domingo, 31 de julho de 2011

déjà vu

Amou sua mulher como se fosse a última
Chico Buarque, Construção.


Tinha ido ver a obra que iniciara há três meses. Sr. de Montensor, de uma frutífera linhagem de condes franceses, estava investindo em construções prediais no Brasil. Ele, que há muito tinha trabalhado no mercado ilegal de armas, percebeu que o dinheiro seria melhor aplicado em construções prediais. Não foi à toa essa decisão. Sr. de Montensor tinha feito vários amigos durante o período de contrabando, esses, vieram a formar o Partido dos Trabalhadores. Nesse ramo estatal não é preciso contrabandear! Os companheiros  facilitaram tudo, licitação e documentação, deixando o conde em doces lençóis.

Viu a obra gigantesca no centro de Belo Horizonte - no projeto fariam apartamentos populares, mas preferiram construir um novo palácio à prefeitura. Satisfeito, Sr. de Montensor retornou à sua casa, ainda antes do jantar. A esposa, Rosa Guerra, era mulher de boa índole, brasileira, e gostava de ler os clássicos, em especial Balzac. Tinha gozo parecido quando ouvia música clássica, sempre beethoven de fundo, enquanto saboreava a surpreendente comédia humana. Naquele dia 13 de outubro, Rosa esperava o marido na sala de jantar: talheres a postos, vinho no balde... cenário perfeito para uma boa noite de amor. Ela gostava de vinhos suaves, todavia o marido só bebia secos.  As qualidades de Rosa transpunham qualquer indisposição do esposo. Tinha aprendido a ceder! Depois do casamento, nos idos dos dezoitos anos, Rosa preferira paz à guerra - bebia Periquita, vinho seco, à espera do esposo. Sr. de Montensor sentou-se, comeu e foi se deitar. Poucas palavras trocadas, apesar do insistente esforço da mulher em conversar - quase um monólogo!

Era sabido pelo Sr. de Montensor, que a esposa saia sempre às sextas-feiras para jogar cartas com as amigas. Seis anos de casamento e nenhuma objeção do marido - era a única exigência dela, ele entendia perfeitamente. O marido deitado, enquanto a esposa, complentamente arrumada, ganhava a rua. Entrou na travessa Fernando de Aquino, onde havia o carro de Madame Frenesi, que a esperava. Foram às cartas. Sr. de Montensor, abriu os olhos... Vestiu a melhor roupa, tomou dois comprimidos de Viagra, e deu sequência às sextas-feiras. Era de praxe aquilo. Ele saia depois da mulher e ia sempre à mesma casa de massagem. Entretanto, aquele dia Jussara não estaria presente na Casa Vie.  Somente naquele dia 13 de Outubro, ela faria um show extraordinário na concorrente - as duas casas compreendiam bem a filosfia do grande mercado: "seja livre. Pague por sua liberdade!". Ainda que insatisfeito, Sr. de Montensor tomou o caminho rumo à Casa Nova.

Jussara não era mulher de vida fácil. Ela trabalhava e muito para dar a vida tão desejada à filha. Antes de conhecer Montensor, Jussara trabalhava de segunda a domingo, entre programas e shows. Amargava a ideia de saber que sua  filha Isabella, cujo pai não conhecera, pudesse viver sem as beneses de seus clientes. Fazia de tudo para ver a filha em bons lençóis: maquiagem, depilação a laser etc. Todavia, após conhecer Montensor, a vida passou a correu noutras águas. Ele exigira fidelidade, por outro lado, ela passou a receber dez vezes mais que antes. Agora sim, tinha tempo e dinheiro suficientes para Isabella.

Sr. de Montensor entrou de passos firmes na Casa Nova. Bastou apresentar o cartão fidelidade da casa concorrente para ter livre acesso. A política das duas empresas adoravam a promiscuidade dos clientes - com o mesmo cartão era possível frequentar os dois espaços. Sr. de Montensor sentou-se longe do palco, como a não querer os holofotes. Logo logo o garçon trouxe o cardápio: era uma lista de bebidas e comidas e, na outra parte, as mulheres que estariam presentes naquele dia. Olhou, porém não viu Jussura. Indagado sobre a ausência da garota, o garçon se limitou a dizer que ela tivera problemas no dia anterior, coisas de família. Não era o que Montensor queria ouvir, ele pagava todas as despesas dela para tê-la  ao bel-prazer! O gerente foi chamado... Depois de longas conversas, a Casa decidiu ofertar a garota mais cobiçada da noite. O fato é que não havia nenhuma referência a essa mulher: fotos ou nome, apenas a fama provocadora: "Se não gostar, não paga!", como dizia o gerente bonachão.

Diante da contingência, da necessidade vital das sextas-feiras,  Sr. de Montensor decidiu aceitar a oferta, não sem resmungar. Entrou no quarto, que estava com as luzes apagadas, tirou as roupas e deitou-se sobre a garota. Transaram loucamente como nunca. Ao finalizar, querendo conhecer o rosto, as pernas, todo aquele corpo que desfrutara, acendou a luz de teto e viu a moça... Era a sua esposa, Guerra.


4 comentários:

  1. Fico sem te visitar dois dias e tem coisa pra caramba aqui! Hahaha quero ler o final dessa história! Beijo

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  2. Hhahahahahahahahahaha fantástico! Da- lhe D. Rosa Guerra!

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  3. Tiro cruzado, não dói!
    Quem não faz, leva!
    Quem se mistura com porcos, te direi quem és!

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