domingo, 31 de julho de 2011

déjà vu

Amou sua mulher como se fosse a última
Chico Buarque, Construção.


Tinha ido ver a obra que iniciara há três meses. Sr. de Montensor, de uma frutífera linhagem de condes franceses, estava investindo em construções prediais no Brasil. Ele, que há muito tinha trabalhado no mercado ilegal de armas, percebeu que o dinheiro seria melhor aplicado em construções prediais. Não foi à toa essa decisão. Sr. de Montensor tinha feito vários amigos durante o período de contrabando, esses, vieram a formar o Partido dos Trabalhadores. Nesse ramo estatal não é preciso contrabandear! Os companheiros  facilitaram tudo, licitação e documentação, deixando o conde em doces lençóis.

Viu a obra gigantesca no centro de Belo Horizonte - no projeto fariam apartamentos populares, mas preferiram construir um novo palácio à prefeitura. Satisfeito, Sr. de Montensor retornou à sua casa, ainda antes do jantar. A esposa, Rosa Guerra, era mulher de boa índole, brasileira, e gostava de ler os clássicos, em especial Balzac. Tinha gozo parecido quando ouvia música clássica, sempre beethoven de fundo, enquanto saboreava a surpreendente comédia humana. Naquele dia 13 de outubro, Rosa esperava o marido na sala de jantar: talheres a postos, vinho no balde... cenário perfeito para uma boa noite de amor. Ela gostava de vinhos suaves, todavia o marido só bebia secos.  As qualidades de Rosa transpunham qualquer indisposição do esposo. Tinha aprendido a ceder! Depois do casamento, nos idos dos dezoitos anos, Rosa preferira paz à guerra - bebia Periquita, vinho seco, à espera do esposo. Sr. de Montensor sentou-se, comeu e foi se deitar. Poucas palavras trocadas, apesar do insistente esforço da mulher em conversar - quase um monólogo!

Era sabido pelo Sr. de Montensor, que a esposa saia sempre às sextas-feiras para jogar cartas com as amigas. Seis anos de casamento e nenhuma objeção do marido - era a única exigência dela, ele entendia perfeitamente. O marido deitado, enquanto a esposa, complentamente arrumada, ganhava a rua. Entrou na travessa Fernando de Aquino, onde havia o carro de Madame Frenesi, que a esperava. Foram às cartas. Sr. de Montensor, abriu os olhos... Vestiu a melhor roupa, tomou dois comprimidos de Viagra, e deu sequência às sextas-feiras. Era de praxe aquilo. Ele saia depois da mulher e ia sempre à mesma casa de massagem. Entretanto, aquele dia Jussara não estaria presente na Casa Vie.  Somente naquele dia 13 de Outubro, ela faria um show extraordinário na concorrente - as duas casas compreendiam bem a filosfia do grande mercado: "seja livre. Pague por sua liberdade!". Ainda que insatisfeito, Sr. de Montensor tomou o caminho rumo à Casa Nova.

Jussara não era mulher de vida fácil. Ela trabalhava e muito para dar a vida tão desejada à filha. Antes de conhecer Montensor, Jussara trabalhava de segunda a domingo, entre programas e shows. Amargava a ideia de saber que sua  filha Isabella, cujo pai não conhecera, pudesse viver sem as beneses de seus clientes. Fazia de tudo para ver a filha em bons lençóis: maquiagem, depilação a laser etc. Todavia, após conhecer Montensor, a vida passou a correu noutras águas. Ele exigira fidelidade, por outro lado, ela passou a receber dez vezes mais que antes. Agora sim, tinha tempo e dinheiro suficientes para Isabella.

Sr. de Montensor entrou de passos firmes na Casa Nova. Bastou apresentar o cartão fidelidade da casa concorrente para ter livre acesso. A política das duas empresas adoravam a promiscuidade dos clientes - com o mesmo cartão era possível frequentar os dois espaços. Sr. de Montensor sentou-se longe do palco, como a não querer os holofotes. Logo logo o garçon trouxe o cardápio: era uma lista de bebidas e comidas e, na outra parte, as mulheres que estariam presentes naquele dia. Olhou, porém não viu Jussura. Indagado sobre a ausência da garota, o garçon se limitou a dizer que ela tivera problemas no dia anterior, coisas de família. Não era o que Montensor queria ouvir, ele pagava todas as despesas dela para tê-la  ao bel-prazer! O gerente foi chamado... Depois de longas conversas, a Casa decidiu ofertar a garota mais cobiçada da noite. O fato é que não havia nenhuma referência a essa mulher: fotos ou nome, apenas a fama provocadora: "Se não gostar, não paga!", como dizia o gerente bonachão.

Diante da contingência, da necessidade vital das sextas-feiras,  Sr. de Montensor decidiu aceitar a oferta, não sem resmungar. Entrou no quarto, que estava com as luzes apagadas, tirou as roupas e deitou-se sobre a garota. Transaram loucamente como nunca. Ao finalizar, querendo conhecer o rosto, as pernas, todo aquele corpo que desfrutara, acendou a luz de teto e viu a moça... Era a sua esposa, Guerra.


velho de novo

mexe
remexe
de novo
o novelo velho de novo

terça-feira, 26 de julho de 2011

Quadro: "Jesus de Nazaré"

vou pintar jesus

um ser ateu

de barbas grandes e cabelos crespos

pelos pubianos grisalhos e dentes por escovar

humor-macaco de puta velha bêbada

senta-se como quem se dedica ao vaso, horas a fio

concentra-se como um pobre jovem que sonha comer, enquanto se come

ele, magnânimo filho de deus, está sentado perto duma cruz

porque adora dois paus grandes cruzando

ele, magnânimo filho de deus, está ao lado de bandidos

pois se deleita em prazeres sádicos

Jesus, não satisfeito com os corpos de sua época,

assistido pelo mundo voyeur antes de cristo

ele, anticristo

preferiu a morte num gozo eterno insatisfeito

e ressuscitado está, hoje, aqui!

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Justa saia

Não me coloquem em saia justa
até gosto de saias
mas em mulheres

Às 16:13h.

Acordava sempre no mesmo horário, às 06:15h. Saia às 06:55h., e tomava o posto de trabalho uma hora e cinco minutos depois. O almoço era rápido, uma hora apenas de intervalo. Ainda de barriga de cheia, retornava meio dia à labuta. Era operador de máquina de escrever. Sim, todos os textos daquela editora eram digitados à máquina! Os trabalhos se davam por completos às 16:00h., quando voltava para casa a pé.

Luiz Antônio Ferreira saíra aquele dia cinco minutos antes do planejado. Deu voltas pela Praça Joaquim Ribeiro, fingiu falar ao telefone público, deixando passar os minutos que sobravam, e tomou resoluto o caminho tradicional. Passou pela Rua Madre Sá, e entrou na penúltima ruela que antecedia a da sua casa. Andava,  naquele instante, exatamente como nos dias anteriores, passos firmes, olhos num ponto fixo, mas sempre observando de soslaio os cachorros. Quando criança havia levado uma terrível mordida de um canino sem-nome-sem-raça, marcara profundissimamente aquele rapaz. 

Às 16:13h, Antônio já tinha entrado na rua de casa, a rua Marquês de Sade. De longe, não querendo acreditar, percebeu que o cão de Dona Eterna estava do lado de fora, sem correntes, sem nada. A  vizinha  Eterna, que quase todos os dias saia à porta aos fins de tarde, naquele dia não tinha saído. O cão andava tranquilo pela calçada, entretanto, ao aproximar do homem, passou a latir. Mostrava os dentes desafiadores, fazendo Antônio lembrar o fatídico dia da infância...

Era inevitável, ao ver um cão solto Antônio sempre sentia coisas inexplicáveis. Certa vez foi ao médico, porque começara a ter espasmos caudalosos ao se deparar com um cachorro de rua. Ficou por volta de um ano sem sair de casa, desde então, não sentira nada mais estranho. Entretanto, aquele haveria de ser um dia comum, de horários marcados, se às 16:13h. não avistasse o maldito cão. Era Labrador, com mais de dois anos de vida, de caninos sobressalentes e boa forma física. Antônio atravessou a rua, andou ainda mais rápido já na outra calçada, porém o cachorro também atravessou. Repentinamente, os dois se olharam... Frente a frente, os latidos não eram ouvidos, não se ouvia nada, apenas um zumbido surdo que ofuscava tudo, inclusive a visão de Antônio.

Foi acordado no Hospital de Urgências, já tinha sido medicado e o estado de saúde era bom. Após vinte e cinco minutos deitado sobre uma maca, ele achou estar bem e levantou-se, mas não conseguiu sustentar o próprio corpo, foi ao chão. Dois fortes enfermeiros o sentaram em um banco de espera, não sem boas palavras de repressão. Aguardou por mais quinze minutos, percebendo ser dono dos próprios sentidos, locomoveu-se até o balcão. Acertou os detalhes do pagamento e foi embora, dessa vez de taxi. Chegou em casa num horário nada convencional, às 20:07h., deixou um a mais ao taxista e fez questão de entrar rapidamente sem que ninguém o visse.

O doutor teria dito que era necessário procurar um psiquiatra, psicólogo ou, mesmo, um analista. Não era assunto para médicos tradicinais, aquilo era um apagão da alma, segundo Dr. Gomes. Disse "teria", no futuro do pretérito, já que Antônio não se lembrava de exatamente como fora a fala do médico, apenas algumas vozes insistiam em vir à tona de forma fragmentada.

- Psicólogo é o caralho!

Lançou-se à cozinha para preparar algo de comer. Dois minutos de microondas, pizza pronta; três minutos e tudo devorado. Comeu se esquecendo de que havia cachorro no mundo. Ainda sentado, adormeceu profundamente... Após três horas dormindo, sonhou que tinha perdido os dois dentes caninos numa briga de bar. Acordou! Lembrou-se das terapias feitas ainda criança: a psicóloga dizia ao garoto que era necessário deixar de comer carne, brincar com cães, ou seja, era preciso esquecer completamente o animal. Outro flashback o incomodou: consultara, também enquanto criança e pelo mesmo motivo, com um psiquiatra velho e gordo. Durante a consulta, não ouvira a cor da voz do médico, entretanto, saiu de lá com a promessa de cura e um engradado de remédio a ser adquirido. Nada disso tinha feito, nem os remédios, nem os conselhos para morrer lentamente. Por incrível que pareça, desde então, não sentia nenhum sintoma que remetesse a esses temerosos dias de infância.

No dia seguinte do ocorrido não foi trabalhar. "O cão, o cão novamente!", dizia a si mesmo a todo o momento. Passou a colocar compulsivamente as mãos nos dentes, principalmente os caninos. Mas não bastou! Os pensamentos sobre cães passaram a atormentá-lo constantemente, o que o levou a pensar em alguma solução. Sabia que não era a primeira vez que ficava atordoado pela presença de um cão, e que era perigoso demais perder os sentidos como acontecera. Diante dessa justificativa, resolveu partir se prevenir.

Foi à cozinha e pegou todos os utensílios que pudessem dar segurança em caso de ver o temido. Facas de vários tamanhos, garfos, colheres e pratos foram colados sobre a mesa. Após trinta minutos de análise meticulosa, escolheu um garfo de churrasco e uma faca, nem muito grande, nem tão pequena. Caminhou até o quarto e procurou lentamente as vestes. Ainda não era o suficiente, tomou um capacete velho que tinha sido usado pelo pai há tempos. O coturno do pai, ex-militar, também foi usado para a empreitada. Não parecia, mas todo o esforço feito por Antônio era para conseguir colocar os pés na rua no próximo dia.

Às 06:15h. levantou-se. Tomou freneticamente o café e saiu três minutos antes do previsto, 06:52h. Munido de todos os apetrechos necessários, encarou o desafio. Foi pelo caminho de sempre, chegou dez minutos mais cedo, nenhum cão o atrapalhara. Ao trabalho: trocava várias letras durante a digitação, a mente estava fixa no fim do dia - hoje o cão podia aparecer! 16:00h., tudo finalizado! Saiu cautelosamente do local de trabalho, andou mais devagar que de costume, mas dessa vez o cão não foi visto - não se fez necessário utilizar de todas as bugingangas que tinha preparado.

Chegou em casa confessando a si um quê de frustração. Havia usado um capacete arcaico, apertado, que o incomodara bastante, além do mais, tinha andado com uma faca pronta para o uso. É arriscado encarar o inimigo face a face. Foi à geladeira, preparou, em menos de dois minutos, um lanche digno de nota: torta, geleia, suco de manga, pão, torradas e mussarela. Claro, não comeu tudo que havia ali, mas de tudo um pouco, calmamente. Após ter se fartado, sentou-se na mesma poltrona que se sentara nos dias anteriores. Encostou a cabeça e dormiu: sonhou com cães seguindo-o loucamente. Não gostava de interpretar os sonhos, só teve a certeza de que não era hora ainda de abolir sua defesa, as parafernálias. 

Por dois meses, Antônio só saia de casa com os objetos de defesa. Usava de tudo: ferros de cadeiras velhas, desodorante, camisetas rasgadas, pedaços de carnes podres envenenadas etc. Tudo que não tinha valor, todo lixo, era de extrema valia para a autodefesa de Antônio – os cães podiam atacar a qualquer momento, pensava. Possuía vários e diversos utensílios, mas um em especial ele não abria mão, o capacete. Tinha abstraído que os cães queriam atacá-lo pela face. Não foi sem propósito que, numa certa ocasião, sonhara que estava sem rosto correndo de inúmeros cachorros famintos. Os sonhos que apareciam cachorros ferozes proliferaram e até lobos passaram a persegui-lo, os caninos queriam devorá-lo. Entretanto, após os meses de árdua defesa, sem nenhum encontro com cães novamente, começou a perceber que já eram desnecessários os objetos. Foi retirando peça por peça. Ora não usava faca, ora garfo, até, por fim, deixar de usar o capacete.

- Ufa!

Nesse grito solitário havia mais que pressupunha. Saiu como de costume, nos horários pré-programados, cumpriu à risca o que planejara ao dia.  Às 16:13h., sem nenhum objeto de autodefesa, a não ser ele mesmo, entrou na rua onde deparara com o cão dois meses antes. Sentiu medo, mas dessa vez não atravessou a rua - o cão indócil estava no mesmo lugar de antes! O bicho mostrou os dentes, contudo, Luiz Antônio Ferreira não se conteve e copiou a ação do animal. Assim como o cachorro, pôs-se de quatro a mostrar os dentes e latiu! O inimigo entendeu a mensagem e respondeu com a mesma contundência. Num misto de latido e fala sem entendimento, Luiz Antônio Ferreira agarrou o cão e o mordeu ferozmente... Rasgou toda a face do cachorro até vê-lo desfalecer. Sentindo o gosto de sangue à boca, abriu o portão e entrou em casa.

sábado, 23 de julho de 2011

nu-nada

É risco
de queda
de brilho
de tudo

É de Sade
o doce
amargo
nu-nada

falo às mãos

toma o talo em suas mãos
sobre a pia
resvala os excessos
das pestes e da podridão

toma o talo em suas mãos
sobre a pia
deixa agir
o vinagre e o limão

toma o falo em suas mãos
sobre a cama
faça ruir
toda contradição

toma o falo em suas mãos
sobre a cama ou a pia
ponha a zunir
o seu trovão

Feira livre

Eu
que não tenho medo de ousar
contar, cantar, tagarelar

Vou dizer mais uma vez
que do acaso
todo mundo é freguês

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Profissão?

Ela chegou ao pronto-socorro aturdida. A mãe estava internada, quebrara o fêmur. Entrou sem olhar em volta, procurou o balcão e apresentou a documentação à secretária:

- Joana é a senhora? Perguntou a funcionária sem tirar os olhos do documento.
- Não, é minha mãe.
- Sobre o que é? Continuou a chuva intempestiva de indagações.
- Minha mãe está internada aqui, quero visitá-la.
- Ah, sua mãe é Dona Joana! Faltam cinco minutos para as visitas. Sua mãe deu entrada aqui tão rapidamente que não pude preencher alguns dados dela. Solteira ou casada?
- Quê?! Tem que ser agora?
- Sim. Sua mãe é solteira ou casada?
- Não, não sei. Coloca "outros".
- Profissão?
- Minha?
- Não, da sua mãe!
- Não sei!
- Como assim? A profissão da sua mãe, qual é?
- Não, não sei.
- Ela faz o quê?
- Muita coisa.
- Mas é do que ela trabalha. Ela faz o que de segunda a sexta?
- Acorda, come, bebe, briga e dorme. Já posso ir lá? Já passaram bem mais de cinco minutos.
- Não, não pode entrar sem responder a profissão de sua mãe. Profissão?
- Sei lá! Professora,  artista, a puta que pariu... nada disso é profissão, não é?! Coloca puta que nem sua mãe!

Tomou as papeladas, documentos e entrou pela porta de visita já aberta. Ah, e não se esqueceu do dedo médio erguido para a recepcionista.

Tomou na taça errada!

Tinha construído as relações conjugais de forma um tanto estreita - carne, unhas e dentes. Não por causa da brutalidade do marido, mas por julgar ser prudente à mulher conservar os bons costumes. Sr. Antônio, o marido, empresário consagrado no ramo imobiliário, no início do casamento, vigiava constantemente sra. Raquel, a esposa. Após o terceiro mês de casamento, já tinha colocado um excelente detetive para seguir a mulher. Nesse período, fez questão de liberar o cartão de crédito a ela, mas as mulheres têm olhos oblíquos, não caem em qualquer cilada.

Sra. Raquel adorava ler, antes do casamento fora uma exímia devoradora de obras, entretanto, após conhecer sr. Antônio já não sentia tamanha necessidade de leitura. Preferia estar do lado do marido, conversar sobre os negócios, mesmo não entendo os códigos usados por ele: trocava facilmente inflação por inflamação.  Passados os dois primeiros anos de alegria conjugal, invevitavelmente, a sra. Raquel  foi devolvida abruptamente aos livros...

Guardara a obra completa de Sade numa caixa velha, não queria que fosse notada pelo esposo. Naquele dia, outubro de outono, acordou madrugada adentro e percebeu que o marido não estava na cama, dormira noutro canto. "Homens de negócios trabalham a todo instante", pensou sem susto algum, mas com deveras penas do companheiro. O sono não veio, e a sra. Raquel  acabou por observar a caixa velha em cima do guarda-roupas. Como quem não quer nada, levantou-se, pegou a escada, subiu, quando já estava com o trambolho às mãos, escorregou. A queda não foi nada simpática a ela, quebrou o tornozelo e o braço. A partir daí, foi obrigada a passar alguns meses deitada.

Durante esses dias, meses, a sra. Raquel  releu toda obra de Sade e Poe. O marido, quando estava em casa, não achava nada estranho as leituras, talvez porque não conhecesse o que era lido. "Uma terapia saudável!", comentava o esposo aos colegas. Nesses idos, um antigo amigo de Sr. Antônio, Rafael, apareceu por lá, uma visista corriqueira. Era rapaz novo e gostava de se enamorar de livros.

Chegou ainda na parte da manhã, flores lavavam a escada principal. Foi recebido pela secretária que, sob ordens do patrão, encaminhou o amigo da família ao quarto de sra. Raquel. Olharam-se silenciosamente por algum tempo, mas logo a conversa brotou dos livros. Tinha lido Sade ainda jovem, porém não se esquecera de nenhuma lição. Conversaram por horas, comentando sobre o isolamento do autor, as perversões e, não podiam se esquecer, da bela escrita do francês. Rafael chegou a defender que havia uma ciência na confecção de contos. Segundo ele, Edgar Alan Poe não conseguira teorizar bem essa ciência, fora Sade, com as próprias peripécias, que racionalizara a poética dos contos. Era diálago infindável entre ambos! Não foi à toa que Rafael passou a frequentar constantemente a casa dos amigos.

As visitas passaram a estreitar a relação entre os amigos. Sr. Antônio, no início, deixava-se  conduzir por águas de paz, contudo, foi percebendo que outros amigos estavam sempre a fazer-lhe chacotas. Certa feita, estava sr. Antônio em um café perto de casa, quando Manustrão, colega de bar e de infância, já bêbado, começou a ironizar a doença de sra. Raquel. Dizia ele que ela precisava de amigo, que toda mulher necessitava de companheiros às horas difíceis... "Como é complexa a subjetividade femina!", dizia. Sr. Antônio não se sentiu à vontade com os comentários de Manustrão, colocou a bebida na conta e se mandou rumo à casa. Ao chegar, imaginou firmemente a esposa prostrada, depressiva, reclamando as velhas dores no tornozelo, ou apenas lendo os pobres livros. Entretanto,  o que ele viu foi a sra. Raquel de pé, se maquiando e sorrindo ao espelho. Sentado à cama estava Rafael, com olhos atentos a tudo.    

Sr. Antônio não se conteve... Saiu do quarto sem dizer palavra alguma. Alguns minutos depois, Rafael percebendo o clima estranho, pegou suas tralhas e se mandou. O esposo, após um longo período na adega, voltou ao encontro de sra. Raquel, às mãos ele trazia duas taças de vinho tinto. Entrou, sentou-se como se nada houvesse ocorrido, entregou uma taça para a esposa e beberam calmamente o líquido. Após alguma conversa, sra. Raquel contava que o amigo Rafael era homossexual, que ele sofria bastante porque não confiava esse segredo a ninguém, somente a ela. Sr. Antônio começou a sentir o efeito do cianureto colocado na bebida... Caído ao chão, Antônio percebeu, então, que tinha bebido na taça errada.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Safadina

A Sandy, as batatas!

A Sandyjunior, as baratas!

Ao amor, as devassas!

Fada 
Cafetina
Safada
Safadina

amor e só!

Foi ao banheiro
fez amor
lavou as mãos
e foi dormir



Produção coletiva:

Eu, Matheus Padilha e Fernanda Padilha

proesia blogártica

posto:
sempre mudo,
não faço poema mudo.

status cu

afundado numa porção de caviar
ah...
nas paredes um-tanto-de-muitos livros
que não li!

meus carros
vinhos
ternos
filhos
minha loura, meu deus


não creio em deuses
mas visto ternos
para almoçar mais tarde
louras, freiras, padres, pastores
políticos, joias, ouros, tolos, livros
pai, mãe, filho, amigos, gays, lésbicas e cães
satisfaço-me completamente

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Merda e flor. Poetador

Merda e flor. Poetador

Nu
o poeta vai
meio alamedas, bosques e buritis

uma flor desabrocha
enquanto o choro d'orvalho cai
sobre o estrume

uma, duas
uma das duas
palavras
é a poesia que se esvai

terça-feira, 19 de julho de 2011

poetador

catador do mundo caduco, mudo



nu-canto
gozo frenético de fala desordenada
de cada um
de vidas caquéticas que pululam
verso a verso
sem rima, métrica, sem nenhuma alegria

organizo um adeus
um oi, quem sabe, um além

àqueles que não querem
apenas dizer amém

poema tântrico

vou parir do peito
um canto ininterrupto
renascido dos gravetos 
das cinzas de tirania
dos seios de amor
o todo magnífico
poema trântrico de mim

Ponto

Ando circulando pontos em minha mente.

Ponto, ponto sim.

Mas, não se trata de uma interrogação.
Não quero fazer nenhuma pergunta,
Nem tava pensando em exclamação.

Ponto.

Ponto, ponto sim, mas final e não de interrogação.
Não me enrole em reticências.
Não somos adeptos a digressão.

Ponto. Ponto sim!
Se quiser pode ir embora.
Este ponto é para agora.
Ponto final? Ponto?!

Nos ditos de outrora,
Na distância da espera,
Ou nas palavras esquecidas, 
Aquecidas em pontos febris de ônibus,
Há, ainda que curta, 
a pausa de um quase pronto!

É vírgula, ainda é uma vírgula!
bato meu ponto em quase tudo
Mas é a vírgula, esse mar finito
Nesse céu de pequenas embarcações
Que faz de tudo um quase ponto,
Um quase nada, insiste em continuar.


Está claro.
Nesse canto,
o pronto do ponto,
não deixarei  pelos cantos.

Ponto.

Produção coletiva:
Eu e Cacau Cruz.
.


segunda-feira, 18 de julho de 2011

asas a quem sabe voar!

nasceu com terras para além dos pés
maiores que duas ou três sesmarias
dono do Pará-Jesus-de-Belém
da Bahia-de-Antônio-Faz-o-Bem
terras de horizontes, perdidas no além!


Era Wesley de grana
De gana, sem-freio
Embora feio,
casou-se com uma loira atração 
mas gostava mesmo de negão
ou de criancinhas,
as de onze eram bem mais engraçadinhas
já a loira, que topava qualquer posição
preferia se ajeitar num elegante salão


Ele, Wesley, de vida imaculada
viu o anúncio da mega sena acumulada
pulou do lençol
comprou o bilhete
e foi ver sol


Cinco dias depois
alguns zeros contemplados
trilhonário
fizeram-no ainda mais cobiçado
um ser iluminado

sexta-feira, 15 de julho de 2011

lixão anhanguera

Lixão anhanguera


não digo o que convém
nem procuro espaços de gravatas
os gabinetes são gelados demais
para esse corpo que queima
estou encaixado aqui, entre pernas e braços
são tantos, que nem preciso me segurar

eixo anhanguera,
de baixo, de dentro, de lado, procuro a música
(alguém se esqueceu dos fones de ouvido!)

eita, sanfona brava
com hora certa para chegar
faz de todos, meras sardinhas com travas,
se esfregando para não escorregar


que ciclovia, que barato
ontem um ciclista virou rato

vai,
desmancha, eixão
mas deixa meu corpo de pé
que fome requer pão

vai, leva a mensagem ao patrão
que se a manga não cai só
o povo a derruba ao chão

eita, deus dos eixos partidos
que lixão!



Fui convidado para participar do projeto Letra Livre, que levará poesia à linha de ônibus Eixo Anhanguera. Fiz o poema acima para ser declamado nesse evento.

Esse poema foi publicado no Diário da  Manhã, no dia 15 de julho de 2011, página 18.

terça-feira, 12 de julho de 2011

semáforo da sina

sinal
senil
fechado

deserto senil

De poeta ninguém precisa
ninguém ensina
é sina

Guardanapo amassado
guru grudado à pele
que repele
mas não sai

segunda-feira, 11 de julho de 2011

A SAGA DE ZÉ COM PITADAS DE JURANDI

A SAGA DE ZÉ COM PITADAS DE JURANDI

Atira logo, home!
(Cap. I)

- A mesma poltrona velha... Tá, eu voltei para tentar conversar. Você sabe que quando venho assim é porque preciso falar. Não sei não, você parece que gosta de me ver meio desesperada... deve ser porque eu falo pelas pernas quando fico nervosa. Sinceramente, não me importo muito com seu juízo, falo mesmo, se quiser vai ser assim. Esses namoros, casamentos, em que não se ouve um mosquito sequer, parece enterro. Eu sou é viva! Nossa, Zé, essa poltrona tá fedendo bosta, joga fora, eu já falei, joga fora essa merda! Olha, fiquei vários meses passando na porta desse prédio e olhando pro outro lado. Hoje tentei não olhar, mas depois percebi que não tinha ninguém no balcão e resolvi entrar. Eu não vi a recepcionista, Zé, ela ainda trabalha aqui? Pois é, mas não estava lá, certeza que não... Nossa, eu entrei sem dizer "oi" pra ninguém, nem percebi quem passava. Sabe o copeiro, aquele que não deixou você ser estrangulado na nossa última briga? Me cumprimentou, eu nem olhei pra ele. Quando entrei no elevador, você nem imagina, aquela moça que sempre lixava as unhas, perguntou se era para o mesmo andar, não respondi e ela continuou se lixando pra mim. O elevador parou algumas vezes e, todos que entravam, ficavam me medindo - esse povo desse prédio parece mesmo urubu na carniça. Você andou comentando sobre nós, Zé? Ah, eu sei que não, você num abre a boca nem pra comer. Devem ter pensado "ah, ela não desiste...". Quê? Lá vem você de novo, Zé, acha que é coisa da minha cabeça, mas eu sei que pensaram "ela não para de dar em cima do Zé!"... Tadinho do Zé, gente! Na verdade, eu acho que chegaram a falar para todos ouvirem. Tá, chega... e sabe quem entrou no elevador? Foi aquela mulher do sétimo... ah, não sei o que ela fazia no terceiro andar... Pra ser sincera, ela estava com a maquiagem toda borrada, aposto que estava com o amante. Nossa, Zé, o moço é tão discreto, metido com aquela vaca, dizem que é professor de xadrez e ela, meu deus, parece uma lambisgoia, uma quenga de esquina. Que isso, Zé?! Não falo nada demais, apenas digo a verdade. Sabe o que é, é que você leu alguns livros e acha que conhece de tudo. Você pode conhecer de arte, carros, mas merda? Não, você não sabe o que é merda, você não conhece a mulher - merda fede! A porcaria do elevador ainda parou no sexto e sabe quem entrou, Zé? Não?! (Você fica aí fingindo que não tá nem aí pro que falo, mas sei que por dentro fica se remexendo, né!). Então, que eu tava falando mesmo? Ah, tá, foi aquela que frenquentava esse apartamento quase todos os dias que entrou no elevador. Ela vinha pra cá dizendo que ia conversar sobre cinema, arte e a puta que pariu, mas eu sei bem, ela queria mesmo era soltar a periquita. Tá, eu espero, atende, vai lá, não demora, hein!

- Jurandi, sou eu. Eu quem?! Sou eu, porra, o Zé! É o José, caralho. Cara, a Isabel voltou, home. Tá, vou conversando com ela... não é difícil não, só ela que fala mesmo. Jurandi, ela tá na sala, não demora, porra. Pois é, estou esperando, num vai vacilar, hein! Ah, deixei a máquina em cima da mesa, prontinha, tá?! Você tá com a chave, né?! Só mais uma coisa, entra sem bater, beleza?!...

- Vai ficar de pé, Zé?! Senta, me dá pavor ver você andando de um lado pro outro. Eu sei que você adora quando eu venho de sopetão. Você é muito sozinho, Zé, já disse isso a você. Sabe qual é o seu problema? Você fica calado ouvindo todo mundo. O povo do prédio todo manda você à merda e o que você faz? Abaixa a cabeça. Zé, você concorda com tudo! Olha, já conversei com aquele analista, lembra? Ele disse que você precisa responder, dizer que não gostou ou que gostou, dizer a puta que pariu, mas não pode ficar assim. Calado, você se fode. Zé, e aquele amigo seu, o Jurandi da padaria? Você toda vez que ficava nervoso logo ia ver o home. Você continua assim? Para com isso, vai resolver seus problemas sozinho, Zé. Olha, meu bem, a moça do sétimo, ela queria aproveitar da sua ingenuidade, querido. Ela, o povo é que diz, já deu pra todos do prédio, só você e o marido dela é que não comeram a puta. Ele também, né, dizem que o puto é gay... aquela vez que eu terminei com você, lembra? Tentei paquerar o bruxo pra ver se a puta da mulher dele se tocava e parava de vir aqui, mas nada... ele fingiu que nem era com ele e, pior, depois que a quenga descobriu minha intenção, aí é que complicou mesmo, ela passou a vir aqui todos os dias. Não tinha hora mais! Antigamente, ela vinha só de tardezinha, depois, meu deus, era toda hora. A campainha tá tocando, Zé. Vai lá! Vai, Zé, mexe essa bunda gorda! Parece que tem a chave, tão abrindo a porta, quem é? É mulher, Zé? Ai, meu deus, Jurandi, pra quê essa arma? Larga de brincadeira, home! Vira isso pra lá! O que é... Zé, sai de trás dessa poltrona de merda! Jurandi, pelo amor de deus, leva tudo mas me deixa viva! Pelo amor de deus...

- Porra, Jurandi... num vacila, atira logo, home!


Um pau maior que o meu
(Cap. II)

A campainha soou novamente. Zé foi até a porta enquanto Jurandi escondia o corpo. O apartamento era pequeno demais e sequer possuía uma cama, guarda-roupas ou coisa parecida, um verdadeiro cubículo. O tiro tinha sido certeiro, bem nos cornos, e já começava a escorrer sangue pela sala. Sem muito o que fazer, Jurandi pegou um pé-de-meia do chão e socou dentro do buraco aberto pelo 38. Estancou parcialmente o ferimento da puta, mas uma outra, a do sétimo, já estava berrando para entrar. A porta principal dava diretamente para a sala onde estava o cadáver. Porta entreaberta e a puta querendo entrar. Sem muita opção, Jurandi pegou uma trouxa de roupa exposta ao chão e cobriu a defunta.

- Oi, tanto tempo, Zé... sabe, senti saudades até daquela sua ex-namorada. Parece que tem um tempão que não venho aqui. Você bem que podia ir mais vezes lá em casa, sei lá, pelo menos ligar, né? Ainda mais agora que você está completamente desempedido. Ah, lembra do Fábio, meu marido? Ele não para de falar em você. Não sei se contei, ele até pediu para levar aquele seu amigo, como é mesmo o nome dele? Isso, Jurandi! Não vou mentir, Zé, eu fiquei curiosíssima pra conhecer o home, você sempre fala dele, né! Ei, não quero ser indiscreta, mas não vai me convidar pra entrar? Ah, eu falo assim porque se depender de você eu fico tagarelando o dia todo e você nem se toca... Gosta mesmo de ouvir as mulheres, né, Zé! Ah tá, eu vou esperar... Veste a roupa logo... Estava no banho, hum, banho, né! Corre lá, Zé!

- Porra Jurandi, fodeu! A puta do sétimo tá aí querendo entrar, porra! Fala baixo, merda... ela tá achando que fui vestir roupa. Cadê a Isabel? É, o cadáver da Isabel, cadê? Cara, vamos deixar essa merda aí, desse jeito? Sei lá, porra, você é que bom pra resolver cagada, home. Jurandi, vou abrir a porta, mas deixa a puta longe da outra. Sei lá, pô, conversa com ela do jeito que ela gosta... gruda nela, desgraça!

- Oi, Silvia! O Zé falou muito de você. Isso, sou eu mesmo, Jurandi em carne e osso...  Ah,  o Zé tá meio apressado, precisando sair... Foi ao banheiro vestir uma roupa, mas então, toma alguma coisa? Que isso, vem cá, tem um conhaque de alcatrão, anima? Gostou? Forte, né! É, sei, dizem que é a bebida do capeta... Imagino o inferno cheio dessa porra, seria a puta que pariu, né! Ei, já vai, Zé? Até mais. Ele é assim mesmo, tem que sair inesperadamente, nunca aconteceu de ele estar com você e de repente ter que sair? Exatamente, ser escritor tem dessas coisas. Vou te falar uma coisa, tá aí uma profissão que não é pra mim. Sabe, pra mim a coisa tem de acontecer, gosto mesmo é de fazer pão, construir casa... Tá vazando alguma merda? Me chama. Ah, problemas sentimentais, hehe, também resolvo... Calma Silvia! Não é nada disso! É só a Isabel que passou mal... Não-não, morta?! Que isso?! Nossa, fodeu...

- Zé, a puta sacou tudo, cara. Tentei engabelar, mas não deu. Porra, tô acostumado com mulher diferente, cara, essa puta ficou mexendo na casa toda, ia descobrir mesmo, porra! Cara, não tô ouvindo direito, tá falhando. Então, eu vou embora e vou deixar a merda feder. Ah, a puta da Silvia é gostosa pra porra, pegou ela, Zé?! Fala, porra... Come quieto, né! Mineiro desgraçado... Vou desligar, só me põe em furada, filho da puta... Ah, sobre o presunto, é melhor feder aqui sozinho, melhor você cair no mundo... Daqui a pouco, os putos chegam enquadrando todo mundo. Cara, tirar o defunto não dá, porra... A puta viu a desgraçada morta e saiu correndo, porra. Ei, Zé, essa defunta é gostosa pra caramba... cara, só gostosa aqui nesse apartamento... Então, eu acabei passando a puta morta. É, passando, porra! Comi a sua ex- mulher, boa pra caralho!... Espera aí, parece que tem gente chegando aqui. Deu merda, caralho! Te ligo depois...

- Zé, sou eu de novo. Cara, advinha... A puta da Silvia apareceu aqui dizendo que não ia contar pra ninguém, disse a puta que pariu e passei ela. O que eu fiz, Zé? Virou presunto, porra! Porra, Zé, ela ia abrir o bico, caralho! Cara, tá onde? Beleza, Zé, eu te encontro naquele sebo... É, porra, o da esquina. Tô indo pra lá. Beija meu caralho, porra! Tô indo pra lá.

- Senta aí, Zé. Cara, pega um livro e senta aqui, merda! Porra, Zé, não dá na cara... É, as duas putas ficaram lá, mortinhas da silva, a Silvia e a Isabel, eu passei as duas, cara, já era. Cai na real, Zé, tinha que passar a Silvia também. Você vem com essa conversa que quer ver a puta morta e agora fica aí tremendo igual vara verde?! Caralho! Vira home, porra! Mas Zé, não é isso que eu quero falar, cara, é difícil dizer assim na lata... Eu sei que foi estranho... Porra, não me olha assim, todo mundo faz merda. Não, não é isso não, matar tinha que matar... comer, eu sempre como as defuntas, você sabe disso. Mas é que depois que comi sua ex, chegou a outra, fechei a porta e lasquei um tiro nos cornos dela, acertei em cheio, cara. Eu passei ela também... É, comi a puta igual fiz com sua mulher! Mulher e ex dá tudo mesma, pô, mas não é isso... É que a Silvia tava de costas e acabei comendo o cu dela e quando ela virou... Porra, Zé, por que não avisou?! Quando eu virei a puta, tinha um puto, porra!... Tinha um pau maior que o meu, caralho! Porra, Zé!

Deu flagrante!
(Cap. III)

Jurandi se mandou após fazer a revelação (um pau maior que o meu!). Zé permanceu sentado folheando alguns livros, mas claro, sua cabeça estava lá no apartamento. Duas pessoas mortas, uma tragédia! Não havia sido esse o plano e, como todo mortal, quando os planos sucumbem, nasce o desespero, ou coisa que o valha. Zé, sozinho, sentindo coisas sem nome, permaneceu observando os livros, até que uma funcionária do sebo se aproximou.

- O que foi? Aconteceu alguma coisa, senhor? Tá, qualquer coisa pode me chamar... Gostou de algum livro? É, agora estamos com livros novos também. Estou por aqui... Ah, e não fica triste, a vida é assim mesmo.

- Ufa, ela se foi! É incrível como atraio essas mulheres-autofalantes. Ah, e como é um porre estar perto de quem não para nem um segundo de falar. Eu sei que essas pessoas são carentes, no fundo querem mesmo o colo da mãe. Não aprendi a expressar o que penso pela fala - talvez por isso eu seja puto com as pessoas autofalantes! Só consigo desabafar escrevendo... Nossa, já é o terceiro guardanapo que rabisco!

- Ei, moça, por favor, vê pra mim um caderno. Não, não precisa ser capa-dura... o mais simples possível. Obrigado.

- É outra coisa escrever em cadernos. O guardanapo depois de algum tempo começa a se deteriorar. Sinceramente, guardanapos só servem para maconheiros, é melhor que seda. Limpar a boca, não, também não dá. Essa coisa começa a se desmanchar e, quando menos se espera, a boca está cheia de coisas brancas, nojento!

- Jurandi, você aqui? Porra Jurandi, você disse que ia embora e volta! Os home vão grampear, home. É mesmo?! Puta que pariu... vão descobrir tudo! Polícia no meu apartamento é foda... É, tudo, porra! Os dólares, as muambas... está tudo lá! Menos mal, pelo menos você tirou as putas. Não, não vai se gabando, vou dizer uma coisa, era você mesmo que tinha que fazer o trabalho sujo, você comeu as duas e não pagou nada. Quer dizer, comeu uma, a outra, são ossos do ofício.

- Pois é, Zé. Não estou reclamando de ter matado as putas, o que eu faço, assino embaixo. Mas, porra Zé, alguém tem que ir lá no apartamento ver se os home grampearam mesmo. Eu num posso, você, piorou! É cara, essa moça que trabalha aqui, essa novinha aí... vai lá, chama a moça.

- Livro, senhor?

- Moça, olha só, senta aqui. Meu amigo Zé, esse cara aqui, tá precisando de um favorzão seu. Fala aí, Zé. Ele não gosta muito de falar, por isso que sai assim de fininho. Então, agora somos só eu e você... não se preocupe, ele é escritor, vai ficar folheando algum livro. Vou logo ao assunto: Zé, esse que acabou de se levantar, está amarradão em você... ah, e não é de hoje isso! Pra ter uma ideia, ele preparou uma surpresa pra você no apartamento dele - nesse prédio ali da esquina, 1001. O Zé, desde que entrou aqui, não para de escrever algo num caderno, percebeu? É, do guardanapo passou ao caderno... então, ele só queria dizer que preparou uma surpresa. Vai lá! Você não vai se arrepender. Isso, você pode ir na frente... daqui a pouco o Zé chega lá. Não, não tem trapaça. Zé é um cara tímido, por isso que ele mesmo não fala, mas fica tranquila... meu nome é Jurandi, eu garanto que o cara é firmeza. Beleza, então aproveita que o seu patrão saiu... parece que só o filhinho dele ficou, né? Você consegue enrolar o pirralho. Ok, o Zé daqui a pouco chega lá.

- Não precisa ficar nervoso, Zé. A puta saiu louquinha procurando alguma surpresa no seu apartamento. Zé, eu sei que não tem surpresa alguma (quer dizer, talvez tenha, né!), mas é que quando ela chegar lá, é óbvio que se tiver polícia ela volta correndo, hehehehe... Sério, não podemos arriscar agora! Olha, é melhor sairmos daqui, bora ficar do outro lado da rua. Pois é, Zé, quando ela chegar, vai ser só olhar pra cara dela e batata... vai tá escrito se tem polícia ou não, resolvido, porra.

- Zé, tô achando meio arriscado ficar aqui fora. Porra, olha lá, Zé, uma viatura saindo do seu prédio... tá cheirando merda, porra! Puta que pariu, deu flagrante pra ela... é a puta do sebo que tá no camburão!

A paz do senhor
(Cap. IV)

- Jurandi, agora a coisa complicou, cara. Fazer o quê? Eu não sei, só sei que ficar aqui é latada. Lógico que ela vai grampear... Porra, Jurandi, até hoje você não entendeu que todo x-9 deve ter convivido demais com as fêmeas... elas são mestres na arte de dedurar! Não precisa apressar os passos, home, vamos numa boa, pô. Então, a resposta pra sua pergunta é: "vem vamos embora que esperar não é saber... caminhando e cantando e seguindo a canção...".Foi sempre assim, desde que conheci você, lembra? Jurandi perdido perguntando onde ficava o centro do Rio, hehehehe, você estava no centro, porra. Ninguém acreditaria se eu contasse essa história, acho que é por isso que não tenho paciência de conversar com os mortais. Porra, Jurandi, você não é um mortal - pelo menos não é um mortal qualquer - você come traveco, porra, hehe... só curtindo mesmo. Eu sei, eu sei... se dependesse de você, se soubesse toda a verdade não comeria o puto, entendeu agora por que eu não comia aquela merda?

- Porra, Zé, não lembra dessa merda! Já sonhei comendo tudo quando há de mulheres feias, mas um puto vestido de puta, é foda... Como é mesmo o nome daquela coisa que sua ex-mulher frequentava? Isso, analista... hehehe, vou acabar procurando essa porra. Foda, cara, sabe o que eu acho? Temos é que esconder em algum lugar, ficar aqui é se entregar de bandeja. Sei lá, porra, uma casa de dança, uma igreja, alguma coisa assim. Pra quê, Zé?! Beija meu pau, né Zé, os home vão grampear... num é por isso que saímos daquele lugar, porra?! Então, olha uma igreja... as crentinhas gostosas... Porra, eu fico puto com as putas de igreja, elas ficam loucas pra abrir as pernas, mas olha lá, elas cruzam prum lado e pro outro e nunca abrem. É verdade, esse negócio de cruzar as pernas deve dar um tesão desgraçado nelas... Eu falo por mim, fico louco só de olhar essas coisas, elas devem ficar molhadinhas, né! E aí, bora entrar na igreja?

- A paz do senhor, irmãos! Fiquem à vontade!

- Obrigado, irmão! Zé, esses putos estão olhando de um jeito estranho pra você. Cara, devem jurar que você é um magnata... olha lá o pastor, o puto já deve tá pensando no dízimo que você vai pagar. Porra, nunca passou pela minha cabeça que andar de cabelos aparados, barba feita e roupa social fizesse isso. Dá na mesma, roupa social e semissocial, a mesma merda! Pô, os putos estão igual a urubuzada na carniça... espreitando, daqui a pouco eles avexam! Deixa estar, esses putos, principalmente as putas, vão comer na minha mão depois da missa. Puta que pariu, mania de corrigir os outros! Missa e culto dá mesma merda, no fundo querem sua grana. Num é só isso? Zé, larga de ser bobo, lembra do filho da Rose? O puto deu a casa, o carro, a puta que pariu pra igreja e a vadia da ex-mulher dele continuou soltando a tcheca - até o pastor comeu a quenga! A Rose, meu Deus, a mãe desse muleque desgraçado, dava pra todo mundo, o pai dele era o maior corno!... Zé, não tem jeito, quando o cabra nasce pra ser chifrudo, o passado e futuro jogam no mesmo time. Profecia certa, cara...

- Jurandi, qualquer coisa somos irmãos... Quando acabar essa ladainha, os putos vão vir perguntar se queremos oração. Porra, você é bom nisso... inventa alguma coisa, porque aqui estamos protegidos contra aqueles que querem roubar nossa alma, hehehe, amém?!

- Já bolei uma parada aqui, fica tranquilo. Estão encerrando a missa, o culto, a merda. Ufa, última oração e a urubuzada vai flechar, mais uma profecia... Lá vem os putos... Opa, tudo bem, irmão? Esse é o Zé, pastor José! Ele fica assim porque é mudo, mas irmão, qual é mesmo seu nome? Ney, irmão Ney, o pastor José ficou mudo há pouco tempo, dois ou três meses, acredita? Nossa congregação fica aqui perto e tem muitos fiéis... Isso, fica aqui pertinho! Isso, isso, exatamente, fica aqui na rua debaixo... Então, desde que ele perdeu a voz, os fiéis começaram a perguntar "onde vamos louvar ao senhor?". Foi aí que pensei nessa casa. Claro, eu espero ele aqui, mas e o nome do pastor, irmão Ney? Rubem, Pastor Rubem... Diga a ele que estou aguardando, eu e o pastor Zé, melhor, José. Amém?!

- A paz do Senhor! Não, não precisa levantar. E então, fui informado pelo irmão Ney sobre o terrível incidente com o pastor José, lamentável - mas Deus não dá uma cruz que não possamos carregar.

- Claro, pastor! Pastor, o senhor foi informado que temos uma congregação de aproximadamente mil membros? Não?! Pois é, não sabemos bem o que fazer, já que os fiéis estão desesperados. O pastor José, ontem, escreveu que em todo Rio de Janeiro só tem uma casa onde Deus de fato está... por isso viemos, não é mesmo Zé? Quer dizer, pastor José! Pois bem, sei que o senhor é alguém de coração enorme e não vai deixar os nossos irmãos desamparados, né? Pra ter uma ideia, esse mês o pastor José não recebeu o dízimo, eu tive que informar todos os irmãos que o dízimo, de agora em diante, só será pago à nova congregação, que, claro, pode ser a do senhor, pastor Rubem.

- Será um prazer, irmão. Sabe, há bastante tempo penso em reformar, em ampliar, essa igreja tem crescer, irmão... Percebo que é providência celestial, glória a Deus! Aleluia!

- Aleluia! Então pastor Rubem, o pastor José precisa fazer um tratamento longo para, se Deus quiser, voltar a pregar a palavra divina. O senhor deve saber que a única renda da congregação é o dízimo, sem ele fica impossível o pastor José fazer o tratamento. Então, pensamos que o senhor pudesse fazer um adiantamento, coisa pequena, dez mil reais, pra já começarmos a glorificar nosso senhor Jesus com esse tratamento contra a mudez. Não se preocupe, pastor, o senhor faz esse adiantamento hoje, mas antes do final do mês terá mais de quatro vezes esse valor. Esse primeiro mês vamos acertar assim? Ok, para os próximos meses, trinta porcento para o pastor José e o restante a essa casa. Amém, pastor?!

- Claro! Irmão e pastor José - posso chamar de Zé? Tudo bem, não tenho, pastor Zé, todo o capital agora, mas posso consegui-lo até amanhã, pode ser?

- Quanto tem agora, pastor Rubem? Quem sabe podemos, em nome de Jesus, dinamizar a obra de Deus...

- Pastor Zé, aguarda um pouco por favor... Vou olhar com a tesouraria quanto temos aqui na igreja. Rapidinho, pastor Zé!

- Jurandi, olha aqui, porra... Tá demorando demais! Você num acha que esse puto tá armando alguma merda? Olha aí, já passou mais de dez minutos e o puto não vem. Esse papo de "vou olhar com a tesouraria..."... Sei não, pô!

- Demorei, né? Desculpa deixá-los aqui, perdão, pastor! Olha, pastor Zé, temos cerca de dois mil reais aqui na igreja. Meu filho foi ao banco para ver se é possivel sacar o restante... como ficamos, pastor?

- Pastor Rubem, não há necessidade de pressa. A obra de Deus está sempre em construção... Dê cá o dinheiro, dois mil, e amanhã, ao apresentar o rebanho ao novo pastor, acertamos o restante, tubo bem? Para a glória divina, amém! Olha a carinha do pastor Zé, ele percebeu que Deus está presente aqui... Obrigado, pastor Rubem... amanhã conversamos mais. A paz do senhor!

Companheiros e companheiras, dinheiro fácil, vai fácil!
(Cap. V)

Jurandi e José pararam na porta da igreja e desandaram a falar. Contentes por terem se saído bem, José começou ali mesmo a contar o maço de notas, enquanto Jurandi se gabava pelos feitos. Por cerca de quinze minutos tagarelando e (re) contontando a grana...

- Porra, Jurandi... hehehe, os putos caíram feito pato! Cara, agora com dinheiro, mas sem onde ir... Que é essa gritaria? Tá ouvindo? Ah, deve ser os putos marxistas, hehehe... Será o que estão gemendo agora? A morte da bezerra? Lembra aquela vez que você botou quente pro pessoal lá do prédio reclamar? Então, logo apareceu um desses que gosta de colocar a merda na gaveta (querem organizar tudo!)... dizia "devemos nos revoltar contra o inimigo principal!"... "É tudo culpa do Bush!"... Jurandi, você bem gostou desse povo, né?! Eu, que não sou lá de falar muito, fiquei calado mesmo, mas percebi que ia dar merda. Se bem que merda é com você mesmo, Jurandi! Mas, vou falar um coisa, a maioria aí está brigada com o pai! É, Jurandi, essa mulecada (olha lá, só tem menino!) estão mesmo é revoltado com a ordem, com o que é imposto, e acabam deixando se levar, acabam na merda! Queriam mesmo é comer a mãe! Mas, cara, não sou tão ingênuo assim, no meio dessa multidão... Que é que eles estão gritando agora? Ah, "FORA PASTOR!"... Aí, eu acho que ouvi "Fora Pai!" hehehe... Então, tava falando que a maioria desse povo é adolescente mesmo, só que tem um povo aí... cara, vou te falar, é a minoria dessa muvuca... Mas essa galera não é de bricadeira, eles estudam pra caralho, bem mais que eu... Leram mais que todos aqueles livros do sebo juntos. Para, né, Jurandi, na sua cabeça eu sou o único que li dez vezes a bíblia, hehehe, eu sei que você não gosta muito de ler, escrever, a puta que pariu, quer dizer, a puta que pariu você até que gosta, melhor, o puto que pariu, hehehe... Tá, deixando de graça, tem uns aí que são feras, espertos, espertos mesmos...

- Tá aí, esses putos são espertos?... Sei, o pastor era esperto, Zé? A Isabel você dizia que era esperta, né! A Silvia, hum, você morria de medo dela... Não, não vou falar da moça do sebo... você ficou tão perturbado com a puta que nem conseguiu olhar nos olhos dela, lembra? Saiu de fininho... E agora pra cima de mim, Zé?! Esse putos são espertos?... Zé, Zé... Você ainda não não me conhece! Eles vão comer na minha mão também, pode acreditar! Tá rindo é Zé? Hum, parece que você num me conhece, rapaz... eu sou é sujeito home, muleque... Porra, tá de sacanagem, não posso falar nada que lá vem você lembrando daquela história! Porra, Zé, esquece, cara. Sabe o que eu tô achando... acho que é você que queria ter comido o puto e não teve coragem, seu viado de merda... Então esquece a merda - merda fede, porra! Mas olha, tava falando aqui desses putos aí... Por que eles pararam em frente à igreja? Ah, é mesmo, só pode ser por causa do pastor. Esse tal pastor Rubem deve ter comido o rabo de alguma crentinha, né?! Vai ver a menina era filha de bacana... Ah, pelo jeito que eles estão gritando, a puta era criança. Zé, esse pastor tá ferrado, hehehe...

- Porra, Jurandi, esses putos estão nos confundindo... Me acertaram um tomate! Olha aí, tão de sacanagem, porra!...

- Opa?! Tudo bem? Meu nome é Jurandi... esse aqui é Zé. Vocês devem estar nos confundindo... Não, ele não é porra nenhuma de pastor, ele é o Zé, porra! Para, para com isso!!!

- Tudo bem. Calma pessoal! Perdoai para seres perdoado! Vamos tentar o diálogo, irmãos... Olha, meu nome é Rafael... Esse povo está assim por que ficamos sabendo que um tal Zé estava vendendo nossa igreja, pior, vendendo para esse pastor Rubem, que todo mundo por aqui sabe que é pedófilo. É, pedófico, come criancinha... Vendendo como? Ora, como é mesmo seu nome? Jurandi! Jurandi o filho do pastor pedófilo chegou no meio do culto - o nosso pastor Honestino estava bem no hora da pregação - disse que era urgente: falou que um tal José, mais conhecido como pastor Zé, estava vendendo nossa congregação porque estava mudo. O moço disse que esse Zé queria vender a congregação pra pagar um tratamento contra mudez, acredita? Ele foi capaz de dizer que esse tal pastor Zé era o nosso pastor!... Como alguém vende algo que não é de ninguém, é de Deus! Absurdo! O pastor Honestino, esse é pastor sério, quando ouviu isso, tadinho... Primeiro ele foi interrompido, depois ouve uma bomba dessas, vender igreja?... Ah, mas o pastor Honestino, que Deus o tenha, sempre democrático, democrático até demais, perguntou se alguém queria dar algum dinheiro ao rapaz, acho que pra se livrar logo dele. E, sabe, um louco, só pode ser louco... um maluco varrido que estava na igreja disse estar comovido e doou dois mil reais pro filho da... pro filho do pastor Rubem. O cara diz estar comprando nossa igreja e esse retardado paga? Agora quem sofreu mesmo foi o Pastor Honestino, ah, ele já estava tão velhinho, problemas cardíacos seríssimos... Não resitiu, que pena! Calma, Jurandi, num chora! Olha, Jurandi, sinceramente, bandido não faz umas coisas dessas... Essas coisas de profanar o sagrado só pode ser obra do trem-ruim! Sangue-Jesus-Tem-Poder!

- Irmão? Isso, Rafael, a situação de vocês é realmente revoltante... Sabe, não tem como esconder as lágrimas... Mas irmão Rafael, eu tô olhando pro pessoal, eles agora sentados, só que têm alguns ali que ainda estão pensando que eu e meu amigo somos esse coisa-ruim que você contou, Sangue-de-Jesus-Tem-Poder! Sinceramente, queridos irmãos, vou falar mais alto pra todos ouvirem: Jesus perdoou até o bandido, todos que vinham a ele, crianças, coxos, ele sempre perdoava... Não podemos ser rancorosos, irmãos! Não, não é isso... Jamais eu e meu amigo faríamos isso, Jamais! Não queremos justificar nada, não fizemos nada de errado, pode ter certeza! Somos de família! Cristãos desde criancinhas... O Zé, por exemplo, é filho de pastor também. Eu? Eu sou filho de polícia... isso, polícia civil. Sei que nem precisava de falar tudo isso, mas eu provo que o Zé não é esse tal pastor tranbiqueiro que vocês estão falando. Isso tudo é obra do pastor Rubem com o próprio filho. Não tem certeza, irmão Rafael? Observa, você agora pouco disse que esse tal Zé era mudo, não é isso?! Que esse gentalha queria vender a congregação pra fazer um tratamento, não é?! Então, simples... Mudo não fala em hipótese alguma, concorda?... Vou provar a todos vocês, ei, escutem... Vou mostrar que somos filho de Deus também. Zé, fala seu nome pro pessoal ouvir... bem alto, Zé!

- Zé!

- Perceberam, irmãos? Ouviu, irmão Rafael? Isso, ele não é mudo... Então, já não há duvidas! Fiquem em paz, irmãos! Mas olha, parece que quem tá atentando contra a obra de Deus é esse Pastor Rubem... É bom observar esse fulano! Ah, e cuidar do falecido pastor Honestino, que Deus o tenha! Amém!

- Zé, vai saindo de fininho... Daqui a pouco, eu vou.

- Irmãos, só mais um momento. Essa bangunça em partes fui eu quem criou. Ah, deixa eu me identificar: meu nome é Matheus... Estava na igreja acompanhando minha esposa, vem meu bem... Isso, a Rose! Por quê? Qual é o problema de ser casado com ela? Tá incomodado, pô? É, eu sei que ela já foi casada... isso não é problema pra mim, agora, pra você... Tá, voltando, estava junto com meu bem, a Rose, a Rose, ouviram bem, quando aquele sem vergonha, aquele puto, filho desse pastor Rubem-safado, apareceu na igreja. Minha vontade era meter a mão nele, melhor, no pai dele, mas, pô, eu estava na igreja... Aí, eu me lembrei que no carro tinha umas notas falsas, notas bem mal feitas, inclusive, impossível não reparar... Fui lá, peguei o dinheiro, e enfiei a grana na cara do merdinha, desculpe o linguajar irmãos, foi quando ele se mandou... Ele saiu feliz da vida, mas agora o pastor Rubem, o filho, a mulher, devem estar todos cuspindo fogo pelas ventas, hehehe... Vocês sabem que esse pastor desgraçado (perdão!) andou tendo um caso com minha mulher. Tá rindo do quê? Ele teve a lição que merecia... Por mim, tá ótimo! Daqui uns dias vamos ouvir a notícia "preso pastor com notas falsas!". Ah, é melhor já irmos porque já liguei pra polícia, heheheh... Olha lá a viatura chegando... A paz do Senhor, companheiros e companheiras...

De volta à fase de planejamento! (ou vamos dar no pé!)
(Cap. VI)

- De volta à fase de planejamento, Jurandi. Tá vendo, home, cantei o galo... Falei que tinha gente esperta no meio da muvuca e... batata! Não precisa dar desculpas, Jurandi. A verdade é que você não é o único canalha no mundo, hehehe, você é um merdinha também! No fundo, no fundo, todos nós cheiramos merda - é por isso que os putinhos da escola sempre mandam os colequinhas à merda. Ah, já percebeu, Jurandi? No fundo, no fundo, somos todos fruto da puta que nos pariu... Na escola, no trabalho, sempre tem um puto pra convocar a mãe do outro, que fixação, né! Porra, Jurandi, levanta essa cabeça, cara... Não é por que conhecemos um Matheus que o bom e velho Jurandi vai perder o valor, ora bolas! Lembra, porra? Foi você que passou a Isabel, a Silvia - passou em todos os sentidos, né! Passou até mais que devia, né?! Então, vamos nessa, porra! Quer dizer, só não sei pra onde. Uma coisa é certa, Jurandi, nós temos que esconder... Desse jeito, vão grampear a gente, porra!

- Zé, você é um puto, mesmo, porra! Fica aí bancando o bom Samaritano, mas no fundo fica é dando risada de mim... Conheço você, não?! Você é um puto... Desses que mandam o filho à merda só pra sentir o cheiro do ralo, hehehehe... Lembra desse filme? É, porra, fica aí caladinho e empurrando o Jurandi na merda, né?! Vou Falar uma coisa pra você, Zé... Vai-à-puta-que-o-pariu, porra! Tô de saco cheio! Zé, mas uma coisa você falou certa, certa não, certíssima... Nós temos que esconder logo, temos que botar pra fuder, pô! Bora apressar os passos, aperta aí, porra! Zé, tô maior preocupado com os bagulhos do apartamento... E se a gente voltasse lá? É, pode ser perdição... Porra, Zé, fala alguma coisa, pô! Fico aqui dando ideias e você? Calado, né?! Vai-à-puta-que-o-pariu, Zé!

- Porra, Jurandi. Estamos andando e andando, mas temos que pensar o seguinte: se é pra esconder... Melhor que seja longe daqui, não é?! Sei lá... Também não sei bem, mas acho mesmo que aqui tá cada vez mais perigoso. Olha já deve ter uns cinco minutos que estamos andando, andando... e pra onde, porra? Jurandi, no fundo, no fundo, todo mundo caminha rumo à merda! Não tem como evitar isso... Você sabia que na Bíblia está escrito: "No princípio, era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus". Mais à frente, Jurandi, tem uma parte que foi modificada pelos putos que traduziram a Bíblia: "E o verbo se fez merda e habitou entre nós...". Tá vendo Jurandi, no início das coisas aqui na terra... Tudo já era merda, porra! Mas tem uns putos aí que morrem de medo de dizer isso. Jurandi. Os putos dizem que fomos feitos de barro, né?! Então, você aprendeu assim... Mas na verdade, você já colocou terra barrosa nas mãos? Ah, melhor, aqui no bairro a gurizada fala barro pra não dizer merda, já percebeu? Você também fala isso! Sabe o que é? No fundo, no fundo, a gurizada morre de medo de assumir que viemos da merda e à merda voltaremos - merda fede, Jurandi! No fundo, no fundo, todo mundo vai à merda...

- É, parece que colocamos os pés na merda... Como porquê? Porra, passamos duas putas, fudemos uma inocente... Ah, e quase levamos chumbo dos putos crentinhos. Chumbo não, crentinho? Piorou! Melhor, quase tomamos merda dos putos cretinos! Zé, tem uma coisa me perturbando... Claro, porra, ninguém gosta de descobrir que comeu traveco, mas não só isso, porra... Não, Zé, a puta foi em cana porque é muito burra, e ela já deve ter saído do xadrez. Mas, Zé, ela é gostosa pra caralho... Magrinha dos peitos empinados, a bunda, meu Deus... Zé, a bunda pulava pedindo pica, e não é qualquer pica, pedindo a minha, porra. Hehehehe... vou falar igual você, Zé. "No fundo, no fundo...", como é mesmo, Zé? No fundo, no fundo, todas as mulheres querem o caralho do Jurandi, hehehe... Eu sei que nunca vai admitir isso, né? Mas, Zé, tem uma coisa que está me perturbando, pô... Zé, aquela Rose é gostosa pra caralho, né? Puta que pariu, ela tem um traseirão da puta que pariu! Ah, Zé, sei lá... É aquele puto do Matheus... porra, o cara se acha, percebeu? O cara come as mais gostosas, e o puto fode comigo, Zé! Fudeu com você também... num tira o seu da reta, hein?! Olha, foi por causa desse desgraçado que nós estamos aqui sem saber pra onde ir... Foi esse puto, filé da puta, que passou as notas falsas pra gente... Culpa dele, pô!

- Jurandi, vai à puta que pariu! Cara, esse tal Matheus não fez nada de absurdo... Esse cara é igual a você mesmo, gosta de foder os outros, já percebeu? Você fica aí falando desse merdinha - merdinha igual a você! - pra esquecer que daqui a pouco vamos é ver o sol nascer quadrado. No fundo, no fundo, nós ficamos falando e andando devarinho pra esquecer que temos que esconder. Jurandi, percebeu como estamos andando devagar? A gente fala: "Vamos apressar os passos!", mas, logo em seguida, têm duas tartarugas andando. Andando não, rastejando! Há quantos minutos estamos andando? Quantos metros andamos? Pois é, a gente devia é ficar com vergonha disso, porra! Num saímos do lugar, é o mesmo quarteirão... já faz um tempão que estamos "caminhando e cantando e seguindo a canção". Acontece que não sabemos qual é a canção, porra! Você fica aí puto com o tal Matheus, mas no fundo, no fundo, não quer é saber pra onde vamos! Cara, lembrei de uma peça, não sei quem foi que escreveu... sei que tem um puto esperando um tal Godot, mas ninguém aparece... O puto vai ficando surtado, igual a você, Jurandi... Fica vendo coisa onde só tem merda!

- Engraçado... Você sempre quis bancar o espertinho! Vou falar uma coisa, você num é essa merda toda não... Quer ver? Por que você não fala com puto nenhum? Zé, se você fosse essa porra toda, não ia ficar todo dia esperando um pezinho pra pular o muro. Lembra daquela puta? A Isabel? Você passou a puta? Passou a Silvia? Mandou a puta do sebo à puta que pariu? Você num fez nada... ficou esperando a mamãe trazer a mamadeira, né! É isso, você quer mamadeira? Vai à merda! Zé, você fica falando que eu tô igual a, como é mesmo o nome? É, Godot... Vou dizer pra você, eu num pareço merda nenhuma de Godot, eu sou igual, sabe quem? Sou igual o pica-pau... ali é firmeza! Pica-pau não manda recado, bate na cara e faz hehehe... Você Zé, não passa de merda! Merda fala? Ah, deve ser por isso que o Zé não abre a boca... Porra, uma viatura, caralho! Vem Zé, bora ali... Porra, a viatura tá devagar pra caralho... Tomara que ela vire na próxima rua... Tá cheirando merda, porra! Tá vendo aquela mulher fumando? Vamos chegar perto dela... Polícia não perde tempo com fêmeas. Oi, tudo bem? Eu e meu amigo, ele é o Zé, não somos daqui e estamos sem nem um tostão furado. Nossa moça, tô com uma puta vontade de fumar... Me dá um cigarro? Quer dizer, quem fuma nunca dá um cigarro, sempre empresta, né? O único? E foi o Matheus quem te deu? Você deve estar de sacanagem! Que? Moça do sebo? Não, não, você deve estar enganda... Eu e meu amigo chegamos agora a pouco do interior. Puta que pariu, Zé, a moça é amiga da puta do sebo! E deve dar pro puto do Matheus, caralho!... Corre, Zé, corre, corre... Corre, porra!

Em nome da merda, amém!
(Cap. VII)

- Calma, calma doutor! Não, você deve estar enganado... Que isso? Ai, porra, isso dói, caralho. Como que o senhor quer que eu não grite? Aperta o meu cacete, é claro que vai doer, pô. Tá, nós vamos entrar no camburão, mas num precisa dar tapa na cara, pô... é muita humilhação! Oh, doutor, esse aqui é o Zé, ele é escritor... Pois é, melhor num bater no cara, ele tem costa larga, doutor. Puta que pariu, Zé, esse camburão é apertado pra caralho! Vira essa merda de bunda pra lá, Zé! Ah, vai se foder, pô... Culpa minha, é Zé? Minha é a puta que pariu, porra! Tamos juntos ou não? Tá, seu polícia... vamos ficar calados. Agora num pode nem conversar mais, tão de sacanagem... Tá doutor, vou fechar o bico.

- Jurandi, esses putos vão demorar pra caralho chamar a gente... isso faz parte da estratégia da merda, do cansaço à merda! Você fica aí impaciente, mexendo essas pernas, e depois de um tempão começa bater a fome, o cansaço, a merda. Aí é a hora certa pros putos agirem. Porra, Jurandi, estamos mesmo na merda. Num sei se já falei, mas, porra, tô vendo tudo ir por água abaixo. É, cara, tudo... meus planos, pô. Meus livros publicados, as paletras, as muambas, aquele carro que você fez o favor de bater lá na esquina, lembra? O que eu ganhei com isso? Cara, no fundo, no fundo, eu queria viver só escrevendo. Morar numa chácara com os patos, cachorros e muitos livros... Eu sei que tô sonhando, porra, agora num posso nem sonhar? Não queria de trazer aquelas desgraças do Paraguai, ficar dando palestra, isso me enche... Queria mesmo viver delirando, só delirando. Pronto, tá aí, cara... Talvez o Drummond queria dizer assim: "No meio do caminho tinha uma merda, tinha uma merda no meio do caminho...". Jurandi, que clima nostálgico dessa delagacia, hein...

- Você tá é delirando, Zé! Cara, já tem mais de vinte minutos e nenhum desses putos policiais vem aqui dizer alguma coisa. Os caras deixam a gente aqui na recepção algemados e se mandam, fingem que se esqueram da gente. Cara, até esses putos estão desprezando a gente. Sacanagem, ninguém olha pra cá, porra! Ficam ali conversando blá, blá, blá e nada... Podiam pelo menos dar uma satisfação, chegar aqui e dizer: Jurandi e José, daqui a pouco vocẽs serão conduzidos ao interrogatório. É interrogatório mesmo que chama? Isso, dá na mesma... Como é mesmo, Zé? No fundo, no fundo, tudo na merda, né! Porra, se tudo vai à merda então num precisa ficar aí me corrigindo... É tudo merda, não é?! Zé, preferia ser logo preso do que ficar aqui... Tô com fome, sede e nenhum puto vem cá me ajudar. Porra, Zé, nem Jesus sofreu assim! Cara, essa nossa história tá foda, né?! Não sei o que é pior: ficar aqui ou lá na rua correndo de todo mundo. É tudo uma merda! Puta que pariu, Zé! Você tá vendo o que eu tô vendo? Porra, cara, olha lá! Quando a coisa tá fodida, pode sempre foder mais! É ele mesmo, pô... O cara ainda é polícia, caralho! Não, Zé, o Matheus aqui é foda! Cara, olha lá... O filho da puta do Matheus está olhando pra gente, deve tá rindo pelas pernas, desgraçado! Porra, tem alguém brincando com a gente, Zé... Tão rindo da nossa cara, pô!

- Como tá a estadia? Passando bem? Então, eu sou o Sargento Barroso, fiquei sabendo como vocês estão ferrados! Andaram trazendo muambas do exterior, até droga! Sinceramente, o mar não tá pra peixe... A situação nossa também não vai bem. O delegado e o escrivão saíram numa diligência e deixaram só um agente, o cara não resolve nada. A Polícia Militar faz o trabalho pesado, pega vocês dois em flagrante, vocês sabem que não é fácil pegar gatuno... Mas é foda! Ninguém pra fazer o flagrante aqui nessa joça. Então, vamos fazer o seguinte: abana meu rosto que eu sopro sua cara! Você é escritor, né, Zé! Um cara com o nome que tem deve ter uma aquela grana guardada, hehehe... Pra falar sério, procuramos pra caralho, mas não achamos nada naquele apartamento...

- Olha Barroso, doutor Barroso, nós temos uma grana aqui... Vamos fazer o seguinte, passo dois paus pro senhor e morre aqui, beleza?! Fechado! Zé, pega a grana no meu bolso! O doutor tem que tirar minhas algemas, porque a grana não tá fácil. Isso, valeu! Aqui doutor... Até mais doutor Barroso.

- Espera aí, vocês dois! Vou deixar os senhores perto do prédio, positivo? Me acompanha... É nessa viatura, vamos entrando. Sua casa fica no bairro Barreiro, né?! É Jurandi seu nome? Então, você deve estar achando estranho esse nosso passeio, mas é que admiro demais esse sujeito aí, ele escreve muito! Como é mesmo o nome daquele seu livro, Zé? Em nome da merda, amém. Adorei esse livro, cara. Não sei já te contaram isso, mas aquele livro é a história da polícia, sem tirar nem por. Como é mesmo a história? Um sujeito nasce arrotando bosta, com o tempo ele descobre não consegue mais cagar... O cara vai de mal a pior! O suor do cara começa feder merda, hehehehe... Quando ele vai ao médico, o doutor também começa a feder bosta, no fim todo mundo fede merda! O que você achou dessa história, Jurandi? Que isso, você nunca leu os livros do Zé? Ah, bom... Tá justificado, mas se eu fosse você aprendia a ler, o cara escreve que nem o Diabo! Você tá perdendo tempo, Jurandi! Zé, esse nosso papo tá bom, mas estamos aqui... Vou deixar vocês nessa rua, parece que é a rua debaixo do seu predio, não é?! Então, vou deixar aqui porque tem um sujeito mal intencionado, querende foder vocês... Por que, Zé? Vocês ferram a irmã dele, a moça do sebo, e me pergunta porquê. Zé, o cara é cabra macho, cuidado! É, esse mesmo, Jurandi... Matheus é nome do home! Ele trabalha com a gente lá, também fede merda, hehehe... Fica de olhos abertos! Um passarinho me contou que ele tá de campana em frente seu prédio... Vai pela sombra, Zé, ainda quero ler muitos livros seus... Morre não, Zé!

Mais uma puta no meio de dois
(Cap. VIII)

- Jurandi, não sei o que foi pior, ficar lá algemado com fome, sede e a puta que pariu, ou estar aqui sem saber o que fazer. Porra, não podemos ir pro apartamento, o desgraçado do Matheus tá pronto pra fazer dois presuntos... Não podemos ficar aqui parados porque o puto do pastor Rubem também vai comprar nossa passagem pro inferno. É, Jurandi, ele acha que passou grana quente, ele não sabe que eram falsas a porra daquelas notas. Porra, Jurandi, tô pensando aqui... Daqui a pouco a situação fede mais sabe por quê? Porque o puto do Sargento Barroso vai descobrir que as notas são falsas... Aí fodeu! Tanta gente querendo botar as mãos sujas nesses corpinhos maravilhosos, hehehe... Estamos ferrados! Jurandi, você lembra aquela coisa que falei sobre o barro? Que na Bíblia está escrito que do barro viemos, ao barro voltaremos? Não falei isso? Acho que tô surtando, cara. Tô dizendo essa coisa de barro porque me lembrei do nome do Sargento Barroso: da merda viemos, à merda voltaremos! Jurandi, será que vai ser o Sargento de merda que vai me despachar? Não, você não... Se for pra você morrer não vai ser o Sargento de barro, Sargento de merda, vai ser o tal Matheus, Matheus com th... É ele que vai foder você, hehehehe... Cara, agora é sério, estamos ferrados mesmo! Sem dinheiro fica complicado fugir...

- Pra início de história não tenho medo do puto do Matheus, com th ou com a puta que pariu. Mas uma coisa é certa: estamos na merda! Zé, tava pensando aqui porque fico tão puto com esse sujeitinho de Th. Você lembra, Zé, daquela minha primeira namoradinha? Eu tinha uns quinze anos, lembra? Então, eu acho que esse puto foi quem comeu ela... Certeza, Zé! Ela falou que estava apaixonada mesmo por um desgraçado igual a esse filho da puta. Como eu sei, Zé? Zé, tenho intuição também, porra! Pra cima de mim, Zé? Todo mundo tem essa porra de intuição, caralho... As putas é que ficam se gabando de ter o sexto sentido. Eu tenho bem mais de dez, porra! Eu sei, Zé, que esse puto aí pegou minha menina, desgraçado! Foi ele, Zé! É o puto do... Zé, tô pensando aqui... Lembra daquela puta? A Ana, porra! Zé, ela mora nessa rua, bem ali na frente... Lembra? O sonho dela era dar pra nós dois juntos, mas não, eu ia lá comia a vadia e depois você entrava. Você não tinha culhão pra comer a vadia comigo! É, eu sei que a gente revezava... às vezes você ia primeiro, mas nunca nós dois juntos... Nunca falei isso, depois que você entrava pra comer a puta, eu sempre ficava olhando pelo buraco da fechadura... Vou te falar, era um prazer tocar uma enquanto você comia ela... Então, anima? Bora lá, pô! Ninguém vai nos achar lá...

- Ih, olha lá, Jurandi! Quem é que tá entrando na casa da puta? Puta que pariu, é ele mesmo? É, é o Matheus com th, hehehe... e agora Jurandi? Vai ficar bancando o machão? O talzinho Matheus com th está entrando na casa da puta, vai comer a vadia! É, Jurandi, tem cara que é foda mesmo, come sua namoradinha, come suas putas, fode. Pois, Jurandi, em outros dias você ia lá tirar satisfação, né? Mas, hoje, você parece meio resignado... Jurandi, sei que você não vai acreditar, mas que se foda seus pensamendos toscos, mas, cara, dessa vez eu ia comer a vadia junto com você! Ei, levanta essa cabeça, porra! Estamos livres, vivos, caralho! Olha só, tava pensando aqui, tem uma galera querendo botar as mãos na gente, deve estar nos procurando por toda parte... naquele café, até na casa da puta não podemos ir, mas tem um lugar que deve estar uma tranquilidade só. Qual? Pensa aí, Jurandi! Beleza, vou dizer... todo mundo por aí na loucura pra achar os caras das notas falsas, mas lá em casa deve estar uma maravilha só. Devem ter levado os presuntos, e a casa deve livre, liberta para dois vadios, hehehe...

- Porra, Zé, você não serve só para escrever livros idiotas... Olha, vou ficar na boa com esse Matheus pra coisa não feder mais, mas, quando a poeira baixar, a coisa não ficar limpinha assim não.  Então, bora lá!...

De cara na MERDA, e pronto!
(Cap. IX)

- Zé, li em algum lugar que um escritor queria escrever uma novela de dez capítulos, mas, quando chegou no nono, não sabia como continuar e fez um desfecho qualquer. Depois de finalizar o trabalho, ele se matou. Disse que não precisava de cartas de despedida, porque já tinha a novela. Vai se foder, Zé! Acha que é só você que lê, seu trouxa. Olha, quer saber, já li bem mais que um livro, mas não preciso ficar falando o que e onde eu li, pra falar a verdade, não sei mesmo de onde li. Você, Zé, parece puta de escritor, fica citando os putos pra lá e pra cá, e parece que gosta de ver putos declarando seu nome por aí. Eu, não, já iniciei vários livros, vários não me convenceram a chegar ao final... Mas tem uma leitura que sempre consigo finalizar, coletivamente ou não, essa você fica meio acanhado, hehehehe. A leitura dos lábios, leio melhor que qualquer surdo, leio, chupo, faço de tudo muito. Porra, Zé, todo dia nesse horário as putinhas ficam ali rodando bolsinhas... Porra, são travecos não, olha o rosto delas, porra! Rosto de menininha mamando na mamãe, olha que ternura, que meiguice...

- Então, Jurandi, quer saber de uma coisa, bora comer uma puta dessas, como devíamos ter feito com a vadia... Vai amarelar, porra! Cadê o Jurandi? Beleza, sobe lá, olha se tá tudo limpo, eu fico aqui negociando e escolhendo uma puta (verificando se é nascida mulher), enquanto isso você analisa a situação lá em cima. Se tiver tudo limpo, você dá um grito... sei lá, aparece lá, mexe as mãozinhas, porra. Vai lá, Jurandi, tem home aí, porra! Olha o prédio, tá todo tranquilo, tem nada não, pô. Tá, aguardo aqui. (...) Ok, tá limpo, mas não precisa descer não, porra, era só ter botado sua mãozinha de moça na sacada. Olha aqui, deixa eu te apresentar a puta, melhor, a moça aqui da esquina: o nome dela é Salete e gosta de dois, é tranquila. Vamos lá, tomara que não encontre ninguém de merda sentado na minha poltrona. Ah.. é mesmo, morreu, tadinha, que deus a tenha!

- Que gostosa! Zé, você tem bom gosto, cara, ela é a puta que pariu em carne e osso... Olha, só uma coisa, Zé e, como é mesmo seu nome? Zé e Salete, o apartamento estava aberto, mas não estava muito aconchegante não... acho que os home cagaram lá, roubaram tudo quanto havia por lá. Seu computador já era, não sobrou muito. É isso, Zé, o importante é que estamos vivos e com um puta ao lado, no mais, damos jeito. Fica calada, sua vadia, tô pagando, porra! Porra, Zé, a puta não animou... correu, porra! Olha aí, as putas tão folgadas pra caralho, só por causa da merda, pô! Deixa eu entrar primeiro, aí, Zé, cuidado pra não pisar no lugar errado, entra aí.

- Puta que pariu, tá tudo cagado! Afundei na merda! Senta aí, na merda mesmo... larga de frescura, senta logo, porra! Sentei, pô, a poltrona estava toda cheia de bosta. Aí, cara, sentou na merda também, pronto! Só dormir agora...

Da MERDA ao caos

Após a morte de Bibica, as coisas tomaram rumos distintos. Primeiramente, os contratos publicitários foram interrompidos, os perfumes e os demais artigos de odor já não tinham a mesma aceitação como antigamente - até os jornais tinham cansado de publicar matérias sobre o caso Bibica. Depois de quatro meses do ocorrido, já faltava alimento, a energia e água estavam cortadas e meus vasos... até meus vasos não podiam ser utilizados - que falta fazia Bibica!


Era preciso sair daquele ostracismo doentio! Procurei me reestabelecer... Meu abdome já estava duro, vários dias sem defecar. A verdade é que só usava o vaso quando saía de casa, porque meus sanitários lembravam Bibica. Passei a frequentar a casa de mamãe para usar o banheiro. Nesse período, observava como era explorado aquele espaço na casa, quem usava mais vezes, quem lavava as mãos etc. Nesses dias de retorno à sobrevivência familiar, recebi um convite para trabalhar com meus pais. Ficava no balcão da loja de mamãe, ali era vendido de tudo, e os objetos não muito valorizados no mercado viravam verdadeiras joias nas mãos de Dona Joana, minha querida mãe. Meu pai não era tão bom em vendas, entretanto, sabia cuidar do espaço, fazendo com que aquela desorganização tomasse um sentido quase poético. Após um ano de vida exclusivamente nova, voltei a defecar na minha própria casa, paguei as contas atrasadas e passei a viver novamente com meus vasos sanitários.

Precisava de ter meu próprio ganha-pão! Como já tinha passado por maus momentos, resolvi continuar trabalhando com meus pais, enquanto organizava minha casa. Toda renda dos serviços prestados era empregada ali mesmo, debaixo do meu teto. Entendi que não dava para continar deixando minha merda escoando por qualquer cano, fiz minha própria tubulação, toda transparente. Logo a mídia começou a cobrir o percurso do que era defecado na minha casa. Nesse ínterim, já tinha voltado à boa forma, e sem remédios! Defecava dez vezes ao dia sem utilizar nenhum laxante, nem mesmo comia alimentos que propiciassem maior fluidez, era tudo natural!

Naquele ano, havia entrado uma nova gestão na prefeitura da cidade. O prefeito de então tinha como objetivo fazer do lixo algo visível, agradável. Confesso que toda essa filosofia barata foi copiada da experiência iniciada na minha casa - minhas tubulações transparentes pareciam inspirar bastante esses crápulas de terno e gravata. Foi ofertado a mim o cargo de coordenador geral de um projeto piloto que visava fazer da cidade o que tinha feito em casa. Toda a tubulação que passaria a merda seria transparente para que cada um pudesse se ver, também, enxergar o que o outra fazia nos momentos íntimos. Começamos pela rua, depois estendemos para as demais ruas até ter um bairro completo de merda à vista. A ideia era tão interessante que muitas empresas passaram a apoiar o projeto da prefeitura. Uma psicóloga de plantão disse, numa dessas entrevistas rápidas, que a população teria mais conhecimento, mais compreensão, uma vez que estariam diante do mais sublime, e todos dias. Era como viver à beira mar, segundo ela.

Cidade pronta, outras prefeituras de partidos distintos não se esquivaram de copiar o projeto, e logo todo o Brasil já estava com a rede de esgoto transparente. Era possível observar as fezes de qualquer um, do político ao detento. Quando os presidiários não se alimentavam bem, logo era possível perceber a diferença da cor das fezes.Também, quando havia aumento relâmpago nos salários dos políticos, ou o congelamento dos vencimentos de médicos e professores, era possível ser notado por todos.  Meu pai sempre me dizia: "para conhecer uma pessoa, observe a merda feita por ela, o lixo diz mais que palavras!"... Que deus tenha  os restos de papai! Tudo corria bem... os políticos já não recebiam aumentos estrondosos todos os dias, os professores e médicos públicos passaram a receber reajustes relativamente dignos. Era uma nova era, quem sabe!

Era um dia de sol, quando me levantei... Padaria, ruas, em  tudo era possível ver o gigantesco tempo de merda que fora escondido! Porém, todas as merdas estavam interligadas, diziam que agora o individualismo acabaria. O percurso das fezes era bastante singular: a pessoa defecava, logo em seguida, as fezes passavam por tubulações individuais até desaguar nas demais. Aí, era ainda possível vê-las, mas misturadas às outras. Naquele dia de sol, pão às mãos, atravessei a rua, subi o elevador observando toda merda feita pela aquela gente, admirável! Entrei em casa, passei a manteiga ao pão, peguei um copo preenchido de suco de uva, e me sentei frente à televisão. A notícia era contundente, tinham dado o golpe, um novo governo viria pela frente...

Um governo diferente do anterior! Todos os projetos de manutenção da transparência da merda foram rasgados. Além disso, resolveram isolar todo o resto produzido pela população numa valeta no interior do Brasil. Toda a merda ia direto para um buraco secreto, que ficava numa cidadela, num local pouco frequentado.

Num dia qualquer, a pressão dos gases da valeta foi tão forte que causou uma tremenda explosão por todo o mundo, deixando em extinção a raça humana.

domingo, 10 de julho de 2011

Imagem e semelhança

Desse choro,
a triste partida
de Diadorim
a morte, suicídio de mim


Esse grito ferino
que rompe couraças
para fazer avalanches
esse meu ser chinfrim

(À Cacau Cruz e suas histórias de amor!)

Queda livre

Cansei do frio da cidade,
das doces inverdades,

e dos beijos sem paixão.

Cansei de brincar de me esconder,
de fingir não te querer,
de não sentir bater meu coração.
Sou como flor que brota,
A demandar-te afeto,

e o brilho do sol a surgir....

É nesse canto de grito,
de berro, de choro, que seja! que vou

vôo mesmo sem pestanejar
...
Não preciso de pernas para sair do lugar!


(Produção coletiva com a Cacau Cruz)

Pulo ou não, merda!

Acordei num bilhete vencedor de milhões
(ganhei na mega sena!)
saí pelos corredores do albergue gritando:

-Ganhei, porra!

Depois de toda a burro-cracia da Caixa-Nada-Econômica
dinheiro na conta
não pude economizar tempo - fui ao shopping

O taxi parou do lado oposto à entrada principal
fui ganhando rua,
mas durante a travessia...
percebi que não tinha ninguém com quem comemorar
Era só! em minha própria alegria
(nenhum carro para me atropelar!)

Em bebidas e torresmos - torrava minha grana
minha gana estava somente nas putas que ainda não tinha comido
no vinho que não bebera
no absinto:


- só! não sinto minhas pernas...


Quando o dinheiro acabou voltei à vidinha-de-merda-de-sempre
Sozinho, sem grana e ainda sem ninguém para dividir absolutamente nada

...

Lá embaixo tudo permanece transparente
aqui, só! a dúvida:

Pulo ou não, merda!




Produção coletiva:

Eu e Cacau Cruz

terça-feira, 5 de julho de 2011

Poe, Poe, Poe - o homem bomba - Poe, Poe, Poe...

Fiz da vida proesia

Por isso

Escrevi aos poucos

Poe
mas

Não deixei de criar

domingo, 3 de julho de 2011

Sem pedigree

Perdi no esgoto um canino

gritei

entre perdigotos furtivos

um amigo encontrei



Perdido no esgoto

percebi

aquele suave perdigoto

era mesmo sem pedigree


Ao Filho da exclusão, MAIS um cachorro maldito

Ar... tim, latim, latindo, só!

sentido de só:
dois caninos partidos ao meio

isto é,
palavra de língua morta
única
num dicionário
inexistente