quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Terra vazia

Os jornais estão sangrando... as pessoas, desconcertadas, vagam incansavelmente por lugares incertos. E eu, olhar meu, olhar incestuoso frustrado, não consegue distinguir as cenas que passam com tanta rapidez, são retinas deslocadas.

Sentado, sou introspecção... apenas os jornais me ligam ao mundo exterior. Parece mesmo que preciso de sangue alheio para sentir o coração batendo. As mortes no Rio de Janeiro não me fazem chorar, muito menos me causam arrepios, mas me dão a terrível sensação de existência. É, minha subjetividade aprendeu a ler desgraças, o que antes era apenas exótico já tornou-se essencial. Mas o jornal me liga a mim. Essa corrida veloz faz qualquer piloto tentar olhar à arquibancada.

Abri o jornal e trouxe a xícara de café para mais perto. Meus olhos pulam nas Coréias e sinto-me em São Paulo de guerra. As torturas policias "Ministério Público investiga possíveis casos..." são mais indícios da minha existência. Encontro-me perdido, mas o sofrimento alheio me conforta! Percebo que procuro me matar todos os dias com as notícias. Matar e ressucitar-me numa xícara de chá ou café. Percebo que minha vida está diretamente ligada às mortes, à minha morte principalmente. Se desaparecessem os jornais!... hipótese suicida, não sou imortal ainda. Meus olhos continuam procurando sangue (as notícias de ontem estão pobres!...). Desencontro-me e continuo perdido!

O café é o esquecimento da minh'alma! Enquanto morro nas notícias sangrentas (talvez só aí eu exista de fato), desloco-me à terra solitária de mim num gole de bebida. Vou-me e, às vezes, voo de mim. Talvez a verdadeira morte esteja no esquecimento (ou seria o contrário?). Talvez só esteja verdadeiramente vivo quando pressinto a morte... (e morro ao esquecer de mim?)

-Devaneios são sempre confusos e os lapsos são comuns...

Continuo sentado solitariamente. Mesmo diante da inscrição "Sala dos professores", continuo repensando sobre meus jornais. Meu pensamento é um mosaico de sangue! A vida só existe quando há notícias trágicas o suficiente para fazer o sangue circular. O que é morte se faz vida em mim. Sou um jornal de mortes e vidas... ontem era um menino que sonhava ser mestre em capoeira, mas fui interrompido por uma bala policial e morri nos braços do pai. Sou o Rio e a Coréia, de janeiro a janeiro, de norte a sul.

Afasto a xícara de café com violência o que a faz cair e manchar o chão. Alguém entra na sala e soa o sinal anunciando mais uma aula. A vida é queda, mas logo vem alguém apertar o sinal... queria ter agora minha xícara de café para soar meu sinal de esquecimento. Preciso do artifício da morte (jornais de sangue) para ter existência, assim como preciso me matar para que seja ressuscitado posteriormente. Um gole de café me faria esquecer... olhar nos jornais teria o milagre da ressurreição. Sei, talvez Jesus tenha visto um banquete de notícias sangrentas e bebido muito café... (o mistério da ressurreição foi resolvido!)... talvez todo revolucionário tenha o sofrimento como motor de existência; tenha também uma xícara de café para esquecer-se.

A xícara caiu... há bastante sangue à mesa, mas o café foi derramado. Em meu coração agora não há reconciliação imediata... vejo os jornais - mais sangue -, farto-me de notícias e o coração dispara. A mente parece vazada... o estômago range facas amoladas e meu café está derramado. Caio ao chão e, como cachorro feroz, passo a língua na superfície banhada do líquido preto. Continuo sugando, mas pouco líquido me vem à boca... o coração sangra nessa corrida... já é linha de chegada... e voo... vou sem café ao lado!

domingo, 21 de novembro de 2010

lição de um jovem nazista

É a história de alguém que se apresenta feliz, saltitante em quase todos os momentos: "sorridente por ingenuidade", como gostavam de dizer. Ele não precisa de nome, uma vez que a intenção é resumir a vida de quase todos os humanos. Alguns diziam que sofria de obesidade mórbida, já que tinha prazer em engolir as casas ao redor. A casa, refém de nosso personagem, logo se via sem quadros, sem livros, filmes ou bugigangas. Enquanto apenas os bens culturais eram consumidos, todos o julgavam interessante: "apesar de tudo é um garoto sensível!", admiravam. Porém, a ambição crescia dia a dia... e os móveis e eletrodomésticos também desapareciam inexplicavelmente. Depois de alguns dias de ação, o que se via era uma casa vazia e um jovem grande em alegria, que engordava consideravelmente. O interessante é que sempre parasitava uma casa por vez, jamais duas, três, quatro... (não aprendera com Hitler ainda!). Depois de esvaziar tudo que havia, o moço já bastante grande não se contentava com a parte de dentro e partia ao consumo do exterior: paredes, pintura, até que tudo voltava ao estágio inicial, um lote baldio.

Porém, nosso personagem, após degustar uma casa (principalmente aquelas grandes), inchado, muito inchado, entrava em sono profundo (já tinha tido lições com os ursos). Durante o tempo em que ficava hibernado, o ronco tremendo funcionava como um tampão e tudo que comera até ali era colocado para fora, num vômito ininterrupto. Assim, ele, gigante, esvaziava-se e voltava a um graveto de homem...

Novamente, agora ressignificado, nosso personagem-graveto está vazio. Talvez por isso alguns o classificam como bipolar, outros simplesmente como geminiano. Não se trata de dizer o que ele é: dispenso os julgamentos e inúmeras tentativas de enquadrar esse que agora já se apresenta, se não como amigo, pelo menos como nosso colega. Quando está vazio, dificilmente sente fome. Ele não se interessa por nenhum prato, nem o mais requintado e, ainda, esquece-se que se alimenta de casas, preferencialmente as grandes. Entretanto, o ciclo continua quando algum livro ou filme ou qualquer coisa que o valha, o deixa admirado. Dessa vez foi um livro, "a insustentável leveza do ser", que estava em uma estante velha, morto, sem ninguém para lê-lo... provavelmente houve uma reconhecimento entre os dois: nosso personagem deve ter sentido pena do livro - permanecia sempre fechado -, assim como o livro provavelmente teria sentido lástima pelo nosso colega (já amigo?). Nesse ínterim, o livro foi sugado de uma só vez, porém não sustentou a leveza do amigo (será colega?). Percebendo que não tinha saciado, iniciou a namorar o acervo de músicas, filmes e livros que havia naquela casa. Comeu toda "Vanessa da Matta" e iniciou um Requiem para o sonho. Obcecado, devorou os demais filmes e todas as músicas dali. Começava a crescer consideravelmente, todos percebiam a diferente forma, já não havia mais livros, nem músicas, nem filmes na casa... Ele crescia enquanto tudo desaparecia, inevitavelmente o ciclo tomava forma.

Nessa casa, moravam o pai, a filha e o espírito dito santo. Ah, havia também um discípulo da filha que morava no barracão ao lado da casa. Nosso amigo havia devorado todos os bens culturais, os móveis e eletrodomésticos, entretanto a fome continuava dilacerando o estômago. Num dia, os dois computadores desapareceram. No outro, o fogão e a geladeira. Menos de um mês e toda casa já havia sido tragada, incluindo o barracão. Tudo já se resumia a um terreno baldio e a fome não cessava, até que uma ideia inovadora se materializou ao nosso amigo-companheiro: comer gente deve preencher mais os espaços da fome. Isso porque pensava que as pessoas podiam comer outrem. Enfim, comer um ser humano era engolir várias casas... a fome podia acabar assim... (ideia interessante, não?)

Só sabe quem coloca as hipóteses à prova. Apesar de sentir bastante medo do espírito que pariava o então lote vazio, armou uma emboscada para capturá-lo. Espíritos subestimam os mortais e facilmente nosso companheiro o consumiu - agora era imortal, mesmo sem ter ciência disso. A filha linda foi a segunda a ser consumida: travestiu-se de Zeus (como espírito, já podia ser aquilo que se pensa ou mesmo que não é pensado) e comeu a garota. O terreno ficara limpo, apenas o pai estava ali. Engraçado, os livros sumiam e todos fingiam não enxergar; os computadores desapareciam e ninguém sentia falta... as paredes caíam, mas todos logo se acostumavam (o sol entraria mais facil!). O espírito também se foi, mas como não é gente para que se importar? A filha despareceu, porém é jovem "jovens vão aonde quiserem e logo volta", afirmava o desatento pai (volta?). Você já deve saber o que aconteceu com esse pai, percebeu? Crescemos mais e daqui a pouco dormiremos...

sábado, 20 de novembro de 2010

não chora pela boca alheia!

Quando um homem chora, as lágrimas tecem o ar do silêncio - os peitos de outrora não ouvem gemidos. Em mim, hoje, só o disparar incontido do coração... parece que é hora de explodir para ser reconstruído posteriormente - ciclo vital da existência. Por um tempo só cresci, e construí uma imensa bolha - pensei que não podia ser destruída -, mas tudo que é bolha se desmancha ao ar. Era imensa, eu era imenso, tornei-me líquido pela primeira vez aos dezesseis. Pensava que seria água eternamente, porém quem aprendeu a ser bolha retorna ao estágio inicial inevitavelmente. Assim cheguei ao hoje que é igual ao hoje de seis meses atŕas, igual ao hoje de um ano e meio, igual a bolha estourada pela primeira vez. Estou inchado como quem não suporta o próprio coração, estou imenso... o outro já é todo espelho, entretanto não sou eu quem reflete! Discute como eu, chora como eu, todavia não sou eu quem chora pela sua boca. Meu pedido talvez fosse: cala coração, e não chora pela boca alheia!

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

quadro cinza

hoje é vontade de parar
deixar o carro
ir e deitar
deitar no quadrado humano


vontade de não ver as malas abertas do carro que partiu
apenas sentir meus óculos caindo

a cegueira agora é um sonho
e em minha lucidez não há uma gota de álcool
só dores do dia que não acabou
só morte da vida que começou

mas penso no iraque ou afeganistão
no Brasil de certezas, cegueiras

e durmo, durmo em pedras cravadas (minha cabeça quer tomar forma de pedra!)
sem bagagens, carro ou álcool