domingo, 21 de novembro de 2010

lição de um jovem nazista

É a história de alguém que se apresenta feliz, saltitante em quase todos os momentos: "sorridente por ingenuidade", como gostavam de dizer. Ele não precisa de nome, uma vez que a intenção é resumir a vida de quase todos os humanos. Alguns diziam que sofria de obesidade mórbida, já que tinha prazer em engolir as casas ao redor. A casa, refém de nosso personagem, logo se via sem quadros, sem livros, filmes ou bugigangas. Enquanto apenas os bens culturais eram consumidos, todos o julgavam interessante: "apesar de tudo é um garoto sensível!", admiravam. Porém, a ambição crescia dia a dia... e os móveis e eletrodomésticos também desapareciam inexplicavelmente. Depois de alguns dias de ação, o que se via era uma casa vazia e um jovem grande em alegria, que engordava consideravelmente. O interessante é que sempre parasitava uma casa por vez, jamais duas, três, quatro... (não aprendera com Hitler ainda!). Depois de esvaziar tudo que havia, o moço já bastante grande não se contentava com a parte de dentro e partia ao consumo do exterior: paredes, pintura, até que tudo voltava ao estágio inicial, um lote baldio.

Porém, nosso personagem, após degustar uma casa (principalmente aquelas grandes), inchado, muito inchado, entrava em sono profundo (já tinha tido lições com os ursos). Durante o tempo em que ficava hibernado, o ronco tremendo funcionava como um tampão e tudo que comera até ali era colocado para fora, num vômito ininterrupto. Assim, ele, gigante, esvaziava-se e voltava a um graveto de homem...

Novamente, agora ressignificado, nosso personagem-graveto está vazio. Talvez por isso alguns o classificam como bipolar, outros simplesmente como geminiano. Não se trata de dizer o que ele é: dispenso os julgamentos e inúmeras tentativas de enquadrar esse que agora já se apresenta, se não como amigo, pelo menos como nosso colega. Quando está vazio, dificilmente sente fome. Ele não se interessa por nenhum prato, nem o mais requintado e, ainda, esquece-se que se alimenta de casas, preferencialmente as grandes. Entretanto, o ciclo continua quando algum livro ou filme ou qualquer coisa que o valha, o deixa admirado. Dessa vez foi um livro, "a insustentável leveza do ser", que estava em uma estante velha, morto, sem ninguém para lê-lo... provavelmente houve uma reconhecimento entre os dois: nosso personagem deve ter sentido pena do livro - permanecia sempre fechado -, assim como o livro provavelmente teria sentido lástima pelo nosso colega (já amigo?). Nesse ínterim, o livro foi sugado de uma só vez, porém não sustentou a leveza do amigo (será colega?). Percebendo que não tinha saciado, iniciou a namorar o acervo de músicas, filmes e livros que havia naquela casa. Comeu toda "Vanessa da Matta" e iniciou um Requiem para o sonho. Obcecado, devorou os demais filmes e todas as músicas dali. Começava a crescer consideravelmente, todos percebiam a diferente forma, já não havia mais livros, nem músicas, nem filmes na casa... Ele crescia enquanto tudo desaparecia, inevitavelmente o ciclo tomava forma.

Nessa casa, moravam o pai, a filha e o espírito dito santo. Ah, havia também um discípulo da filha que morava no barracão ao lado da casa. Nosso amigo havia devorado todos os bens culturais, os móveis e eletrodomésticos, entretanto a fome continuava dilacerando o estômago. Num dia, os dois computadores desapareceram. No outro, o fogão e a geladeira. Menos de um mês e toda casa já havia sido tragada, incluindo o barracão. Tudo já se resumia a um terreno baldio e a fome não cessava, até que uma ideia inovadora se materializou ao nosso amigo-companheiro: comer gente deve preencher mais os espaços da fome. Isso porque pensava que as pessoas podiam comer outrem. Enfim, comer um ser humano era engolir várias casas... a fome podia acabar assim... (ideia interessante, não?)

Só sabe quem coloca as hipóteses à prova. Apesar de sentir bastante medo do espírito que pariava o então lote vazio, armou uma emboscada para capturá-lo. Espíritos subestimam os mortais e facilmente nosso companheiro o consumiu - agora era imortal, mesmo sem ter ciência disso. A filha linda foi a segunda a ser consumida: travestiu-se de Zeus (como espírito, já podia ser aquilo que se pensa ou mesmo que não é pensado) e comeu a garota. O terreno ficara limpo, apenas o pai estava ali. Engraçado, os livros sumiam e todos fingiam não enxergar; os computadores desapareciam e ninguém sentia falta... as paredes caíam, mas todos logo se acostumavam (o sol entraria mais facil!). O espírito também se foi, mas como não é gente para que se importar? A filha despareceu, porém é jovem "jovens vão aonde quiserem e logo volta", afirmava o desatento pai (volta?). Você já deve saber o que aconteceu com esse pai, percebeu? Crescemos mais e daqui a pouco dormiremos...

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