sábado, 26 de fevereiro de 2011

OFÍCIO-NENHUM-NÃO-É-PRA-QUALQUER-UM

Dou nó no Diabo, mas não engano uma criança. Crianças nasceram para enganar - são todas melhores que eu! Já o resto... Os mortais têm cor escura e fedem! Opa!... Não vou pelos filosofemas ignacianos, tenho meus próprios métodos.

Tenho ofício-nenhum. Isso mesmo, nenhum! Muitos desempregados dizem estar fodidos, sem emprego, sem amigos... Dá tudo na mesma! Eu não, tenho meu ofício, que é nenhum. Explico: acordo todos os dias o horário mais conveniente, geralmente depois das dez. Em seguida, faço o que deve ser! Como, bebo, cago e transo comigo mesmo. Tudo que os mortais fazem e não dizem. Sobre meu ganha-pão, prefiro chamar de ofício aquilo que chamam profissão. Tenho nenhum e, mesmo assim, como caviar e bebo champanha. Aquilo que os mortais sonham, tenho como enfeite. É resto!

Não conseguiria ensinar meu ofício para outrem, já até tentei! Para exercê-lo, não basta conhecer de pintura, carro, escola, ou coisa que o valha... É por isso que adoro assistir videocassetadas, sempre dizem para não tentarmos fazer aquelas coisas. Muito parecido com o ofício-nenhum!... Não há lugar certo para aprender o que faço: os parques, em casa, em todo espaço aprende-se naturalmente. Às vezes caminho pelos parques, outras fico em casa conversando com o cão vizinho. Moro numa casa geminada, por opção, e todos os dias ouço os ganidos do cachorro ao lado. Não sei se ficaria bem num lugar longe das vozes dos cães e dos humanos, os mortais me seduzem. Às vezes, sento-me perto da parede e dou-me a ouvir o silêncio embaraçado com os latidos do animal – faz parte do meu ofício.

Outro dia, recebi uma ligação do sujeito-que-não-me-lembro-o-nome. Ele dizia que queria aprender a minha arte. Engraçado, ele chamou isso de arte!... É mesmo incrível, os mortais têm uma necessidade imensa de dar nome às coisas. Antigamente, até eu mesmo resolvi ler livros que prometiam vida melhor. Um coisa legal foi perceber que essa literatura sempre traz um animal como metáfora: ora aprendemos a ser cães e odiar gatos, ora somos gatos que fogem de cães - li e gostei principalmente da história do escritor. O que era narrado estava no órbita do desprezível, entretanto, conviver com o livro por uns meses, na cabeceira da cama, era ter comigo quem se atreveu a passar para o papel aquilo. Eles eram mesmo interessantes! Corajosos, além de tudo! Acordei várias noites para segurar o livro... Meus pensamentos transbordavam e, noutro dia, sempre ganhava dinheiro fácil. Simples assim!

Ganhar dinheiro para quem tem ofício-nenhum nunca foi difícil. É, antes, uma consequência de estar vivo. Quem-de-si-de-ter-ofício-nenhum, está emaranhado de várias vozes estranhas (não, esse "de si de" não é meu... tirei mesmo do Guimarães!). Talvez por isso seja tão fácil dar nó no Diabo. O Demo sempre se achou seguro demais... Não tenho vocação religiosa, mas aprendi muito com as trapaças divinas.

Numa sexta, fui à feira. Comprei um gostoso pastel e danei a comer. Como sou um eterno e fiel praticante do ofício-nenhum, passei a contemplar os mortais. Eles transitavam com o cheiro próprio dos normais... Eu, que nunca estou de saco cheio para os mortais, ao contrário, dou-lhes crédito para perceber o coração, ouvi um casal que engolia pastéis. Estavam dilacerados, prestes a desmanchar o sagrado matrimônio, simplesmente porque não conseguiam pagar as próprias dívidas. O consórcio já lhes tinha tomado o veículo e a casa estava a um passo... Perguntei à mulher se já tinha lido os best-sellers - a mim, faltava-lhe uma dose cavalar de leitura comercial. A moça, como que deixando o caminho aberto, contou que o marido era viciado nessa literatura, conhecia a história do rato que roeu, roeu o quê? Ela caia na risada enquanto falava dos bichanos. Parecia um pouco decepcionada com o esposo...

Dei meu jeito cristão! Tive um acesso de caridade e resolvi levá-los ao meu apartamento. Claro, levei a um que deixara exclusivo para aventuras - toda vez que queria ouvir alguém, eu o levava àquele lugar. A mulher-falante da feira não conseguiu esconder o espanto ao entrar no meu espaço: disse sobre a decoração e patavinas mais... O marido apenas observava. Minha promessa era ensiná-los a ganhar dinheiro - esse era o sonho do casal! Na verdade, eu queria fazer uma caridade, porém sempre achei estranho dar dinheiro, chinelo, comida para outrem. Penso como meu falecido pai: “Deviam ensinar a pescar, não dar o peixe frito!”. Depois de uma longa conversa, quer dizer, monólogo, já que apenas a mulher falava, disse que não tinha como ensinar tudo naquele dia, e marquei outro encontro.

Os dias passaram e quase todas as semanas recebia o casal. Depois de alguns meses, percebendo o fracasso deles, passei a marcar sessões individuais, o que também não foi muito proveitoso. Um ano e meio de muita conversa... Confesso, queria fazer como um artesão: lapidar aquelas pessoas para fazê-las ganhar dinheiro. Todavia, o casal continuava brigando e sem um puto no bolso.

Mudei de estragégia. Numa segunda-feira, disse que começaríamos a fase prática. Essa etapa consistiria em tentar aplicar, à maneira própria, o que havia sido aprendido depois de longos dois anos. Começamos bem: elimei as sessões individuais, passei a observar e opinar em cada ação realizada pelos dois – eu estava otimista! Talvez estivesse pensando tão positivo, porque aquela era a primeira vez que tomava a docência como profissão... E não queria me frustrar!

Após duas semanas supervisionando o estágio, recebi a lastimável notícia... Meus dois alunos estavam presos! Afinal, ofício-nenhum-não-é-pra-qualquer-um!

sábado, 19 de fevereiro de 2011

BUCEIÇÃO

No início ela acompanhava o marido em todas as visitas aos fiéis. Pastor Rubem, o marido de Conceição, era um rapaz nada simpático com os homens, já com as mulheres, principalmente as mais jovens, ele tinha grande estima. Conceição conhecera o pastor num orfanato. Ela media um metro e meio e tinha pelos onze anos. Ele, homem formado, fazia orações quinzenalmente naquele lugar. Não se sabe exatamente a razão, mas Rubem passou a olhar a adolescente de forma mais contemplativa que as demais.


Conceição não tinha traços que atraíssem a presença masculina, mas o corpo... O corpo de onze anos tem um quê de perversão! Os seios, basta mudar o tempo para despontar os bicos saltitantes. As pernas, torneadas naturalmente... Não há academia que dê conta daquilo. As demais fiéis do pastor Rubem começaram a perceber que Ceição estava recebendo um tratamento especial: não só ganhava frutas, doces, principalmente chocolates, como sempre era a primeira a ajudar o pastor nos momentos de apuros. Não deu outra, todo orfanato passou a comentar a amizade dos dois.


O tempo passou, e pastor Rubem resolveu assumir o que consumia o coração. Ceição tinha por volta dos treze anos quando passou a viver junto com o pastor. Foi um verdadeiro escândalo... Os fiéis deixaram a congregação alegando pedofilia naquela relação, mas, claro, o esquecimento é uma boa arma, até ao mais nobre cristão. A maioria dos irmãos deixou-se levar pelos fortes argumentos do pastor: “O inimigo está à espreita! Quer roubar nossa alma, irmão!”. Casou-se com Ceição, mas alegava ser apenas uma mucama – para reaproximar os fiéis. Assim aconteceu! Após alguns meses, boa parte da congregação já estava cantando e pedindo perdão pelos pensamentos malignos. Como eram pertinentes as palavras do pastor!


Pastor Rubem demorou penetrar Conceição. Achava ser muito cedo! Antes, porém, fez o favor de demorar bastante nas preliminares, era uma preparação importante. Chegava a ser cansativo, mas necessário! Toda noite, chupava tanto os lábios carnudos da vagina de Ceição que, no outro dia, ela não parava de reclamar dor. Deve ter sido numa dessas que a garota rompera o hímen... Num certo dia, cansado de passar horas a língua nas genitais de Ceição, resolveu penetrar a jovem moça. Nesse dia, fez uma grande preparação... Antes de iniciar, orou a Deus e pediu que abençoasse o casal: “Em nome de Jesus, amém!”. Preparado, abençoado pelos céus, lançou-se à empreitada. Beijou demoradamente os lábios da moça, e, quando já estava prestes ao gozo, tirou as próprias roupas e entrou em Conceição. Não houve resistência alguma, o pênis passara tão fácil que o pastor ficou assustado, entretanto, para não admitir que tinha o pau fino, fingiu que estivesse tudo normal. Encenou o gozo e dormiu... Ela, por outro lado, que não esperava com muita ansiedade o gozo do marido, teve certeza que aquele não era seu pau-amado – e foi à luta.





Sou filho de um casal feliz! Meus pais se casaram bem depois do meu nascimento. Tinha dez anos quando papai e mamãe foram ao cartório – lembro-me como se fosse hoje! Mamãe forçara o casamento, porque tinha medo da ajudante fiel do pastor Rubem – Ceição jurava ter achado o pau-amado, o pior que era justamente o do meu pai. Nós três – eu, papai e mamãe – íamos todos os dias ao culto, exceto sexta-feira que não tinha.


Era sexta-feira, umas quatro da tarde, estávamos com a senha de número 666 aguardando a hora certa para dizer: Madalena e Epicuro, marido e mulher. Não teria festas, mas o importante para minha mãe é que a aliança nos dedos do casal tivesse o efeito de afastar mulheres mal intencionadas. Quatro da tarde, e quem aparece? Conceição. Meu pai ficou estarrecido; minha mãe franziu a testa e fechou as mãos. O clima tinha ficado tenso! Eu, que sempre fui brincalhão, não percebi a presença da ilustre Ceição. Notei apenas a fala de mamãe: “Epicuro, se olhar essa lambisgoia, eu vou embora”, e ia mesmo... Foi aí que resolvi olhar Ceição.


Olhei e não me contive... Conceição engordara muito! Além do mais, estava com uma calça tão apertada – acho que o número estava bem aquém do dela – que transparecia a rachadura da boceta. Havia um corte claro, um cofre na parte da frente! Sem perceber, gritei: “Cuidado, pai! Lá vem a BUCEIÇÃO!”. Todos no lugar ouviram e caíram na gargalhada... Minha mãe, a recatada Madalena, não conteve os risos, quase vomitou... Até meu pai, com tom áureo de sempre, acabou abrindo timidamente um sorriso. As pessoas em volta não se intimidaram, soltaram o saco de risada... Muito divertido! Quando Buceição percebeu que eram para ela aquelas insinuações, virou as costas e se mandou. Não sei bem, mas penso que minhas brincadeiras não são de todo ruim... Papai e Mamãe continuam juntos e continuarão eternamente.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

O PAU QUE FALTAVA

Nada melhor que acordar em casa depois de uma noite de bebedeira. O computador está livre, a mente já ressuscitou - não há nenhum pecado em mim agora! Meus dedos deslocam tranquilamente pelo teclado... Parece que a tão sonhada liberdade é atingida ao pressionar as teclas. Não há depressão alguma para quem aprendeu a se explodir, antes de se tornar imenso de futilidades.

Ontem, as palavras foram interrompidas sem por quê. Há um verdadeiro diálogo em quarenta minutos? Entro em sua casa escura e demoro algum tempo (cinco minutos, talvez) para ligar o motor da fala. Não se trata de timidez, mas é que tudo ali parece artificial, um laboratório para a associação livre. Depois de romper a barreira terrível do silêncio, e vencer o olhar inquisidor do analista, nossa conversa acaba sem explicações, pior, levo sempre uma pergunta diabólica: onde está minha mãe? Por isso, preciso mesmo sair daquele espaço e procurar a fala livre dos bares. Não me é suficiente iniciar um diálogo com hora certa para acabar!

Depois da minha análise, acabei-me num bar no Setor Universitário - é difícil racionalizar os poderes que norteiam os mortais. Não posso deixar de dizer que parte da minha infância foi reencontrada entre os goles de cerveja. Tudo parecia uma pintura barroca (é como se para chegar à igreja tivesse, antes, que passar por um imenso labirinto!). Conversar com Viviane foi relembrar o tempo em que não havia beijos, mas havia amor de fato. A disputa de notas entre nós tinha o poder poético-sexual! Verdade de sexta série: só quem desconhece o amor, ama profundamente!

Viviane admitiu-se lésbica. Não sei o que dizer disso... Percebo nela o terrível medo de olhar para mim... É como se não quisesse assumir que um homem já mexeu ou mexe com ela. Não sei sobre os demais mortais, mas tenho certeza que a fiz pulsar de desejo - aquele desejo infantil de sexta série... Acho que nosso reencontro nos fez relembrar essas nuances. Talvez eu seja o caminho interrompido da heterossexualidade perdida de Viviane.

Segundo encontro... Fui a um bar aleatoriamente e pedi uma cerveja, como tenho o costume insano de andar em bando, o garçom trouxe vários copos. Após os primeiros goles reparei que a menina loura de olhos azuis (serão verdes?) estava logo à frente. Em nosso primeiro encontro, Viviane estava sentada na mesma mesa que eu, mas não a reconheci. Incrível, nossa mente esconde o quer lembrar! Contudo, a vida é senhora de si; traz o que foi esquecido para o seio da consciência de forma inusitada. Quanto ao primeiro encontro: Viviane me reconhecera e os dias adocicados vieram à tona.

Voltando ao nosso segundo encontro. O garçom nos trouxe cerveja e vários copos, minha mesa estava de frente à de Viviane. Durante boa parte da noite, nossos olhares entrecruzaram-se e pude sentir algumas coisas pendentes entre nós. Esperei bastante tempo – hoje entendo que a corrida só é boa quando se contempla a arquibancada. A hora certa chegou: Viviane levantou-se como se quisesse ir ao banheiro e, meio deslocada, deu a entender que só naquele momento teria me visto. Eu, que não queria interromper a fantasia dela, também encenei um grande susto. Você aqui?! Cumprimentamo-nos... Ela se esqueceu de ir ao banheiro e ficou em nossa mesa. Durante toda conversa era nítido que minha companheira-sexual-infantil não conseguia olhar diretamente a mim, o que me perturbou bastante. Fim de noite, fiz questão de levar Viviane em casa. Ela, meio embriagada, não parava de falar que era lésbica, contava detalhadamente as experiências sexuais com o mesmo sexo. Tentei, durante o percurso, olhar para os olhos de Viviane, impossível: sempre ocorria o desvio.

Depois do nosso segundo encontro, comecei a desejar obsessivamente Viviane. Tínhamos muito em comum, entretanto minha obsessão não passava por aí. Não sei bem, acho que eu pensava na dívida... Eu tinha que pagar a dívida! Viviante tinha me contado, não me lembro se no primeiro ou segundo encontro, que depois de mim ninguém mais a teria comovido, transara muito com mulheres, mas sem o entusiasmo da sexta série - dissera sem olhar nos meus olhos. Essa era a dívida! Em outras palavras, Viviane seria lésbica pela minha ausência. Não acredito em Deus ou Diabo, mas sei que há um pecado mortal: ausentar-se da vida de uma mulher quando ela ainda está em chamas. Sem opção, queria me livrar desse pesadelo... Passei a procurar Viviane. Sabia que ela trabalhava em um hospital, desses pequenos que atendem apenas o próprio bairro. Fui lá! Entrei para observar o recinto, porém logo uma moça parou e me perguntou se estava perdido, era Viviane. Não pude deixar de rir. Após ter superado o trauma, conversamos um pouco, o suficiente para marcarmos um encontro. Disse a ela que estava com câncer, em estágio terminal, e precisava desabafar – não há mulher no mundo que não se comova com essa história. Marcamos para o mesmo bar, Pamonharia - que por sinal, não vende pamonhas - nosso terceiro encontro.

O quarto encontro aconteceu onde havíamos combinado. Tomamos algumas cervejas bem geladas – ela gostava da Devassa. Você falou que tinha algo a me contar, o que é? Viviane foi direto ao assunto, sem rodeios. Limeitei-me apenas a dizer que ali no bar era complicado comentar essas coisas íntimas. Íntimas? Ela ficou meio assustada. Após alguns minutos de diálogo, ela topou ir ao meu apartamento para que pudéssemos conversar sossegadamente. Fomos...

Viviane estava um tanto desesperada. Ainda não conseguia olhar diretamente para os meus olhos. Abrimos um vinho português, Periquita – nunca vi piadas sobre vinhos portugueses, isso deve garantir uma boa qualidade dessas vinículas. Para que Viviane não se ocupasse dos serviços domésticos, ou, simplesmente, não pensasse que sou um homem machista, ou, ainda, para que eu pudesse fazer alguma coisa longe dos olhares dela, talvez, tudo isso junto... Levei as duas taças e o vinho para a cozinha. Enchi as duas taças e trouxe, um em cada mão - o vinho ficara na geladeira. Não sou homem bem previnido, não tenho sequer gelos em casa! Ela sorveu vagorosamente o líquido não muito gelado, enquanto eu bebia um pouco mais rápido. Estou cansada! Vou deitar... Apagou ali mesmo, no tapete. Peguei o corpo macio de Viviante, levei-o ao quarto e tirei-lhe toda a roupa. Tinha uma tesoura perto da cama que foi útil para cortar os utensílios que me separavam dela. Sem roupas, e muito excitado, devolvi a Viviane tudo que lhe faltava. Penetrei uma vez e gozei... Intenso e rápido! Depois de terminar, virei ao lado e dormi...

domingo, 13 de fevereiro de 2011

ÀS ESCURAS

Decidi trabalhar como cabeleireiro. Não foi fácil comunicar minha nova vocação a todos. Digo nova, pois já trabalhava satisfatoriamente como carpinteiro, ajudando meu pai. Porém, fiz o que tinha de ser! Aprendi a nova profissão sem que ninguém suspeitasse, comprei os utensílios necessários com o meu próprio suor, e dei-me a aprender o novo ofício. As meninas gostavam de como fazia! E não demorou, em menos de um ano trabalhei o primeiro cabelo. Que frio na barriga... Era uma madame chata, insistente, mas pagava bem. Nós do salão - essa foi minha ideia - decidimos não colocar um valor específico, cada cliente pagava o que a consciência mandava. Engano pensar que pagavam pouco, geralmente eram ricas e gostavam de ser notadas - quanto mais pagavam, mais interessantes se julgavam ser! Algumas até que tentaram nos dar o calote, mas logo a dona do estabelecimento chegava, e, diante daquela presença ameaçadora, sempre recuavam. Judith, a dona do salão, era muito forte! Ela tinha o hábito de dizer que "A mulher tem de ser macho pra aguentar outro!". E completava: "Os homens procuram gays porque, nós mulheres, queremos ser bonecas de porcelanas"...Sempre muito enfática a saudosa Judith! Infelizmente, faleceu devido ao uso desmedido de esteróides. Após a morte, os filhos resolveram vender o antigo ganha-pão da família, alegando lembrar a figura da mãe. Foi aí que arrematei o negócio, usando toda economia do tempo de carpintaria...




Como todo ser de sucesso, enfrentava alguns problemas como patrão. No início até me preocupei, entretanto, acabei contratando um administrador para gerir os negócios. Com o tempo ocioso, pude dar vazão aos prazeres da carne... Pelo menos uma vez por semana ia ao shopping, na famosa loja Salão dos Óculos, fazer o que mais gostava. Como me seduzia aquele lugar! Óculos tão diversos em um espaço imensamente curto!




Ainda não disse que sou fanho. Meus colegas do colegial costumavam rir de mim porque eu nunca soube onde colocar os acentos gráficos - o circunflexo era o pior, quase impossível! Mas ser fanho não era de todo ruim... Além dessa maneira própria de falar, tinha, melhor, tenho, uma maneira gostosa de caminhar... Os despreparados dizem que ando rebolando, além de outras coisas mais grosseiras: chegam a dizer que minha voz é ridícula. Não digo que seja mentira! Gosto de perceber minhas nádegas mexendo. Também tenho um prazer enorme de saber que consigo falar em falsete, só converso em falsete! Observe, as mulheres jamais conseguirão ter uma voz grave, enquanto os homens, aqueles de verdade, sabem fazer a voz dos anjos a qualquer momento. Mas ser como sou, parece afetar alguns...





Quando entrava no Salão dos Óculos, percebia que minha voz-falsete-fanha causava comoção. Além disso, o remexer constante das minhas nádegas também perturbava os mortais. Tendo ciência disso, fazia com que todos ali direcionassem o olhar para o meu traseiro. Era sempre um mecanismo duplo: olhavam para minha bunda, enquanto alguns comentavam sobre minha voz. Após alguns minutos sendo o centro das atenções, fazia o que tinha de ser: subtraía rapidamente um óculos, sem que ninguém percebesse.




A escolha era aleatória, uma vez que me seduzia a ideia de pegar um óculos de um ou mil reais, na loteria. Não era o valor comercial do produto que me comovia, jamais! A história do item subtraído, sim, trazia um quê poético! Talvez por isso sempre escrevia algumas informações sobre o que era furtado. Tinha vários modelos, treze ao todo, todos oriundos do mesmo lugar, e da mesma forma. Além das singularidades dos produtos, outra coisa me agradava. Enquanto todos observavam minhas nádegas, ou cochichavam sobre meus trejeitos, eu logo tratava de esconder o item junto ao meu pênis. Era colocar o objeto dentro da cueca e sentir a ereção imediatamente. Que prazer!




Devo dizer que essa excitação não era passageira, ao contrário, durava até o momento em que chegava em casa. Antes de sair ao shopping, organizava o lugar onde ficaria a nova aquisição: um bloco de notas e uma caixa de óculos, lado a lado. Mexia nos objetos subtraídos quando não havia ninguém em casa, pra evitar comentários desnecessários. Como me excitava olhar minha coleção, um a um, sem demora... Às vezes minhas mãos transpiravam em busca de novos itens. Incrível! Enquanto não trazia mais um, minhas mãos não paravam de suar. Acho que gostava mesmo do que fazia... No fundo, todos devem sentir prazer!




Houve um dia em que minhas mãos começaram a chorar... Tentando enxugar as lágrimas, fui ao shopping em busca de prazer. Tudo como antes, todos caçoando de mim ou olhando simplesmente para minhas nádegas. Precipitei-me, achei que já era a hora certa, coloquei um óculos por dentro da cueca... Tenho pra mim que não viram o furto, mas quando notaram o crescimento da área genital, todos olharam para baixo. Infelizmente, uma perna do óculos havia ficado pra fora, o que fez um vendedor indiscreto - aliás, quase todos o são - gritar: "Está roubando!". Os dois seguranças vieram e fizeram com que eu assumisse o crime. Limitei-me apenas a dizer que já ia pagar o óculos... Fui ao caixa e efetuei o pagamento, setenta reais. Enquanto todos debochavam de mim, percebi ali uma ótima oportunidade. Peguei outro óculos que estava perto do caixa e levei-o ao pau, que logo fez o favor de crescer. Ninguém percebeu, ainda foi possível ver o valor do objeto furtado antes de sair, quinhetos reais. Não fiquei muito entusiamado com a diferença de preço, o que me deu tesão foi aquela coisa estranha perto do meu membro. Depois desse incidente, nunca mais fui à loja, era perigoso demais.






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Dois anos e nenhum objeto novo! Minhas mãos não param de transpirar, meus objetos estão desgastados e não existe produto algum que refaça o estado original dos óculos. Isso é perturbador! Ver os óculos e não senti-los brilhar... Além disso, há dois anos não visito meu salão: cabelos de madame sempre me lembram óculos - usam como bolsas, quanto maiores, maior o poder. Os olhares, o cochicho, o pau ficando duro junto ao objeto frio... Dois anos sem sexo! Dois anos sem ao menos me masturbar. Perto da minha coleção, procuro o brilho de outrora, nada! Organizo os óculos, deixo o bloco aberto e vou-me à caça...




Passo no salão, pego uma peruca e faço a barba. Em seguida, coloco uma roupa feminina, um vestido, para ajudar no disfarce. Dirijo-me ao Shopping... Entro no Salão dos Óculos e ninguém percebe que sou eu. Observo todos de soslaio e evito conversar com os vendedores para que não se lembrem da minha voz. Depois de caminhar pela loja, encontro uma vendedora novata, indico os óculos mais caros com a clara intenção de vê-los fora da vitrine. Ela, como se duvidasse dos meus reais interesses, foi lentamente abrir o vidro. Enquanto isso, subtraio um óculos da seção mais barata, passando-o por baixo do vestido... Não perceberam, mas meu pau cresceu! A moça, ainda duvidando do meu poder aquisitivo, trouxe os óculos, entretanto fez questão de deixá-los longe do meu alcance. Após analisar cuidadosamente os óculos, compro o mais caro.




Ao chegar em casa, guardo os óculos sob o olhar atento da minha mulher. Ela, estática, pergunta se tudo ocorreu bem. Hesito-me por um instante, mas acabo contando tudo. Durante meu relato, ela apenas escreve no bloco de anotações, sem interrupção. Após um longo monólogo, transamos loucamente...

sábado, 12 de fevereiro de 2011

psicografia viva!

Escrever é psicografar a alma! Com leves pinceladas de espiritualidade, sem perder jamais a tinta do dia-a-dia...

Em nome da MERDA, amém!

Minha mão está suja./ Preciso cortá-la./ Não adianta lavar./ A água está podre./ Nem ensaboar./ O sabão é ruim./ A mão está suja,/ Suja há muitos anos./ Carlos Drummond de Andrande, A mão suja



Ignácio caminhava toda tarde pelo Parque Areião, mas naquele dia resolvera ir pela manhã. Era comum, durante a caminhada, encontrar colegas da faculdade, alunos e antigos professores. Geralmente, esperava um tempo antes de iniciar as quatro voltas, uma vez que adorava observar os garotões malhando e comentando sobre mulheres. Já tinha concluído que os tempos eram outros! No início, aquele lugar, que frequentava por indicação médica, era exclusivo aos homens. Entretanto, nos últimos anos, Ignácio percebera que as mulheres estavam tomando conta do pedaço, com uma diferença básica: comentavam sobre homens e mulheres, sem distinção de gênero.




Ignácio, como todo mortal do século XXI, não só fazia caminhadas, como tinha uma vida social um tanto complexa. Na faculdade, ministrava aulas de literatura contemporânea. O que chamava a atenção era que, em quase toda explanação do professor, deixava escapar uma concepção de vida um tanto estranha. Espalharam inclusive um boato malicioso sobre Ignácio... Diziam que, numa análise sobre a poética Drummoniana, Ignácio teria dito: "Resumir Drummond é fácil, basta você aplicar a teoria da merda: da merda viemos, à merda voltaremos!". Digo ser boato porque a aula não foi gravada, apenas por isso! Outros incidentes também foram mencionados pelos ex-alunos do professor. Contam que Ignácio estava num bar, e, depois de alguma bebida, desabrochou a falar. Disse que os humanos são merdas ambulantes! Que não só os seres humanos são merdas, mas toda essência viva carrega a tonalidade de fezes. Ainda citou Ferreira Gullar dizendo em alto tom: "Introduzo na poesia/ a palavra diarréia./ Não pela palavra fria/ Mas pelo que ela semeia". Diante do espanto geral, Ignácio ainda completou: "Da merda viemos, à merda voltaremos!".




Com o passar do tempo, Ignácio começou a levar muito a sério os seus filosofemas. Os banhos já não eram regulares, os dentes, raramente escovados, e os cabelos deixaram de ser penteados... Como Ignácio não era casado, muito menos possuía filhos, as pessoas demoraram a perceber o que estava a acontecer com ele. O fato é que as aulas estavam cada vez mais repletas de filosofemas ignacianos - como passaram a ser chamados. Dizia que os estudantes, no lugar de ler Rubem Fonseca, deviam se atirar ao submundo brasileiro. Deviam, ao invés de ler literatura marginal, procurar fazer uma prática marginal, que não reproduzisse os modelos, mas que criasse uma nova forma. O discurso era convincente! Após alguns anos de pregação insistente, vários alunos e ex-alunos começaram a seguir o mestre, cada um a seu modo. Alguns deixaram de comer, querendo tornar-se flores - sonhando realizar fotossíntese! Outros, iniciaram a filosofia do dia-a-dia. A cada manhã acordavam de uma maneira: hoje macaco, amanhã uva, depois um livro... Um fenômeno interessante!




É desnecessário dizer que Ignácio fedia, fedia merda! Um ano passado, e o círculo da filosofia do dia-a-dia, também conhecida como filosofia da merda, crescia consideravelmente. Os pais já não sabiam como lidar com a nova situação, os professores conservadores pediram demissão, consequentemente, a faculdade passou a ser referência nos ensinamentos ignacianos. Ele chegou a ser convidado para ir ao Programa do Jô, mas a entrevista não foi realizada porque o cheiro já era impossível de ser tolerado em ambientes fechados. Não sei bem... Mas Ignácio e sua trupe só tinham livre andar pelos parques de Goiânia e pela faculdade, onde habitavam. Talvez porque as pessoas depois de caminhar ou correr pelas pistas, desenvolvem um odor diferencial, muito parecido com a merda. E quanto à faculdade, todos já exalavam o mesmo cheiro, inenarrável.





Dias passando e Ignácio continuava paulatinamente suas descobertas. As pequisas literárias passaram, todas, a trazer algo sobre os cheiros, em especial aqueles não tolerados pelos mortais. Parafraseava Kundera dizendo que "A luta do homem contra o poder é a luta do cheiro da merda contra o esquecimento". Contava que uma sociedade morta é aquela que esconde a verdadeira essência, a merda! A faculdade da filosofia do dia-a-dia ou faculdade de merda, acabou aglutinando as demais faculdades. Os positivistas já estavam fracassados! Agora, não havia História, Ciências Sociais, Medicina ou Engenharias, era tudo Universidade do dia-a-dia, que, claro, estudava os filosofemas ignacianos. O futuro universitário estava bastante delineado: aprofundar nas discussões, para que a merda pudesse aparecer...




As Teorias Ignacianas ganharam respeito internacionalmente. Professores de universidades renomadas vinham ter aulas com o célebre Ignácio ou com alunos prodígios do professor. As aulas eram peculiares, a começar pela arquitetura da sala. Tinha o formato, a cor e o cheiro da merda. Não eram todos que conseguiam assistir três horas de seminários, alguns até vomitavam. Sobre o vômito, eles tinham que realizá-lo ali mesmo, entre os alunos, já que o odor do lugar trazia uma conotação pedagógica. Com o correr do tempo, a sociedade civil começou a se encantar com as novas teorias da universidade. O movimento em torno da merda cresceu tanto que o nome da universidade foi alterado. Agora sim, Universidade de MERDA! Assim mesmo, em caixa alta, pois simbolizava todos os anos de estudo daquele grupo. A sociedade já era outra! Até mesmo o presidente da república fora substituído por uma porção de merda. Quem decidia pelo país não era o presidente, mas a renomada Universidade de MERDA. Perguntado sobre as mudanças de paradigmas, Ignácio disse: "Tudo que é merda desmancha ao ar!". Não digo que morreram os movimentos de resistência, mas, um pronunciamento vindo da Universidade de MERDA, pôs fim a qualquer tentativa de retroceder, de esconder a merda. "O que acontece no Brasil já era uma reivindicação histórica há anos!" - como eram sábias as palavras daquele grupo, consideravam os mortais.





Os tempos mudam... E agora temos Ignácio no parque Areião, o velho Parque Areião, agora de MERDA. Sim, e na parte da manhã! Todos ali já sabem das conquistas ignacianas de MERDA, das mudanças socias de MERDA, da socialização da MERDA, das novas religiões de MERDA. A palavra merda já não podia ser escrita em letras minúsculas - desrespeito à cultura local. Agora, sempre com letras maiúsculas, MERDA! Uma revolução acontecera! Mas Ignácio acordara aquele dia de saco cheio... Não queria ser notado, estava com saudades do tempo em que caminhava sem porquê. Cansara de ser idolatrado, ser um guru de uma nação...




Acordou, e foi ao banheiro. Ligou o chuveiro, de onde já não caía muita água devido ao longo tempo de desuso. Tomou um demorado banho e, após uma longa reflexão, Ignácio pôs-se a fazer a barba. Em seguida, abriu o guarda-roupas e encontrou uma roupa limpa, embora um tanto empoeirada. Vestiu-se, e foi ao Parque Areião de MERDA, queria caminhar! Chegando lá, sem que ninguém o conhecesse, sentou-se ao meio-fio e começou a ouvir o mundo... O novo mundo de MERDA! Entendeu que tudo ali não passava de MERDA! Depois de alguns minutos, levantou-se e iniciou a caminhada...

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

OLHOS ABERTOS!

Vir à praça num domingo tem um brilho especial. Não é porque já começou a florir, ou pelos cachorros que, aliás, são sempre incríveis. Adoro flores e amo os cães, mas o que me chama atenção nos parques de domingo está em outra atmosfera, na órbita do que não se pode dizer, naquilo que não se compreende. O juízo extremado dos humanos me põe fim ao imenso prazer contemplativo dos jardins. Eles não sabem olhar: veem sempre o que está fora com o julgamento interno. Jamais conhecerão o doce olhar natural...



Quando nasci, fui prometido em casamento à vizinha, melhor, à filha da vizinha, que até então não tinha nascido. Desde pequeno fui aprendendo a amar uma pessoa que não existia. Eu, como meu papai dizia, era alguém diferente de todos, pois já tinha aprendido a sentir. Mamãe falava que "Crianças levam tudo na brincadeira, já que quase ninguém as entendem". Entendo isso agora: os adultos geralmente não percebem que a fantasia revela aquilo que é difícil dizer, ou até impossível! Lembro-me, claramente, quando me apeguei à gatinha da minha falecida mãe. A gata cujo nome me arrepiava, chamava-se Dendê - não sei por que cargas d'água esse nome causava calafrios. Confesso que ainda hoje não compreendo tudo, apesar de já ter passado noites a fio refletindo sobre essas sensações esdrúxulas. Ficávamos noites inteiras juntos, eu e Dendê, sem fazer nada, apenas nos olhando... Eu não permitia que ela dormisse antes de mim. Habituei-me a esperar Dendê dormir primeiro, após o maravilhoso sono, eu apagava. Isso se repetiu até meus doze anos, quando outras coisas foram me interessando mais. Não digo que deixei de amar Dendê, até hoje carrego a correntinha dela na carteira, mas é que, depois dos doze, comecei a me interessar pelos parques.




O início foi muito difícil. Uma forte atração me conduzia aos parques... Passava a parte da manhã inteira por lá! Mas quando chegava em casa sentia um tremendo remorso - tinha traído Dendê. Mesmo assim não censurei minha imensa vontade de contemplar: olhava as flores, em especial as brancas e amarelas, os cachorros e as crianças. Observar os cães era sempre mais doloroso! Como podia admirar os inimigos de Dendê? Isso era traição!



Comecei a amar cães e flores. Não havia nada mais cruel que ver cães pisando nas flores, aquilo me dilacerava. Minha gata já não estava bem, ela carecia de cuidados especiais, mas o que eu fazia? Passava o dia inteiro nos parques... Ora num, ora noutro, mas sempre espreitando as flores e os cães. O adoecimento de Dendê foi se tornando mais grave, não posso ocultar o sentimento que me apoderou covardemente... Fui impelido por uma força maior que eu, como um Deus ou alguém que brinca de lego... Sei que era uma força descomunal! Não resisti, fui à cozinha, peguei uma faca de serra e destruí os pelos de Dendê. A coitada ficou tão feia, cheia de caminhos de rato no couro... Ela me olhava sem compreender, porém, ainda mais forte, veio a vontade de cortar o pescoço da gata. Assim o fiz! Arranquei a cabeça de Dendê. Os olhos dela estavam fechados, e logo tratei de abri-los. Sem porquê trouxe a porção ensanguentada para mais perto de mim e mordi os olhos da gata, um por um. Senti o gosto de sangue forte na boca, ainda passei a língua nos olhos, nos dois, antes de engoli-los. Depois daquele "banquete", entrei em sono profundo...




Ainda não disse muito sobre a minha vizinha, dona Raimunda. A filha realmente nasceu, mas eu já tinha sete anos. Não achei estranha a diferença de idade, talvez porque meus pais já tivessem me preparado o suficiente. Minha mãe dizia "Seu pai é dez anos mais velho que eu, me ama dez vezes mais que todos os outros!". Não sei exatamente o que sentia ao ouvir isso, sei que gostava das expressões que minha mãe fazia... Como ela gesticulava! De Raimunda nasceu Rebeca e com essa iria me casar.



Completei treze anos, Rebeca estava com seis. Dendê já havia se retirado do plano material, os parques estavam saturados de mim - minha coleção de orquídeas tinha murchado e os cachorros perderam o encanto. Rebeca sim, permanecia formidável! Ela ia para a minha casa e ficava mexendo nas coisas sem pudor. Gostava de vê-la brincando com tudo e todos. Ela sabia me encantar... Olhava de longe e abria um grande sorriso. De vez em quando sentava ao meu lado e danava a sorrir, antes mesmo de começar a fazer cócegas nela. Era magnífico! Aproximamos um do outro sem perceber... Esqueci, ao menos por um tempo, gatos, flores ou cachorros.



Numa manhã de domingo, Rebeca sentou-se ao meu lado esperando por "cosquinhas", entretanto não foi o que propiciei. Os olhos já estavam fechados e eu, não sei por que, mordi vorazmente a face dela! Esse fato foi o suficiente para trazer toda casa à sala... Não sabiam qual tinha sido o bicho que havia feito tamanha barbárie. Eu, como que possuído, apenas disse que tinha sido um cão feroz que já havia se mandado. Ninguém queria saber exatamente sobre o cachorro, queriam cuidar dos ferimentos causados pela mordida. Por obra do acaso, não descobriram que fora eu. Os ferimentos foram leves, embora bastante doloridos, mas nem isso fez Rebeca "abrir o bico", não ficaram sabendo o real autor. "É realmente uma boa esposa", pensei.




Os anos passaram... Só eu e Rebeca dividíamos nosso segredo. Já compartilhávamos outras coisas também: contas a perder de vista, gatos, flores, cães e um lindo bebê. Tinha aqui vinte e seis anos, e amava minha mulher. Meu amor era dividido entre meus três cães vira-latas, dois gatos siameses e bastantes flores diversificadas. Além disso, tínhamos Sara, nossa linda filha. Até que...




Era uma manhã de domingo, dia vinte e quatro de dezembro, minha família havia acordado cedo, enquanto eu ainda permanecia preguiçosamente na cama. Levantei-me sem pressa, e dei-me a contemplar o jardim que a mim se oferecia cheio de gotas de orvalho. Não pude deixar de sentir um êxtase ao olhar aquelas maravilhas! Depois de um tempo vendo o jardim - flores diversas, cães pulando e gatos escondidos -, minha maravilhosa filha entrou no quarto. Não sei o que me deu... Apenas a trouxe ao colo e, enquanto ela, de olhos fechados, pedia "Papai, faz cosquinhas!", eu me aproximei daquele rosto angelical e mordi ordinariamente o olho direito! O grito foi estrondoso, mas não parei por aí... Selvagemente, permaneci com ela segura, na mesma posição, e mordi o outro olho de Sara. Muito sangue jorrava... Tentei estancar a ferida, mas já era tarde demais...

domingo, 6 de fevereiro de 2011

E do meio do mundo prostituto só amores guardei ao meu charuto de Rubem Fonseca

"E eu dizia para ela que entre os requisitos (para ser escritor) devia ser incluída a coragem, a coragem de fracassar, a coragem de dizer aquilo que não pode ser dito, não importa a natureza do impedimento, a coragem de dizer aquilo que ninguém quer dizer, de dizer aquilo que ninguém quer ouvir - quem diz o que os outros querem ouvir, Mandrake, é a televisão, a coragem a que me refiro é a do Sade, que passou 27 anos de sua vida em asilos de loucos, Sade, que se manteve vivo duzentos anos não pelo estilo, mas pela sua coragem. Enfim, coragem de recusar todos os prêmios, ou melhor ainda, a coragem de não querer merecer prêmios, e o pior de todos os prêmios é a consagração em vida."

E do meio do mundo prostituto só amores guardei ao meu charuto de Rubem Fonseca

O Poema do Frade de Álvares de Azevedo

Lancei-me ao desviver: gastei inteira/ Na insânia das paixões a minha vida./ Qual da escuma o fervor na cachoeira/ Quebrei os sonhos meus n' alma descrida./ E do meio do mundo prostituto/ Só amores guardei ao meu charuto!/ E que viva o fumar que preludia/ As visões da cabeça perfumada!/ E que viva o charuto regalia!/ Viva a trêmula nuvem azulada,/ Onde s'embala a virgem vaporosa!/ Viva a fumaça lânguida e cheirosa!/ Cante o bardo febril e macilento/ Hinos de sangue ao poviléu corrupto,/ Embriague-se na dor do pensamento,/ Cubra a fronte de pó e traje luto:/ Que eu minha harpa votei ao esquecimento/ Só peço inspiração ao meu charuto!



O Poema do Frade de Álvares de Azevedo

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

A Inspiração Foge

A inspiração foge (e não há prédio algum pra eu me atirar!)

De novo, a inspiração foge (e não há coragem que me atire dum prédio!)

Ainda não, a inspiração foge (falta coragem e não sei nada sobre prédios)

(não sei bem...)

Basta,

A inspiração foge!