sábado, 11 de dezembro de 2010

Literatura-viva

Literatura-viva



I

Fazer-se a partir da fantasia revelada ao outro





Literatura é metáfora-viva! É fazer-se no outro; compreender-se (melhor, compreender o outro). Há de fato apenas o desconhecido - premissa constatada por quem ultrapassou os limites da caverna. Informação importante: somos a imagem e semelhança do outro - ah, e viviemos para satisfazê-lo! É exatamente por isso que caminhamos cegos e aprisionados querendo pagar a dívida oriunda de relações escusas... à caverna só é possível ver sombras descompassadas do outro. Ao outro é o nosso desejo, ao outro é nossa abdicação... ao outro me fiz eu! Afinal, que é o outro? ... melhor agora é aprofundar na caverna d'alma e entender os grilhões que nos separam de nosso cordão (cortado?).


Um universo dual se fez, é o nascimento de uma criança. O pequeno ser cheira, toca, chora e mama... ele é a mãe! A mãe, por sua vez, resolve parte da inquietação mundana, agora, ela tem o tão sonhado pênis (mas ele vai falar ainda!). A criança é, para a mãe, o que faltava, o que nunca tivera... é sonho, o maior desejo que uma mulher pode ter... o que o homem tem, e teme perder! De volta ao pequeno, ele dorme, acorda, chora, toca e mama... eu e ela são eles! Não, não é um objeto, é pênis incorporado à mãe, é a própria mãe. Não, não é mãe, sou o todo, mãe e filho! Mas eis que nessa caverna há regras e maneiras de se comportar perante o outro. É a angústia permante! A pobre criança será aprisionada, acorrentada, mãos e pés, pior, será obrigada a se separar da mãe. Pobre- pobre criança! Agora entende que não é a própria mãe, que é um ser preso numa caverna escura, repleta de regras e não há um só que fuja disso, será que romperá os grilhões? Ora mãe, percebeu? Não tem mais o tão sonhado pênis... ele agora já é um sujeito... ele fala! - Meu falo!



A trajetória é árdua e escura! Se a mãe é filho também, deve aparecer o pai. “Morte ao pai!”, desejo feroz, inquietante... Pai faz o filho não ser santo! O pai com suas regras e censuras conduz o filho para um mundo solitário, doentio, neurótico. Papai e suas doces regras... “não-não-não-não, vou dormir com sua mamãe!”... agora o filho já não é a mãe, consequentemente, não existe filho santo. Todo relacionamento entre o falo da mãe e mãe é rompido... foi castrada! Agora sou eu! É tortuoso se separar da família e ir à escravidão só.



Mas a vida é escrava dos verdadeiros momentos felizes - quando mãe e filho (falo) eram um só. Sim, mas a mãe deixa um espírito pairando... não digo que seja santo, pelo contrário, é apenas a voz do outro (melhor, da outra!) que ficará após as regras impostas pelo pai. Mas o que tem o pai com tráfico de crianças? Ora, ora, ora... a ingenuidade é a faceta do esquecimento! O pai descobriu que não se pode dividir o que se quer. Aliás, é lucrativo o comércio de crianças, contudo é perigoso roubar pequenos alheios. Então, nada melhor que o velho papo da autonomia, do crescimento independente, nada melhor. Vem, vai... “filho meu, meu amor é tão grande que matei meu próprio filho!”. O pobre já sabe que não é a mãe, mas leva dela a (proteção?) de seu espírito.



“Vai, vai querido pequenino, vai sonhando com os tempos de menino!”. Mas sonhar não é tão fácil quanto parece, melhor é não lembrar dos sonhos. O tempo faz esquecer o que é duro de se lembrar... A caverna revela a infância através das sombras refletidas na parede oposta à entrada. Mas o constante mover da caverna remete o então rapaz aos momentos em que era Deus, que era criança. E vendo os reflexos na parede da caverna começa a suspeitar que na verdade fora vendido pelo pai. Ali não há nada de caverna... é um navio negreiro! Seus colegas também estão sem pais, perdidos, aprisonados, e pensam sob o julgo de uma voz recorrente, a voz do outro.



O que era pequeno, agora já é jovem e já entendeu arrepiado onde estava. Os sinais estavam no ar... ele os captou, mas posso confessar que o entendimento do rapaz é limitado porque procura o que é objetivo, racionalizado. Entretanto, ele não sabe explicar por que deseja coisas tão estranhas (não podemos ter contatos com essas vontades, é muito perigoso!)... mas posso adiantar que ele entendera o que era aquele lugar escuro, fechado, com bastante grilhões... era um navio ou algo similar que se movimentava, além de carregar diversas pessoas sem pais, sem história, aculturados, rumo ao desconhecido (Ah, como queria saber quem tinha o colocado ali!). O rapaz era pura razão! (será?) Todavia naquela razão havia a voz espiritual do outro, daquela que fora obrigado a se afastar ainda muito novo.



O rapaz sabia que vivera uma vida feliz (podia ser em outra vida!), mas naquele momento tudo era perdição. Viver com pessoas que desconhecem a própria existência é também desconhecer a si! Não há dúvidas, ele já tinha vivido um tempo de paz. Nesse ínterim que notou, ao lado dos ferros que o prendiam, um líquido que ora banhava os pés de forma gélida, ora voltava como se nada quisesse... a ele, aquilo era um chamado - curiosidade sempre foi metáfora viva! A partir daí, entendeu que a mensagem marítima era um convite para degustar aquela estranha substância - possibilidade de fuga. Agachou-se e bebeu...






II



O silêncio diz mais que milhões de vozes




Foge amor! Foge...

Os sete cavalos estão vindo pelas montanhas, posso ouvi-los. Não os ouve? Não os ouve porque não é daqui, claro! Não entende como é aqui... mas eu os vejo, eles estão bem próximos. Vai, foge, foge amor! A vida não deve exigir o sacrifício d'alma!

Aproxima, vai. Não falta muito para fazer do seu sangue metal. Morto, não poderemos amar! Não, não... você precisa ir! Os cavaleiros foram criados para matar, exterminar todos que amam verdadeiramente. É bem verdade que temos um amor bastante tumultuado, mas assim deve ser nesses dias de inveja. Eu, que o amarei eternamente, permanecerei aqui. Vai bebê, vai...






O rapaz, ainda meio entorpecido, acordou. Mal retornara ao lugar escuro e já sentia uma terrível dor de cabeça - devia ser um sinal de que realmente tinha voltado. Ele agachou-se e fez com que a cabeça encostasse aos joelhos e, de cócoras, deixou-se retomar às experiências que tivera com o líquido estranho. "Assim deve ser nesses dias de inveja"... a frase soava como um sino que anuncia as horas. Relembrar aquela mulher de voz doce, terna, o deixava bastante aflito. Era como presente estragado dado à criança - bastava recordar o acontecido para ser tomado por um (des)conforto descomunal. Para alguém que dorme acorrentado, sonhar-liberdade é ser alforriado.


O rapaz, após levantar-se, pensava tão somente em voltar ao verdadeiro lar, ao lado da maravilhosa amada. Queria interromper imediatamente a dor que sentia e ouvir a voz daquela que o encantara. Pensou nos acalentadores momentos da infância... não digo que pensava em algo específico, mas o perfume exalado pela bela-adormecida o tomava completamente. Esse era o mesmo odor deixado pela mãe no dia em que fora vendido - cheiro distante!...



Resolveu deitar-se, mas uma dúvida o abateu e o fez meio curvado antes de se esticar completamente. Continuar ali morrendo (bastava olhar os (in)divíduos ao lado) ou buscar a trilha do amor... beber novamente? É, o passaporte continuava como tentação permanente. Ele, que estava meio deitado, passou a observar a cor, espessura, a forma do líquido que o banhava - certeza, é lama! E era tão carregada que às vezes parecia estar no estado sólido ou numa núvem densa, repleta de descargas elétricas.



Voltemos à embarcação... não se usava conversar ali, isso porque cada falante possuia uma língua diferenciada. Aquele que comprava os seres estava prevenido - misturá-los para dificultar uma revolta! Todavia, a comunicação não é feita apenas pela via oral, ou seja, era possível estabelecer um diálogo com a moça ao lado. Ela estava deitada e ele deitou-se também. Olhos nos olhos, mas nada familiar... logo sentou-se e, apesar das mãos estarem presas, tentou gesticular apontando para o fluido. A resposta foi limitada a alguns grunidos - um animal não faria com tanta perfeição! Desistiu de olhar àquela que mais parecia fragmentos de rocha que gente e pôs-se a pensar solitariamente.



Por que fora vendido? Por que fora deixado tão solitário? Dizem por aí que mães cuidam severamente dos filhotes, mas... ah, a fé é a habilidade dos desperados! Começava um caminho rumo à vida, embora metaforizado pela linguagem da moça, aquela dos sonhos. O perfume... item de desiquílibrio de qualquer pensamento. Pensava na moça e ela... ela, que durante toda fala estivera sentada, tinha um quê de gerente, dona de um estabelecimento, já a voz, às vezes um tanto desesperada, havia a mesma fragrância do cheiro de mãe. Era suave, mas agressiva, além do mais, cativador - capaz de paralizar sentidos outros. Por uns segundos só sentia a inseparável dor de cabeça e o odor de mãe. Ela tinha exigido que fosse embora, mas é óbvio que era amor... proteção contra os cavaleiros perigosos, evidente... tão claro que ela falou que, que?... não é possível saber exatamente as falas daquele devaneio. Devaneio? Ora, ali sim tinha vida, morte, delírio, era continuar acorrentado e com a terrível dor. Tudo bem, não digo devaneio, mas a experiência foi acalentadora. O silêncio diz mais que milhões de vozes!





III




A repetição é fruto do que foi mal digerido


- O líquido-tentação foi ingerido novamente...

(continuação em breve)

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