domingo, 6 de março de 2011

UMA MÁQUINA NADA EXTRAVIADA

A máquina continuava causando arrepios nos habitantes do vilarejo. As crianças não perdiam tempo: pululavam máquina acima. Brincadeiras de todo tipo foram desenvolvidas a partir da chegada da estranha coisa. Era grande, tão grande, que ninguém nem sonhado tinha com aquilo. Os pedregulhos, as brincadeiras, as visitas já eram controladas pela prefeitura, para não virar um verdadeiro caos.

Certo dia, ainda me manhã, um visitante nada convencional chegou ao município. Ele estava de mãos vazias: mochilas, malas não estavam com ele. Tinha o andar resoluto, parecia saber onde pisava. O lugar não tinha rodoviária, mas havia um lugar que fora convencionado para esse fim, o Pouso Alto. Era mesmo lá nas beiradas da rodovia, donde era possível enxergar todas casas. Apeou ali, sem mais nem menos, foi descendo a ladeira enorme de Buenópolis. Passou pelo único banco do lugar, que era do Brasil, e continuou com passos firmes a descida. Os habitantes não cessavam de observá-lo, cogitavam hipóteses diversas sobre a origem do rapaz. Havia uma escola, que naquele dia liberara os estudantes mais cedo. Eles estavam ainda pelo portão, conversando no sossego único de interiorzinho. Robson, continuava percorrendo a ladeira imponete, sequer olhava para os lados... Até que avistou com clareza o objetivo da caminhada.

Aproximou-se da máquina, havia dois policiais fazendo a vigilância do lugar. Parou frente aos oficiais e disse sobre seu intento - queria adentrar à máquina. Resposta pronta: impossível! Isso porque o prefeito queria conservar o espaço intacto à visitação de turistas, agora tinha dia e hora certa para adentrar o espaço. Robson, sem entender, não respeitando os limites impostos, segurou uma tecla do grande objeto, e entrou. Vinte minutos depois, estavam Robson e os dois guardas na delegacia. O delegado, que não queria se meter nas coisas da prefeitura, chamou o prefeito, mas, enquanto não chegava, jogou-se numa conversa com o desconhecido. Havia um mal entendido ali - era como Robson dizia. Foi explicado que o município já era outro após a chegada da grande máquina, que vinham pessoas de toda parte alegando ser milagroso o objeto. O prefeito, Seu Manoel, explorava bem essa ideia de milagre. Estipulara que a máquina só conseguia curar nas sextas, sábados e domingos, dia de semana ficava fechada.

Após alguma escuta, Robson achou interessante como representavam a máquina. Como um atento ouvidor dos mortais, continuava com a mesma postura rígida e de ouvidos abertos às histórias. Chegara a notícia: o prefeito estava noutra cidade em busca de patrocínio para o bendito objeto. O delegado, que por sinal adorava conversar, gostou de ter ouvidos ali numa segunda-feira-de-todo-dia. Danou a contar o que passava pelas cabeças dos mortais de Buenópolis. O padre do lugar, Juarez, estava em pé de guerra com a prefeitura. Isso porque achava ser aquele, um objeto não identificado, coisa maligna, coisa de alienígena, coisa do trem-ruim. No início não era bem assim: a prefeitura dividia a renda das visitas com a paróquia, entretanto, o prefeito instalou uma praça de alimentação dentro da máquina e se negou a dividir os ganhos. Foi declarada a guerra! A cidade estava dividida: aqueles que gostavam de dinheiro-sem-sossego e, do outro lado, os que dormiam sono-de-padre. Era coisa séria! Inclusive, os dois guardas tinham vindo de Belo Horizonte, uma forma da polícia manter a isenção. Mas todos sabiam que o delegado era católico e gostava de dinheiro, uma figura meio extraviada!...

Robson, estava sentado de orelhas em pé para a dor dos mortais. O delegado não sofria, ao contrário, dava longas gargalhadas quando falava da contenda formada no vilarejo. Depois de muita história, ouviu-se burburinhos na porta da delegacia. Eram os católicos querendo permanecer dormindo. Diziam ser o própria coisa-ruim, o desconhecido. O tinhoso tinha tomado forma de gente! Era coisa por demais que se ouvia. Uns, mais sonâmbulos que os outros, deram a jogar cruzes, benzidas pelo padre, na delegacia. Não era possível enxergar o padre, talvez porque quisesse omitir sua responsabilidade pelo atentado. O fato é que a coisa foi ficando grave. Na delegacia só tinham três policiais e o delegado - os guardas da capital já tinham retomado a vigilância da máquina. Uma cruz, mais benta que as demais, quebrou o vidro e caiu aos pés de Robson. Nela havia a inscrição "Sai, Tiubirom!"... Riram os dois, o delegado fez o favor de explicar que Tiubiron fora tirado de um música de carnaval, o que era considerado pelas beatas como coisa do chupa cabra.

Muito se ouvia ali. Agora a conversa tinha mudado o rumo, eram os manifestantes que discutiam. Olharam pela vidraça quebrada, e perceberam que os capitalistas da cidade tinham chegado - era calorosa a discussão! Depois de uma conversa quente, ouviu-se um tiro... Parece não ter matado ninguém, mas causou um grande alvoroço. O delegado, agora sim, sentiu-se convocado e foi ter com as duas dissidências. Usou de um megafone para atrair a atenção dos transeuntes. Disse para acalmar os ânimos que o prefeito já estava a caminho... E que, qualquer outro incidente entre eles, haveria de começar as prisões. O povo, cada um à sua maneira, danou a gritar: "Delegado tinhoso", ou, ainda, "É católico! Mas o Vaticano está rico que dói!"... Os lados uniram-se para destrambelhar o pobre-diabo. Conversa vai-e-vem e Robson tomava nota de tudo ali.

Após intermináveis discussões, Padre Juarez e Seu Manoel chegaram à delegacia. O padre entrou benzendo o lugar, enquanto o prefeito contava um maço de notas, pareciam falsas de tão velhas. Robson ouviu aos dois: bons argumentos acima de tudo! Depois da longa explanação, principalmente a do padre, o prefeito era mais sucinto, perguntaram sobre a procedência de Robson. Sem muito blá-blá-blá, disse apenas que coletaria as críticas, sugestões e reclamações do vilarejo - era o novo ouvidor do lugar!

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