quarta-feira, 31 de março de 2010

um sonho de hoje

Ao mundo de Alice
Num sonho de hoje
(Água em vinho é pouco!)
Alice dedilha na fechadura e não passa porta adentro
Dois dedos ou a mão inteira
Também tenho mão e recursos mais
Não, não entre...

Eu, pequeno príncipe nada encantado
Faço deleite o que faz de pé
Em pernas morenas faço moradas de penas de ganso
Consubstanciado e sem rainha de copas
Vamos rumo a Santo Antônio de Goiás numa quinta qualquer

segunda-feira, 29 de março de 2010

Pernas morenas

Nem o bolero de Batatinha
Ou sensibilidade de Rita

Admiro pedras e formigas e beijos de Amelie

Escrevo a carta ridícula de amor, Fernando
... Não quero pessoa ridícula

Inicio com o pedido de três anos
Mas não sei "crianças não namoram"

O travesseiro de ontem era de penas de ganso...

Meu sono foi Alice quem conduziu
Levou-me à terra sem nome
Id e Ego já eram príncipes encantados
E em fumaças as pernas e as nádegas
Embora distantes
Eram torradas distraidamente

Café?
Meu sonho que é só café sossegado em tarde de Parque Flamboyant
E quentes são pernas morenas de bicicletas
Mas foi ego que acordou sonhando id
E escreveu a primeira linha desse filho do acaso
As linhas finais não foram traçadas
Mas as fumaças em breve serão dispersas em terra distante
Sem reticências, sem por quê

Porque ontem meus pés sonharam fumaças
Talvez por isso
Hoje seja só quente com pancadas de chuvas à tarde

terça-feira, 23 de março de 2010

Terça de endoscopia

Terça-feira de oito endoscopias
(O mundo não se traduz em sentimentos!)
Talvez o furo na camada lisa do duodeno
Tenha mais sangue que cruz às costas de judeu
Seja mais forte que sofrimento latino em noite veloz

Kubrick arrasta a laranja mecânica impiedosamente
Deixando apenas o alaranjado gástrico dominical

Baleiro, profeta do inevitável!
Olho para baixo e não vejo o macho
Tesão virou barriga
Pensando passado
Não consigo distinguir se era doce ou cinza ou maçã
Mas quando ergo a cabeça
Em busca da tola esperança que conduz os mortais
Vejo apenas o véu grego em pedaços

Carrego meu corpo rumo a terça de endoscopia
E mais uma vez corro à tabacaria
Devia esquecê-la?
Pensar na impossibilidade de tabacaria no Brasil
(Clima e condições sociais)
Mas não, quero alçar voo
E só sinto o peso terrível de minha incredulidade


Terça faminta
As lembranças me povoam
Sinto apenas o gosto dos pés que não toquei
Diria que mulher se trata em correntes?

Hoje Álvares voltou a reinar
E não queimei as bruxas de salém
Nem transei com o moça da pensão
Porque meu estômago aberto
Tragou as veias de uma américa cortada


Americano e veloz
Com todas as bruxas em pensões medievais - vivas
Vejo um judeu fumando defronte à tabacaria
(a cruz judaica está escondida aos fundos!)
Projeto-me ao centro da rua
Fazendo endoscopia em tabacaria e pensão

sábado, 20 de março de 2010

Sobre uma poesia bunitinha

Sobre uma poesia bunitinha




Degusto o comentário tardio


Jamais cantaria esse agora
Não fosse a gota
À beira da queda


Mas amor não são palavras
Empalhadas e presas ao varal do tempo
À espera do vento que as leve



(Na igreja silenciosa
Sentimentos escorriam
Entre ralos lacrimejantes
Como esconde-esconde de olhares)


À placa, maranata
E eu, só
Venha minha amada

Orei ao impossível
Para ser passado
O que salivou outrora


Mas sem instintos
Boçais idealistas
Imitavam cães diariamente

-Metafísica nenhuma, proclamo!
Fé, só nos pés que calçam o chão

Perfuro a matéria esclerosada
Para resistir rugas passadas

terça-feira, 16 de março de 2010

Escrúpulos

A rotina conduz incrivelmente ao álcool
Mas é o fracasso
Que bebe o líquido amniótico
E é alcoólatra

Não tenho talento à maiêutica
E álcool parece canções celestiais

Sem escrúpulos morais
À procura do sagrado sacrilégio
Transito entre mortais
Traçando meu próprio remédio

E em alças frutíferas
Vivo à sorte poética
Acinzentando o agora

sábado, 13 de março de 2010

Kistorinha

Kistorinha

Ego acordou sonhando Id. (Narciso ama demais e não sabe espelho, espelho meu, existe alguém mais belo que eu?) Belo é super-homem! É que Ego descobriu que não era homem e viver sem querer é dizer que sabe até nadar em cacos... Acontece que os rios se multiplicam e já não são espelhos porque cacos dilaceram pé trabalhador.Foi isso! Queria ser K. Acordou e não era besouro, porque os tradutores não são besouros e nada sabem de insetos. (E não procuram espelho!). Talvez só tenha enamorado Alice sendo K. Pensando nisso, coragem faltou para se levantar. Era perigoso demais! Podia ter um porco na sala falando revolução que não há. Ou mesmo ser acusado por forças desconhecidas, forças de porcos. Mas K lembrou-se que os comedores de lavagem só falam quando ninguém os ouve e ele ouvia bem. Ouviu inclusive Gatos que estavam perdidos e caminhavam tranquilamente. Até da televisão ouviu beethoven ... Mas não deve se importar com irmãos, mesmo que grandes de 84... Lembrou-se que para ser Id tinha que se levantar e procurar Alice sem por que. Sem medo, claro. Porque perigo não é Id e ele nunca foi cego. Pensou como se pensa se não pode pensar medo. Levantou-se... Tudo escuro e Alice só rindo atrás das cortinas transparentes. Começou a rir Baco. Não, não... é só porque a rotina leva ao álcool e não se trata de caridade, imagina. Inquieto, Ego se deixou espalhar de bêbado enquanto Alice colocava sutilmente um dedo na fechadura. Repentinamente, (Id apareceu olé, olé, olá, Id apareceu olé, olé, olá)... Alice queria fugir com vários dedos na fechadura, mas chapeuzinho já tinha vestido vermelho. Não disse, é bom que sabendo que Id sempre quis ser Id mesmo, mesmo Ego sendo Ego sonhando Id, o que não é novidade. Conversar Ego? Id nunca soube falar e Ego falava até demais. Alice está rodando a maçaneta, sua besta! Id olhou de perto a fechadura e se viu lá dentro refletido. Com Ego não foi diferente. Alice, espertinha, danou-se a rir só. É que o espelho, sem nenhuma explicação, sugaria os dois... E ela, que não queria rir só, logo se viu deitada com o pequeno príncipe nalguma terra distante.


Joãozinho corria tranquilamente na terra sem nome. Não disse nada ainda de Joãozinho, nem que não sabia o que era sonhos. E os sonhos são centauros que deitam pancadas em quem se atreve a esquecê-los. Édipo, amigo fiel de Joãozinho, dizia jamais esquecer seus esquecimentos. Foi assim que Édipo comprou um caderno de anotações e iniciou sua pesquisa onírico-etnográfica.
Mas mesmo sem saber diabos dos sonhos, Joãozinho sempre quis conhecê-los. E foi numa noite veloz que correndo, saltitando, viu um torrão de açúcar que não estava queimado. Viu um torrão de açúcar! Não é susto porque ali sempre teve açúcar, mas ele fixou o olhar como visse um som. Do torrão olhou um copo e viu também um copo com café que parecia manhã. O café quente tinha fumaça que ia beijando tudo quanto havia, e não havia nenhum obstáculo. Mesmo assim a fumaça beijava inclusive João, agora João. Sua pele estremecia sem explicação e se sentia remexendo em contrações, mas não era gravidez porque na terra de João não existia dor ao menos ele não a conhecia. Era como correr uma maratona e em seguida beber um litro de caldo de cana. Parecia estar se tornando terra e água e fogo e ar. Mas como João saberia dizer se aquilo era ou não sonho? Sabia, porém, que tudo aquilo podia ser conto de fadas, sonho ou mesmo realidade. Não importava o nome que dariam àquilo que é sem nome. Mas Édipo era pesquisador e logo apareceu correndo sonhos. Viu? Ele apareceu sem olé, olé, olá, mas apareceu gritando sonhos onde havia açúcar e copo e café e fumaça. Mania edipiana é andar com lupas sem enxergar. Édipo correu chegando com lupas e enxergando. Perguntou logo aonde os sonhos iam e, antes de ouvir resposta, saiu em desparada, desesperadamente rumo à mata fechada. Os gatos que cantarolavam distraidamente o acompanharam sem demora. É por isso que pessoas tristes fazem cafuné em gatos, João falou sem pronunciar palavra alguma. Édipo estava com os gatos por entre as árvores, mas não é legal falar dos outros quando não estão presentes. Por isso não deixemos segredo. Ele voltou correndo, mas os gatos continuaram fechados na mata. É que Édipo, agora era Edipocego em sangue e pintara todas as folhas das árvores, verdes até então. Dispenso a parte do sofrimento edipiano porque Aristóteles diria feio e Horário daria risadas amarelas contando futilidades a Pisões. Não se pode dizer que quando Edipocego chegou estava gritando, chorando?... Que pedia alegria e até se esqueceu dos sonhos... Que João sentou-se para observar lamentações de um pesquisador. Não é bom contar que João falou sem dizer que gostaria muito de escrever um livro relatando o sofrimento de Edipocego (Aristóteles não ouviu!). Na terra sem nome, não haveria suicídio em massa! Sentado e tomando café com fumaça, João que já foi Joãozinho pensava quente fumaça voadora. Voava também. Mas foi aí que os gatos correvoando chegaram gritando: tem gente na floresta! Édipo já tinha entendido que deveria passar os últimos dias mata a fora e convidou João a pisar mata adentro. Os primeiros passos dados já não havia açúcar e copo e café e fumaça. Quer dizer, é bem provável que a fumaça estivesse beijando pés e coxas e rostos em plena relva. Por que as bocas não? Já disse anta, alguns não gostam disso! Nada importava a João muito menos a Edipocego quando de passo em passo foram mata adentro. Ouviram coisas que não viam tilintar... Tudo tilintava! Mais passos curtos para árvores longas. Ouviam que viam coisas... É, tinha mais alguém ali. Apesar de ser pavorosa a conclusão, aproximaram de onde fugia alguma fumaça. Era fogo ardente! Por entre árvores mal plantadas, Edipocego já tinha perdido o caderno de anotações e João só ria. Ninguém queria ver João só rindo e como os gatos adoram cafuné, cada um passou unhas em caldas alheias e começaram a sorrir. Edipocego incrivelmente sorria também! Não é preciso dizer que as caldas dos gatos levantam quando sentem cosquinhas e que se arrepiam completamente. Pararam, mas não de sorrir. Os estranhos estavam ali, do outro lado da árvore e pareciam embriagados. Os sorrisos beijavam a fumaça do fogo que vinha de algum lugar do outro lado da vegetação, apenas o verde os separavam dos desconhecidos...

Alice não era grande nem pequena nem média. Id e Ego juntos chegavam à cintura dela, por isso conhecidos como Pequeno Príncipe. Mas estranho é que quando Ego tornou-se Id e Id continuou sendo ele mesmo, Alice percebeu que estava do tamanho do pareceiro, agora uno, Príncipe. Deitados em folhas, era possível apenas ouvir estalos secos. E os gados contemplavam a cena sem seque mugir. A mata virgem deixou de procurar a asa branca porque não a queria perder um piscar de olhos e a chuva se fechou sobre o casal. Incialmente três, depois dois e com uma lupa diriam sere um. Alice e o Príncipe. Copos cheios ao lado e corvos observando-os atentamente. Em contos futuros um corvo metamorfoseou numa coruja e disse que Alice e seu parceiro estavam se afundando chão adentro, acredita? João e seus companheiros que sorriam juntos viam alguém de beleza plástica: era sereia, mas não parecia peixe nem mulher... Alice! João pensava Alice sem saber nome. Os Gatos pensavam lamber sem leite à vista e Edipocego só ouvia relatos silenciosos. Alice e Príncepe estavam fervendo em fumaças, logo perceberam que pessoas os observam e queriam enfumaçar também. Não se intimidaram, porém! E Príncipe continuava fazendo Alice Maria Fumaça. Era fumaça, completamente. Havia sorrisos no chão separando copos quentes. João e os Gatos perceberam que em cada copo havia os nomes deles. Para os Gatos tinha apenas um copo repleto de vida vermelha e para João e Edipocego outro copo, ambos quentes e estridentes. Todos tomaram o conteúdo e se transformaram em forma disforme, sem sul nem norte nem leste nem oeste. Parecia geléia, um adeus que não se vai! Mas Alice, que não era boba, também bebeu seu conteúdo e ficou ainda mais disforme. Príncipe já estava quente e não tinha nome. Todos em si e em todos, todos id, agora sem nomes, tornaram-se fumaças e desceram rumo ao interior da terra que já era aberta há tempos. E agora só fumaças dispersadas à terra que já era sem nome...

segunda-feira, 8 de março de 2010

Quente que fumaça

Meu olhos não excluem metafísica nenhuma
E mesmo com a tabacaria fechada
Tomo chocolate

Meu ódio é só amai ao próximo
Como a ti mesmo!

Desse amor as árvores caem
E explode uma bomba no Iraque

Contaram que os corvos
Querem chocolate frio em canecas quadradas

E eu talvez nem queira que Cuba volte ao mapa
Ou que o Afeganistão perca o véu americano

Mas confesso
Que cigarro
Preso à boca de mulher aristocrática
Me excita profudíssimamente

Não, não é o cigarro
Nem o cigarro preso à boca
Nem mulher aristocrática
Mas a fumaça que é chocolate quente e café
Porque sobe beijando tudo quanto há
Faz teto, amante
E atravessa amando
Gessos, portas e janelas


Não digo que é azul aquilo que não tem cor


Mas vou azul
Quando sei quente
Quente fumaça que fumaça
Fumaça

quinta-feira, 4 de março de 2010

poesia bunitinha

Num dia desses
Pediram uma poesia
Poesia miudinha
(bunitinha!)
Que falasse de amor

Mas não sei falar amor
Aprendi a ouvir
E já até o vi
Bem longe
Em lábios de outrora


Versos se colhe cinza entre gravetos
E é tirania impor ao pai
Gravidez de amor

quarta-feira, 3 de março de 2010

Em fumaças

Enfurnei em mim
E em mim é profundo
Mas não poço fundo que impeça o salto

Sabor invade narinas que é escola
Corpos nus me fazem lembranças
Lágrimas e zombarias
Mas era atrás dos muros
Que intrigas não faziam ouvidos
E os corpos atraídos
Tocavam lábios dispersos


Marcela
Ou Carla
Ou Lorena
Crianças não namoram (só choram?)

A igreja Suzana
O diabo tem nome sacro
Mora aos fundos e em banheiros
(banheiros infernais?)

Febres varginais
Cruzavam pernas sem cuidados
Traduzidas em ínfimas carícias
Despercebidas ao culto profético

Tinto suave?
(Porque quando não há doce
Suave torna o dia pudoroso
Obrigatoriamente!)

Corri, chorei, bebi
E só agora, percebo
Transas enfumaçadas de mim