domingo, 26 de junho de 2011

Em nome da MERDA, amém

Minha mão está suja./ Preciso cortá-la./ Não adianta lavar./ A água está podre./ Nem ensaboar./ O sabão é ruim./ A mão está suja,/ Suja há muitos anos./ Carlos Drummond de Andrande, A mão suja


Ignácio caminhava toda tarde pelo Parque Areião, mas naquele dia resolvera ir pela manhã. Era comum, durante a caminhada, encontrar colegas da faculdade, alunos e antigos professores. Geralmente, esperava um tempo antes de iniciar as quatro voltas, uma vez que adorava observar os garotões malhando e comentando sobre mulheres. Já tinha concluído que os tempos eram outros! No início, aquele lugar, que frequentava por indicação médica, era exclusivo aos homens. Entretanto, nos últimos anos, Ignácio percebera que as mulheres estavam tomando conta do pedaço, com uma diferença básica: comentavam sobre homens e mulheres, sem distinção de gênero.

Ignácio, como todo mortal do século XXI, não só fazia caminhadas, como tinha uma vida social um tanto complexa. Na faculdade, ministrava aulas de literatura contemporânea. O que chamava a atenção era que, em quase toda explanação do professor, deixava escapar uma concepção de vida um tanto estranha. Espalharam inclusive um boato malicioso sobre Ignácio... Diziam que, numa análise sobre a poética Drummoniana, Ignácio teria dito: "Resumir Drummond é fácil, basta você aplicar a teoria da merda: da merda viemos, à merda voltaremos!". Digo ser boato porque a aula não foi gravada, apenas por isso! Outros incidentes também foram mencionados pelos ex-alunos do professor. Contam que Ignácio estava num bar, e, depois de alguma bebida, desabrochou a falar. Disse que os humanos são merdas ambulantes! Que não só os seres humanos são merdas, mas toda essência viva carrega a tonalidade de fezes. Ainda citou Ferreira Gullar dizendo em alto tom: "Introduzo na poesia/ a palavra diarréia./ Não pela palavra fria/ Mas pelo que ela semeia". Diante do espanto geral, Ignácio ainda completou: "Da merda viemos, à merda voltaremos!".

Com o passar do tempo, Ignácio começou a levar muito a sério os seus filosofemas. Os banhos já não eram regulares, os dentes, raramente escovados, e os cabelos deixaram de ser penteados... Como Ignácio não era casado, muito menos possuía filhos, as pessoas demoraram a perceber o que estava a acontecer com ele. O fato é que as aulas estavam cada vez mais repletas de filosofemas ignacianos - como passaram a ser chamados. Dizia que os estudantes, no lugar de ler Rubem Fonseca, deviam se atirar ao submundo brasileiro. Deviam, ao invés de ler literatura marginal, procurar fazer uma prática marginal, que não reproduzisse os modelos, mas que criasse uma nova forma. O discurso era convincente! Após alguns anos de pregação insistente, vários alunos e ex-alunos começaram a seguir o mestre, cada um a seu modo. Alguns deixaram de comer, querendo tornar-se flores - sonhando realizar fotossíntese! Outros, iniciaram a filosofia do dia-a-dia. A cada manhã acordavam de uma maneira: hoje macaco, amanhã uva, depois um livro... Um fenômeno interessante!

É desnecessário dizer que Ignácio fedia, fedia merda! Um ano passado, e o círculo da filosofia do dia-a-dia, também conhecida como filosofia da merda, crescia consideravelmente. Os pais já não sabiam como lidar com a nova situação, os professores conservadores pediram demissão, consequentemente, a faculdade passou a ser referência nos ensinamentos ignacianos. Ele chegou a ser convidado para ir ao Programa do Jô, mas a entrevista não foi realizada porque o cheiro já era impossível de ser tolerado em ambientes fechados. Não sei bem... Mas Ignácio e sua trupe só tinham livre andar pelos parques de Goiânia e pela faculdade, onde habitavam. Talvez porque as pessoas depois de caminhar ou correr pelas pistas, desenvolvem um odor diferencial, muito parecido com a merda. E quanto à faculdade, todos já exalavam o mesmo cheiro, inenarrável.

Dias passando e Ignácio continuava paulatinamente suas descobertas. As pequisas literárias passaram, todas, a trazer algo sobre os cheiros, em especial aqueles não tolerados pelos mortais. Parafraseava Kundera dizendo que "A luta do homem contra o poder é a luta do cheiro da merda contra o esquecimento". Contava que uma sociedade morta é aquela que esconde a verdadeira essência, a merda! A faculdade da filosofia do dia-a-dia ou faculdade de merda, acabou aglutinando as demais faculdades. Os positivistas já estavam fracassados! Agora, não havia História, Ciências Sociais, Medicina ou Engenharias, era tudo Universidade do dia-a-dia, que, claro, estudava os filosofemas ignacianos. O futuro universitário estava bastante delineado: aprofundar nas discussões, para que a merda pudesse aparecer...

As Teorias Ignacianas ganharam respeito internacionalmente. Professores de universidades renomadas vinham ter aulas com o célebre Ignácio ou com alunos prodígios do professor. As aulas eram peculiares, a começar pela arquitetura da sala. Tinha o formato, a cor e o cheiro da merda. Não eram todos que conseguiam assistir três horas de seminários, alguns até vomitavam. Sobre o vômito, eles tinham que realizá-lo ali mesmo, entre os alunos, já que o odor do lugar trazia uma conotação pedagógica. Com o correr do tempo, a sociedade civil começou a se encantar com as novas teorias da universidade. O movimento em torno da merda cresceu tanto que o nome da universidade foi alterado. Agora sim, Universidade de MERDA! Assim mesmo, em caixa alta, pois simbolizava todos os anos de estudo daquele grupo. A sociedade já era outra! Até mesmo o presidente da república fora substituído por uma porção de merda. Quem decidia pelo país não era o presidente, mas a renomada Universidade de MERDA. Perguntado sobre as mudanças de paradigmas, Ignácio disse: "Tudo que é merda desmancha ao ar!". Não digo que morreram os movimentos de resistência, mas, um pronunciamento vindo da Universidade de MERDA, pôs fim a qualquer tentativa de retroceder, de esconder a merda. "O que acontece no Brasil já era uma reivindicação histórica há anos!" - como eram sábias as palavras daquele grupo, consideravam os mortais.

Os tempos mudam... E agora temos Ignácio no parque Areião, o velho Parque Areião, agora de MERDA. Sim, e na parte da manhã! Todos ali já sabem das conquistas ignacianas de MERDA, das mudanças socias de MERDA, da socialização da MERDA, das novas religiões de MERDA. A palavra merda já não podia ser escrita em letras minúsculas - desrespeito à cultura local. Agora, sempre com letras maiúsculas, MERDA! Uma revolução acontecera! Mas Ignácio acordara aquele dia de saco cheio... Não queria ser notado, estava com saudades do tempo em que caminhava sem porquê. Cansara de ser idolatrado, ser um guru de uma nação...

Acordou, e foi ao banheiro. Ligou o chuveiro, de onde já não caía muita água devido ao longo tempo de desuso. Tomou um demorado banho e, após uma longa reflexão, Ignácio pôs-se a fazer a barba. Em seguida, abriu o guarda-roupas e encontrou uma roupa limpa, embora um tanto empoeirada. Vestiu-se, e foi ao Parque Areião de MERDA, queria caminhar! Chegando lá, sem que ninguém o conhecesse, sentou-se ao meio-fio e começou a ouvir o mundo... O novo mundo de MERDA! Entendeu que tudo ali não passava de MERDA! Depois de alguns minutos, levantou-se e iniciou a caminhada...

Um comentário:

  1. "Até mesmo o presidente da república fora substituído por uma porção de merda". Quando isso acontecer, certamente viveremos num país melhor. Afinal, tudo é merda no final.

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