domingo, 5 de dezembro de 2010

super-homem de Fernanda Padilha

E eis que o super-homem aparece como uma epifania. E é de seu feitio ser super sempre...sempre enquanto lhe apraz. E como ele aprecia levar as pessoas para o céu em seus vôos intempestivos... o público se encanta e ele mais ainda de si mesmo. Em sua plateia interativa, temos ali uma bailarina, que sempre, sempre tenta se equilibrar na ponta dos pés e se manter no mais alto possível, mas nunca, nunca antes havia alcançado os céus. Queria agradar a todos, reconhecia seus erros – assumindo inclusive aqueles que nem eram seus – e queria ser perfeita, mesmo sem nunca atingir as alturas. No entanto, o super-homem apareceu e, estando uma vez no céu, não queria a bailarina voltar à prosaica terra que lhe doía a perfeição de seus pés de passos acertados. Acontece que, com o tempo, sentindo-se sozinha num céu de nuvens imaginárias, a bailarina caiu bruscamente à terra. Foi quando ela notou que o super-homem gostava de levar as pessoas pro céu muito mais pra se sentir no alto, e que, tão logo a emoção das alturas já não fosse mais capaz de comover nosso heroi, pouco importava a ele onde ou como estava a bailarina ou quem quer que fosse entre aqueles de sua pateia. Seu objetivo já havia sido alcançado, seu prazer de herói já lhe havia rendido as palmas desejadas e era ele mesmo quem fechava suas cortinas, sem se dar conta da queda livre à sua volta. Mas seu público tem fome. E nossa bailarina tem sede, de tudo. Contudo, é orgulhosa demais pra pedir novamente as alturas, pois crê que o céu é seu lugar e por isso mesmo não faz sentido clamar por algo que é de seu direito. Então a bailarina se cala. De uma mudez sem fim nem começo, repleta de sentir e sentidos. E assim permanece, silenciosamente na ponta dos pés, a fim de não errar e não acordar seu herói, que dorme, saciado e distante, atrás das cortinas que ele mesmo fechou.

Fernanda Gonçalves Padilha (minha preta)

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