quinta-feira, 30 de junho de 2011

só?, sinto que não dá

só?, precisa de outra mãozinha
não só!, tudo que há
sozinha, não dá!



Resposta a Tassi pelo texto "só preciso de uma mãozinha".

só!, sinto

Retrato poético
inacabado

só!, sinto

Tratado
sucinto
de mim

só!, sinto

Meu querer
não se basta só

só!, sinto que basta
o que querem de mim

quarta-feira, 29 de junho de 2011

só!, sinto

cinto
apertado
só!, sinto
como é difícil comer
a carne de pescoço
dos meus desatinos

só!, sinto

poço
profundo
sinto, só!,
no fundo do fosso
cultivo s.ó.
(serviço de observações)

terça-feira, 28 de junho de 2011

só!, sinto

o que sinto
só!, sinto
por minha conta e risco


Autoria coletiva:

Fernanda Padilha e eu

Pesadelo real

Massacre da candelária goiana

Parque Oeste Industrial
Goiânia, 2005
Dezenas de desaparecidos
Dois encontrados, assassinados
Pedro Nascimento Silva
Walgner Silva Moreira

Presentes! - da política goiana

domingo, 26 de junho de 2011

Come chocolates, pequeno

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Fernando Pessoa, Tabacaria.



Já sou homem velho-barbado, mas nem por isso deixei de sentir prazer como antigamente. Quando adolescente, gostava de me sentar ao vaso e, relaxadamente, defecar. Inicialmente, gostava sem atribuir muito sentido àquilo - gostava e pronto! Entretanto, com o passar do tempo as coisas foram tomando outra conotação.

Foi no dia primeiro de abril que percebi uma madança abrupta no singelo ato de defecar. Sentei-me ao vaso, como de costume abri um livro de poemas (Ferreira Gullar)... Demorou, mas quando veio, foi um turbilhão de emoções: sangue, merda e bastante arrepios. Eram os calafrios que me deixavam seduzido! Passei a forçar: sentava, todavia não era em todas as circunstâncias que tinha prazer. Muitas vezes, ficava horas a fio, inútil, não vinha nada como desejava. Foi aí que percebi a necessidade de comer algumas frutas excelentes para colocar o intestino em movimentação. Comecei com a laranja, juntamente com o bagaço, e logo outras substâncias vieram...

Minhas manhãs estavam transformadas. Já não conseguia ler à mesa, toda leitura e escrita eram feitas ao vaso sanitário. Passei a me alimentar no banheiro, dormir sentado, enfim, meus hábitos mudaram da água à lama. Com o cotidiano modificado, veio também a necessidade de defecar mais e mais, porque não tinha sentido ficar estático, na mesma posição, por tanto tempo, se não caísse nada. Assim, tomava remédios constantemente para concretizar meus objetivos.

Certo dia, meus familiares de Minas vieram me visitar. Entraram em casa, foi uma festa só, contudo logo veio o susto. Em minha sala havia vários vasos, até tinha trocado os tradicionais sofás por utessílios semelhantes àqueles usados em banheiros. Tinha pia, cesto, toalhas etc., tudo para criar uma atmosfera mais saudável, agradável. Meus familiares ficaram somente uma tarde na minha casa, deram um jeito de procurar um hotel, porém, meu sobrinho sapeca, adorou o cenário e até usou um vaso. Bibica, assim era apelidado meu sobrinho, acabou ficando comigo, enquanto os parentes se alojaram num hotel próximo.

Bibica era curioso! Não gostava de frutas, não tomava laxantes, mas sempre estava sentado ao vaso e, o melhor, defecando. Um dia, parei para observá-lo e percebi que ele defecava como ninguém, pelo menos quinze vezes ao dia, um recorde! Nas minhas manhãs, ao vaso, sempre me pegava em reflexões sadias: merda, lama e criança parecem ser a mesma coisa! Era isso, o ser humano ia crescendo, e as tarefas do dia a dia o tomavam por inteiro, até o gozo máximo era deixado de lado. Crianças são mesmo incríveis!

Bibica não parava de me impressionar. Agora não eram quinze vezes, mas vinte e duas vezes por dia, naturalmente. De onde saia tudo aquilo? Ele comia bem, mas nada tão exagerado assim, mas as fezes... eram barrentas, firmes, coesas e tinham um cheiro estrondoso. Ele era sim um fenômeno! Se soubessem dar valor a quem de fato merece, Bibica seria considerado um grande gênio da humanidade.

Eu, que precisa também ter um ganha-pão, comecei a fazer essências de fezes, um sucesso! Eram perfumes de aromas distintos e diversos. Fiz sucesso, dinheiro não falta aqui em casa... tudo porque eu tinha um público fiel, as crianças. Elas adoravam dar de presente perfumes, incensos, bonecos feitos da própria merda etc. Bibica, meu sobrinho, era nosso garoto propaganda: mostrávamos ele ao vaso, defecando várias vezes ao dia e, por fim, a câmera fechava no interior do vaso, enfatizando o tamanho, a potência daquela arte. As crianças queriam ser como Bibica!


Mas, foi em mais um dia de propaganda que Bibica mudou o rumo das coisas. Ele estava sentado, com um livro nas mãos, preparando-se para o momento de glória. As filmadoras a postos, eu o aguardava pacientemente, mas o diretor já estava prestes a desistir da empreitada, porque o cheiro já era insuportável para ele... Bibica começou a mudar de cor, levantou uma parte das nádegas, e algo colossal sobressaiu. Era a maior já vista! Enquanto todos aplaudiam, Bibica foi perdendo as forças, ainda levantou-se querendo dizer algo, mas caiu morto com a cabeça dentro do vaso, na MERDA.

Bassoura

- bassoura!
(seus pais nasceram gritando)

o que me conforta agora
são as crianças fazendo
da vassoura, um cavinho voador

- dia!
- dia!
- trás cá, bassoura quanto é?

e a saga continua...
a mãe, em casa, tecendo palhas-pães
enquanto o pai, de caminhar firme
juntamente com as crianças
pululando, gritando o hino baiano:

-bassoura
-bas sou ra
-bas   so  ra
-bas    so  ra
-bas     so    r
-bas       so   r
-bas         so
-bas           s



Em nome da MERDA, amém

Minha mão está suja./ Preciso cortá-la./ Não adianta lavar./ A água está podre./ Nem ensaboar./ O sabão é ruim./ A mão está suja,/ Suja há muitos anos./ Carlos Drummond de Andrande, A mão suja


Ignácio caminhava toda tarde pelo Parque Areião, mas naquele dia resolvera ir pela manhã. Era comum, durante a caminhada, encontrar colegas da faculdade, alunos e antigos professores. Geralmente, esperava um tempo antes de iniciar as quatro voltas, uma vez que adorava observar os garotões malhando e comentando sobre mulheres. Já tinha concluído que os tempos eram outros! No início, aquele lugar, que frequentava por indicação médica, era exclusivo aos homens. Entretanto, nos últimos anos, Ignácio percebera que as mulheres estavam tomando conta do pedaço, com uma diferença básica: comentavam sobre homens e mulheres, sem distinção de gênero.

Ignácio, como todo mortal do século XXI, não só fazia caminhadas, como tinha uma vida social um tanto complexa. Na faculdade, ministrava aulas de literatura contemporânea. O que chamava a atenção era que, em quase toda explanação do professor, deixava escapar uma concepção de vida um tanto estranha. Espalharam inclusive um boato malicioso sobre Ignácio... Diziam que, numa análise sobre a poética Drummoniana, Ignácio teria dito: "Resumir Drummond é fácil, basta você aplicar a teoria da merda: da merda viemos, à merda voltaremos!". Digo ser boato porque a aula não foi gravada, apenas por isso! Outros incidentes também foram mencionados pelos ex-alunos do professor. Contam que Ignácio estava num bar, e, depois de alguma bebida, desabrochou a falar. Disse que os humanos são merdas ambulantes! Que não só os seres humanos são merdas, mas toda essência viva carrega a tonalidade de fezes. Ainda citou Ferreira Gullar dizendo em alto tom: "Introduzo na poesia/ a palavra diarréia./ Não pela palavra fria/ Mas pelo que ela semeia". Diante do espanto geral, Ignácio ainda completou: "Da merda viemos, à merda voltaremos!".

Com o passar do tempo, Ignácio começou a levar muito a sério os seus filosofemas. Os banhos já não eram regulares, os dentes, raramente escovados, e os cabelos deixaram de ser penteados... Como Ignácio não era casado, muito menos possuía filhos, as pessoas demoraram a perceber o que estava a acontecer com ele. O fato é que as aulas estavam cada vez mais repletas de filosofemas ignacianos - como passaram a ser chamados. Dizia que os estudantes, no lugar de ler Rubem Fonseca, deviam se atirar ao submundo brasileiro. Deviam, ao invés de ler literatura marginal, procurar fazer uma prática marginal, que não reproduzisse os modelos, mas que criasse uma nova forma. O discurso era convincente! Após alguns anos de pregação insistente, vários alunos e ex-alunos começaram a seguir o mestre, cada um a seu modo. Alguns deixaram de comer, querendo tornar-se flores - sonhando realizar fotossíntese! Outros, iniciaram a filosofia do dia-a-dia. A cada manhã acordavam de uma maneira: hoje macaco, amanhã uva, depois um livro... Um fenômeno interessante!

É desnecessário dizer que Ignácio fedia, fedia merda! Um ano passado, e o círculo da filosofia do dia-a-dia, também conhecida como filosofia da merda, crescia consideravelmente. Os pais já não sabiam como lidar com a nova situação, os professores conservadores pediram demissão, consequentemente, a faculdade passou a ser referência nos ensinamentos ignacianos. Ele chegou a ser convidado para ir ao Programa do Jô, mas a entrevista não foi realizada porque o cheiro já era impossível de ser tolerado em ambientes fechados. Não sei bem... Mas Ignácio e sua trupe só tinham livre andar pelos parques de Goiânia e pela faculdade, onde habitavam. Talvez porque as pessoas depois de caminhar ou correr pelas pistas, desenvolvem um odor diferencial, muito parecido com a merda. E quanto à faculdade, todos já exalavam o mesmo cheiro, inenarrável.

Dias passando e Ignácio continuava paulatinamente suas descobertas. As pequisas literárias passaram, todas, a trazer algo sobre os cheiros, em especial aqueles não tolerados pelos mortais. Parafraseava Kundera dizendo que "A luta do homem contra o poder é a luta do cheiro da merda contra o esquecimento". Contava que uma sociedade morta é aquela que esconde a verdadeira essência, a merda! A faculdade da filosofia do dia-a-dia ou faculdade de merda, acabou aglutinando as demais faculdades. Os positivistas já estavam fracassados! Agora, não havia História, Ciências Sociais, Medicina ou Engenharias, era tudo Universidade do dia-a-dia, que, claro, estudava os filosofemas ignacianos. O futuro universitário estava bastante delineado: aprofundar nas discussões, para que a merda pudesse aparecer...

As Teorias Ignacianas ganharam respeito internacionalmente. Professores de universidades renomadas vinham ter aulas com o célebre Ignácio ou com alunos prodígios do professor. As aulas eram peculiares, a começar pela arquitetura da sala. Tinha o formato, a cor e o cheiro da merda. Não eram todos que conseguiam assistir três horas de seminários, alguns até vomitavam. Sobre o vômito, eles tinham que realizá-lo ali mesmo, entre os alunos, já que o odor do lugar trazia uma conotação pedagógica. Com o correr do tempo, a sociedade civil começou a se encantar com as novas teorias da universidade. O movimento em torno da merda cresceu tanto que o nome da universidade foi alterado. Agora sim, Universidade de MERDA! Assim mesmo, em caixa alta, pois simbolizava todos os anos de estudo daquele grupo. A sociedade já era outra! Até mesmo o presidente da república fora substituído por uma porção de merda. Quem decidia pelo país não era o presidente, mas a renomada Universidade de MERDA. Perguntado sobre as mudanças de paradigmas, Ignácio disse: "Tudo que é merda desmancha ao ar!". Não digo que morreram os movimentos de resistência, mas, um pronunciamento vindo da Universidade de MERDA, pôs fim a qualquer tentativa de retroceder, de esconder a merda. "O que acontece no Brasil já era uma reivindicação histórica há anos!" - como eram sábias as palavras daquele grupo, consideravam os mortais.

Os tempos mudam... E agora temos Ignácio no parque Areião, o velho Parque Areião, agora de MERDA. Sim, e na parte da manhã! Todos ali já sabem das conquistas ignacianas de MERDA, das mudanças socias de MERDA, da socialização da MERDA, das novas religiões de MERDA. A palavra merda já não podia ser escrita em letras minúsculas - desrespeito à cultura local. Agora, sempre com letras maiúsculas, MERDA! Uma revolução acontecera! Mas Ignácio acordara aquele dia de saco cheio... Não queria ser notado, estava com saudades do tempo em que caminhava sem porquê. Cansara de ser idolatrado, ser um guru de uma nação...

Acordou, e foi ao banheiro. Ligou o chuveiro, de onde já não caía muita água devido ao longo tempo de desuso. Tomou um demorado banho e, após uma longa reflexão, Ignácio pôs-se a fazer a barba. Em seguida, abriu o guarda-roupas e encontrou uma roupa limpa, embora um tanto empoeirada. Vestiu-se, e foi ao Parque Areião de MERDA, queria caminhar! Chegando lá, sem que ninguém o conhecesse, sentou-se ao meio-fio e começou a ouvir o mundo... O novo mundo de MERDA! Entendeu que tudo ali não passava de MERDA! Depois de alguns minutos, levantou-se e iniciou a caminhada...

sábado, 25 de junho de 2011

Em nome do AÇÚCAR, amém

"Por que não destes um raio brando ao teu viver?"
 Pedro Kilkerry



 - Ele está foragido, provavelmente morto! Mas lembrem-se, antes de tudo, ele é obrador! Tem tatuado nas costas a frase DA MERDA ao caos, não se sabe exatamente a razão. Cogitam que tenha visto um filme de Almodóvar cuja temática fosse a mesma. Ou, talvez, seja mais uma frase barroca, de algum escritor morto.

Após ter caminhado lentamente pelo parque Areião, Ignácio voltou à casa. Tudo estranho: merdas na parede, livros em cinzas e um porco amarrado na mesa de centro. Na boca do animal havia uma carta... Após a leitura, percebeu que as coisas mudariam dali em diante. Era um atentado: um ex-discípulo atentado fizera tudo aquilo - não suportara a ideia de capitulação.

Deitou e dormiu um sono justo. Acordou, juntou tudo que tinha, ao álcool e fósforo, ateou fogo na casa. Saiu daquelas chamas e foi, sem nada nas mãos, lendo os muros da cidade. Na praça dita cívica, parou para conversar com alguns moradores de rua - todos lambuzados de merda e lama. Durante o diálogo, percebeu que não havia nada mais além da MERDA. A conversa se esgotou e Ignácio lançou-se num descaminho: rua a rua, um novo horizonte foi tomando corpo!

Numa viela, no setor sul, pensou que era hora de fazer tudo ao contrário. Talvez porque novos momentos, oportunos ou não, nascem ao pôr do sol. Ignácio sentiu que era hora de parar, ali mesmo! Que ser professor já tinha saturado, como o dia que findara. Fundaria agora, outra coisa qualquer.

Como já tinha se habituado a viver com pouco, ou nada, não foi difícil passar os primeiros dias na rua. Não queria ir à lata de lixo, porque percebera que aquela não era bem a dele. A ideologoia da MERDA já não tinha o valor de antes, e mendigar tinha um quê de submissão sem igual - não era mesmo a dele!

Num dia de sol, quando a fome dilacerava o estômago, Ignácio permitiu-se observar o lixo alheio. Viu de tudo, mas apenas o açúcar, branco-nuvem, o fascinou. Estava claro, faria de tudo para propagar o doce-branco-do-açúcar-nuvem. Seria naquele local que proferiria, toda manhã de sol, a fala doce-do-açúcar-nuvem! Não precisava de muito, aquela praça, entre as vielas do setor sul, era um ambiente propício...

Nos primeiros dias, os vizinhos chamaram a polícia: alguém comendo açúcar só podia ser bandido! O policial apareceu, sirenes ligadas, mas logo entendeu que se tratava de mais um companheiro da MERDA. Como toda a polícia já era adepta à filosofia-nenhuma, o policial não foi capaz de fazer mal a ele. Muito pelo contrário, após longas reflexões ao lado de Ignácio, percebeu que ali nascia um novo conceito de vida, bem mais coerente que o anterior: a vida como açúcar, doce, serena - e sem sirenes coloridas! 

Durante um ano, Ignácio proferiu seus seminário apenas para o policial, cujo nome era bastante sugestivo, Alvino. O mundo todo estava em MERDA, mas ali, em meio a uma praça deserta, novas ideias pareciam proliferar... Outras pessoas começaram a aderir, ao que ficou conhecido como filosofia-total-do-açúcar-nuvem. Depois de algum tempo, cantando o mesmo hino no mesmo horário, às sete, Ignácio passou a pensar que era hora de mostrar para o mundo que a MERDA mudara. Agora era o AÇÚCAR, açúcar branco, a filosofia-total! Todos os discípulos passaram a usar a cor branca em todas as atividades desempenhadas durante o dia, o que gerou muita inveja entre os seguidores da MERDA. 

O tempo passou e Ignácio foi convidado a ir ao Programa do Jô. Agora a Rede Globo permitia a entrada dele, afinal, vestia a cor da paz. Todo o mundo virado em MERDA, entretanto a emissora insistia num branco-alegria! As novas ideias ignacianas passaram a ter grande repercursão no Brasil, após a conversa com o Gordo. A partir daí, começaram a abrir locais de reunião em vários espaços, todavia os adeptos da MERDA não aceitaram tamanha ousadia daquele que havia declarado MERDA ao mundo. AÇÚCAR contra MERDA, a guerra começara! A amplidão das ideias ignacianas era tamanha que a guerra não foi só cenário brasileiro, mas mundial. Bombas de MERDA eram arremessadas por todo canto, enquanto se aperfeiçoavam as bombas de AÇÚCAR - um caos! 

Ignácio, que sempre foi de paz, arrumou suas roupas branco-pretas e mudou-se a Buenópolis, cidadela que ainda não havia conhecido a MERDA, nem o AÇÚCAR.

via penas

Colocar a boca no trompete

De topete,
sem pena

De colete,
a duras penas
bico no buraco, ganso


As penas de Castro
descarregam
agora, nesse teclado

?

tenho vida
?

cara a pagar
?

deus a acreditar
?

sem-carro-casa-praia-nem-mar
?

olha,
olha o lula lá
?

Furo a pensar

Estava com a VERdade
de alguém carregado por correntes
nas correntezas do cotidiano

Deixei os grilhões
pulei na garganta do desgraçado
para brotar dos dedos algo pontiagudo,
punhal, impus meus desatinos

Passamos por urtigas, cravos
afundamos,
pulamos onda e matamos no peito
à custa de palavras-gozadas

Meu companheiro já parecia estar bêbado, cansado,
eu, grudado ao pescoço dele, nos descaminhos,
não deixei de atribuir gozo àquilo

Saltei da égua-homem
destrambelhado, cambaleante,
iniciei meu voo
ainda que desgovernado,
fui às nuvens, de ar gélido, parei, remexi
percebi que não havia queda ali 
tirava foto das minhas imagens
remexia as pernas, braços,
gritava só para ouvir o eco

Mas queria mais
nu! queria mais...

Recolhi minhas mãos ao estômago
dos dedos, novamente, nasceram  espinhos,
facas, estiletes...
deixei-me dilacerar
da parede lisa do duodeno
brotou um furo - só para ter o que pensar




VERdade divina

deus,
que está em mim, mas não existe
mora nesse homem,
bomba - que seja
mas não existe

o amor que sinto não existe

dor,
no estômago, também não existe

a minha VERdade tem deus de pijamas dormindo nas nuvens
(não posso vê-lo)
porque sem mim não há deus,
em mim, está morto!

sexta-feira, 24 de junho de 2011

limpeza suave

preciso de um recurso
indispensável num mundo de singularidades diversas
recurso já muito usado - não esgotado!

preciso me levantar
fechar a tampa
dar descarga
e, principalmente,
me limpar
calmamente

amuletos de delírio

amigos
pais - Pai nosso
Pluto de infância
cidade entre minas e goiás
família desejada
despejada num sonho real

é tudo

amuletos de delírio
passatempo
de um homem, só
também menino



quarta-quinta-sexta

na quarta saí para ver o sol,
mas vi furo no asfalto do duodeno

quinta, à noite
não queria o amor morno dos lençóis embaraçados
mas laços passados de sofrimento
fizeram da fugacidade
confusão

sexta,
sedado por drogas que antecipam minha morte
durmo-acordo-durmo-acordo-morro
sem virtuosidade nenhuma

fantasia minha?

minha dor esconde o que não quero enxergar

- quinze anos de profunda puberdade
- vinte quatro de nove endoscopias: duas úlceras, inúmeras gastrites e um sequestro

acusações foram feitas
quiseram me condenar por cegueira,
mas já tinha lido Saramago
e não pestanejei

é tudo fantasia!
quando se vê a terceira margem do rio,
a barba cresce,
a navegação continua,
para reinar o real


é muito além disso
há um quê em tudo,
que não falseia a realidade,
- há um fim trágico!

quinta-feira, 23 de junho de 2011

"minha vez!", "não... sou eu!"

reabri - não sei porquê!

outro se formava imaginariamente
de repente, um vento de palavras
velho de experiências
começou a corroer - reabriu!
 
crianças brincam de lavar a própria banheira
enquanto arrumo meu quarto
"minha vez!", "não... sou eu!"
assisto delírios!

minhas palavras querem tocar aquelas ditas pelos pentelhos ao lado!



terça-feira, 21 de junho de 2011

lombriga do calvário

Garçom - fotógrafo do senado
concurso público

Senador - lombriga do calvário
entrada livre

domingo, 19 de junho de 2011

menino-home

quero ser mimado
nesse aniversário
com(o) café da manhã
tarde
noite
com(o) você

na sua cama
que há mais sexo que divã grego
quero deitar
comer, domir
me deleitar

sábado, 18 de junho de 2011

Diva



Diva,
os assassinos
de espíritos corroídos
permanecem de pé
são magros, atléticos
mudos de alma
doentes e, pior
consanguíneos

Se tivesse estabelecido contato antes
não recusaria um cigarro
beberia o que fosse necessário
e andaria por todo o Urias
-sua morte seria mais leve

Covardes,
façam suas homenagens
não se esqueçam, porém
dos choques
das drogas
e da camisa de força

Se foi
mas deixou uma boca aberta
em completa putrefação
fechada apenas por panos de linhas finas




À minha tia Diva, falecida em 13/06/2011, e a todas as vítimas da política manicomial.


Obreiro de noite e dia (quase pastor)

Sentado em posição
com um livro à frente
não sai nada

Em posição
à espera,
numa luta contínua
nada cai

Sentado, forçando e nada


Levanto, bebo água
deixo o livro sobre a mesa
e retorno
sentado - sem livros
calmamente
cai MERDA e SANGUE

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Fuzuêêê

Quando o operário deita em cima do muro e cruza os braços
ou simplesmente traz atestados
licença, vejo um outro movimento

Escritor, professor, taxista ou doutor
ouço os cochilos
os medos - desejos!


Que é sair de casa
nas greves, nas ruas
no centro - no sonho, um fuzuê!

Corte histórico não é rebeldia,
já é consequência
dessa louca estadia
na terra



quarta-feira, 15 de junho de 2011

gozo fúnebre


Mesmo sendo escrito em livros putos
ou nesse blog de escroquerias - faço exigências!

É só um pedido
encarecida ordem
de alguém que jaz entre merdas, vermes, cabelos e dentes-sujos



Nesse dia feliz
de reintegração ao caos
leiam o gozo fúnebre solenemente
- nascerá a lapa fúnebre goiana


Nessa festa
depois de bombas estrondosas
a poesia, promíscua como é
estará em faces, olhos, paus
em tudo!
em completa putrefação

Para a úlitma marcha
bastará o registro:
Do caos, só a MERDA restou!




segunda-feira, 13 de junho de 2011

Sobre a Minha Ida ao Rio

 
Estive no Rio de Janeiro esse fim de semana, no Encontro Americano de Psicanálise de Orientação Lacaniana (ENAPOL), mas acabei deixando o recinto para participar da gigantesca manifestação ocorrida ontem em Copacabana. Foi noticiado pelos meios de comunicação de massas um número muito aquém do real, 27 mil, penso que havia bem mais. 


Percebi que a unidade tão incentivada no meio militar acabou tendo um outro endereçamento, contra aqueles que de fato - não de direito - oprimem a população. Entre os bombeiros essa unidade é expressa como um sentimento de família, o que é fundamental para o desempenho de tarefas tão arriscadas. Assim, há um grande companheirismo entre os colegas, o que infelizmente não é possível observar em outras categorias. Para se ter ideia do tamanho dessa irmandade, a própria P.M. não teve coragem de retirá-los do quartel central, foi necessário que Sergio Cabral convocasse os cães mais ousados, o BOPE. Além disso, a população se identifica bastante com a profissão desses que se atrevem a salvar vidas.  Todos os fatores citados ajudam a compreender a razão dos bombeiros cariocas - menor salário do Brasil inteiro - revoltarem-se.

Apesar da rigidez das instituições militares (punições bem mais severas do que um corte de pontos, professores!), os bombeiros não se intimidaram e ocuparam o quartel central do Rio, mostrando quão coesos e desejosos por mudanças estão; que a falência das instituições está posta para quem não quer fechar os olhos. Quando os próprios militares se revoltam, há nisso um exemplo de falência do estabelecido, perda do nome do pai, e, não é sem razão que outras categorias também estão se levantando por todo o "universo" carioca.


Militares contra militares! Os bombeiros do Rio enfrentaram a tropa de choque conhecida mundialmente como a mais opressora - BOPE -, que não está muito distante da Rotan em termos de massacres às populações pobres, e mesmo assim não desistiram. Apesar das ameças de exoneração, permanecem mobilizados pela dignidade da classe. Um exemplo a quem se atreve a ver um mundo de outra forma!


Fruto desse momento de falência da lei, outros segmentos também entraram em greve, como a educação carioca. Apesar do tom messiânico da manifestação de ontem "Deus vai nos ajudar!", "Vamos orar para que Deus mude o Cabral", percebi a integração entre os diversos segmentos: educação, saúde, bombeiros e outras instituições militares. Conversando com os professores que decidiram pela greve, percebi a forte influência do mov. iniciado pelos bombeiros, a força deles parece ter sido chave a eclodir novas lutas. O interessante aí é a formação de uma luta não só pela categoria, mas uma luta global, uma luta de classes. É perceber que em meio ao caos, em meio a falência da ordem, novos horizontes parecem clamar por uma outra forma de lidar o externo. E, quando a população pensa em "arrumar o quarto", é porque a subjetividade coletiva também está em transformação.


No atual momento, a repressão deve crescer! O que aconteceu com os bombeiros - expulsos do próprio quartel, expulsos da própria casa -, demonstra que quando a lei cai, como consequência histórica, os "donos" do poder se munem de todas as armas para perpetuarem uma ordem, que já é inadequada para os dias atuais. A luta dos bombeiros e as greves espalhadas por todo Brasil estão mostrando que a população possui o desejo de mudança, que essa estrutura socioeconômica já não comporta a subjetividade atual.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

MERDA em caixa alta



Nessa merda 
merda minúscula do cotidiano
sinto apenas o cheiro fétido
de bosta barrenta de terminais lotados - bueiros de gente
sinto o que nem sempre o nariz suporta

No ônibus vomitado, lotado
no caos insano do dia
ou na noite entorpecida em sala de aula
professores de séculos passados
só há o cheiro
cheiro de merda, merda-capital

é nesse fogo cruzado
dessa  pol(t)ícia goiana-carioca-brasileira - assassina
que faço bomba, meu próprio ser

ah,
os padres, pastores, monjes, professores
cegos-médiuns
sem remédios
sem palavras
sem nada

É em tudo, em mim
que floresce a MERDA!

sábado, 4 de junho de 2011

Profecia do caos

Após a última bomba
ainda haverá MERDA

preguiça de morrer

que preguiça de almoçar
música, poesia e mulher - preguiça
preguiça de morrer
comer arroz, feijão e jogo do Brasil


sair pra almoçar
correr ruas, ler jornais
ver a triste cena
"CACHORRO assistindo T.V. é enxotado como mortais"
falta fôlego, sobra fome e preguiça

eita manhã de vômito!
melhor seria regurgitar as rações de ontem

Cú! Por que botam pau no cu?

C-----------------
!
!
!
!
!
U



Cu
oxítona terminada em u
não leva acento gráfico
tola gramática, normatiza o impossível!


C/U
letras abertas
formam vácuos
o mundo utilitário
não deve haver vazio

Cu
a camada de ozônio é preenchida de gases
a dor-vida é coberta de remédios
médicos, dentistas, policiais, professores - entorpecentes
a bunda também possui buraco, cu


enquanto C é um faltante horizontal
U falta verticamente
falta o resto
a merda
o flato
o pau
o cú




C------------------
!
!
!
!
!
!
U