domingo, 26 de junho de 2011

Come chocolates, pequeno

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Fernando Pessoa, Tabacaria.



Já sou homem velho-barbado, mas nem por isso deixei de sentir prazer como antigamente. Quando adolescente, gostava de me sentar ao vaso e, relaxadamente, defecar. Inicialmente, gostava sem atribuir muito sentido àquilo - gostava e pronto! Entretanto, com o passar do tempo as coisas foram tomando outra conotação.

Foi no dia primeiro de abril que percebi uma madança abrupta no singelo ato de defecar. Sentei-me ao vaso, como de costume abri um livro de poemas (Ferreira Gullar)... Demorou, mas quando veio, foi um turbilhão de emoções: sangue, merda e bastante arrepios. Eram os calafrios que me deixavam seduzido! Passei a forçar: sentava, todavia não era em todas as circunstâncias que tinha prazer. Muitas vezes, ficava horas a fio, inútil, não vinha nada como desejava. Foi aí que percebi a necessidade de comer algumas frutas excelentes para colocar o intestino em movimentação. Comecei com a laranja, juntamente com o bagaço, e logo outras substâncias vieram...

Minhas manhãs estavam transformadas. Já não conseguia ler à mesa, toda leitura e escrita eram feitas ao vaso sanitário. Passei a me alimentar no banheiro, dormir sentado, enfim, meus hábitos mudaram da água à lama. Com o cotidiano modificado, veio também a necessidade de defecar mais e mais, porque não tinha sentido ficar estático, na mesma posição, por tanto tempo, se não caísse nada. Assim, tomava remédios constantemente para concretizar meus objetivos.

Certo dia, meus familiares de Minas vieram me visitar. Entraram em casa, foi uma festa só, contudo logo veio o susto. Em minha sala havia vários vasos, até tinha trocado os tradicionais sofás por utessílios semelhantes àqueles usados em banheiros. Tinha pia, cesto, toalhas etc., tudo para criar uma atmosfera mais saudável, agradável. Meus familiares ficaram somente uma tarde na minha casa, deram um jeito de procurar um hotel, porém, meu sobrinho sapeca, adorou o cenário e até usou um vaso. Bibica, assim era apelidado meu sobrinho, acabou ficando comigo, enquanto os parentes se alojaram num hotel próximo.

Bibica era curioso! Não gostava de frutas, não tomava laxantes, mas sempre estava sentado ao vaso e, o melhor, defecando. Um dia, parei para observá-lo e percebi que ele defecava como ninguém, pelo menos quinze vezes ao dia, um recorde! Nas minhas manhãs, ao vaso, sempre me pegava em reflexões sadias: merda, lama e criança parecem ser a mesma coisa! Era isso, o ser humano ia crescendo, e as tarefas do dia a dia o tomavam por inteiro, até o gozo máximo era deixado de lado. Crianças são mesmo incríveis!

Bibica não parava de me impressionar. Agora não eram quinze vezes, mas vinte e duas vezes por dia, naturalmente. De onde saia tudo aquilo? Ele comia bem, mas nada tão exagerado assim, mas as fezes... eram barrentas, firmes, coesas e tinham um cheiro estrondoso. Ele era sim um fenômeno! Se soubessem dar valor a quem de fato merece, Bibica seria considerado um grande gênio da humanidade.

Eu, que precisa também ter um ganha-pão, comecei a fazer essências de fezes, um sucesso! Eram perfumes de aromas distintos e diversos. Fiz sucesso, dinheiro não falta aqui em casa... tudo porque eu tinha um público fiel, as crianças. Elas adoravam dar de presente perfumes, incensos, bonecos feitos da própria merda etc. Bibica, meu sobrinho, era nosso garoto propaganda: mostrávamos ele ao vaso, defecando várias vezes ao dia e, por fim, a câmera fechava no interior do vaso, enfatizando o tamanho, a potência daquela arte. As crianças queriam ser como Bibica!


Mas, foi em mais um dia de propaganda que Bibica mudou o rumo das coisas. Ele estava sentado, com um livro nas mãos, preparando-se para o momento de glória. As filmadoras a postos, eu o aguardava pacientemente, mas o diretor já estava prestes a desistir da empreitada, porque o cheiro já era insuportável para ele... Bibica começou a mudar de cor, levantou uma parte das nádegas, e algo colossal sobressaiu. Era a maior já vista! Enquanto todos aplaudiam, Bibica foi perdendo as forças, ainda levantou-se querendo dizer algo, mas caiu morto com a cabeça dentro do vaso, na MERDA.

3 comentários:

  1. Pobre Bibica!
    As fezes fedem, isso é real! No entanto, muitos não gostam de encarar as realidades do mundo.
    Um conto grande, um grande conto!

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  2. O dia em que inventarem alimentos que façam as fezes cheirosas, o tabu poderá ser quebrado.

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  3. cara, seus comentários são ótimos!! morro de rir!!! rss... valeu, alexandre, por estar aqui!!!

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