domingo, 13 de fevereiro de 2011

ÀS ESCURAS

Decidi trabalhar como cabeleireiro. Não foi fácil comunicar minha nova vocação a todos. Digo nova, pois já trabalhava satisfatoriamente como carpinteiro, ajudando meu pai. Porém, fiz o que tinha de ser! Aprendi a nova profissão sem que ninguém suspeitasse, comprei os utensílios necessários com o meu próprio suor, e dei-me a aprender o novo ofício. As meninas gostavam de como fazia! E não demorou, em menos de um ano trabalhei o primeiro cabelo. Que frio na barriga... Era uma madame chata, insistente, mas pagava bem. Nós do salão - essa foi minha ideia - decidimos não colocar um valor específico, cada cliente pagava o que a consciência mandava. Engano pensar que pagavam pouco, geralmente eram ricas e gostavam de ser notadas - quanto mais pagavam, mais interessantes se julgavam ser! Algumas até que tentaram nos dar o calote, mas logo a dona do estabelecimento chegava, e, diante daquela presença ameaçadora, sempre recuavam. Judith, a dona do salão, era muito forte! Ela tinha o hábito de dizer que "A mulher tem de ser macho pra aguentar outro!". E completava: "Os homens procuram gays porque, nós mulheres, queremos ser bonecas de porcelanas"...Sempre muito enfática a saudosa Judith! Infelizmente, faleceu devido ao uso desmedido de esteróides. Após a morte, os filhos resolveram vender o antigo ganha-pão da família, alegando lembrar a figura da mãe. Foi aí que arrematei o negócio, usando toda economia do tempo de carpintaria...




Como todo ser de sucesso, enfrentava alguns problemas como patrão. No início até me preocupei, entretanto, acabei contratando um administrador para gerir os negócios. Com o tempo ocioso, pude dar vazão aos prazeres da carne... Pelo menos uma vez por semana ia ao shopping, na famosa loja Salão dos Óculos, fazer o que mais gostava. Como me seduzia aquele lugar! Óculos tão diversos em um espaço imensamente curto!




Ainda não disse que sou fanho. Meus colegas do colegial costumavam rir de mim porque eu nunca soube onde colocar os acentos gráficos - o circunflexo era o pior, quase impossível! Mas ser fanho não era de todo ruim... Além dessa maneira própria de falar, tinha, melhor, tenho, uma maneira gostosa de caminhar... Os despreparados dizem que ando rebolando, além de outras coisas mais grosseiras: chegam a dizer que minha voz é ridícula. Não digo que seja mentira! Gosto de perceber minhas nádegas mexendo. Também tenho um prazer enorme de saber que consigo falar em falsete, só converso em falsete! Observe, as mulheres jamais conseguirão ter uma voz grave, enquanto os homens, aqueles de verdade, sabem fazer a voz dos anjos a qualquer momento. Mas ser como sou, parece afetar alguns...





Quando entrava no Salão dos Óculos, percebia que minha voz-falsete-fanha causava comoção. Além disso, o remexer constante das minhas nádegas também perturbava os mortais. Tendo ciência disso, fazia com que todos ali direcionassem o olhar para o meu traseiro. Era sempre um mecanismo duplo: olhavam para minha bunda, enquanto alguns comentavam sobre minha voz. Após alguns minutos sendo o centro das atenções, fazia o que tinha de ser: subtraía rapidamente um óculos, sem que ninguém percebesse.




A escolha era aleatória, uma vez que me seduzia a ideia de pegar um óculos de um ou mil reais, na loteria. Não era o valor comercial do produto que me comovia, jamais! A história do item subtraído, sim, trazia um quê poético! Talvez por isso sempre escrevia algumas informações sobre o que era furtado. Tinha vários modelos, treze ao todo, todos oriundos do mesmo lugar, e da mesma forma. Além das singularidades dos produtos, outra coisa me agradava. Enquanto todos observavam minhas nádegas, ou cochichavam sobre meus trejeitos, eu logo tratava de esconder o item junto ao meu pênis. Era colocar o objeto dentro da cueca e sentir a ereção imediatamente. Que prazer!




Devo dizer que essa excitação não era passageira, ao contrário, durava até o momento em que chegava em casa. Antes de sair ao shopping, organizava o lugar onde ficaria a nova aquisição: um bloco de notas e uma caixa de óculos, lado a lado. Mexia nos objetos subtraídos quando não havia ninguém em casa, pra evitar comentários desnecessários. Como me excitava olhar minha coleção, um a um, sem demora... Às vezes minhas mãos transpiravam em busca de novos itens. Incrível! Enquanto não trazia mais um, minhas mãos não paravam de suar. Acho que gostava mesmo do que fazia... No fundo, todos devem sentir prazer!




Houve um dia em que minhas mãos começaram a chorar... Tentando enxugar as lágrimas, fui ao shopping em busca de prazer. Tudo como antes, todos caçoando de mim ou olhando simplesmente para minhas nádegas. Precipitei-me, achei que já era a hora certa, coloquei um óculos por dentro da cueca... Tenho pra mim que não viram o furto, mas quando notaram o crescimento da área genital, todos olharam para baixo. Infelizmente, uma perna do óculos havia ficado pra fora, o que fez um vendedor indiscreto - aliás, quase todos o são - gritar: "Está roubando!". Os dois seguranças vieram e fizeram com que eu assumisse o crime. Limitei-me apenas a dizer que já ia pagar o óculos... Fui ao caixa e efetuei o pagamento, setenta reais. Enquanto todos debochavam de mim, percebi ali uma ótima oportunidade. Peguei outro óculos que estava perto do caixa e levei-o ao pau, que logo fez o favor de crescer. Ninguém percebeu, ainda foi possível ver o valor do objeto furtado antes de sair, quinhetos reais. Não fiquei muito entusiamado com a diferença de preço, o que me deu tesão foi aquela coisa estranha perto do meu membro. Depois desse incidente, nunca mais fui à loja, era perigoso demais.






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Dois anos e nenhum objeto novo! Minhas mãos não param de transpirar, meus objetos estão desgastados e não existe produto algum que refaça o estado original dos óculos. Isso é perturbador! Ver os óculos e não senti-los brilhar... Além disso, há dois anos não visito meu salão: cabelos de madame sempre me lembram óculos - usam como bolsas, quanto maiores, maior o poder. Os olhares, o cochicho, o pau ficando duro junto ao objeto frio... Dois anos sem sexo! Dois anos sem ao menos me masturbar. Perto da minha coleção, procuro o brilho de outrora, nada! Organizo os óculos, deixo o bloco aberto e vou-me à caça...




Passo no salão, pego uma peruca e faço a barba. Em seguida, coloco uma roupa feminina, um vestido, para ajudar no disfarce. Dirijo-me ao Shopping... Entro no Salão dos Óculos e ninguém percebe que sou eu. Observo todos de soslaio e evito conversar com os vendedores para que não se lembrem da minha voz. Depois de caminhar pela loja, encontro uma vendedora novata, indico os óculos mais caros com a clara intenção de vê-los fora da vitrine. Ela, como se duvidasse dos meus reais interesses, foi lentamente abrir o vidro. Enquanto isso, subtraio um óculos da seção mais barata, passando-o por baixo do vestido... Não perceberam, mas meu pau cresceu! A moça, ainda duvidando do meu poder aquisitivo, trouxe os óculos, entretanto fez questão de deixá-los longe do meu alcance. Após analisar cuidadosamente os óculos, compro o mais caro.




Ao chegar em casa, guardo os óculos sob o olhar atento da minha mulher. Ela, estática, pergunta se tudo ocorreu bem. Hesito-me por um instante, mas acabo contando tudo. Durante meu relato, ela apenas escreve no bloco de anotações, sem interrupção. Após um longo monólogo, transamos loucamente...

3 comentários:

  1. À coragem de dizer o que ninguém quer dizer, ou ouvir (ou ver), acrescenta-se o caráter perturbador dessas psicografias...Como perturba a clareza das escuridões desveladas!

    Saudações dessa fã de tudo e de todas as horas...
    Avancemos!

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  2. O que temos aqui? Um estilo se delineando? Sim, sim, sim. Parabéns!

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  3. valeu! Um estilo inacabado... gosto disso!

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