domingo, 27 de março de 2011

balas de confeitarias goianas

um quê disparado de amor
um nada arm'ador



O que dilatou são pétalas debochadas


Sou eu, de máscara massacrada de filosofemas
de furacões, um ser-tão de cidades

Mas sinto o gozo matutino anunciado
com cheiro de impaciência, badala
inevitavelmente, balas de confeitarias goianas

quarta-feira, 23 de março de 2011

terça-feira, 22 de março de 2011

cheiro de MERDA azul celeste

é do precipício que se cheira o infinito
do absurdo, o caos, o gozo imor(t)al


e, indiscutivelmente, na MERDA se ouve um blues

Comentário de Fernanda Padilha Sobre a Escola Imor(t)al do Gozo

Estava lendo seus textos todos agora...passeando pelo seu blog...passeio pelo precipício da imor(t)alidade...
Meu querido, és grande demais, imenso, imensurável, infinito! Como não crescer junto com vc? Como ficar imune a essa perturbadora imensidão? Em sua escola, convidados somos: “venham, curti-dores!”. Ouvido o chamado, autorizamo-nos a lapidar o horror; o horror de nós mesmos, sobretudo...Conduzidos então à beira do precipício, desafia-nos a suprema, premente e humana condição imor(t)al...
Eis a trajetória...que toquemos o espírito, afinal...

domingo, 20 de março de 2011

Um imortal, bêbado, quer ser ouvido

(...) os verdadeiros adoradores adorarão em espírito e em verdade (...) João 4:23


Saio à noite, pelos vales de Santo Antônio, ou em Buenópolis-de-infância, ainda, na Praça Cívica, ou em qualquer lugar – é onde encontro os esquecidos. O gozo da escuridão me faz como Poe, faço digressões para ouvir mais, é só mais uma sexta. O sexo explícito dos imortais dá voz a quem perdeu a língua, mas não são os lugarejos ou as pessoas, ou mesmo o clima, é a imortalidade que me persegue, em casa, nos trabalhos normais, mortais!

Ontem, nesse mesmo horário, estava deitado num banco, na praça Valter Santos. Era quinta-feira, eu tinha tomado três copos de suco de maracujá e alguns de caldo de cana... Meus pés deslizavam céu acima, sequer sentia os batimentos cardíacos, não havia relógio naqueles eternos instantes. Os dedos das mãos ficaram em pleno gelo, enquanto os pés tocavam sutilmente a ponta de um Ice Berg. Flutuei por ambientes confusos, sem reflexão, sem o aprisionamento da vã memória...

Agora, anuncia-me a sexta! Bares lotados de mortais... Hoje meu trajeto será rumo a Buenópolis de mim. Porém, para chegar aí, geograficamente talvez tenha que passar pelas praças “C”, Valter Santos ou Cívica. Como alguém que já renasceu no próprio corpo e no mesmo tempo, deixo o carro me guiar no desrumo de mim. Desço na praça “C”, entretanto não há, nessa noite, um só imortal aqui. Bebo só, imortalizo-me no verde cinzento da praça! Continuo a trejetória desajeitada...

Na Praça Valter Santos há bastantes de mim. Alguns parados fumando, outros proseando sozinhos – um bebe algo estranho, de cor verde. Essa é a noite do verde! Mas não é cor-capim, é um cinza esverdeado... Apesar de saber que conheço intimamente todos ali, sequer interrompo meu desrumo. Imprevisivelmente, chego à Praça Cívica! Ultimamente meus delírios estão me guiando ao centro da cidade. Os imortais continuam sentados no mesmo lugar, onde cabe apenas uma banda da bunda. Eles ficam bem ajeitados por lá. Sou recebido com pouco clamor, como sempre... Os delírios coletivos têm algo de igreja. Todos habitantes da noite sentados, rezando um devaneio geral, apenas meia bunda se senta, a outra desbunda em pensamentos...

A fala deles hoje não tinha muito afinco. Quer dizer, sempre há gozo ali, mas, hoje, era individualizado, cado um no seu próprio delírio. Arcanjo sorria, Reymond tomava 51, cabeça longe longe, e Jade fissurava no Besta Fera. Apenas não me interessei por eles hoje. Carro adentro, fui a Santo Antonio. Novo ambiente, mas nenhum conhecido. "Ney saiu" – fato quase impossível a quem conhece esse imortal! Paro em frente ao Bar do Valdoney, munido de uma cerveja que já esquentara, e deito no banco da praça.

Vou a Buenópolis-de-infância... Mas num estado de inconsciência, de letargia, vagueio pelos trilhos da rede ferroviária, pelas mangueiras da cidade... Da ladeira do Banco do Brasil sou lançado à Escola, dali, desordenadamente, voo às núvens. O monza de papai comparece sem por quê! Vago de lado a lado! Sou a própria rua inteira! Sou a ponte que mamãe ultrapassou sem ninguém ajudar: “nenhuma mulher já passou por essa ponte, para!”... Sou a ponte, as ruas, as casas, as janelas dos casarões. Sem aviso, sou devolvido à terra!... Um imortal, bêbado, quer meus ouvidos.

DEPURAÇÃO DO HORROR

saio à noite, pelos vales de Santo Antônio ou em Buenópolis-de-infância ou, ainda, na praça cívica ou em qualquer lugar - encontro-dos-esquecidos/ gozo escuridão adentro e, no terror de Poe, faço digressões para ouvir mais/ é mais uma sex-ta/ o sexo explícito da fala dá voz a quem perdeu a língua/ mas não pense que são os lugarejos ou as pessoas ou mesmo o clima/ "os verdadeiros adoradores adorarão em espírito e em verdade"/ em casa, nos trabalhos normais, mortais, ouço nascer a subversão/ é no queijo curado, no caldo de cana degustado, que me autorizo a lapidar o horror

sábado, 19 de março de 2011

Gozo Imor(t)al

Só goza
o gozo ininterrupto do imor(t)ais
aqueles que fizeram da norma
uma cena cômica

sexta-feira, 18 de março de 2011

curti-dor

regado a maracujá
ouço vozes de sono, c-antigas


almoço com sede
só pra deitar delírio adentro
paro, fujo novamente
agora, são estrelas cadentes
sequer acordo, não é sonho, meus devaneios

sou mesmo tragédia ambulante!
e não se trata de rir coletivamente ou só rir - é incômodo sem redenção!
é que a história tem gosto de janela que se abre de repente
gosto de vento do sul, forte-frio... que me adormece, sem sono

domingo, 13 de março de 2011

imor(t)al

alguns versos destroem cada centímetro cardíaco
basta a leitura para comparecer um ticozinho desconcertante


hoje, o sono sobreveio como quem não dorme há dias e quer tirar o atraso
a música ressurgiu com pitadas de espontaneidade, sem dor

é noite de cafezinho de fim de tarde, que fumaça silenciosamente
de amor incontrolável, sem histeria

noite ainda por vir, mas já repleta de sonhos fortificantes
meu onírico é pau-pra-toda-obra, toda hora insisto em sonhar...

ontem, tentaram me silenciar... "não caia de cabeça, vai afundar!"
insanos mortais - eu gozo!

se há, entre as pérolas, pedras que façam gozar...
há, também, imortais entre os demais!

Sobre o mor(t)al e o imor(t)al

Não há nada melhor que observar os mortais diante do imprevisível!... Já os imortais não se dão ao luxo do susto - o surto já é grande o bastante! Na fala calma, ou nas locomotivas desvairadas, os mortais mostram sempre um quê de coisas perdidas! O contato com a "coisa" é que remete a cenas, acontecimentos não tão bem encobertos - perigo cotidiano de sair da mesmice! Quanto aos imortais... Esses habitam cenários desumanos, demasiadamente humanos! Vivem num círculo sem pai - Terra-Sem-Lei. Há aí a maravilha psicótica da cidade, a maravilha de Já-de-Cristo. Eles vivem e fazem da vida, vida! Quem dera fosse eu também um forcluído! Só os imortais não sentem dor, mesmo a conhecendo tão bem. Previsível ou não, o gozo dos imor(t)ais é gozo, e só! Trata-se de conseguir gozar fora dos padrões heteronormativos. Esse deve ser o objetivo de todos os imortais - gozo desmedido como um psicótico, porém sem possuir a estrutura forcluída. É o super-homem! É o gozo do (im)proviso, do dia-a-dia na cidade, mas gozo! Buscar o prazer em vias não conhecidas é se atrever a brincar de imor(t)al. Em pleno capitalismo perverso, - perversão e capitalismo já soam como redundância - eles gozam desmedidamente, devaneios da vida contemporânea.

* Para entender os contos iniciados em 2011

sábado, 12 de março de 2011

Comentário de Ms. Regner acerca do texto "CASANAVAL"

Deitar-me-ei nos lençóis de setim, brancos como as águas límpidas que correm sem destino e me jogarei ao penhasco da aceitação, aquelas águas íntimas.

JÁ-DE-CRISTO

Ele gostava de sair à noite com fins nada esclarecedores. Emparelhava o carro nos semáforos e cantava a primeira música que vinha à mente. Cada noite uma história, um lugar, algumas pessoas! Havia parado no sinal da Praça Cívica com a Rua 84, carros lado a lado, permitiu-se cantarolar: "Apesar de você, amanhã há de ser outro dia. Eu pergunto a você, o que vai...", embananou-se na letra e estancou a canção. A moça, que dirigia um veículo bacana ao lado, deu uma gargalhada, furou o sinal, e se mandou. Nesse meio tempo, trouxe o bloco de anotações ao colo e limitou-se a escrever: "Sorriso cínico". Ainda parado, observou a Pastelaria 84, mortais mergulhavam cerveja adentro. Do lado oposto, um posto, e alguns habitantes da noite, moradores de terra nenhuma. Parou e desceu.

Aproximou-se dos dois rapazes que estavam sentados, não percebera a presença da mulher. Calado, sem olhar diretamente aos dois, começou a cantar um rap, Diário de um detento. Um deles, continuou silenciosamente a canção... apenas mexia braços e pernas! Comentaram algumas coisas sobre o louco cantor, mas nada em especial. Rafael, esse que queria a aproximação dos habitantes da noite, foi até a loja de conveniência, comprou duas cervejas e retornou. Chegou ainda mais perto dos moradores e entregou-lhes, uma a uma, as cervejas. Infelizmente, não percebera a singela presença da moça encostada. Ela, que também queria a bebida, pediu um poema, já que não ganhara cerveja. Segundos depois, Rafael, afeituoso à fala, declamou um poema de um autor nada conhecido: "Pai nosso que estais terra/ Profanado seja vosso nome/ Vem a nós, nosso reino/ Seja feita nossa vontade/ Na terra ou em qualquer lugar/ A vontade de poder nos dai hoje/ Perdoai nossas crenças/ Assim como fingimos acreditar em vós/ Deixai-nos em plena tentação/ Mas tirai-nos da mente a tola ideia do inferno/ Amém!"

Todos se maravilharam! O espírito santo havia tocado os imortais. A moça, não satisfeita com os versos, demonstrou desejo de falar, e em inglês - verdade ou não, insistiram todos para que ela debulhasse o idioma anglo-saxão, ali, sentada ao meio-fio. Ela, porém, ciente dos poderes dos imortais, exigiu, antes, uma Heineken ... Aí sim, falaria como quem domina a língua materna! Não demorou para que trouxesse a chave da nova língua: promessa feita, promessa cumprida, era o trato dos habitantes de terra nenhuma. "Yes, it's the beer!", estrebuchou a falar... Rafael, tentando transformar o monólogo em diálogo, fora bruscamente interrompido por Jade, a moça - alegara apenas ser obra do Besta-Fera, aquele idioma.

Na fala calma de Jade havia um quê de coisas perdidas. Ela iniciou a conversa contando sobre o Besta-fera. Era um monstro de vários olhos, o Demo! Após dizer sobre os poderes incríveis do ser, Reymond, um imortal das ruas, começou a evocar o coisa-ruim. Conclamava a presença do monstro sem nenhum receio... Jade, moça que pedira o poema, entretanto, curvava a cabeça - dizia para não continuar as provocações. Uma cena esdrúxula! Rafael querendo o ver o circo pegar fogo, Reymond, bêbado, evocando a Fera e a moça dizendo baixinho: "sou-de-Cristo, sou-de-Cristo, sou-de-Cristo". As bizarrices não pararam por aí... É que Rafael quis saber se o Besta-Fera estaria por ali, nalgum lugar. Ela estremecia, entristecia...

Arcanjo, irmão de Reymond, também imortal das ruas, foi muito prudente. Percebendo que Jade estava desfalecendo, chamou o irmão e deu-lhe uma tremenda bronca. Ainda, apenas com o olhar, mostrou a Rafael que aquilo era perigoso demais. Um minuto de silêncio! Um playboy, mortal como a maioria, saiu da Pastelaria, completamente embriagado, e tentou entrar carro adentro. Reymond, que conhecia os mortais, de longe-longe gritou por uma moeda - disse precisar de combustível para funcionar! Uma moeda, juntamente com o complemento de Rafael, e mais uma cerveja. O interesse ali, dos três, era a vida de Jade. Após alguns goles, continuou falando...

Contou que nascera em Nova Orleans e que morara por lá até os cinco anos. Ali tinha sido estuprada - uma lágrima desceu - e fora vendida a uma estadunidense que morava no Brasil. Veio para cá aos cinco, trabalhara escravamente na casa dessa mulher até os doze... Fugira em seguida. Rafael, impressionado, perguntou sobre a mulher, onde estaria aquela que comprara Jade um dia? Morta, resposta fechada. Aos doze, saíra da escravidão e fora à rua... Tornara mais uma habitante da Terra-Sem-Lei!

Comoveu a todos, aquela conversa! Foi preciso Rafael trazer uma Heineken para cada um digerir o que ouvia. Jade, percebendo que os ouvidos ali eram a ela, continuou a fala-pela-fala. Surpreendeu aos ouvintes, saber que o Besta-Fera estaria ali, ela estava vendo o Trem-do-Mal... Jade afirmava com toda convicção do além-mundo, dos imortais! Curvou novamente a cabeça e entrou na mesma ladainha: "sou-de-Cristo, sou-de-Cristo, sou-de-Cristo". Aquela fala não terminou ali! Continuou a mesma fala-lunática... Sem paciência, Raymond pegou sua sacola com os pertences e se mandou. Arcanjo, mais solidário que irmão, encostou a cabeça de Jade ao ombro... Percebendo que Jade não sairia do surto, Rafael entrou no carro, parou no primeiro semáforo ao lado de um caminhão. Abriu a boca e começou a cantar.

quarta-feira, 9 de março de 2011

queda-nada-livre

tudo começa com mais uma máscara encantadora
máscara posta, cai o pano - a plateia entorpecida se vai

-é mais um dia de teatro de sombras! não sabendo qual persona usar, o ator vaga-vagarolando

noutro dia, outra peça. Abre-se o pano e nova máscara é posta
vai de mil histórias... pano fechado! o poeta, personificado, busca o calor dos bares, longe- longe de si

travestido de mestre, ergue-se frente à classe
intransponível, deixa a plateia em queda-livre

-hoje, o mestre dos encantos, amanhã, senhor da guerra

abram os panos! mais uma peça se anuncia.
todos a cavalo - o cavaleiro inexistente reinará por um segundinho de vida


ou ainda, sem anúncios prévios, a plateia será posta num cinema-mildez
mas, ao sair, perceberá que não há cheiros, tampouco cor, a vida.

em queda-nada-livre,
os mortais,
mascarados,
deslizam,
cambaleantes

casanaval

tem uma casa perdida
no Itanhagá ou Buenópolis, na ponte entre Goiás e Gerais

onde o coração toca em compasso tímido
os ventos têm som de azul-marinho

porta adentro e de volta aos quinze de cachoeiras
ou aos dois-anos-de-mamãe

é lá que se ouve mesmo o que não é dito!
as paredes, sempre de pé, mas de ouvidos limpos

o aconchego está nas telas, folhas secas prontas a pintar
no vinil que espera sossegadamente o momento de tocar

o banho, demorado como é, esteriliza as ceras e limpa os dentes
é de quando em quando, sem dia nem hora certa, que se banha

contam que essa casa está debaixo das águas - exatamente na divisa dos estados
casa-náufraga que desliza vida abaixo

é da casanaval que vim-e-vou
sem hora certa, nem dia anunciado!

segunda-feira, 7 de março de 2011

insônia cardíaca

Meu saudosismo migrou para Buenópolis – tempo tão perfeito que quase nada recordo
Ontem fiquei ligado na tomada, sono não veio
Fui pelo Sertão, mas não adiantou
Parei em Riobaldo, o rio já tinha secado!

Chacoalham pedras cá em mim – como o homem que não fui por algum tempo
Talvez o coração reabra as úlceras perdidas

Alivie minh'alma
Drogas suavizam a noite, mas é dia!

Infelizmente, não pude sentir o carnaval
A festa ficou enclausurada igreja adentro
Continuam os mesmos ranços!

Ou me afundo em soluções rápidas...
Ou continuo na-fala-pela-fala

Não, não são as técnicas, tampouco meu lar!
É que a insônia cardíaca parece mesmo ter nascido comigo...

domingo, 6 de março de 2011

da máquina nada extraviada

da máquina vi um funcionamento utilitário, interessado!
da vida vi a máquina... do Pouso Alto, a colina, todos destelhados do interior

sexta, sábado ou domingo, funcionamento perfeito
segunda-de-todo-dia num tem santidade - é todo dia!

se a viagem for antecipada, avise aos habitantes do vilarejo
se vier, mande ao menos uma carta
destrambelhados, surpresa não é bem quista!

se o planejamento faltar
se esquecer as cartas de aviso
todo senso não haverá de existir!

UMA MÁQUINA NADA EXTRAVIADA

A máquina continuava causando arrepios nos habitantes do vilarejo. As crianças não perdiam tempo: pululavam máquina acima. Brincadeiras de todo tipo foram desenvolvidas a partir da chegada da estranha coisa. Era grande, tão grande, que ninguém nem sonhado tinha com aquilo. Os pedregulhos, as brincadeiras, as visitas já eram controladas pela prefeitura, para não virar um verdadeiro caos.

Certo dia, ainda me manhã, um visitante nada convencional chegou ao município. Ele estava de mãos vazias: mochilas, malas não estavam com ele. Tinha o andar resoluto, parecia saber onde pisava. O lugar não tinha rodoviária, mas havia um lugar que fora convencionado para esse fim, o Pouso Alto. Era mesmo lá nas beiradas da rodovia, donde era possível enxergar todas casas. Apeou ali, sem mais nem menos, foi descendo a ladeira enorme de Buenópolis. Passou pelo único banco do lugar, que era do Brasil, e continuou com passos firmes a descida. Os habitantes não cessavam de observá-lo, cogitavam hipóteses diversas sobre a origem do rapaz. Havia uma escola, que naquele dia liberara os estudantes mais cedo. Eles estavam ainda pelo portão, conversando no sossego único de interiorzinho. Robson, continuava percorrendo a ladeira imponete, sequer olhava para os lados... Até que avistou com clareza o objetivo da caminhada.

Aproximou-se da máquina, havia dois policiais fazendo a vigilância do lugar. Parou frente aos oficiais e disse sobre seu intento - queria adentrar à máquina. Resposta pronta: impossível! Isso porque o prefeito queria conservar o espaço intacto à visitação de turistas, agora tinha dia e hora certa para adentrar o espaço. Robson, sem entender, não respeitando os limites impostos, segurou uma tecla do grande objeto, e entrou. Vinte minutos depois, estavam Robson e os dois guardas na delegacia. O delegado, que não queria se meter nas coisas da prefeitura, chamou o prefeito, mas, enquanto não chegava, jogou-se numa conversa com o desconhecido. Havia um mal entendido ali - era como Robson dizia. Foi explicado que o município já era outro após a chegada da grande máquina, que vinham pessoas de toda parte alegando ser milagroso o objeto. O prefeito, Seu Manoel, explorava bem essa ideia de milagre. Estipulara que a máquina só conseguia curar nas sextas, sábados e domingos, dia de semana ficava fechada.

Após alguma escuta, Robson achou interessante como representavam a máquina. Como um atento ouvidor dos mortais, continuava com a mesma postura rígida e de ouvidos abertos às histórias. Chegara a notícia: o prefeito estava noutra cidade em busca de patrocínio para o bendito objeto. O delegado, que por sinal adorava conversar, gostou de ter ouvidos ali numa segunda-feira-de-todo-dia. Danou a contar o que passava pelas cabeças dos mortais de Buenópolis. O padre do lugar, Juarez, estava em pé de guerra com a prefeitura. Isso porque achava ser aquele, um objeto não identificado, coisa maligna, coisa de alienígena, coisa do trem-ruim. No início não era bem assim: a prefeitura dividia a renda das visitas com a paróquia, entretanto, o prefeito instalou uma praça de alimentação dentro da máquina e se negou a dividir os ganhos. Foi declarada a guerra! A cidade estava dividida: aqueles que gostavam de dinheiro-sem-sossego e, do outro lado, os que dormiam sono-de-padre. Era coisa séria! Inclusive, os dois guardas tinham vindo de Belo Horizonte, uma forma da polícia manter a isenção. Mas todos sabiam que o delegado era católico e gostava de dinheiro, uma figura meio extraviada!...

Robson, estava sentado de orelhas em pé para a dor dos mortais. O delegado não sofria, ao contrário, dava longas gargalhadas quando falava da contenda formada no vilarejo. Depois de muita história, ouviu-se burburinhos na porta da delegacia. Eram os católicos querendo permanecer dormindo. Diziam ser o própria coisa-ruim, o desconhecido. O tinhoso tinha tomado forma de gente! Era coisa por demais que se ouvia. Uns, mais sonâmbulos que os outros, deram a jogar cruzes, benzidas pelo padre, na delegacia. Não era possível enxergar o padre, talvez porque quisesse omitir sua responsabilidade pelo atentado. O fato é que a coisa foi ficando grave. Na delegacia só tinham três policiais e o delegado - os guardas da capital já tinham retomado a vigilância da máquina. Uma cruz, mais benta que as demais, quebrou o vidro e caiu aos pés de Robson. Nela havia a inscrição "Sai, Tiubirom!"... Riram os dois, o delegado fez o favor de explicar que Tiubiron fora tirado de um música de carnaval, o que era considerado pelas beatas como coisa do chupa cabra.

Muito se ouvia ali. Agora a conversa tinha mudado o rumo, eram os manifestantes que discutiam. Olharam pela vidraça quebrada, e perceberam que os capitalistas da cidade tinham chegado - era calorosa a discussão! Depois de uma conversa quente, ouviu-se um tiro... Parece não ter matado ninguém, mas causou um grande alvoroço. O delegado, agora sim, sentiu-se convocado e foi ter com as duas dissidências. Usou de um megafone para atrair a atenção dos transeuntes. Disse para acalmar os ânimos que o prefeito já estava a caminho... E que, qualquer outro incidente entre eles, haveria de começar as prisões. O povo, cada um à sua maneira, danou a gritar: "Delegado tinhoso", ou, ainda, "É católico! Mas o Vaticano está rico que dói!"... Os lados uniram-se para destrambelhar o pobre-diabo. Conversa vai-e-vem e Robson tomava nota de tudo ali.

Após intermináveis discussões, Padre Juarez e Seu Manoel chegaram à delegacia. O padre entrou benzendo o lugar, enquanto o prefeito contava um maço de notas, pareciam falsas de tão velhas. Robson ouviu aos dois: bons argumentos acima de tudo! Depois da longa explanação, principalmente a do padre, o prefeito era mais sucinto, perguntaram sobre a procedência de Robson. Sem muito blá-blá-blá, disse apenas que coletaria as críticas, sugestões e reclamações do vilarejo - era o novo ouvidor do lugar!

sábado, 5 de março de 2011

CADEIRANTE POR OPÇÃO

Sou espírita de profissão, melhor, de religião. É que a ajuda que presto à humanidade não está nos semáforos, nem mesmo na periferia, ao contrário, contribuo para que os ricos continuem vivos. Cada um tem sua sina quando se pensa em caridade. Alguns passam a vida entregando moedas sujas em terminais, outros em cemitérios consolando aqueles que perderam um ente, querido ou não. O importante na linha de Kardec é seguir a própria sorte.

Todos os dias ia ao Hospital Rassi, o maior do centro-oeste. Fiquei conhecido por lá! "Home da cadeira" ou simplesmente "cadeirinha", como me chamavam ali. Sentava-me na cadeira de rodas e lançava-me à sorte. Não que eu fosse cadeirante de doença ou acidente, mas para consolar um cabra na merda, você tem que estar numa merda maior. Assim que descobri minha sina, passei a freguentar os hospitais de bacanas, mas chegava de cara limpa, roupas chiques, colar de ouro etc. Quase todos os dias eu ouvia do pessoal: "você não sabe como sofro, meu filho!" - aquilo me perturbava dum jeito... Percebi ser melhor bancar o fodido também. Comecei a usar roupas velhas, mas não foi o suficiente... Até chegar à condição atual: cadeirante por opção.

Foi num domingo. Tinha acabado de sair do hospital, um fracasso sem consolo aquele dia. Ouvi quatro vezes a mesma ladainha: "você deve ter vida boa... já se imaginou assim?". Foi aí, nesse domingo, que percebi a necessidade de me mutilar para poder consolar os doentes. Até Jesus fez isso... Andava longas distâncias com a mesma roupa, às vezes descalços, e o que acontecia? As pessoas passavam perfume nos pés dele... Paguei um médico, desses loucos por dinheiro, que me tirou uma perna. No começo foi uma maravilha... O pessoal do hospital passou a sentir pena de mim e, com isso, pude ajudá-los mais e mais. Os epítetos que recebia não me perturbavam: "cadeirinha", era o mais usado - talvez porque o diminutivo demonstra uma espécie de carinho, cumplicidade. Passei a ouvir os segredos daquelas pessoas e percebi que a caridade é algo singular. Conheci uma senhora de uns setenta anos (o nome não me recordo) a qual, depois de longas conversas, me contou que morria de vontade de abrir as pernas. Eu acabei penetrando a velha! Uma mocinha, devia ter um dezoito anos, queria que o pai dela, sumido há anos, lhe fizesse uma visita. Descobri onde morava o desgraçado e o fiz ir ao hospital. Confesso que não foi fácil... Ele só topou ver a filha quando apontei-lhe um oitão.

Um homem de vários apelidos! Chamavam-me "Robin Hood às avessas", porque no lugar de tirar dos ricos e dar aos pobres, deixava os ricos vivos, o que significa rico ainda mais rico. Mas, com passar do tempo, percebi que a falta de uma perna já não sensibilizava ninguém, tinham se acostumado comigo. O maior perigo que estamos sujeitos é o costume! Esse, esteriliza os abraços, mata lentamente... Alguém que nasceu para ajudar os ricos em estágio terminal não pode acupar o lugar do provável, do previsível, do premeditado. Os doentes do Hospital Rassi queriam minha presença para contar baboseiras inúteis. Fiz inclusive uma agenda para atender a todos. Mas era completamente sem sentido aquele tipo de conversa, não era caridade aquilo. Por isso dei um outro passo rumo à minha sorte. Essa nova etapa não seria muito aceita pelos familiares, então mantive o sigilo. Jesus também gostava do silêncio! Imagina se o salvador revelasse os segredos de seus milagres? Quantas mulheres teriam ficado sem esposos!...

Meu novo passo consistiu em tirar os pobres-diabos da mesmice. O que mata suavemente não é a doença, mas a falta de vontade de viver - li isso em algum livro de autoajuda. Só uma coisa faria os ricos saírem da monotonia. Fiz o que pude: fiquei íntimo de alguns doentes do hospital e passei, inclusive, a frequentar com regularidade a casa dos desgraçados. Dizia que, para ajudar os coitados, precisava conversar com os parentes. Várias vezes fui à casa deles... Em todas elas eu descobria algo muito valioso para o doente. O primeiro caso solucionado nessa nova etapa foi de uma médica, sofria depressão severa, estava prestes a cometer o suicídio. Como todo rico ama o luxo, não é difícil fazer o que fiz, apenas requer um pouco de observação. Essa médica, de nome Joana, amava comer uvas passas e castanhas. Todos os dias os filhos dela traziam cautelosamente as melhores uvas e castanhas do Brasil. Como já era alguém de confiança, recebia a encomenda e a entregava à doutora. Antes, porém, a entrega passava pelo meu ritual: levava-a para um químico, grande amigo meu, e ele fazia coisas estranhas com o material, retirava todo sabor do alimento. Voltava e entregava para a doente. Ela enlouquecia ao perceber que não sentia o sabor das uvas, tampouco das castanhas. Esse caso foi até simples, porque logo logo a doutora quis melhorar para procurar uvas com sabor. Outro caso interessante foi de um empresário. Amava mais que tudo a riqueza que possuía. Nesse caso, tive que atuar juntamente com os familiares. Estava com câncer em estágio terminal e resolvemos publicar em todos meios de comunicação de massa a falência da grupo C.O. CORPORAÇÕES. Ele enloqueceu... Ficou completamente curado e recebeu alta.

Atualmente estou ajudando várias pessoas ao mesmo tempo. Saí do hospital e atendo em domicílio. Ajudo pacientes diversos, todos com algumas características em comum: são ricos e estão morre-num-morre. Chamam-me SALVADOR! E salvo mesmo... após alguns meses de trabalho, sempre enlouqueço o paciente, fica curado. Mas um caso tem me chamado a atenção: um jovem de vinte e cinco anos que não sara de uma úlcera no duodeno. O interessante é que, de quando em quando, a ferida reabre, sempre fica à beira da morte. O difícil nesse caso é que o rapaz não quer a minha ajuda, sequer conversa comigo. Ontem, num diálogo com o seu pai, percebi o quão importante para a família era ter um filho doente. Muita gente visita a casa deles, vivem de casa cheia quando o rapaz está mal! Reimberg, o jovem a quem me refiro, ficou os dois meses passados sem a bendita úlcera e, nesses meses, pude me munir de informações necessárias para os próximos eventos. Percebi que bastava a ferida se fechar para cessar as visitas, exceto eu que continuava seguindo meu destino. Isso perturbava a ordem familiar... O pai ainda tentava fazer festas para comemorar o ressurgir do filho, mas poucas pessoas frequentavam aquele lugar. Batata, o filho ia ficar doente novamente. Minha ajuda nem sempre é bem quista, mas sempre necessária. Não deu outra, o rapaz adoeceu novamente, mas a diferença agora é que ninguém o visitou dessa vez. Semana passada, conversei com o máximo de familiares, disse que, por ordem divina, não era para visitar a família durante um ano. Fiquei atento para ver se alguém ia furar o trato. Tudo ocorreu dentro dos conformes: o garoto adoeceu novamente e pulou do décimo andar... Felizmente, o povo acredita mesmo nas ordens divinas. É mais um caso solucionado!... Só a família compareceu ao velório!

terça-feira, 1 de março de 2011

CIANURETO

Há muito tempo não vou à casa de vovó, mas essa me parece uma boa oportunidade. Afinal, não é todo dia que ela faz aniversário, ainda mais, de noventa anos. O legal é que vovô aniversaria no mesmo dia - um dia, duas festas. Quando pequena, dizia a todos da minha vontade de ser como vó-ana, isso porque ela sempre foi dona de si, sabia cada passo que dava. Certo dia, numa confraternização de família, meu avô revelou que tinha uma amante - estava completamente bêbado. Vó-ana simplesmente curvou a cabeça dizendo que já sabia, que ela mesma havia unido os dois. É claro que ele fingiu não acreditar, mas todos ali conheciam a história. Acho vovó incrível de verdade! Mamãe, não... Ela sempre quer mostrar que não está bem, que precisa de ajuda. No fundo, morre de inveja de vó-ana. Vovó, calada como é, não entra nessa competição ridícula. Os mortais morrem querendo provar o que não são... Vovó é, e pronto, e acabou!

Hoje é dia de ir à casa de vovó! Já faz pelo menos três anos que não apareço por lá. Não por odiar aquele espaço, mas por ter que aguentar as paranoias de mamãe. Ela se apronta toda e quer que eu faça o mesmo. Odeio me pentear! Meus cabelos têm forma própria, não precisam de "forçação" de barra. Mamãe morre gritando que estou feia, enquanto papai tenta acalmá-la. Acho que ela adora ver o pai chorando: "calminha, Divina, calminha...". A tranquilidade do meu pai é um estorvo! Não suporto ver essas cenas, por isso refugio-me no meu recôndito quarto. Porém, hoje suportarei as insanidades de mamãe. Quem sabe não esqueço aquele patife? Ontem, o degenerado do meu ex-namorado, terminou sem razão e, ainda, por e-mail. Tem base?!

Entramos no carro e nos mandamos, não sem os berros de mamãe. A viagem de Anápolis a Goiânia foi repleta de queixas, sofrimentos, mas papai, tolerante até demais, tranquilazava minha mãe por alguns segundos, logo voltava a mesma ladainha. Saí de casa consciente dessa lamúria, era minha sina, já que não queria pensar naquele depravado. Ele sempre vinha à minha mente, de repente. Eu olho para o lado e passo a obsevar papai e mamãe. Na minha bolsa há bastantes doces e, é só lembrar do desgraçado, para me entupir de porcarias. Qualquer merda do mundo é melhor que aquele destrambilhado! Como que para silenciar mamãe, ou simplesmente para obter uma explicação sobre meus sentimentos, interrompo a conversa e pergunto qual a razão de eu não conseguir tirar o salafrário da minha mente. Papai limitou-se a dizer que é consequência dos quinze. Mamãe, não querendo se passar por alguém ausente, disse já ter vivido situação parecida, "isso passa!", e voltou às lamentações divinas.

Chegamos ao destino e, enfim, mamãe se calou um pouco. Entramos no apartamento, cumprimentei vovó e me sentei. Ali é assim mesmo, todos chegam se abraçam à porta e se sentam. Fazem comentários sem sentidos, comem, se cutucam disfarçadamente através das palavras "seu filho continua magrinho, magrinho...". Depois todos vão embora à francesa. Vovó fica sempre calada observando a ordem da casa, como um cão farejador. Aliás, farejar a dor é uma virtude de vó-ana, que sabe quem sofre mais, conhece bem as fraquezas de todos. Mas hoje chegamos mais cedo, não havia ninguém para abraçarmos à porta. Apenas vovó sentada contemplando o dia pela janela e minha tia Joana, a solteirona que cuidava de vovó e vovô. Minha família cumprimentou a todos, enquanto eu abraçava e beijava apenas vó-ana. Ela gostava de mim! Olhamo-nos profundamente, como quem diz um romance sem palavras. Sentada, pude observar todos os parentes, os mais diversos, chegando um a um. Alguns espalhafatosos, outros nem tanto.

Os convidados ficam sorrindo para dar o ar de festa, enquanto eu sempre os observo. São interessantes os mortais, mas ele, o sem vergonha, não sai da minha cabeça. Como um homem pode me deixar assim? É me perguntar essas coisas e pensar em vovó... Fosse como fosse, vó-ana faria tudo diferente. Olha só! Enquanto as pessoas não param de dizer que a vida é bela, que vó-ana está cada vez mais exuberante - ela simplesmente contempla a paisagem pela janela. Deve ser um saco aguentar toda essa gente! Tio João não vê a hora de ela bater as botas, quer dividir logo a herança. Esses dias, ligou lá em casa insinuando que devíamos provar que vó-ana seria incapaz. Sem vergonha igual ao desfigurado do meu ex! Vovó não, ela olha, contempla a todos com o mesmo tom, desde sempre. Nem me lembro do vovô, talvez por ele ficar ali deitado, inoperante. Será que entende alguma coisa?

Nos tempos em que vovô falava era tudo diferente. As festas eram festas! Comíamos, bebíamos... O povo ficava trêbado e acabava falando de amor. Não posso me esquecer dele, foi especial. Mas vovó vive e vive bem! Uma flor no meio desse deserto implacável. Olha lá, tio João falando que vó-ana é um exemplo de vida, "sempre amou a vida e ama!". Ah, meu deus! Mamãe até aqui... Reclamando agora de dor nas costas, sinusite ou sei lá o quê. Deve ser difícil: perceber que papai tem que dar atenção a tantas pessoas. Onde é que anda Lampião? Maria Bonita ficou desamparada! Ele não me sai da cabeça e não servem logo o almoço, que coisa! Ufa, lá vem tia-solteirona-joana. Tá tudo lá... Frango caipira, feijão tropeiro, milho, salada e, de quebra, muito sorvete...


Vou à forra! Como de tudo e ainda me lambuso no sorvete feito pela solteirona. Nossa, como tanto que parece ser vertigem esses pensamentos. Bucho cheio! Vovó-perto-de-titia-perto-de-mamãe-perto-de-papai... Nossa, vovó está caindo!... Ai, meu Deus! Vo-ana engoliu um comprimido de cianureto...