sábado, 26 de fevereiro de 2011

OFÍCIO-NENHUM-NÃO-É-PRA-QUALQUER-UM

Dou nó no Diabo, mas não engano uma criança. Crianças nasceram para enganar - são todas melhores que eu! Já o resto... Os mortais têm cor escura e fedem! Opa!... Não vou pelos filosofemas ignacianos, tenho meus próprios métodos.

Tenho ofício-nenhum. Isso mesmo, nenhum! Muitos desempregados dizem estar fodidos, sem emprego, sem amigos... Dá tudo na mesma! Eu não, tenho meu ofício, que é nenhum. Explico: acordo todos os dias o horário mais conveniente, geralmente depois das dez. Em seguida, faço o que deve ser! Como, bebo, cago e transo comigo mesmo. Tudo que os mortais fazem e não dizem. Sobre meu ganha-pão, prefiro chamar de ofício aquilo que chamam profissão. Tenho nenhum e, mesmo assim, como caviar e bebo champanha. Aquilo que os mortais sonham, tenho como enfeite. É resto!

Não conseguiria ensinar meu ofício para outrem, já até tentei! Para exercê-lo, não basta conhecer de pintura, carro, escola, ou coisa que o valha... É por isso que adoro assistir videocassetadas, sempre dizem para não tentarmos fazer aquelas coisas. Muito parecido com o ofício-nenhum!... Não há lugar certo para aprender o que faço: os parques, em casa, em todo espaço aprende-se naturalmente. Às vezes caminho pelos parques, outras fico em casa conversando com o cão vizinho. Moro numa casa geminada, por opção, e todos os dias ouço os ganidos do cachorro ao lado. Não sei se ficaria bem num lugar longe das vozes dos cães e dos humanos, os mortais me seduzem. Às vezes, sento-me perto da parede e dou-me a ouvir o silêncio embaraçado com os latidos do animal – faz parte do meu ofício.

Outro dia, recebi uma ligação do sujeito-que-não-me-lembro-o-nome. Ele dizia que queria aprender a minha arte. Engraçado, ele chamou isso de arte!... É mesmo incrível, os mortais têm uma necessidade imensa de dar nome às coisas. Antigamente, até eu mesmo resolvi ler livros que prometiam vida melhor. Um coisa legal foi perceber que essa literatura sempre traz um animal como metáfora: ora aprendemos a ser cães e odiar gatos, ora somos gatos que fogem de cães - li e gostei principalmente da história do escritor. O que era narrado estava no órbita do desprezível, entretanto, conviver com o livro por uns meses, na cabeceira da cama, era ter comigo quem se atreveu a passar para o papel aquilo. Eles eram mesmo interessantes! Corajosos, além de tudo! Acordei várias noites para segurar o livro... Meus pensamentos transbordavam e, noutro dia, sempre ganhava dinheiro fácil. Simples assim!

Ganhar dinheiro para quem tem ofício-nenhum nunca foi difícil. É, antes, uma consequência de estar vivo. Quem-de-si-de-ter-ofício-nenhum, está emaranhado de várias vozes estranhas (não, esse "de si de" não é meu... tirei mesmo do Guimarães!). Talvez por isso seja tão fácil dar nó no Diabo. O Demo sempre se achou seguro demais... Não tenho vocação religiosa, mas aprendi muito com as trapaças divinas.

Numa sexta, fui à feira. Comprei um gostoso pastel e danei a comer. Como sou um eterno e fiel praticante do ofício-nenhum, passei a contemplar os mortais. Eles transitavam com o cheiro próprio dos normais... Eu, que nunca estou de saco cheio para os mortais, ao contrário, dou-lhes crédito para perceber o coração, ouvi um casal que engolia pastéis. Estavam dilacerados, prestes a desmanchar o sagrado matrimônio, simplesmente porque não conseguiam pagar as próprias dívidas. O consórcio já lhes tinha tomado o veículo e a casa estava a um passo... Perguntei à mulher se já tinha lido os best-sellers - a mim, faltava-lhe uma dose cavalar de leitura comercial. A moça, como que deixando o caminho aberto, contou que o marido era viciado nessa literatura, conhecia a história do rato que roeu, roeu o quê? Ela caia na risada enquanto falava dos bichanos. Parecia um pouco decepcionada com o esposo...

Dei meu jeito cristão! Tive um acesso de caridade e resolvi levá-los ao meu apartamento. Claro, levei a um que deixara exclusivo para aventuras - toda vez que queria ouvir alguém, eu o levava àquele lugar. A mulher-falante da feira não conseguiu esconder o espanto ao entrar no meu espaço: disse sobre a decoração e patavinas mais... O marido apenas observava. Minha promessa era ensiná-los a ganhar dinheiro - esse era o sonho do casal! Na verdade, eu queria fazer uma caridade, porém sempre achei estranho dar dinheiro, chinelo, comida para outrem. Penso como meu falecido pai: “Deviam ensinar a pescar, não dar o peixe frito!”. Depois de uma longa conversa, quer dizer, monólogo, já que apenas a mulher falava, disse que não tinha como ensinar tudo naquele dia, e marquei outro encontro.

Os dias passaram e quase todas as semanas recebia o casal. Depois de alguns meses, percebendo o fracasso deles, passei a marcar sessões individuais, o que também não foi muito proveitoso. Um ano e meio de muita conversa... Confesso, queria fazer como um artesão: lapidar aquelas pessoas para fazê-las ganhar dinheiro. Todavia, o casal continuava brigando e sem um puto no bolso.

Mudei de estragégia. Numa segunda-feira, disse que começaríamos a fase prática. Essa etapa consistiria em tentar aplicar, à maneira própria, o que havia sido aprendido depois de longos dois anos. Começamos bem: elimei as sessões individuais, passei a observar e opinar em cada ação realizada pelos dois – eu estava otimista! Talvez estivesse pensando tão positivo, porque aquela era a primeira vez que tomava a docência como profissão... E não queria me frustrar!

Após duas semanas supervisionando o estágio, recebi a lastimável notícia... Meus dois alunos estavam presos! Afinal, ofício-nenhum-não-é-pra-qualquer-um!

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