sábado, 24 de dezembro de 2011

abismo raptado

lavagem de gente pela sardinha de rodas
sempre à procura de bens inexistentes
- pernil de arranha-céu -
pesadelo preparado a um amigo!

é morrer de ira por não poder gozar
amarrar a insônia num sonho contido
como caberia ao poeta do amor perdido


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na insignificância dos dias
quando sem completude
deponho o olhar ao longe
de Goiânia a Santo Antônio
para fazer o quadro do abismo raptado


sábado, 17 de dezembro de 2011

Gozo desmedido






O livro "Gozo desmedido" está à disposição nos seguintes espaços: livraria Dinâmica, livraria Novo Pensar (ambas na rua 4 - Centro - Goiânia), na revistaria LER (Goiânia Shopping), na livraria do Goiânia Ouro e, também, no site "estantevirtual.com".

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

olha o carro, Almiro!

olhos refletidos no espelho do retrovisor
as lágrimas infantis anunciarão o trágico da noite

um senhor atravessa a rua
(travessa 68)
a meninota, já acrescida de seios gigantes, grita ao idoso
uma bicleta invisível percorre o dia
enquanto o pão solta das mãos estrangeiras rumo ao estômago vazio do cão

ao longe, um carro voraz
(a velocidade é rápida demais para que o percebam!)
uma chuva de lama levanta voo para a pistola dinâmica dizer fim à vida de um velho.




segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Souffrance

Sofrer não é uma exclusividade francesa
mas é d'alma consanguíneo.

- O que não solapa é alimento de altivez!


A linguagem amplia todos os bêbados da esquina
cria novos cenários
estabelece conflitos
e, proclama, sutilmente:
- Paciência!
A alma que sofre-calma não sucumbe na esquina.

domingo, 4 de dezembro de 2011

brincadeira de criança

é tão bom saber que os pés
apesar de calejados
dão passos largos

saber que o sorriso
ainda que tímido
satisfaz almas vãs

mas não queria só!
um pé sobre o outro de mãos dadas
brincando de doutor. bora?


palavras recheadas de sentido

e virá alguém dizer que (me) produzi muito

direi:
toma no cu, filho da puta!

jogo perverso


entre mim e ti
não há nada mais perpétuo/perverso que o amor!

gozo enclausurado

de nada vale gritar
os ouvidos de cera não escutarão

...


sem idealizações

num quarto
há mais afeto que a sapucaí invadida por gringos

no quarto

penso mais que toda a filosofia grega
amo mais que todas as pensões medievais
sofro mais que qualquer manicômio atemporal

num quarto só
recordo cada instante do beijo que não dei
cada gole do café que não tomei
o almoço ficou engasgado na memória!


mas de tudo
concluo:
(e as conclusões são buracos de cobra!)
da pequena um gigante nasceu!

silêncio (com "s" minúsculo)

todas as palavras ficaram num passeio de verão
que não fiz
no suicídio que ainda não cometi

todas as palavras são falas deslocadas
a quem perdeu a própria língua

contudo, percebo ter quase tudo
num quarto só!

e não cantarei o amor latente
(vivo!, que seja)
apenas direi:
o silêncio é maior que qualquer palavra esbravejada.

sábado, 3 de dezembro de 2011

amizade genuína

agora
sim
o silêncio é um grande amigo!

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

o encanto da roda, da rocha e da fonte


o que há de encanto é o desejo
nada mais!
alguém descobriu que o retângulo anseia a roda?

a rocha quer água da fonte
enquanto o ser procura o humano.




Ao profundo conhecedor de mim: eu mesmo.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

canicidade


Quem me conhece como ninguém não me deve fazer só o bem!

Por que não me deixar ouvir o latido da cadela?
por que não posso cheirar o rabinho dela?

- Monstro dos monstros da caninidade, rogai pelo rabo perdido de outrora!

Nem o cheiro
nem o latido
podem tirar pedaços tão delicados?

(A.Q.M.C.C.N)

não gosto de churisso!

Não, não quero perturbar a dinâmica familiar!

a família quer meu sangue
(não gosto de churisso!)

carne ao sangue é gosto de vampiro!
e eu, mor(t)al como sou,
vejo toda beleza dessa vida vã

Estive por aqui
tentei contato
deixei mensagens - e não fui escutado
agora...
enquanto a vingança não acabar
(vingança familiar!)
estarei em Santo Antônio de Goiás
rendido aos caprichos de uma vida só!




(A.Q.M.C.C.N)

nega-fulô

hoje acordei pensando nas orquídeas
nas flores, nos cheiros dos perfumes escravizantes

NADA!

só o som
cheiro e o amor...
só a nega-fulô traz de volta um cachorrinho adormecido.





(A.Q.M.C.C.N)

altivez besta, meu deus!

"Eita vida besta, meu deus!"
Carlos Drummond de Andrade


Meu silêncio começou a reinar em era de palavras vazias

hoje não balbuciei palavra alguma
esperei que os peixes morressem pela boca

minhas intenções já estão postas
minha manobra, arriscada como é
não tem o preço de felicidade.
Todavia, via um rosto pacato
sem sal
salgado somente à volúpia de fim de semana
(sempre em motéis e com hora marcada!)

quero seu sexo, sim
silencioso que seja
à sua maneira custosa
mas
voraz
na altivez vista peito adentro.


(A.Q.M.C.C.N)


quarta-feira, 30 de novembro de 2011

a mim mesmo

Não compensa dedicar a vida a outrem
(jesus foi crucificado!)
não compensa dedicar um livro a outrem
(os livros são queimados)

Mas o amor
esse dedicado a mim
por interface a ti
faz tanto sentido quanto o dois e dois da professora retardada que não tive.


A mim mesmo.

paciência, cachorrinho

O coração sossegou
a arritmia de ontem é o compasso perfeito de hoje
mas a saudade...
é tão forte quanto a insônia passada.



(A.Q.M.C.C.N)

cama na hora de dormir

Bem melhor assim
sem ligações noturnas
sem procurar o colo da mamãe.

Que seja entorpecido
o bebê mama o leite do aconchego
e eu procuro cama na hora de dormir.



(A.Q.M.C.C.N)

dou-te um livro

a quem queria um poema
dou um livro
não de soneto
mas de formas distintas
(como cabe ao amor!)


A quem me conhece como ninguém

ressurreição, nega

Ah, estômago-unha-de-gato, eu disse que não doía, filho da puta.
Coração bandido, volta a esse peito de onde não devia ter saído.

Coração bandido, por que acomodastes tanto? Pequeno infeliz!
Por que esperastes o fim para uma nova pele habitar?
Não tenho vocação à santidade, mas só minha ausência causaria sua ressurreição.



A quem me conhece como ninguém.

crenças súbitas

pelo silêncio vou percebendo a tradição

de vidas passadas em centros de vidas em chá

de amigas mal amadas

amalgamadas por ervas daninhas das crenças súbitas.



À verdadeira amiga de quem me conhece como ninguém

akedah

tenho a akedah de dizer que fracassei
a akedah de dizer 'não era bem assim'
a akedah de sentir um coração fora do peito
a akedah de gritar a quem me acha 'desconhecido habitante do próprio corpo'

meu deus-cordeiro foi imolado com o filho de Abraão
e a akedah da noite me jogou no tremendo vazio desse chão.





A quem me conhece como ninguém

terça-feira, 29 de novembro de 2011

olha aí, negão!

só mais uma coisa, negão
mesmo ajoelhado, a guerra não acabou!

-ah é? e as amigas?

Negão, elas vivem num mar de chá
e não é verde (como o vestido do conhecimento)
mas faz neguim rebolar!

-ah, mas ela é amiga, pô!...

Ok, negão. Amiga não dá pra home de amiga, porra. Vai, negão, vai que a descoberta é breve no andar debaixo. Vai que a descoberta é o suicídio, matricídio principalmente...
Vai, negão, o amor é a cinza colhida de gravetos.










A quem me conhece como ninguém

frases de face, não fesceninas

Fecho com frases de face (não fesceninas!)
No silênico há mais respostas que em gritos infernais.
Fazer o quê? Sou mesmo um meninão-gritador!...
Aprendi somente a chorar!



A quem me conhece como ninguém

sua falta não é falácia

sabe o que é bom nisso tudo?
da falta nasce a erupção vulcânica do desejo.

sabe o que é péssimo nisso tudo?
a sua falta pode ser preenchida por um imbecil qualquer.





Ao ciúme causado pela falta de quem me conhece como ninguém

celta preto também pega no tranco

Sinceramente, isso não é um poema
pode ser uma carta desgraçada
que provavelmente não ficará nesse blog.






escuta:

o amor é essa haste verde colhida em greve
numa casa alheia. Entendeu?

escuta:

virei o carro numa esquina esburacada
e o motor entrou em erupção. Entendeu?

não terminei:

celta preto também pega no tranco!




Ao carro preto (que não é cinza) de quem me conhece como ninguém

soletrando

nunca fiz tanto poema pensando numa coisa só
só-le-tro seu nome milhões de vezes
mas nenhuma rima provoca meus ouvidos




Ao nome mais lindo
(A.Q.M.C.C.N)

O amor nunca existiu?


- O amor nunca existiu! (Marcos Lopes, em "Gozo desmedido")

Ok!
Mas e a dor que dilacera o peito?
e as lágrimas que flecham a boca?

As palavras são máquinas criadoras de sentimento!
dos seus olhos,
boca,
nariz,
pele,
cabelo
...
crio a palavra 'amor'
e já sinto o peito disparar
dos olhos lambuzados

crio a palavra 'dor'
e já sinto o peito disparar
dos olhos lambuzados

crio a palavra 'você'
para dizer que sou amador!



(A.Q.M.C.C.N)

manobra arriscada - um jogo sem volta?

Por opção,
o que muda é a falta da dor estomacal
é a falta do álcool nos momentos de solidão

O que muda é sempre por opção!
minhas lágrimas são só letras que caem blog adentro
meus erros - muitos como são!
é um rei em cheque, mas com saídas exímias de um bom jogador

E me refaço: 
na loucura, 
na insanidade da perda, 
à maior manobra de toda a história!



(A.Q.M.C.C.N)

Gozo por mim? Que seja por todos!

Na fala de hoje fiz minha escuta
agora, solitário como deve ser
sou
- todo -
 possibilidade de invenção.

O carro novo tem hálito de uma nova pele
construída durante um ano de não ser
TÃO-sem-TIDO
curtido em motéis
em segundinhos de gozo efêmero.

Hoje a pele tinha o brio do gozo diário
de horas gozadas, de carros comprados
de realizações familiares, de amor me transe!

Minha retirada...
que o gozo por mim seja por todos!




(A.Q.M.C.C.N)

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

hálito de uma nova pele

Minha fala não é ouvida agora
(sou o louco que desconhece o próprio grito!)

Mui breve iremos ver
----------------------
a-fala-flecha-alvo.

Vejo-te ao meu lado
refeita ao ar
num corpo próprio
de uma experiência vasta
na nova pele em que habitará.

Minhas palavras não serão sem sentidos
teus gestos carregarão outros símbolos
e nas bocas entrecruzadas de amor
nascerão rosas de espinhos carnudos.

E não haverá censura
ou ditos-mal-ditos
só o gozo do desejo habitará a pele em que habito.




A quem me conhece como ninguém!

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

vazar desaprumado II

Deixei a queda me tomar. Das cadeiras de balanço quebraram as pernas, as bengalas não se sustentam... Não há madeira, redenção, nada! Caí, mas não eram águas doces, ao contrário, o mar salga qualquer coração insano. Pensei que seria só solidão essas águas sôfregas. Não, não! Mesmo caído os peixes passaram pelos meus restos, mordiscando minha pele. 

Engraçado, deitado ao fundo do mar, os peixes parecem desejar minha presença. Mesmo morto insisto em gritar passagem à malandragem do sangue-bom brasileiro. Tubarões querem meu corpo, entretanto já os conheço bem e não me entrego. Tomo o sentido oposto, subo nas costas de um tububarão selvagem e faço a viagem pelo interior submarino. 

Os peixes são pérolas inacabadas, todavia os tubarões fazem o favor de acabar com os pobrezinhos. Não, não é questão de maldade! Os peixinhos são bem educados e fazem o favor de entrar goela abaixo. Eu gozo! De cima do tubarão branco recarrego minhas energias para também poder seguir viagem só. Pensei que estava na hora de me metamorfoser em tubarão... Contudo, não é questão de metamorfose, pois tubarão sou desde a minha terna infância. 

Preciso afiar meus dentes. Sobre um tubarão branco tudo é possível... escovo meus dentes, aparo minhas arestas e inicio o difícil caminho de fazer faca o que era dente. Durmo até tarde, porque o tubarão branco faz dos dias uma lente de aumento. E voo alto, aumentando minha percepção do mar. Quando vivia como humanos não sabia o doce sabor das águas. Agora, os peixinhos vem mastigados pelo tubarão maior, mas já vislumbro meus dentes afiados mastigando cada bocado. Talvez eu não queira comer um a um... melhor seria um bocado, uma overdose marítima. 

Não, não ficarei muito tempo aqui. Vou descer das costas desse animal para nadar uma quilometragem impossível. Após - meus dias estão delimitados - sairei do mar para deixar o cão pairar. Pensei que era possível tornar-me cão sendo humano. Mera fantasia! Para ser cão é preciso ter passado pela terra, água, fogo e ar. Da terra vim, n'água estou. Ao fogo chegarei no dia em que for ar. Apagado o fogo, minhas costas serão mais fortes que essa com a qual me sustento. Mas não colocarei peixes folgados aqui, não, deixarei os peixinhos morrerem afogados. 

Não há compaixão nesse ser que paira mar adentro.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

vácuo universal

são tantas faces torcidas sem lubrificação
azulejos azuis que se remexem
vai-e-vem
em panos podres de vidas em nó


à margem
procuro pó ao som da  imensidão devastada
enquanto andarilhos pedem passagem
tomo nota ao cheiro longínquo do vácuo universal



(A.Q.M.C.C.N)

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

mal é estar sem civilização

entre vácuos desço ao terreno mor(t)al

mal é estar no cume da montanha e não enxergar o outro
mal é estar sem viver as dores do dia
mal é estar sem enxergar os próprios olhos furados
mal-estar é viver sem amar

passei pelas nuvens pensando ser maravilha o que era dor
e tirei fotos de minhas próprias caricaturas
(cabelos grandes, nariz de negro e cenas pérfidas)
e tudo cá embaixo era só falsidade humana
e tudo cá embaixo era só mor(t)ais encenando uma imortalidade tosca
e tudo cá embaixo era só religião: reedição de verdades passadas

Não sem dor, ultrapasso as nuvens para ver o próximo, ainda que distante
e percebo que a hipocrisia era apenas os meus olhos nebulosos
e que esses mor(t)ais têm muito de imortalidade genuína
e que os cães nada mais são que mulheres imor(t)ais
e que a terra cheira a água doce em pleno mar
- a vida treme diante da passagem!

Desci e já não tenho o conforto de onde vim
agora, ainda que descalço, piso espinhos para dizer amor





segunda-feira, 14 de novembro de 2011

um cão pede passagem

no xadrez da vida
um cão pede passagem:

corre rios
planta bananeira
come carne de moela

e, diante do sono, por fim,
segue rumo ao próprio canil



(A.Q.M.C.C.N)

domingo, 13 de novembro de 2011

campo de guerra

no campo de guerra demarco meus desejos
(assassino amigos para mover meus anseios)
e não nego a demasiada importância do auto aniquilamento



(A.Q.M.C.C.N)

sacrifício necessário

Para a felicidade de um
vários precisam se sacrificar


(A.Q.M.C.C.N)

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Fresta do dia

Provar do cálice maduro
o suco febril dos lábios carnudos

Dedos e bocas: falo pulsante
a profecia do supremo deleite

Entre pernas cruzadas e bocas cansadas
o brilho do leite rompe a fumaça do dia

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

cãão!

estranho é ver do rastro negro
uma ambulância de dor

correndo rios ao desperdício potável
duma inteligência corroída

ou seguir os percalços da nicotina queimada 
pelas maçadas de árvores caídas

- cãão!

compreensíveis,
eticamente apetitosas,
são as negociatas de gravatas
a sal e camarão

terça-feira, 18 de outubro de 2011

TERCEIRO OLHO

            À janela de domingo, dou-me à arte da observação novamente: as mesmas sandálias aos pés, a camiseta, um tanto desgastada pelo poder do tempo, e defronte ao cenário perdido.

Há bastante tempo, observei os meus vizinhos, e escrevi compulsivamente algumas histórias – inclusive fiz a árvore genealógica da traição, buscando relatar as relações extraconjugais entre os moradores do edifício Mares do sul, onde moro até hoje. Cheguei à luz de reflexões profundas a partir dessas olhanças, e publiquei meu primeiro livro, ainda aos dezessete anos: Relações pervamistosas. Não parei por aí: sempre o mesmo cenário, as mesmas observações, e os vizinhos, embora diferenciados, praticando as velhas relações dos antepassados.

Não podia ser diferente! Os moradores do edifício Mares do sul passaram a protestar contra o fim da privacidade. Nos diversos livros publicados até os vinte e cinco anos, eu procurei não censurar nenhum nome, não camuflei a identidade de ninguém. Mas o sistema jurídico emperra o trabalho do artista! Por fim, fui obrigado a indenizar quatro famílias e interromper minha carreira por um longo tempo.

Após quatorze anos de janelas fechadas e escrevendo futilidades para sobreviver, ouço uma sirene e reabro a janela do quarto. Ao longe, uma ambulância, bastante correria. Contudo, foi a janela em frente, imediatamente abaixo do meu apartamento, que reviveu meus olhos: uma garotinha de aproximadamente onze anos estava deitada ao chão e seu dedo passava triturando a doce vagina infantil. A masturbação era incrível! Rapidamente o dedo médio dilacerava o clitóris... Fechei a janela, corri pelo apartamento, peguei minha luneta, calcei minhas sandálias franciscanas e vesti a camiseta corroída pelo tempo... Janelas abertas, lancei-me ao observatório – ainda não viera o gozo! Sem hesitar, peguei uma caneta e meu antigo bloco de anotações para relatar paulatinamente o que era visto.

Noutro dia, algo passou a me torturar: a pequena não tinha gozado! E sucedeu que todos os dias, às dez da manhã, a mocinha abria as janelas e se deitava ao chão, nua. Ela parecia saber da minha presença!Enquanto isso, eu escrevia tudo, tudo: a organização dos móveis, a disposição daqueles dedinhos... Nada me escapava, nenhum fio de cabelo.

Como cabe à minha arte, pesquisei a vida da garota detalhadamente. Ela, Paula, seria mais uma personagem real da própria história. Contudo, nessas manhãs de observações, algo passou a me afligir: Paula não conseguia gozar. E, mais, acontecia que, de quando em vez, ela se machucava tanto à procura do orgasmo que chorávamos juntos. Desciam lágrimas da pequena. Chorávamos: Paula e eu!

Já não conseguia escrever mais... Ela estava sempre chorando, se ferindo. Por fim, as janelas se fecharam: Paula desapareceu por uma semana. Não me contive, a loucura me tomou numa manhã de janelas fechadas. Desci um andar, aproximei-me da porta, que estava aberta, e entrei. Passei pela sala, não havia ninguém, e cheguei ao quarto. Paula estava deitada sobre meus livros... Olhos vermelhos, e dedo à vagina, que sangrava bastante, mas, em silêncio profundo, não se mexia. Olhando profundamente, percebi que meus livros haviam sido engolidos com voracidade pela pequena. Ainda pensei em levá-la ao hospital, todavia preferi deixá-la comigo... Coloquei meu dedo médio na vagina dela (tal como ela fazia!), mas já não havia pulsação. Pus-me ao lado da pequena, e reli páginas trituradas, amassadas, pelas metades... Novamente, um dedo ao pescoço, outro no clitóris: ...Não houve reação...!

domingo, 9 de outubro de 2011

Eu vi satanás

A água entornada
tinha gosto de santidade diabólica.
As árvores imponentes rompiam o azul celeste
enquanto um velhinho comprava bolacha água e sal
à mercearia, dona Bárbara contava as duas notas de cinco
e Gabriela pagava pelo pão e manteiga. Acompanhada pela sua pinta no rosto
acima da boca, pensamentos invadiam a pequena: "Claudia Leite vai se condensar?"
Em tudo: ele, eu... o diabo!

sábado, 8 de outubro de 2011

Eu vi deus!

Nessa manhã eu vi deus
era todo ele, deus
azul como olhos de janela verão.
Reafirmo: eu o vi
e estou completamente convencido
porque "dúvida" não há no meu dicionário pagão!

Tomei meu café - com bolachas água e sal
ainda à mesa, abri uma partida antiga de xadrez
e, como num instante inapreensível, 
senti a ternura do lance sagrado, deus
de café enfumaçado, deus
de bolacha e água e sal, deus!

À janela, de correr
tanta chuva ensurdecia qualquer incrédulo, deus
as águas pelas frestas, 
os livros encobrindo os ladrilhos, deus!

Num chão de livros (a bíblia está fechada!)
bebo meu azeite matinal e revejo meu tabuleiro
as vidas sem peças, hoje, estão repletas de um torpor infantil!





sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Conto sem fados

Um dia belo
belo como reza o senso comum
belo de ignorância
um belo conto de fadas

Hoje é dia de olvidar
a alienação é a arma perfeita para as almas vãs
hoje é dia de beleza
toda beldade é resumo de mim!

Hoje não é dia de duvidar
é só dia, dia de hoje!

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Passou!...

Agora, passou!
Podem exigir mais atenção,
mais educação.

Porque minha tensão se foi
num segundinho de Tesão,
o suspiro de ontem.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Mata virgem

Vou à selva do desejo
avalizar meu próprio querer.

Porque das artilharias do matagal,
essas reservas de odor macabro,
formei as primeiras trincheiras dos anais do tempo.

Vencida a batalha,
ainda que fatigado,
sigo a seta da alma,
à mata selvagem do cu.



Ao poeta Shunnoz, o pensólogo angolano.

domingo, 2 de outubro de 2011

Pornogramas gozados

Diversas bundas (e confesso a beleza de algumas, poucas!)
mas a bunda, bunda de melancias globais,
de tão grande, vi o cinza-cifrão do silicone.
Era só mais um pornograma infantil da noite:

um grama de ouro
uma descidinha
dois gramas
uma dedadinha
ai, três gramas
e já está toda atoladinha

Desligo a televisão:
"que tantas mulheres gozadas!"

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

A vida é doce

A vida é doce
anfetamina
cocaína
estricnina

A vida é a doce falta de vergonha na cara!

Das tripas, um coração

Das tripas, meu coração,
rasgado em versos de jornais.

Rumo ao armazém do sexo,
compro minha boneca inflável,
afinal, tenho o vazio de gerações.


quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Falo de mulher

A força da fala é uma língua rija
brutalmente feminina como falo de mulher.


segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Perdido num samba, encontrado na cama

Rasguei a aurora
numa taça de cicuta
e, cambaleante ao teatro de cuíca,
fui toda vastidão do lençol branco,
do terno preto,
do chapéu-coco,
do algodão ao nariz-defunto,
um mero perdido à cama do samba.



Lançamento do meu livro "Gozo Desmedido"




Poucos dias para o lançamento do meu livro "Gozo Desmedido". Caso queira dividir esse momento sublime comigo, basta entrar em contato (8487-7672) para pegar o convite. Espero contar com você. Data: 05 de Outubro, às 19:30.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Desaprumado

Nas correntezas de gravetos sem nome
quero jogar meu corpo
seguir embaraçado nas águas
rasgando dias, rompendo noites
e, disforme, tomar a forma da pedra
da folha, do menino que dança n'água
disforme: tomar a forma que convém

Nessa cadeira de balanço
na sesta de domingo
meu corpo não caminhou uma légua
mas está parado, cansado!

Agora caminho sossego
embora cansado, desaprumado
sigo viagem

Vazar desaprumado

O mar escorrendo águas a conta gotas. E, da pinguela, o pouco que radiou floresce como sombra. Chego talvez à minha forma: os versos não me curaram, a prosa deixou-me atado em finais escandalosos. O gotejado dos dias figura cá dentro! São sempre gotas de insanidade que me anunciam as próximas horas. Mas hoje parei, parei semana passada também; pelo que consta vou permanecer parado. Sono nenhum me consome; a cama é o simbólico de aventuras sonhadas. E as árvores ao longe gritam o fim, enquanto o tempo escorre pelos dedos.

No latido do cão, ouço o que se perdeu. Foi numa hora, num lapso de tempo, que desmanchei meu arcabouço infantil. A manhã era bela, e não tinha vontade de parar. Só a rapidez dos dias era capaz de me cansar, mas foi numa tarde qualquer que desfiz o laço da ombridade; que anunciei a possível queda, mas nem me projetei rumo ao chão. Lancei-me aos versos, contos, novelas: não havia linguagem. Quando havia movimento, os resultados eram de ordem finalista, o que iludia qualquer consciência. Entretanto, estático, não  sei laçar ninguém, nem a mim: só vejo o laço da natureza perdida.

Hoje, verso algum me traduz. Nem mesmo as ilusões me satisfazem agora. Quero estar sentado, porque não sei exatamente como querer; desejo águas, árvores, terras... é a escavação d'alma que anseio profundamente. Os insanos  não seduzem nem a ponta dos dedos. Incrível, não há gozo nessa fala deslocada. Quero parar; e, quem sabe, jogar-me rumo à queda. Cair seria a maior marca dessa natureza perdida. Quero cair nas águas que correm sem porquê. Essas águas que passam pelo fracasso e continuam seguindo... Quero cair nas águas e topar frente às pedras - quebrar a face! -, seguir viagem. Viajar pelo tempo líquido; vazar disforme entre formas desconexas. Rasgar dias e noites, e não saber aonde ir, mas indo numa rota que poderia bem ser circular ou retilínea. 

Haverá vida além de mim, nessas águas que cortam as horas. Dilacerar as vozes que tormam os dias insanos... Não é estar insano num carro desgovernado ou numa locomotiva desvairada, mas, tão somente, entrar nos poros dos gravetos cinzas, das águas doces, das folhas enrugadas, e seguir viagem... No rumo desaprumado!

O desaprender é requisito fundamental para a permissão da queda. Só cai quem não se sustenta! Enquanto houver uma cadeira de balanço, ventos aprazíveis... não haverá queda! Esse corpo flácido quer ser erguido, sentir as pernas bambas, caminhar o rumo das águas, e cair... Cair desaprumado é seguir viagem!...

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

excreções do ócio

No início era o verbo
verborrou os macacos
e tornou-se verborreia

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Amortece, pelego!

Quando o traidor ao lado acorda
eu durmo pra não ver o estrago

Diarreia noturna


Agora, durmo
expeli o dia numa baforada de vaso!

Vulcão social

A febre aumenta a temperatura interna dos corpos

quente que Saara as horas

contudo, a temperatura social já entrou em erupção

J. P. Fernandes


Pra li foi J. Fernandes
Só esqueceu-se do Pinto
Numa lata de lixo qualquer

Jesus de Goiás

Aqui, nasceu Jesus

menino custoso de Goiás

milagrava urinando nas águas

só pra ver o rio corar


Erotomania

Põe sal na ferida

e tempera com água fervida

Diacho!

Régua de lã é para ovelha

ringue é pra macho

tic-ataca


Compasso,
marca meu passado no chão
que o tic-ataca qualquer coração

restos sublimes do dia


A diarreia impele ao sono
Antes, porém, expele verborragia
Com o odor sublime do dia

Neurose



Sofrer de reminiscências é a cura da amnésia

Amor real


Amor de um é a masturbação de vários

Slogan do M.E.C. (Mal-Estar na Cultura)

Educação para tolos
Ensino para ninguém

Tira-o-calção de todos

Pornografia pra quem?

não!


Não devo me alienar
Virei Hippie e não vou trabalhar
Não vou trabalhar
Não vou
Não!

Contra-cheque

O tic-ataca o coração!

Satisfeito, camará!


Pra que muito?
Pouco me satisfaz

Alerta


Dando-linha-linha-e-mais-linha
e-mais-tinha
quando-a-linha-é-grande
a pipa se  v a i!



(Inspirado no texto de Cacau Cruz, "Carretel")

DONADA

Dizer porrada

não basta
é mera fala deslocada

Falar donada
num contexto de pancada
em grupo ou perdido
é, enfim, o GOZO DESMEDIDO

domingo, 11 de setembro de 2011

pé da letra

Não me tomem ao pé da letra
enquanto meus pés se juntam
minhas palavras se vão

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

S.O.S


Quem pouco tem
carrega em si
um alto-falante abacaxi
cor-laranja-amor






É, ele, som ambulante
pungente,
azedo,
que geme a flor


Socorro é correr só
do próprio, do bicho, da vida a SÓS

- Marimbondo quebrantado de dor!

De manhã se faz ninguém
de noite confirma: eu já ferrei alguém

De Goiânia a Belém
são picadas de trem

(Espera, com essa rima
não sei se passo bem!)

Socorro!
é correr só
da rima, da métrica,
do próprio, do bicho, da vida a SÓS

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O latido dos cães (Produção Coletiva )






Parte I – Para Isabel  ( Por Cacau Cruz)

Eu desisti de você
Não me pergunte em que momento,
mas, acho que sei como foi.

Foi tentando encontrar motivos em suas frases vagas,
buscando pistas em suas charadas,
tentando decifrar o teu olhar... minha doce Isabel.

Eu desisti de você.
Você nunca me pediu para ficar
Sequer pensou em me ligar
Ou dar-me um espaço qualquer.

Fecha os olhos e me apaga da memória
Pois, não estou escrito na tua história
fui o beijo que não foi dado,
sou a lembrança de um adeus.


Parte II – Para quem me deixa ( Por Marcos Alves Lopes)

Apagar...
O que já me derreteu a memória
Também torturou meus dias noturnos
- É fácil ficar quando a carniça não fede!
- É fácil pensar com a cabeça na rede!

Meu falar torto é pena de viagem
(vadiagem)
Pro rio ou à puta que pariu

Mas, se não entende o latido dos cães
Vai, ou não me venha mais!

domingo, 4 de setembro de 2011

sonhos diurnos


Apagar...
O que já me derreteu a memória
Também torturou meus sonhos diurnos

- É fácil ficar quando a carniça não fede!
- É fácil pensar com a cabeça na rede!

Meu falar torto é pena de viagem
Vadiagem
Pro rio 
(ou à puta que pariu!)

Mas, se não entende o latido dos cães
Vai, ou não me venha mais!

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Para além do bem-estar poético




*Texto elaborado ao Comício Poético (Revirada Cultural Goiânia-GO - 2011)


Para além do bem-estar poético

Poeta, profeta, protesta. A profecia anuncia o que virá: partindo do imaginário, o profeta constrói e proclama um novo momento. Não é diferente ao poeta! Através da escrita, há a possibilidade de reinvenção subjetiva. O poeta subverte a linguagem, como a dar forma ao desejo, como a realizá-lo. A transgressão é característica básica de quem é tomado pelo desejo, uma vez que o querer não segue os ditames morais. Poesia não é falar de si, já que o poeta é tomado pelo furo, pelo inumano, pela linguagem.








Assim, nasce o poema, e, em seguida, outro vem subsequente (o desejo não pode ser satisfeito completamente). Não há realização plena, o furo permanece! Há uma fome poética, fonte d'alma, que momentaneamente consegue se dar por satisfeita (nasce o poema), há o gozo, mas, momentos depois, a fome (da fonte do desejo) toma o artista novamente - mais um ato subversivo pode comparecer via linguagem; é poesia.


O poeta é subversivo! Se o material primitivo da poesia é o desejo, o poema só pode ser um ato de transgressão. O desejo é o gigante que não se cala. O desejo é o inumano que esbraveja n'alma por um grito por satisfação. Ora, se somos estruturados pela linguagem, a moral não resistirá ao submundo poético. Os sonhos podem ser completamente imorais, a ponto daquele que sonhou esquecê-lo, ou não conseguir se esquecer - a poesia não foge desse pressuposto! Apesar de a repressão ser menor durante os sonhos, o poeta transita em um sonho acordado, um devaneio. Toda parafernália linguageira (portanto, inconsciente, imoral, inumana) tomará a poesia, inevitavelmente.

Entretanto, a moral civilizada cada vez mais toma os espaços reivindicados à poesia. São os poemas light que começam a proliferar; aqueles que dizem do superficial de maneira nada abrangente. A poesia restart, tão consumida pela geração Orkut, parece ser o que está em voga atualmente. Já não mostram a face do inumano, mas, tão somente, esforçam-se para contê-lo.

Não é de hoje que a linguagem vem sendo colonizada (afinal, é pela linguagem que se coloniza!). Em um momento em que é caro\raro estabelecer laços sociais, em que as relações estão cada vez mais automatizadas, mecânicas, utilitárias, há uma tendência de a poesia seguir o mesmo rumo. Esses aclamados poetas, de academia “A” ou “B”, parecem louvar todos os símbolos que nos deixam distantes dos nossos desejos, do desejo do outro. Ou seja, a arte hegemônica, arte Coelho, enfatiza o politicamente correto, relativiza o elemento inumano n’agente, comparece a hipocrisia do bem-estar social. Essa é talvez a maior problemática da linguagem hoje. Criaram o modelo do “bem”, que mais parece a face distorcida do diabo, e proclamam arte aos humanos.

Todavia, os laços de fato construídos são aqueles que levam em conta o desejo, a identificação com o desejo do outro, o próprio desejo. A poesia reside o terreno desabitado, convive com o mal-estar social, é o próprio mal-estar. O poeta sensibiliza (constrói laços), possibilita a entrada do outro via linguagem. O universo poético, onde as palavras correm soltas, está na mesma dimensão dos desejos, ou seja, as palavras são postas para expressar o que ainda não foi acomodado, comprado. Enfim, a poesia não possui obrigação nenhuma com a hipocrisia do bem-estar social.

Hoje, quando um poeta declama um poema, poucos se emocionam; é como querer lágrimas de pedras. As normas, tão danosas à linguagem, tomaram os espaços ditos poéticos e o gozo via efeito poético está escasso. A linguagem marginal nunca foi tão necessária. Talvez o susto causado pela linguagem marginal possa mobilizar o sujeito a compreender de outra forma os eventos tão banalizados atualmente. No susto pode haver um furo na camada do politicamente correto, do bem-estar social! Assim, novos poetas podem se formar a partir daquilo que é novo, transgressor, a linguagem.

Para a emoção via efeito poético, o leitor deve ser também um poeta, mesmo que em germinação. Ainda, toda criança é um poeta, já que é dotada quase que exclusivamente do inumano! Entretanto, os ditames morais fazem com que boa parte delas perca a sensibilidade (moldam o barro para tornar-se gesso!). Aqueles que escapam dessa norma-forma são os poetas, mesmo quando nunca escreveram um poema. Ser poeta é criar com as palavras, subverter via linguagem, tal como fazem as crianças. Quem de fato consegue se emocionar, ou seja, emocionar através do outro, construir laços (que é sempre via linguagem), é um poeta, ainda que em germinação. Assim, concluo, haverá poesia um dia?


quinta-feira, 1 de setembro de 2011

mundo sem macacos



A primeira máquina
salta adiante a peça frouxa
da engrenagem baiana
(roda a baiana!)




A segunda,
sem óleo,
filha postiça,
não consegue girar a roldana.

Numa mesma indústria,
uma engrenagem encontra-se com a outra.
A segunda torna-se objeto,
enquanto a primeira esbanja óleo e dentes tortos.


domingo, 28 de agosto de 2011

desejo

vem sempre subsequente
não se satisfaz completamente

bule quente


bole
bole
que bolina
a mais santa das meninas

sábado, 27 de agosto de 2011

Poesia, análise e prostituição: subversão via linguagem


Poesia, análise e prostituição: perspectiva subversiva da linguagem

Poeta, profeta, protesta. A profecia anuncia o que virá. O profeta fantasia a realidade: partindo do imaginário, constrói e proclama um novo momento. Não é diferente o poeta. Ele sublima (ou seja, possibilita outro rumo ao desejo), e através da escrita constrói novos horizontes. O poeta subverte a linguagem, como a dar forma ao desejo, como a realizar o desejo. A transgressão é característica básica de quem é tomado pelo desejo, uma vez que a pulsão não segue os ditames morais. Não é falar com o desejo, porque o poeta é tomado pelo furo, pelo inumano, pela linguagem. Talvez, por isso, nasça o poema, e, em seguida, outro vem subsequente (o desejo não pode ser satisfeito completamente). Apesar da escrita, não há realização do desejo, o furo permanece! Há uma fome, fonte d'alma, que momentaneamente consegue se dar por satisfeita - nasce o poema -, há o gozo, mas, momentos depois, a fome (da fonte do desejo) toma o artista novamente - mais um ato subversivo (protesto) pode comparecer via escrita; é poesia.

O poeta é subversivo! Se o material primitivo da poesia é o desejo, o poema só pode ser um ato de transgressão. O desejo é o gigante que não se cala. O desejo é o inumano que esbraveja n'alma um grito por satisfação. Somos seres estruturados pela linguagem! Portanto, no poema, mais que nunca (por ser linguagem também), comparece as formações do inconsciente: metáfora e metonímia (para Lacan), condensação e deslocamento (termos Freudianos). Digo, enfim, que não há moral que sobreviva ao submundo da linguagem. Os sonhos podem ser completamente imorais, a ponto daquele que sonhou esquecê-lo, ou não conseguir se esquecer - com a poesia não é diferente! Apesar da repressão ser menor durante os sonhos, o poeta convive com toda parafernália linguageira. Enfim, pela poesia haveria a manifestação do inconsciente, que é imoral, inumano, transgressor.

O analista não é diferente. Ele, principalmente ele, deve conviver com a ordem do inconsciente, com os fatores linguagueiros, o inumano etc. A psicanálise só se fundou pela linguagem, mais especificamente, pela associação livre (que não é nada livre!). O analisando é associa-dor-nada-livre, já que funciona de acordo com o inconsciente (não há acaso em uma análise), e mais, essa fala-deslocada permite ao analisando se rever perante o Outro, perante si. O analista é subversivo como o poeta. O léxico estático do dicionário tem pouca utilidade para os variados significantes que surgirão em uma análise; pouco ou nenhum sentido ao poeta (os neologismos são mais interessantes!). Assim como o poeta faz constantemente neologismos, o analisando cria novos significantes que vão dar conta do Significante-Mestre. O  sentido é o que importa ao poeta, assim como para o analista. Uma palavra pode ter apenas um significado (levando em conta o dicionário), entretanto, possui, invariavelmente, diversos sentidos ao poeta-dor - o analista e o poeta. Diria que o sentido é a forma de satisfazer desejo via linguagem. Enfim, se o poeta não está implicado com a forma, o analista não o está com a norma.

O lugar do analista é qualquer lugar, não o lugar nenhum. Ele entra em cena em qualquer espaço, demarcando uma escuta própria. O poeta é de todos os lugares, um profeta que protesta. O analisando, ao chegar ao fim da análise, poetiza o próprio sentido da vida; faz profecia deliberada. A libertinagem da fala, que bolina em diversos significantes, aproxima o poeta e o analista da prostituta.  A prostituta faz no real o que o poeta e o analista fazem no simbólico. A transferência, em uma análise, pode simbolizar o ato de prostituição. A prostituta vai ao ato! Desata o nó, comparece o real. A prostituta faz no corpo o que o poeta e o analista fazem na linguagem; corpoesteria. E transgride no ato (independente da vida levada em outros espaços). Todos os três aqui comparados ocupam lugares e, por isso, seria no mínimo ridículo dizer que toda prostituta é perversa. Ela ocupa um lugar de transgressão, mas há pouca distinção entre essa que vende o corpo e aquele que vende poemas; que vende análise. O neurótico pode ocupar todos esses espaços, através da sublimação, mecanismo da neurose, ele pode dar vazão ao desejo via prostituição, via poesia, via análise. O perverso igualmente: o desejo de ser um falo ambulante pode fazê-lo prostituir (que é ser desejado); poetizar ou analisar. Até o psicótico pode ocupar esses espaços, ou seja, não é a estrutura que faz o ato perverso, mas tão somente o sintoma de cada um que comparece ali.

Mas muitas perguntas nos fazem refletir sobre a prostituição. Se não é questão de estrutura, o que leva alguém àquele lugar? Por que é tão discriminada a prostituição? E as diversas formas de prostituir: o desejo é o mesmo? Não, de fato não é questão de estrutura (basta escutá-las para perceber neuróticas, perversas e psicóticas desempenhando a mesma função). Esse fenômeno está muito mais ligado ao lugar ocupado por aquele sujeito. Assim, uma mulher pode ser uma boa mãe (boa no juízo da moral civilizada) e comercializar o corpo à noite. Vejo no desejo de analista um pouco do desejo do poeta e da prostituta. Esse desejo, tão caro à psicanálise, não é algo objetivo, prático e determinado, ao contrário, o desejo do analista está implicado diretamente ao sintoma psicanálise. Freud, como se sabe, foi tomado por esse sintoma, assim como Ferreira Gullar foi tomado pelo sintoma poesia. O poeta também não escolhe racionalmente ser poeta: a linguisteria toma esse ser de tal forma que o sintoma já é a poesia. Não é questão de escolha, mas, tão somente, um desejo de ordem subjetiva que toma o sujeito. Quando o sintoma é a psicanálise, pode haver um analista em deformação. Na prostituição ou na poesia, não é diferente. O sujeito também é tomado pelo inconsciente.

No desejo da prostituta há o desejo de ser desejado. Arrisco-me a dizer que a linguagem mais apropriada da prostituta é o corpo, que o sintoma se manifesta via corpórea. Isso me lembra o momento autoerótico, narcísico, em que a criança se ama. Entretanto, a prostituta já está adiante, já que há um outro nessa relação. Dessa forma, ser desejada remete aos primeiros momentos de vida, em que o outro (pai) a observa, a deseja. Há um pai simbólico rondando a prostituta. Há uma relação intrínseca com a lei – não é à toa que o ato de prostituir seja considerado transgressão social, embora tolerado socialmente. Haveria (na promiscuidade da prostituição) um ato simbólico incestuoso. Todos os homens representariam o homem, o pai, a lei, o Outro.

Há uma diferença entre poeta-analista e a prostituta. Tanto o poeta quanto o analista não vão ao real do sexo. O poeta, via imaginário, pode construir um novo horizonte (um mundo melhor ou pior aos olhos do poeta): pode haver um poema que insulte o rei (mas a morte será simbólica ali). O analista, por sua vez, pode ocupar (via transferência) diversos lugares, simbólicos, para o analisando: ora como pai, ora como amante etc. Entretanto, para o sujeito entrar em análise é necessário que a ordem simbólica permaneça, ir ao ato sexual  poderia romper essa relação transferencial. Ou seja, estou a dizer que a prostituta é aquela que vai ao ato: o real do sexo comparece. Mas no final de tudo, tanto analista como o poeta e a prostituta, ocupam o lugar de objeto “a”, pequeno resto. Já não se sabe quem é o poeta (apenas o efeito da poesia); somente o efeito da análise do sujeito (fim de análise); só o alívio da fantasia e da libido serão postos após o ato com a profissional do sexo. 

A prostituta deseja ser desejada como a filha perante o pai. Além: o desejo da prostituta está diretamente ligado ao desejo inconsciente infantil, o incesto. A prostituta responde a um desejo infantil de ter o pai, ou seja, ela procura, nas relações sexuais, um pai que possa existir ao menos por alguns segundos. A relação com o pai teria deixado resquícios. Esse pai teria deixado sinais que retornariam na puberdade. Poderia ser pai que tivesse falhado perante a ordem normativa, mas não só. Talvez um pai que nos excessos de carinhos tivesse feito a filha desejá-lo tão profundamente que, após as fases erógenas, ela tivesse desejo de retornar àquelas carícias. Enfim, na prostituição feminina há resquícios do pai retornando. 


(texto não finalizado)

Puta(ria) da linguística

o poeta é a puta das palavras
transa de A a Z
só não recebe
faz por prazer

Genocity


Genocity

Estado genocida cria genocídias frondosas

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Pressuposto

Pressuponho que haja humano
família
amigo
a gente


Suponho
o pai, o amor
o suposto saber

Mas vejo libido
bagaço de cana contra a parede
caído

O inumano supõe o saber
transpõe a gente!

Gozo Desmedido



Em setembro nascerá o meu filho, o livro Gozo Desmedido. Em breve divulgarei a data do lançamento. 

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

máxima pós-moderna


É politicamente errado
questionar o politicamente correto

máxima pós-moderna

não há problema em ser ateu
desde que se creia num deus

terça-feira, 16 de agosto de 2011

No ovo da Ema brotou uma estrela


No ovo da Ema brotou uma estrela (Dedicado a Marcos Alves Lopes)
De Cacau Cruz.

Era um astrônomo que buscava desvendar as estrelas no interior dos homens.
Estrelas confusas, de cores difusas e brilhos secretos.
Cientista que colocava dentro de um microscópio as miudezas da natureza humana.
De dentro para fora ou de fora para dentro? Não importa. É pé na porta. E porta é para ser aberta.  
Tinha o dom da oratória e do paradoxo metafórico.
Era inspiração inspirada.
Mestre observador dos lances viscerais no tabuleiro da vida.
Literatura atrevida, psicanálise (re)inventada, poesia, proesia, poema.....
E a Ema? Que ema?
Não precisa de rima. Marcos é literatura feita de baixo para cima, ou será de cima para baixo?
Veio de ouro no lodo da terra, mas não é poeta ou escritor. É inventor!


(Esse poema é de Cacau Cruz, amiga e poeta, que me presenteou com esse belíssimo texto. Não sei o que dizer... Valeu, Cacau!)

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

A gente

A gente
é d'A gente
fato do acaso
agente de fato

sábado, 13 de agosto de 2011

Vadiagem noturna


Não quero o amor morno dos lençóis embaraçados
quero a fugacidade do desejo (não dito, mas profetizado)
dois corpos num anel de fluxos - fluidos e gemidos
quero, antes, o fim do dia
num crepúsculo que anuncia
mais uma noite vadia!



À Fernanda Gonçalves Padilha, minha nega.

noite vadia



Quero ser lágrima que nasce nos teus olhos
percorre a tua face e morre na tua boca.
Quero ser o gemido do teu corpo ao penetrar o meu.
Quero ser a fome que te consome ao me ver partir,
e a dor que te desola por não poder dizer que é só meu.


Sou o sussuro dos teus sonhos a me pedir para ficar


Não quero o amor morno dos lençóis embaraçados
quero a fugacidade do desejo (não dito, mas profetizado)
dois corpos num anel de fluxos - fluidos e gemidos
quero, antes, o fim do dia
num crepúsculo que anuncia
mais uma noite vadia!




Produção coletiva:
Eu e Cacau Cruz

(Minha parceria com Cacau Cruz está cada vez mais interessante! Valeu, Cacau!)




sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Canalhice pau no cu


Canalhice pau no cu


“Porra, mas que merda é essa?”
“Eu estou te pagando e nós combinamos que você não iria reclamar...”
“Eu não estou reclamando, estou te perguntando: que merda é essa?”
“Cale a boca, caralho!”
“O que é que você anda comendo? Meu Deus, que merda!”
“Você tirou? Por que você tirou? Eu falei que não podia tirar!”
“Olha, eu estou acostumado com essas coisas, mas eu juro: nunca vi uma porcaria dessas.”
“Não olhe então, caralho! Fique quieto! Cale-se e não olhe! Faça como combinamos.”
“É sério, não há dinheiro que pague isso, nunca mexi com tanta porcaria, isso é doente.”
“Fique quieto, está machucando, porra!”
“Aff! Toda vez é sempre a mesma coisa, eu não te entendo, dói?”
“Cale a boca, caralho!”
“Se não está bom por que não para com isso?”
“Quieto, cacete!”
“Tá ficando duro, viu?”
“Não faça isso!”
“Por que não? Não é melhor assim? Hein?”
“Sai, sai!”
“Nossa, mas que merda!”
“Fale baixo! Minha mãe pode ouvir!”
“Sua mãe? Mas ela não tinha morrido?”
“Se ela te ouvir, te mato, juro!”
”Tudo bem eu falo baixo, mas me responda: quem foi mesmo que você matou? Seu pai ou sua mãe?”
“Ai, ai, cacete! Não mexe, não mexe!”
“Não posso mexer, não posso falar, esse fedor... Vai se fuder seu merda, faça isso sozinho! Nem todo mundo é igual a você, entendeu? Eu vou embora, chega!”
“Não, não saia. Não se mexa e não saia, por favor.”
“Então me conte, me conte”
“Contar o quê?”
“Quem você matou? Seu pai ou sua mãe?”
“Eu não matei ninguém! De onde você tira essas ideias?”
“Esqueça, vou embora, já acabou o tempo”
“Já? Mas...”
“Ei, ei! O que é isso? O que foi que você fez? Meu Deus, o que é isso? Você cortou?”
“Não olhe, não olhe!”
“Por que isso?”
“Eu sinto um vazio...”
“Não me diga que você enfiou.... não fez isso, não é mesmo?”
“Fiz! Quer ver? Fiz há muito tempo. Veja! Veja!“
“Que caralho é esse? Merda! Isso tá apodrecendo aí, filho da puta!”
“Não fale assim!”
“Por isso é que ninguém te vê, né filho da puta? É nessa merda que você se enfiou, puta merda! Caralho! Vai tomar no seu cu, porra! Ainda faz eu me meter nisso! Porra!”
“Não vá embora, por favor!”
“Fique longe de mim, seu filho da mãe!”
“Não me deixe!”
“Chame ela! Quer foder alguém? Chame ela!  Filho da mãe! Filho da mãe!”
“Não vá embora! Não, não, não, nããããããããããão!”



Autoria: Matheus Padilha