segunda-feira, 25 de julho de 2011

Às 16:13h.

Acordava sempre no mesmo horário, às 06:15h. Saia às 06:55h., e tomava o posto de trabalho uma hora e cinco minutos depois. O almoço era rápido, uma hora apenas de intervalo. Ainda de barriga de cheia, retornava meio dia à labuta. Era operador de máquina de escrever. Sim, todos os textos daquela editora eram digitados à máquina! Os trabalhos se davam por completos às 16:00h., quando voltava para casa a pé.

Luiz Antônio Ferreira saíra aquele dia cinco minutos antes do planejado. Deu voltas pela Praça Joaquim Ribeiro, fingiu falar ao telefone público, deixando passar os minutos que sobravam, e tomou resoluto o caminho tradicional. Passou pela Rua Madre Sá, e entrou na penúltima ruela que antecedia a da sua casa. Andava,  naquele instante, exatamente como nos dias anteriores, passos firmes, olhos num ponto fixo, mas sempre observando de soslaio os cachorros. Quando criança havia levado uma terrível mordida de um canino sem-nome-sem-raça, marcara profundissimamente aquele rapaz. 

Às 16:13h, Antônio já tinha entrado na rua de casa, a rua Marquês de Sade. De longe, não querendo acreditar, percebeu que o cão de Dona Eterna estava do lado de fora, sem correntes, sem nada. A  vizinha  Eterna, que quase todos os dias saia à porta aos fins de tarde, naquele dia não tinha saído. O cão andava tranquilo pela calçada, entretanto, ao aproximar do homem, passou a latir. Mostrava os dentes desafiadores, fazendo Antônio lembrar o fatídico dia da infância...

Era inevitável, ao ver um cão solto Antônio sempre sentia coisas inexplicáveis. Certa vez foi ao médico, porque começara a ter espasmos caudalosos ao se deparar com um cachorro de rua. Ficou por volta de um ano sem sair de casa, desde então, não sentira nada mais estranho. Entretanto, aquele haveria de ser um dia comum, de horários marcados, se às 16:13h. não avistasse o maldito cão. Era Labrador, com mais de dois anos de vida, de caninos sobressalentes e boa forma física. Antônio atravessou a rua, andou ainda mais rápido já na outra calçada, porém o cachorro também atravessou. Repentinamente, os dois se olharam... Frente a frente, os latidos não eram ouvidos, não se ouvia nada, apenas um zumbido surdo que ofuscava tudo, inclusive a visão de Antônio.

Foi acordado no Hospital de Urgências, já tinha sido medicado e o estado de saúde era bom. Após vinte e cinco minutos deitado sobre uma maca, ele achou estar bem e levantou-se, mas não conseguiu sustentar o próprio corpo, foi ao chão. Dois fortes enfermeiros o sentaram em um banco de espera, não sem boas palavras de repressão. Aguardou por mais quinze minutos, percebendo ser dono dos próprios sentidos, locomoveu-se até o balcão. Acertou os detalhes do pagamento e foi embora, dessa vez de taxi. Chegou em casa num horário nada convencional, às 20:07h., deixou um a mais ao taxista e fez questão de entrar rapidamente sem que ninguém o visse.

O doutor teria dito que era necessário procurar um psiquiatra, psicólogo ou, mesmo, um analista. Não era assunto para médicos tradicinais, aquilo era um apagão da alma, segundo Dr. Gomes. Disse "teria", no futuro do pretérito, já que Antônio não se lembrava de exatamente como fora a fala do médico, apenas algumas vozes insistiam em vir à tona de forma fragmentada.

- Psicólogo é o caralho!

Lançou-se à cozinha para preparar algo de comer. Dois minutos de microondas, pizza pronta; três minutos e tudo devorado. Comeu se esquecendo de que havia cachorro no mundo. Ainda sentado, adormeceu profundamente... Após três horas dormindo, sonhou que tinha perdido os dois dentes caninos numa briga de bar. Acordou! Lembrou-se das terapias feitas ainda criança: a psicóloga dizia ao garoto que era necessário deixar de comer carne, brincar com cães, ou seja, era preciso esquecer completamente o animal. Outro flashback o incomodou: consultara, também enquanto criança e pelo mesmo motivo, com um psiquiatra velho e gordo. Durante a consulta, não ouvira a cor da voz do médico, entretanto, saiu de lá com a promessa de cura e um engradado de remédio a ser adquirido. Nada disso tinha feito, nem os remédios, nem os conselhos para morrer lentamente. Por incrível que pareça, desde então, não sentia nenhum sintoma que remetesse a esses temerosos dias de infância.

No dia seguinte do ocorrido não foi trabalhar. "O cão, o cão novamente!", dizia a si mesmo a todo o momento. Passou a colocar compulsivamente as mãos nos dentes, principalmente os caninos. Mas não bastou! Os pensamentos sobre cães passaram a atormentá-lo constantemente, o que o levou a pensar em alguma solução. Sabia que não era a primeira vez que ficava atordoado pela presença de um cão, e que era perigoso demais perder os sentidos como acontecera. Diante dessa justificativa, resolveu partir se prevenir.

Foi à cozinha e pegou todos os utensílios que pudessem dar segurança em caso de ver o temido. Facas de vários tamanhos, garfos, colheres e pratos foram colados sobre a mesa. Após trinta minutos de análise meticulosa, escolheu um garfo de churrasco e uma faca, nem muito grande, nem tão pequena. Caminhou até o quarto e procurou lentamente as vestes. Ainda não era o suficiente, tomou um capacete velho que tinha sido usado pelo pai há tempos. O coturno do pai, ex-militar, também foi usado para a empreitada. Não parecia, mas todo o esforço feito por Antônio era para conseguir colocar os pés na rua no próximo dia.

Às 06:15h. levantou-se. Tomou freneticamente o café e saiu três minutos antes do previsto, 06:52h. Munido de todos os apetrechos necessários, encarou o desafio. Foi pelo caminho de sempre, chegou dez minutos mais cedo, nenhum cão o atrapalhara. Ao trabalho: trocava várias letras durante a digitação, a mente estava fixa no fim do dia - hoje o cão podia aparecer! 16:00h., tudo finalizado! Saiu cautelosamente do local de trabalho, andou mais devagar que de costume, mas dessa vez o cão não foi visto - não se fez necessário utilizar de todas as bugingangas que tinha preparado.

Chegou em casa confessando a si um quê de frustração. Havia usado um capacete arcaico, apertado, que o incomodara bastante, além do mais, tinha andado com uma faca pronta para o uso. É arriscado encarar o inimigo face a face. Foi à geladeira, preparou, em menos de dois minutos, um lanche digno de nota: torta, geleia, suco de manga, pão, torradas e mussarela. Claro, não comeu tudo que havia ali, mas de tudo um pouco, calmamente. Após ter se fartado, sentou-se na mesma poltrona que se sentara nos dias anteriores. Encostou a cabeça e dormiu: sonhou com cães seguindo-o loucamente. Não gostava de interpretar os sonhos, só teve a certeza de que não era hora ainda de abolir sua defesa, as parafernálias. 

Por dois meses, Antônio só saia de casa com os objetos de defesa. Usava de tudo: ferros de cadeiras velhas, desodorante, camisetas rasgadas, pedaços de carnes podres envenenadas etc. Tudo que não tinha valor, todo lixo, era de extrema valia para a autodefesa de Antônio – os cães podiam atacar a qualquer momento, pensava. Possuía vários e diversos utensílios, mas um em especial ele não abria mão, o capacete. Tinha abstraído que os cães queriam atacá-lo pela face. Não foi sem propósito que, numa certa ocasião, sonhara que estava sem rosto correndo de inúmeros cachorros famintos. Os sonhos que apareciam cachorros ferozes proliferaram e até lobos passaram a persegui-lo, os caninos queriam devorá-lo. Entretanto, após os meses de árdua defesa, sem nenhum encontro com cães novamente, começou a perceber que já eram desnecessários os objetos. Foi retirando peça por peça. Ora não usava faca, ora garfo, até, por fim, deixar de usar o capacete.

- Ufa!

Nesse grito solitário havia mais que pressupunha. Saiu como de costume, nos horários pré-programados, cumpriu à risca o que planejara ao dia.  Às 16:13h., sem nenhum objeto de autodefesa, a não ser ele mesmo, entrou na rua onde deparara com o cão dois meses antes. Sentiu medo, mas dessa vez não atravessou a rua - o cão indócil estava no mesmo lugar de antes! O bicho mostrou os dentes, contudo, Luiz Antônio Ferreira não se conteve e copiou a ação do animal. Assim como o cachorro, pôs-se de quatro a mostrar os dentes e latiu! O inimigo entendeu a mensagem e respondeu com a mesma contundência. Num misto de latido e fala sem entendimento, Luiz Antônio Ferreira agarrou o cão e o mordeu ferozmente... Rasgou toda a face do cachorro até vê-lo desfalecer. Sentindo o gosto de sangue à boca, abriu o portão e entrou em casa.

6 comentários:

  1. Eu tenho três cachorros no quintal. Dão o maior trabalho, mas a família gosta muito delas.

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  2. Esse conto me lembra quando desesperado
    por um ano corri todos os dias de um pit bullno serviço.
    Atravessava todos os dias um enorme quintal
    separar material e tal e tinha que correr dele que vivia solto.
    Foram dias de real desespero que quero esquecer!!!!!!!

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  3. massa! é por aí mesmo! meu irmão viveu o mesmo em Ouro Preto... o Mairão de Santo Antônio também... Os cães estão dominando, daqui uns dias haverá apenas MERDAS CANINAS.

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  4. Fantástico! Sabe, na infância fui mordida pela cachorra do meu avô, tive de tomar vacina na barriga e a porra toda, fiquei anos a fio com medo de cachorro, subia em postes, capôs de carro e trepava até me paredes fugindo deles na rua, era quase que meio ridículo, mas medo é medo. Um dia resolvi ligar o foda-se, e aos poucos o medo acabou.... hoje em dia tenho dosi cachorros em casa, uma Weimaraner loca e o yorkshire que é o amor da família.Superar o medo é duro, mas, é necessário. Gostei da metáfora do medo e sua superação, às vezes precisamos ser violentos para nos libertarmos de traumas, em outras vezes basta ligar o foda-se e ser feliz! Admiro o seu trabalho sempre! Beijo

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  5. Porra, Cacau, escrevo também por saber que há leitoras com vc! Que vai lá! A possibilidade de superação não está no politicamente correto, ao contrário, é na subversão que Sade permaneceu de pé... Que Vladimir criou a linda Lolita, que Mattoso louvou o pé do opressor. Imaginem só essas pessoas fazendo o discurso do normatiVo?

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  6. é um prazer, sempre, ler o que você escreve e criar e (re)criar estórias e histórias com alguém tão rico em criatividade!

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