala policial e morri nos braços do pai. Sou o Rio e a Coréia, de janeiro a janeiro, de norte a sul.

Afasto a xícara de café com violência o que a faz cair e manchar o chão. Alguém entra na sala e soa o sinal anunciando mais uma aula. A vida é queda, mas logo vem alguém apertar o sinal... queria ter agora minha xícara de café para soar meu sinal de esquecimento. Preciso do artifício da morte (jornais de sangue) para ter existência, assim como preciso me matar para que seja ressuscitado posteriormente. Um gole de café me faria esquecer... olhar nos jornais teria o milagre da ressurreição. Sei, talvez Jesus tenha visto um banquete de notícias sangrentas e bebido muito café... (o mistério da ressurreição foi resolvido!)... talvez todo revolucionário tenha o sofrimento como motor de existência; tenha também uma xícara de café para esquecer-se.

A xícara caiu... há bastante sangue à mesa, mas o café foi derramado. Em meu coração agora não há reconciliação imediata... vejo os jornais - mais sangue -, farto-me de notícias e o coração dispara. A mente parece vazada... o estômago range facas amoladas e meu café está derramado. Caio ao chão e, como cachorro feroz, passo a língua na superfície banhada do líquido preto. Continuo sugando, mas pouco líquido me vem à boca... o coração sangra nessa corrida... já é linha de chegada... e voo... vou sem café ao lado!

domingo, 21 de novembro de 2010

lição de um jovem nazista

É a história de alguém que se apresenta feliz, saltitante em quase todos os momentos: "sorridente por ingenuidade", como gostavam de dizer. Ele não precisa de nome, uma vez que a intenção é resumir a vida de quase todos os humanos. Alguns diziam que sofria de obesidade mórbida, já que tinha prazer em engolir as casas ao redor. A casa, refém de nosso personagem, logo se via sem quadros, sem livros, filmes ou bugigangas. Enquanto apenas os bens culturais eram consumidos, todos o julgavam interessante: "apesar de tudo é um garoto sensível!", admiravam. Porém, a ambição crescia dia a dia... e os móveis e eletrodomésticos também desapareciam inexplicavelmente. Depois de alguns dias de ação, o que se via era uma casa vazia e um jovem grande em alegria, que engordava consideravelmente. O interessante é que sempre parasitava uma casa por vez, jamais duas, três, quatro... (não aprendera com Hitler ainda!). Depois de esvaziar tudo que havia, o moço já bastante grande não se contentava com a parte de dentro e partia ao consumo do exterior: paredes, pintura, até que tudo voltava ao estágio inicial, um lote baldio.

Porém, nosso personagem, após degustar uma casa (principalmente aquelas grandes), inchado, muito inchado, entrava em sono profundo (já tinha tido lições com os ursos). Durante o tempo em que ficava hibernado, o ronco tremendo funcionava como um tampão e tudo que comera até ali era colocado para fora, num vômito ininterrupto. Assim, ele, gigante, esvaziava-se e voltava a um graveto de homem...

Novamente, agora ressignificado, nosso personagem-graveto está vazio. Talvez por isso alguns o classificam como bipolar, outros simplesmente como geminiano. Não se trata de dizer o que ele é: dispenso os julgamentos e inúmeras tentativas de enquadrar esse que agora já se apresenta, se não como amigo, pelo menos como nosso colega. Quando está vazio, dificilmente sente fome. Ele não se interessa por nenhum prato, nem o mais requintado e, ainda, esquece-se que se alimenta de casas, preferencialmente as grandes. Entretanto, o ciclo continua quando algum livro ou filme ou qualquer coisa que o valha, o deixa admirado. Dessa vez foi um livro, "a insustentável leveza do ser", que estava em uma estante velha, morto, sem ninguém para lê-lo... provavelmente houve uma reconhecimento entre os dois: nosso personagem deve ter sentido pena do livro - permanecia sempre fechado -, assim como o livro provavelmente teria sentido lástima pelo nosso colega (já amigo?). Nesse ínterim, o livro foi sugado de uma só vez, porém não sustentou a leveza do amigo (será colega?). Percebendo que não tinha saciado, iniciou a namorar o acervo de músicas, filmes e livros que havia naquela casa. Comeu toda "Vanessa da Matta" e iniciou um Requiem para o sonho. Obcecado, devorou os demais filmes e todas as músicas dali. Começava a crescer consideravelmente, todos percebiam a diferente forma, já não havia mais livros, nem músicas, nem filmes na casa... Ele crescia enquanto tudo desaparecia, inevitavelmente o ciclo tomava forma.

Nessa casa, moravam o pai, a filha e o espírito dito santo. Ah, havia também um discípulo da filha que morava no barracão ao lado da casa. Nosso amigo havia devorado todos os bens culturais, os móveis e eletrodomésticos, entretanto a fome continuava dilacerando o estômago. Num dia, os dois computadores desapareceram. No outro, o fogão e a geladeira. Menos de um mês e toda casa já havia sido tragada, incluindo o barracão. Tudo já se resumia a um terreno baldio e a fome não cessava, até que uma ideia inovadora se materializou ao nosso amigo-companheiro: comer gente deve preencher mais os espaços da fome. Isso porque pensava que as pessoas podiam comer outrem. Enfim, comer um ser humano era engolir várias casas... a fome podia acabar assim... (ideia interessante, não?)

Só sabe quem coloca as hipóteses à prova. Apesar de sentir bastante medo do espírito que pariava o então lote vazio, armou uma emboscada para capturá-lo. Espíritos subestimam os mortais e facilmente nosso companheiro o consumiu - agora era imortal, mesmo sem ter ciência disso. A filha linda foi a segunda a ser consumida: travestiu-se de Zeus (como espírito, já podia ser aquilo que se pensa ou mesmo que não é pensado) e comeu a garota. O terreno ficara limpo, apenas o pai estava ali. Engraçado, os livros sumiam e todos fingiam não enxergar; os computadores desapareciam e ninguém sentia falta... as paredes caíam, mas todos logo se acostumavam (o sol entraria mais facil!). O espírito também se foi, mas como não é gente para que se importar? A filha despareceu, porém é jovem "jovens vão aonde quiserem e logo volta", afirmava o desatento pai (volta?). Você já deve saber o que aconteceu com esse pai, percebeu? Crescemos mais e daqui a pouco dormiremos...

sábado, 20 de novembro de 2010

não chora pela boca alheia!

Quando um homem chora, as lágrimas tecem o ar do silêncio - os peitos de outrora não ouvem gemidos. Em mim, hoje, só o disparar incontido do coração... parece que é hora de explodir para ser reconstruído posteriormente - ciclo vital da existência. Por um tempo só cresci, e construí uma imensa bolha - pensei que não podia ser destruída -, mas tudo que é bolha se desmancha ao ar. Era imensa, eu era imenso, tornei-me líquido pela primeira vez aos dezesseis. Pensava que seria água eternamente, porém quem aprendeu a ser bolha retorna ao estágio inicial inevitavelmente. Assim cheguei ao hoje que é igual ao hoje de seis meses atŕas, igual ao hoje de um ano e meio, igual a bolha estourada pela primeira vez. Estou inchado como quem não suporta o próprio coração, estou imenso... o outro já é todo espelho, entretanto não sou eu quem reflete! Discute como eu, chora como eu, todavia não sou eu quem chora pela sua boca. Meu pedido talvez fosse: cala coração, e não chora pela boca alheia!

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

quadro cinza

hoje é vontade de parar
deixar o carro
ir e deitar
deitar no quadrado humano


vontade de não ver as malas abertas do carro que partiu
apenas sentir meus óculos caindo

a cegueira agora é um sonho
e em minha lucidez não há uma gota de álcool
só dores do dia que não acabou
só morte da vida que começou

mas penso no iraque ou afeganistão
no Brasil de certezas, cegueiras

e durmo, durmo em pedras cravadas (minha cabeça quer tomar forma de pedra!)
sem bagagens, carro ou álcool

domingo, 10 de outubro de 2010

berimbau da subjetividade

a roda parecia estar parada
fruto da rotina - gesso aos pés!

a modernidade nos faz bater os mesmos martelos, escravamente
e as máquinas continuam rangendo dentes cariados

- mas voz tem óleo de correr o que parou!

garotos já conhecem bandeirantes e cachaça
(aqui, água não pega fogo!)
e os índios católicos ficaram em canção póstuma



Em dias de guerra,
hospitais aguardam o próximo óbito
são os mesmos demônios que dizem amém e executam jovens em igrejas
diabos que gritam pacificar o morro
enquantos crianças morrem entre balas de fuzis policiais



mas há uma roda que não para de crescer
são vozes cantando berimbaus escondidos...
negros, índios e camponeses que já sabem a verdadeira bença

-

o mestre abriu a roda e não tem hora para acabar
os marinheiros desceram ontem de navios negreiros


nessa roda, não há lugar para um só
o marinheiro da Bahia é goiano é carioca é mineiro
e, entre martelos e benças
a bolinha de gude rola da mão criança que sonha
(sonho o dia em que a capoeira seja apenas arte...)

-


Escutam canções,
de onde vem martelos!

sábado, 2 de outubro de 2010

Lampejos noturnos

Lampejos noturnos

Uma chance,
um objetivo
ao meu alcance
Desistir?
Não!
Aqui estou à
iminência de persistir
a fim de progredir.
Para crescer,
realizando meus anseios,
saltando os obstáculos
existentes da vida.
Conseguindo conviver
com meus devaneios.


Luiz Mauricio Rodrigues de Almeida

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

negr'alma

mente vazia, filme mudo
aburdo, mente como telhado desabado
alma firme descapada

besouro como metamorfose humana
(mulher jubaleão!)

enquanto morro (umbando ri!)
soulidão soulitária
soul só zinhozinhozinho

-

poesia de chamas num cerrado de caos



bando que canta
que bota a casaca
amassa a terra
quebra o galho torto
intorta o caldo

vou só numbando qualquer

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

viva o cerrado/ metrificado

Universo cerrado/
em serras coroado/
visito-te/
quer em mim, vou em ti/
voo-que-me-vi/


Bem-te-vi/
canta aqui/


grita bem-te-vi/
pássaro preto/
gaivotas daqui/
canta canarim/

meu ouro não é preto/
nem tem minas gerais/
mas brilho nas árvores/
tortas do meu goiás/


Goiás traçado delimitado/
Não quer inútil meu grito sertão/
Para viver meu sossego d'alma/
Hoje a métrica serrou o cerrado/

palavras negras

mente vazia, filme mudo
aburdo, mente como telhado desabado
firme soul, descapado

besouro é metamorfose humana
mulher jubaleão

enquanto morro (umbando ri!)
soulidão soulitária
soul só zinhozinhozinho

-

projeto poético
palavras pretas
preparação ao caos

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

infinito até o fim

permaneço parado e me vejo pouco - meu poema é espelho trincado
sou fracasso orgânico - trangênico plantado em larga escala

minha confecção foi feita às avesas
confissão de mãe: sonhava menina para nascer macho!

um macho loiro, radiante
plenitude infantil, beleza infinda

os anos passaram espinhos - já tenho máscaras que se confundem a mim
ora, grito feliz à guerra dos excluídos - juntos com os excluídos
mas meu gemido é estrondoso sonlitário

não entendo bem,
sou otário falante em rodas humanas
carência que cheira à tarde sozinha de cafezinho e xadrez



estou como todos os dias, no mesmo lugar
plantado, petrificado em minha redoma


procuro gigantes ânsias de felicidade, mesmo em vidros de solidão
minha paralisia atrái avalanche de lágrimas
há doce gosto em quem chora poemas
há mar socorro em quem me salga com a leitura

domingo, 29 de agosto de 2010

incertezas escritas

é horrível perceber falsidade em mim


hoje não tenho necessidade de esconder a vida
não sou ateu, nem creio em deus - inexplicável é esquizofrenia desconhecida

meus deuses são absurdos encontrados
-um carro estraga, sou o único por perto
-alguém teve um sinal de timidez: soluciono a problemática neurolinguística



vi alguém morto... conversei e ouvi sinceridade em quem não parava de falar
ao lado, outrem calado nos observava
eu que não estou morto, mas vivo pouco... parecia morto de ternura

hoje, estou livre do aperto abdominal
sinto, porém, um mundo em minha boca, e dói
dói que esqueço de mim

tive medo da patologia do XXI
percebo: é depressão esquizofrênica de impotência

não quero escrever algo tangível, delimitado
minha cerca é arme farpado não esticado
minha moleza permite ultrapassar o além-mim
o arame é mole como minhas incertezas

hoje saí... olhei ao campo e vi colírios incompreensíveis
reli meu eu nas vaquinhas e peixes e crianças presentes ali
meu mundo é barro de qualquer animal
estou espalhado em capim seco, quase morto ou morto

fui cidade e sonhei minha industrialização
mas campo é parado como sedução de jovem impotente
o sexo dos animais é meu prazer estimado

deixando incertezas escritas
durmo águia sem presa
agora, sem pressa

sábado, 14 de agosto de 2010

dias de greve

Minha ideia é cansaço, rejeição e luta

-olhos de greve também derramam lágrimas!

Hoje passamos em escolas como quem amola alicates alheios
Nossos pés doem CMEI's que funcionam; carros são movidos à força de greve
Enquanto gargantas gritam apelos a quem não ouve - são couraças ameaçadas - a canção continua


É que a solidariedade docente transforma inocência em rebeldia - besouro em homem!
E, os dias de luta, as ameaças impostas... são pegadas à vitória

domingo, 8 de agosto de 2010

Insistência

Insistência


Portas fechadas,
caras amarradas,
argumentos,
juramentos,
mãos atadas!
Mas a esperança
de portas abertas
com hora marcada.


Luiz Mauricio Rodrigues de Almeida

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Pronto?

O poema não está pronto!
não está pronto o poema
definitivamente, não está pronto
(foi só paixão, sinapse ou inspiração)


Gemidos de frases perdidas ecoam - insuportavelmente!
a literatura é feita de escavações profundas
entre atritos, a poesia popular reaparece nas bocas dos muros:
-vírgula limita centímetros de poesia?
-rimas são capazes de destroçar algum eu?
-racionalismo não é inconsciência da alma?



Às vezes,
a poesia é insuportavelmente autoritária
grita de vários versos
tantos belos versos que o poeta se desarma
em seguida,
são apenas escravos ignorados - palavras certas como dentes brancos!

Confesso,
não posso ouvir todos em mim
não sou poeta estadual ou federal, mas decido versos
procuro maioria em mim
e, quando não me encontro
sou eu sem mim!

domingo, 1 de agosto de 2010

pErSoNaS

Por que retorna sem avisar?
(sou acompanhado do distinto aperto abdominal!)
hoje nenhuma lágrima desceu à boca,

Felizmente,
Todo conflito se resolve em greve de junho
bela, radiante, aparece inesperadamente...
mas o macho já é velho homem macho
e o vinho já sofreu metamorfose, tornou-se vinagre,

Infelizmente,
Em ondas reaparecem nódulos perdidos, espalhados
chorei num grito de orgasmo
e deixei seus braços em braços abertos, relações pervamistosas
agora, meu estômago flecha a boca,

Calo-me,
À meia noite o toque do celular acompanha o disfarce
por que camuflar sua inconsciência?
apesar de ler mentes alheias
continuo aprisionado em páginas antigas

Ontem, ouvi perguntas sobre comédia humana
exijo respostas à polícia russa
eu, ditador de mim, exigo respostas...

sexta-feira, 23 de julho de 2010

sal em Maiakovski de mim

uma lágrima me vem à boca
gosto salgado do devir como barulho ensurdecedor do passado


eterno é Chico, é Jamesson
Buarques confusos em identidades coletivas
vou-me em subjetividades alheias
(conversas de vinho em meio-fio qualquer)
e pulso como sexo de mulher excitada
creio na libertade como libertinagem humana
retorno a Jamesson, a Chico


apoio naqueles que executam revolução
infelizmente não há roda de samba hoje

-troia é Goiânia onde morro!



Vejo-me à esquerda de nietzsche
à destra de Lacan
de mãos dadas com drummond

olhando os que se mexem
anônimos que vomitam Marx sem conhecer xadrez
ouço todo horror russo
toda limitação cultural chinesa
(kundera quer sua leitura, maiakovski não encontrou culpados!)


munido me vou em dias de noite pela Grande Marcha
liberto-me nas resistências alheias
-libertinagem hippie quebra qualquer bolsa de valores

meus ideais cristãos tornam-me a Dante
o inferno medieval é o purgatório renascentista
o inferno de hoje são lágrimas de Salém

reprimo-me ao som barbudo de Beethoven
sou quase surdo à angústia
mas há sal em maiakovski - Há culpados em mim!

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Indecisão

Indecisão


Trabalho, escola, casa,
são um dos ambientes que requerem algum tipo de decisão
Mas estou aqui mais uma vez sem o mínimo de reação...
Não importa muito quais as consequências,
Pode ser por causa de minha adolescência
Sei que um dia serei adulto
e que pra isso terei que seguir etapas
e da vida levar muitos ‘’tapas’’,
para alcançar a minha maturidade
e sair dessa indecisão
de minha tenra idade.
Logo quando eu passar
dessa fase de intensa loucura
Terei que ser um homem decidido
porque futuramente serei uma
espécie de exemplo a ser seguido,
mas tenho certeza de que
pra essa minha louca indecisão
logo encontrarei a reversão!


Luiz Mauricio Rodrigues de Almeida

sábado, 17 de julho de 2010

pernas cruzadas e olhos soltos

estou sentado como quem caminhou léguas e teve vertigem
sentado como se houvesse vida-deus além de mim
minhas pernas cruzadas apontam direções

--devo segui-las? qual?

hoje me permito água diante de minha paralisia


talvez fosse ao chão se quisesse me levantar

--sou burguês sem acúmulo?


depois do sono matinal - o sexo ainda não veio
não consigo deixar a desordem interna conexa
minha visão se limita à cozinha de portas abertas
(todas as chamas estão acesas)


solto os olhos...
lembro-me do asfalto que passa onde a vista não alcança
sei que os carros se movimentam em plena força e vigor
e os pássaros - daqui os ouço
continuam a cantar


não me darei aos vermes agora
sentado há em mim toda anarquia de um comunista que diz amém

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Bêbado como Álvaro de Campos, Consciente como Poe

Meu ápice!
a gota do orvalho gemia a queda
mas fui surpreendido por sua fala

Pensei sobre mim:
--Destino poético é curvar-se aos poemas
--Frustração não resiste ao álcool
--Vida se acha em braços de livros abertos
(pensamentos medíocres!)

Conversa lúcida é poema de quem escreve bêbado
Por isso sou Poe ao lado seu, querido Campos


Passeio pelas nuvens espassadas da realidade, sem medo
E sua voz me vem como rio vermelho contemplando o céu
Das correntezas
Ouço cora, ouço você!

Sem distinção entre mim e ti
Entre ti e o outro
Somos leves barquinhos no rio da vila sem volta

domingo, 11 de julho de 2010

FRUIÇÃO E FUGA

Vento fortuito de mente vazia pretende parir um canto poético



À luz,
O ar ultrapassa dedos entrelaçados

Minha mão segura o que é me é possível
-- Caso não houvesse resistência
Meus dedos sucumbiriam
(profecia do inevitável!)

Sinto o atrito da fruição e agarro firmemente o que não dissipou



Mesmo seguro de mim
Dispo-me de possíveis extravagâncias, eternamente

sexta-feira, 9 de julho de 2010

por que diabos há versos ainda?

Havia um encantado que dormia no chão defronte ao motel
Outro, ao lado do primeiro, simulava a própria morte sem sequer respirar
Eu, que respiro e não sou encantado, escrevo versos sem por quê
Talvez para solucionar velhas questões de pessoas novas
Mas se as respostas são variáveis (isso é quase uma verdade!)... por que querê-las?



Escrevo para não ser mudo tendo língua e fala
Pode ser que meu pesadelo seja a mudez
Todos versos são a prevenção dessa mudez futura
Que virá em morte ou vida evasiva. Virá!


Sou quem procura ouvidos
Mas minhas ideias são tolas e não atraem nem a mim
Atrai quase ninguém
Mas se atrai alguém
pode ser o motivo primordial de existir

Como poucos se dão à arte da escrita
Faço parte de uma minoria
Sou bicho exótico do cerrado, talvez

Por que alguém simularia a própria morte defronte ao motel?
Mais uma pergunta sem por quê
Estão ali, os dois
Nada encantado e aquele que respira

Eu, que parado sou peixe de olhos abertos na terra
Procuro-me em duas pessoas que não têm existência nem sabem de mim (será?)



Devo dizer:
apesar de prolixo, não estou bêbado

Não sei o porquê de escrever
nem a razão da existência imaginária de um motel e duas pessoas defronte
Ora encantada, ora não... ora vivo, ora morto
melhor seria me calar
porque se há poucos que me leem
não devo torturá-los com meu vazio

cuidado poeta, a noite cai!


Cuidado poeta, a noite cai!


Defenda-se impetuosamente da noite:
Calvino deve permanecer aberto
perto da Tabacaria
pois o cavaleiro se materializa fumando charuto
quando menos se espera
passa Taverna adentro
e come, carne e osso
a dona da pensão

Ahhhh...
e não é Macário
nem mesmo o Diabo
mas meu velho cavaleiro inexistente
(Cervantes morreria de inveja!)


Salve o que escreveu
encante sua Alice para que ela não fuja num pesadelo
e, ainda
não confie na criatividade dos sonhos
nem sempre somos abençoados



A noite sucumbe qualquer ser, orvalho enxuto sem por que!

quinta-feira, 8 de julho de 2010

antigos rituais

À procura de rituais para não mergulhar no nada
Não quero dormir para não ser incosciência de sono, às vezes sem sonho
Talvez militância seja uma barreira à fragmentação
como a adega do avô que não tive

Há muito louvo o poder dionisíaco
mas confesso
amo só o que me faz acordado

Xadrez entorpecido é a simulação do comunismo!
mantenho-me vivo e sou peões e marx e torres e engels
no meu tabuleiro não há lugar para bispos
Amai ao xadrez
pois dele é a luta e o amor
(profecia popular: todos peões serão coroados!)
Mas não se esqueça do álcool das greves

álcool e xadrez e militância e mulher
minha resistência ao fracasso
um passo rumo à completude, minha resistência ao caos



À pós-modernidade
valho-me de antigos rituais

entre insônia e pensamentos


Hoje quero tudo que tenho
(um quarto repleto de insônia e pensamentos)


Minha sorte continua em livros velhos de sebo fechado
Ou em livraria burguesa que se compra sem pagar

Barbas crescem entre contas delirantes
mas é Beethoven que maldiz o sono
enquanto transo comigo

Não era dia de poemas
nem lua cheia ou álcool
mas ao som do vento
(não descarto a fumaça do cigarro que não fumo)
os versos nasceram entre dedos dormentes

Até greve de sexo é pintura infantil
Sete meses não passam de um dia

Não
definitivamente não sou poeta!
a brisa torpe não me convenceu

Sei que Ipanema voltou
Alice apareceu
e meu deserto
hoje
não cabe num poema!



A Fernanda que me ensina a viver!

domingo, 4 de julho de 2010

i'm just a new boy

Prostrado
o quarto ouvia o gotejar incessante
(é só um banheiro repetitivo...)

Drummond desata num só momento, instante
e a revelação do ontem é o meu agora



sem nenhum pudor
ponho-me a sentir a cama

dois olhos fundos
cravam em minhas entranhas

Sem direção
lábios entrelaçam gemendo o sabor vivo do sexo
(conversa de pássaros!)
são lábios pulsantes à espera do gozo

...
...
...

Today
I'm a young lust
with my sweet-dirty woman

segunda-feira, 21 de junho de 2010

A morte solitária dos cabelos caramelos


Viver é morrer só
em casarão de lua cheia

Penso como romance não escrito
com cheiro de poema-penumbra
em Pirenópolis ou Ouro Preto

Um sonho não sonhado!
Reminiscências de pesadelos passados
lembranças da estrada perdida


Vivo hoje meu amanhã
sentimentos mortos em ditaduras de agora


grito como criança sem sono
fabiano de graciliano
e nenhum amor forçado
de caetano a leoni
me faz conduzir um andor!

segunda-feira, 14 de junho de 2010

dane-se


recrio crenças
faço do concreto
minha utopia presente

encontrei vestido longo
vestido de pele morena
e cabelos dispersos
de cuja tarde ouvi:
"educo para a revolução!"

um laço revolucionário desfez
em cólicas de oprimidos
eram olhos banhados em águas de mina (divina!)


insensato sou
diante da luta
(mas me atrevo a participar!)
e regresso ao meu quarto de quatro anos
com a velha timidez
porque sem álcool sou fóssil de anos

hoje voltei
mas disse "dane-se!" à loucura
e não emudeci

só, sou vinho de hoje
uvas podres sem fermentação

tinto, sou todos
pintado pelo sangue da classe
protestos que jamais serão em vão

domingo, 30 de maio de 2010

Ipanema voltou


Ontem não via mais que um dedo deslocolado do corpo
meus olhos de areia não contemplavam a feição dos docentes

E diziam que era impossível ver o rosto de ipanema
diziam que ainda não era hora

Mas falaram em greve e cortaram meus cabelos encaracolados
(Sem cabelos aos olhos... vi lábios torneados!)
e a greve, menina que passa
passa massacrando partidos políticos
a greve, mulher que passa
passa pisando em pés de sindicatos dormentes


E cheia de graça
esbraveja o justo grito
"O piso é pouco!"

É a marcha proletária contÍnua
1848 em pleno século XXI



Brilha não só o rosto da menina greve
reluz a pele de sol
garganta calejada
pernas grossas e bolhas aos pés
(Já não estamos sós, Jobim)

Hoje a greve é toda ipanema
(perfeita!)
perfeita no mundo material
porque o corpo dourado
é luta de sol a sol



À mesa
com brecht e Maiakovsk
não deixaremos Ipanema partir!


Esse poema faz referência à vitoriosa greve dos trabalhadores da educação iniciada no dia 20 de maio de 2010 em Goiânia-GO.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Sábado de fazenda

hoje estou vestido de sexta
abro minhas pastas
para saber que as camas não foram feitas

deixo a porta aberta (sem razão alguma)
deitado na cadeira que permite apenas o sentar
engato sexta
e sou café em almoço

hoje é sexta-feira
e, ironicamente, estou de sesta
o xadrez pula à tela
meus adversários são queridos amigos de sangue
e a casa cheira daniel de foto e (são olhos negros de ouro!)
e digo: a sala é toda minha infância, digo

sou hoje um contista
quase um romance
resolvi paralisar meu momento de poltrona
para sonhar entorpecido

hoje as drogas são segunda
segundo ou último plano
e minha sexta já é toda sábado de fazenda

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Jesus sorriu

Verdade falsea qualquer verdade nua
Mergulhada num passado obsoleto

Meu coração é circunferência perfeita
360 homéridas estão inscritos em mim
Mas não há gene de graus
E nenhum discípulo
Declara meu nome em vão

Eu, Aquiles, não choro!
Meus passos estremessem grécia
Moderna, antiga
De ouro ou deuses

Sou Aquiles e Héracles
E me nasceram Jesus
Filho de Zeus (javé se quiser)

Mãe não é promíscua
(não pode ser!)
Só desposa Zeus
E ama um safado dito santo

Aquiles da galileia
Sou Jesus da Jônia
Héracles de Maria e José

Minha Ilíada não tem homéridas
E Paulo foi expulso da bíblia


Sou Zeus
Pai
Filho
E meu espírito
Pode santificar sua mãe

Mas não me faça rir
Com redenção de humildes

Aquiles entra em transe
Quando Jesus e Héracles
Salvam tolos do paraíso

volto pound

história é sangue
num corpus circular
dados passos largos
às vezes
curtos
vou

e volto
sempre diferente
sou néctar carregado
de flores diversas

Não passo de um masaico sem cor
de versos alexandrinos
voo

mas quando desço
minha caminhada é corpo poundiano

sábado, 24 de abril de 2010

de cabelos caramelos

não quero chocolate!
sou belo o bastante
e tenho cabelos caramelos

Morrer é viver só
num sábado de fazenda

penso epopeia
não cheiro poemas
sou o outrora
(degustei todo caramelo!)

Meu amor foi um pequino amor meu
reminiscências de vidas
instantes passados


Canto como criança com sono
fabiano de graciliano
e qualquer amor forçado
de caetano a leoni
me faz conduzir um andor!

segunda-feira, 19 de abril de 2010

veiga, gonçalves e edgar

minha terra não é plantiplanto
nem tem sabiá
os gatos que aqui me assustam
são pretos como os de edgar

poética de tolo

poética de tolo


nietzdamente via agora
vou derretindo o devir

pré-homérico é mourão que separa mar
e não há nada mais antigo
que susana em elegia de cárcere

não só!

fosse helena ou alice
por homero, gerardo ou alencar
seria todo de mello
e ao mourão que separa uma invenção
dançaríamos joyce e eu

meu palimpsesto é mais uma poética idiota!


estático
completo
fechado
sou que não nasci

espaço de romance é memória não escrita
e lírica continua em guardanapo amassado

o que antes
epos
derrama no devir

lençol de sexo

a cama sente sexo
a tarde fosse mesmo azul, drummond
não fosse o pôr do sábado

lençol embriagado nos seus embaraços
hoje
sou só calor e lembranças

cresço entre os gemidos dos velhos
enquando vendem a casa
voo em deleites de outrora!

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Subway das calaças goianas

Subway das calaças goianas


Minha preocupação é mãe de Thaís enlouquecida

Ainda criança

Sonho adulto conversando patos

Meu sono vive plantiplanto



Sonho criança crescida e barriguda gritando papai

Mamãe lendo Alice e rindo Chaves

Mamãe é Alice e dedo e fechadura

O dia de semana tem gritos à noite



Meninice é bananeira gigante ou pé de feijão mágico

E racional é lirismo sem dor

Tomemos a fórmula dum anão

Pra ir blues em calçadas goianas

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Mito, não contaram tudo

Mito, não contaram tudo


Disseram frio

Leve agasalho (mas não falaram tudo!)

Vinho e frio e pamonha e churrasco e bolo quente e monte e gente


Vinho, frio, pamonha, bolo quente, monte, gente


Vinho

Frio

Monte

Gente

Quente


Vinho frio e gente quente


minto, já sabia o que aconteceria!

Produção coletiva: Luciana, Rodrigo, Marcos

domingo, 4 de abril de 2010

Ouriço!

Ouriço!
Mas minha casca é fina, quebra facilmente

Não sei se era pirâmide
Ou Faraó ou Egito
O oriente é matéria que não sente dor

Daqui
Tenho pele e amor e sofrimento

Sou casca fina
Pó dilacerado se quiser

Seu sorriso vem irônico
Mesmo sabendo que do outro lado
Fora da pirâmide
Dentro da pirâmide
Há matéria que faz mortal se apaixonar

sábado, 3 de abril de 2010

Sábado sem álcool

Não há como brincar de garrafeiro – Sumiram minha adega
E os amores solaram o tempo
Todos se desmancharam em copos passados

Meus braços não querem o mundo em pedaços
Hoje a poesia é Bandolins
Trinta vezes e sou só Bandolins

Vão tirar sarro de você que brinca de simcity
Que espera a fala deles
Que procura um candidato
Uma igreja
Uma mulher



Carlos
Moderno não tem fé e não pode se comover como um diabo

quarta-feira, 31 de março de 2010

um sonho de hoje

Ao mundo de Alice
Num sonho de hoje
(Água em vinho é pouco!)
Alice dedilha na fechadura e não passa porta adentro
Dois dedos ou a mão inteira
Também tenho mão e recursos mais
Não, não entre...

Eu, pequeno príncipe nada encantado
Faço deleite o que faz de pé
Em pernas morenas faço moradas de penas de ganso
Consubstanciado e sem rainha de copas
Vamos rumo a Santo Antônio de Goiás numa quinta qualquer

segunda-feira, 29 de março de 2010

Pernas morenas

Nem o bolero de Batatinha
Ou sensibilidade de Rita

Admiro pedras e formigas e beijos de Amelie

Escrevo a carta ridícula de amor, Fernando
... Não quero pessoa ridícula

Inicio com o pedido de três anos
Mas não sei "crianças não namoram"

O travesseiro de ontem era de penas de ganso...

Meu sono foi Alice quem conduziu
Levou-me à terra sem nome
Id e Ego já eram príncipes encantados
E em fumaças as pernas e as nádegas
Embora distantes
Eram torradas distraidamente

Café?
Meu sonho que é só café sossegado em tarde de Parque Flamboyant
E quentes são pernas morenas de bicicletas
Mas foi ego que acordou sonhando id
E escreveu a primeira linha desse filho do acaso
As linhas finais não foram traçadas
Mas as fumaças em breve serão dispersas em terra distante
Sem reticências, sem por quê

Porque ontem meus pés sonharam fumaças
Talvez por isso
Hoje seja só quente com pancadas de chuvas à tarde

terça-feira, 23 de março de 2010

Terça de endoscopia

Terça-feira de oito endoscopias
(O mundo não se traduz em sentimentos!)
Talvez o furo na camada lisa do duodeno
Tenha mais sangue que cruz às costas de judeu
Seja mais forte que sofrimento latino em noite veloz

Kubrick arrasta a laranja mecânica impiedosamente
Deixando apenas o alaranjado gástrico dominical

Baleiro, profeta do inevitável!
Olho para baixo e não vejo o macho
Tesão virou barriga
Pensando passado
Não consigo distinguir se era doce ou cinza ou maçã
Mas quando ergo a cabeça
Em busca da tola esperança que conduz os mortais
Vejo apenas o véu grego em pedaços

Carrego meu corpo rumo a terça de endoscopia
E mais uma vez corro à tabacaria
Devia esquecê-la?
Pensar na impossibilidade de tabacaria no Brasil
(Clima e condições sociais)
Mas não, quero alçar voo
E só sinto o peso terrível de minha incredulidade


Terça faminta
As lembranças me povoam
Sinto apenas o gosto dos pés que não toquei
Diria que mulher se trata em correntes?

Hoje Álvares voltou a reinar
E não queimei as bruxas de salém
Nem transei com o moça da pensão
Porque meu estômago aberto
Tragou as veias de uma américa cortada


Americano e veloz
Com todas as bruxas em pensões medievais - vivas
Vejo um judeu fumando defronte à tabacaria
(a cruz judaica está escondida aos fundos!)
Projeto-me ao centro da rua
Fazendo endoscopia em tabacaria e pensão

sábado, 20 de março de 2010

Sobre uma poesia bunitinha

Sobre uma poesia bunitinha




Degusto o comentário tardio


Jamais cantaria esse agora
Não fosse a gota
À beira da queda


Mas amor não são palavras
Empalhadas e presas ao varal do tempo
À espera do vento que as leve



(Na igreja silenciosa
Sentimentos escorriam
Entre ralos lacrimejantes
Como esconde-esconde de olhares)


À placa, maranata
E eu, só
Venha minha amada

Orei ao impossível
Para ser passado
O que salivou outrora


Mas sem instintos
Boçais idealistas
Imitavam cães diariamente

-Metafísica nenhuma, proclamo!
Fé, só nos pés que calçam o chão

Perfuro a matéria esclerosada
Para resistir rugas passadas

terça-feira, 16 de março de 2010

Escrúpulos

A rotina conduz incrivelmente ao álcool
Mas é o fracasso
Que bebe o líquido amniótico
E é alcoólatra

Não tenho talento à maiêutica
E álcool parece canções celestiais

Sem escrúpulos morais
À procura do sagrado sacrilégio
Transito entre mortais
Traçando meu próprio remédio

E em alças frutíferas
Vivo à sorte poética
Acinzentando o agora

sábado, 13 de março de 2010

Kistorinha

Kistorinha

Ego acordou sonhando Id. (Narciso ama demais e não sabe espelho, espelho meu, existe alguém mais belo que eu?) Belo é super-homem! É que Ego descobriu que não era homem e viver sem querer é dizer que sabe até nadar em cacos... Acontece que os rios se multiplicam e já não são espelhos porque cacos dilaceram pé trabalhador.Foi isso! Queria ser K. Acordou e não era besouro, porque os tradutores não são besouros e nada sabem de insetos. (E não procuram espelho!). Talvez só tenha enamorado Alice sendo K. Pensando nisso, coragem faltou para se levantar. Era perigoso demais! Podia ter um porco na sala falando revolução que não há. Ou mesmo ser acusado por forças desconhecidas, forças de porcos. Mas K lembrou-se que os comedores de lavagem só falam quando ninguém os ouve e ele ouvia bem. Ouviu inclusive Gatos que estavam perdidos e caminhavam tranquilamente. Até da televisão ouviu beethoven ... Mas não deve se importar com irmãos, mesmo que grandes de 84... Lembrou-se que para ser Id tinha que se levantar e procurar Alice sem por que. Sem medo, claro. Porque perigo não é Id e ele nunca foi cego. Pensou como se pensa se não pode pensar medo. Levantou-se... Tudo escuro e Alice só rindo atrás das cortinas transparentes. Começou a rir Baco. Não, não... é só porque a rotina leva ao álcool e não se trata de caridade, imagina. Inquieto, Ego se deixou espalhar de bêbado enquanto Alice colocava sutilmente um dedo na fechadura. Repentinamente, (Id apareceu olé, olé, olá, Id apareceu olé, olé, olá)... Alice queria fugir com vários dedos na fechadura, mas chapeuzinho já tinha vestido vermelho. Não disse, é bom que sabendo que Id sempre quis ser Id mesmo, mesmo Ego sendo Ego sonhando Id, o que não é novidade. Conversar Ego? Id nunca soube falar e Ego falava até demais. Alice está rodando a maçaneta, sua besta! Id olhou de perto a fechadura e se viu lá dentro refletido. Com Ego não foi diferente. Alice, espertinha, danou-se a rir só. É que o espelho, sem nenhuma explicação, sugaria os dois... E ela, que não queria rir só, logo se viu deitada com o pequeno príncipe nalguma terra distante.


Joãozinho corria tranquilamente na terra sem nome. Não disse nada ainda de Joãozinho, nem que não sabia o que era sonhos. E os sonhos são centauros que deitam pancadas em quem se atreve a esquecê-los. Édipo, amigo fiel de Joãozinho, dizia jamais esquecer seus esquecimentos. Foi assim que Édipo comprou um caderno de anotações e iniciou sua pesquisa onírico-etnográfica.
Mas mesmo sem saber diabos dos sonhos, Joãozinho sempre quis conhecê-los. E foi numa noite veloz que correndo, saltitando, viu um torrão de açúcar que não estava queimado. Viu um torrão de açúcar! Não é susto porque ali sempre teve açúcar, mas ele fixou o olhar como visse um som. Do torrão olhou um copo e viu também um copo com café que parecia manhã. O café quente tinha fumaça que ia beijando tudo quanto havia, e não havia nenhum obstáculo. Mesmo assim a fumaça beijava inclusive João, agora João. Sua pele estremecia sem explicação e se sentia remexendo em contrações, mas não era gravidez porque na terra de João não existia dor ao menos ele não a conhecia. Era como correr uma maratona e em seguida beber um litro de caldo de cana. Parecia estar se tornando terra e água e fogo e ar. Mas como João saberia dizer se aquilo era ou não sonho? Sabia, porém, que tudo aquilo podia ser conto de fadas, sonho ou mesmo realidade. Não importava o nome que dariam àquilo que é sem nome. Mas Édipo era pesquisador e logo apareceu correndo sonhos. Viu? Ele apareceu sem olé, olé, olá, mas apareceu gritando sonhos onde havia açúcar e copo e café e fumaça. Mania edipiana é andar com lupas sem enxergar. Édipo correu chegando com lupas e enxergando. Perguntou logo aonde os sonhos iam e, antes de ouvir resposta, saiu em desparada, desesperadamente rumo à mata fechada. Os gatos que cantarolavam distraidamente o acompanharam sem demora. É por isso que pessoas tristes fazem cafuné em gatos, João falou sem pronunciar palavra alguma. Édipo estava com os gatos por entre as árvores, mas não é legal falar dos outros quando não estão presentes. Por isso não deixemos segredo. Ele voltou correndo, mas os gatos continuaram fechados na mata. É que Édipo, agora era Edipocego em sangue e pintara todas as folhas das árvores, verdes até então. Dispenso a parte do sofrimento edipiano porque Aristóteles diria feio e Horário daria risadas amarelas contando futilidades a Pisões. Não se pode dizer que quando Edipocego chegou estava gritando, chorando?... Que pedia alegria e até se esqueceu dos sonhos... Que João sentou-se para observar lamentações de um pesquisador. Não é bom contar que João falou sem dizer que gostaria muito de escrever um livro relatando o sofrimento de Edipocego (Aristóteles não ouviu!). Na terra sem nome, não haveria suicídio em massa! Sentado e tomando café com fumaça, João que já foi Joãozinho pensava quente fumaça voadora. Voava também. Mas foi aí que os gatos correvoando chegaram gritando: tem gente na floresta! Édipo já tinha entendido que deveria passar os últimos dias mata a fora e convidou João a pisar mata adentro. Os primeiros passos dados já não havia açúcar e copo e café e fumaça. Quer dizer, é bem provável que a fumaça estivesse beijando pés e coxas e rostos em plena relva. Por que as bocas não? Já disse anta, alguns não gostam disso! Nada importava a João muito menos a Edipocego quando de passo em passo foram mata adentro. Ouviram coisas que não viam tilintar... Tudo tilintava! Mais passos curtos para árvores longas. Ouviam que viam coisas... É, tinha mais alguém ali. Apesar de ser pavorosa a conclusão, aproximaram de onde fugia alguma fumaça. Era fogo ardente! Por entre árvores mal plantadas, Edipocego já tinha perdido o caderno de anotações e João só ria. Ninguém queria ver João só rindo e como os gatos adoram cafuné, cada um passou unhas em caldas alheias e começaram a sorrir. Edipocego incrivelmente sorria também! Não é preciso dizer que as caldas dos gatos levantam quando sentem cosquinhas e que se arrepiam completamente. Pararam, mas não de sorrir. Os estranhos estavam ali, do outro lado da árvore e pareciam embriagados. Os sorrisos beijavam a fumaça do fogo que vinha de algum lugar do outro lado da vegetação, apenas o verde os separavam dos desconhecidos...

Alice não era grande nem pequena nem média. Id e Ego juntos chegavam à cintura dela, por isso conhecidos como Pequeno Príncipe. Mas estranho é que quando Ego tornou-se Id e Id continuou sendo ele mesmo, Alice percebeu que estava do tamanho do pareceiro, agora uno, Príncipe. Deitados em folhas, era possível apenas ouvir estalos secos. E os gados contemplavam a cena sem seque mugir. A mata virgem deixou de procurar a asa branca porque não a queria perder um piscar de olhos e a chuva se fechou sobre o casal. Incialmente três, depois dois e com uma lupa diriam sere um. Alice e o Príncipe. Copos cheios ao lado e corvos observando-os atentamente. Em contos futuros um corvo metamorfoseou numa coruja e disse que Alice e seu parceiro estavam se afundando chão adentro, acredita? João e seus companheiros que sorriam juntos viam alguém de beleza plástica: era sereia, mas não parecia peixe nem mulher... Alice! João pensava Alice sem saber nome. Os Gatos pensavam lamber sem leite à vista e Edipocego só ouvia relatos silenciosos. Alice e Príncepe estavam fervendo em fumaças, logo perceberam que pessoas os observam e queriam enfumaçar também. Não se intimidaram, porém! E Príncipe continuava fazendo Alice Maria Fumaça. Era fumaça, completamente. Havia sorrisos no chão separando copos quentes. João e os Gatos perceberam que em cada copo havia os nomes deles. Para os Gatos tinha apenas um copo repleto de vida vermelha e para João e Edipocego outro copo, ambos quentes e estridentes. Todos tomaram o conteúdo e se transformaram em forma disforme, sem sul nem norte nem leste nem oeste. Parecia geléia, um adeus que não se vai! Mas Alice, que não era boba, também bebeu seu conteúdo e ficou ainda mais disforme. Príncipe já estava quente e não tinha nome. Todos em si e em todos, todos id, agora sem nomes, tornaram-se fumaças e desceram rumo ao interior da terra que já era aberta há tempos. E agora só fumaças dispersadas à terra que já era sem nome...

segunda-feira, 8 de março de 2010

Quente que fumaça

Meu olhos não excluem metafísica nenhuma
E mesmo com a tabacaria fechada
Tomo chocolate

Meu ódio é só amai ao próximo
Como a ti mesmo!

Desse amor as árvores caem
E explode uma bomba no Iraque

Contaram que os corvos
Querem chocolate frio em canecas quadradas

E eu talvez nem queira que Cuba volte ao mapa
Ou que o Afeganistão perca o véu americano

Mas confesso
Que cigarro
Preso à boca de mulher aristocrática
Me excita profudíssimamente

Não, não é o cigarro
Nem o cigarro preso à boca
Nem mulher aristocrática
Mas a fumaça que é chocolate quente e café
Porque sobe beijando tudo quanto há
Faz teto, amante
E atravessa amando
Gessos, portas e janelas


Não digo que é azul aquilo que não tem cor


Mas vou azul
Quando sei quente
Quente fumaça que fumaça
Fumaça

quinta-feira, 4 de março de 2010

poesia bunitinha

Num dia desses
Pediram uma poesia
Poesia miudinha
(bunitinha!)
Que falasse de amor

Mas não sei falar amor
Aprendi a ouvir
E já até o vi
Bem longe
Em lábios de outrora


Versos se colhe cinza entre gravetos
E é tirania impor ao pai
Gravidez de amor

quarta-feira, 3 de março de 2010

Em fumaças

Enfurnei em mim
E em mim é profundo
Mas não poço fundo que impeça o salto

Sabor invade narinas que é escola
Corpos nus me fazem lembranças
Lágrimas e zombarias
Mas era atrás dos muros
Que intrigas não faziam ouvidos
E os corpos atraídos
Tocavam lábios dispersos


Marcela
Ou Carla
Ou Lorena
Crianças não namoram (só choram?)

A igreja Suzana
O diabo tem nome sacro
Mora aos fundos e em banheiros
(banheiros infernais?)

Febres varginais
Cruzavam pernas sem cuidados
Traduzidas em ínfimas carícias
Despercebidas ao culto profético

Tinto suave?
(Porque quando não há doce
Suave torna o dia pudoroso
Obrigatoriamente!)

Corri, chorei, bebi
E só agora, percebo
Transas enfumaçadas de mim

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Rio em sal

Rio em sal

Acordei com dois pulmões cheios
Sem grito e engasgado
(Velha tosse seca heptassilábica!)

Aquele rio revolto
Desaguou silenciosamente

Dois meses
E dois limões
E nada
Cresceu o mar morto



Ao meu lado, porém
O velho amâncio – eterno estudante
Petiscos e levedo, consolo

Queria dizer adeus
É que as águas turvas
Aparentemente doces sem gameleiras
Salgaram meus últimos instantes


Ao grande mestre Ailton

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Ao verde vai

Preto come
Preta branco leite dá

Preto bebe
Leite branco é
Preto ao leite vai

Índio ferro foge
Ao verde índio vai
Índio ao verde vai

Branco mole faz
Ferro branco dá
Ferro manda dá

Ferro quebra ferro
Preto ferro é
Ferro preto é

Vai
Vai
Vai, ao verde vai (bis)

Cavala amarelo
Elo índio é
Índio verde é (Ao verde índio vai)

Vai
Vai
Vai, ao verde vai (bis)

Baco preto somos
Verde amarelo é
Verde amarelo é

Vai
Vai
Vai, ao verde vai

Ao verde vai

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

sonambulando

Sonambulo
Pisando cacos modernos

Pu

Ta

Ria de mim

E disseram que era apenas metal


Em gemidos constantes
Os cálices tilintam
Sem dizer nome algum

Mas não pense
Ana
E não espere
Mamãe
De quem louva só o tinto ao lado
(Mesmo diante da queda?)

Porque o copo
Cai
Que
bra

...

Entre colchões e amarras
Não darei presente
Esse inútil instante
Apenas tirarei o laço
Das lembranças
P e d a ç o s

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Goyazes de agora

Grita calúnia
Ama generalização
Afirma com certeza

Da polícia faz o estremecer
D’alma o nada
Do ser uma vítima
Da política o furor

Nesse ar de desgraça
Renasce cristo
E à cruz o levam novamente
Em carniça e ódio
Os goyazes de agora

Fontes de loucos

A Carlos Nejar

Fontes aos loucos

É preciso estar em si
Para de si
Brotar água

Preciso é que fora de si
Nos montes de Zaratustra
Construa a ponte

E d'água incessante
Da ponte em curso
Seja feita a própria vontade

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Inseticida

Abre-se lírica
Curva-se épica
Pétulas
Palavras abatem insetos
Insetos Jargão
E o trágico se ergue
inevitavelmente
Ao findar dos versos