domingo, 28 de agosto de 2011

desejo

vem sempre subsequente
não se satisfaz completamente

bule quente


bole
bole
que bolina
a mais santa das meninas

sábado, 27 de agosto de 2011

Poesia, análise e prostituição: subversão via linguagem


Poesia, análise e prostituição: perspectiva subversiva da linguagem

Poeta, profeta, protesta. A profecia anuncia o que virá. O profeta fantasia a realidade: partindo do imaginário, constrói e proclama um novo momento. Não é diferente o poeta. Ele sublima (ou seja, possibilita outro rumo ao desejo), e através da escrita constrói novos horizontes. O poeta subverte a linguagem, como a dar forma ao desejo, como a realizar o desejo. A transgressão é característica básica de quem é tomado pelo desejo, uma vez que a pulsão não segue os ditames morais. Não é falar com o desejo, porque o poeta é tomado pelo furo, pelo inumano, pela linguagem. Talvez, por isso, nasça o poema, e, em seguida, outro vem subsequente (o desejo não pode ser satisfeito completamente). Apesar da escrita, não há realização do desejo, o furo permanece! Há uma fome, fonte d'alma, que momentaneamente consegue se dar por satisfeita - nasce o poema -, há o gozo, mas, momentos depois, a fome (da fonte do desejo) toma o artista novamente - mais um ato subversivo (protesto) pode comparecer via escrita; é poesia.

O poeta é subversivo! Se o material primitivo da poesia é o desejo, o poema só pode ser um ato de transgressão. O desejo é o gigante que não se cala. O desejo é o inumano que esbraveja n'alma um grito por satisfação. Somos seres estruturados pela linguagem! Portanto, no poema, mais que nunca (por ser linguagem também), comparece as formações do inconsciente: metáfora e metonímia (para Lacan), condensação e deslocamento (termos Freudianos). Digo, enfim, que não há moral que sobreviva ao submundo da linguagem. Os sonhos podem ser completamente imorais, a ponto daquele que sonhou esquecê-lo, ou não conseguir se esquecer - com a poesia não é diferente! Apesar da repressão ser menor durante os sonhos, o poeta convive com toda parafernália linguageira. Enfim, pela poesia haveria a manifestação do inconsciente, que é imoral, inumano, transgressor.

O analista não é diferente. Ele, principalmente ele, deve conviver com a ordem do inconsciente, com os fatores linguagueiros, o inumano etc. A psicanálise só se fundou pela linguagem, mais especificamente, pela associação livre (que não é nada livre!). O analisando é associa-dor-nada-livre, já que funciona de acordo com o inconsciente (não há acaso em uma análise), e mais, essa fala-deslocada permite ao analisando se rever perante o Outro, perante si. O analista é subversivo como o poeta. O léxico estático do dicionário tem pouca utilidade para os variados significantes que surgirão em uma análise; pouco ou nenhum sentido ao poeta (os neologismos são mais interessantes!). Assim como o poeta faz constantemente neologismos, o analisando cria novos significantes que vão dar conta do Significante-Mestre. O  sentido é o que importa ao poeta, assim como para o analista. Uma palavra pode ter apenas um significado (levando em conta o dicionário), entretanto, possui, invariavelmente, diversos sentidos ao poeta-dor - o analista e o poeta. Diria que o sentido é a forma de satisfazer desejo via linguagem. Enfim, se o poeta não está implicado com a forma, o analista não o está com a norma.

O lugar do analista é qualquer lugar, não o lugar nenhum. Ele entra em cena em qualquer espaço, demarcando uma escuta própria. O poeta é de todos os lugares, um profeta que protesta. O analisando, ao chegar ao fim da análise, poetiza o próprio sentido da vida; faz profecia deliberada. A libertinagem da fala, que bolina em diversos significantes, aproxima o poeta e o analista da prostituta.  A prostituta faz no real o que o poeta e o analista fazem no simbólico. A transferência, em uma análise, pode simbolizar o ato de prostituição. A prostituta vai ao ato! Desata o nó, comparece o real. A prostituta faz no corpo o que o poeta e o analista fazem na linguagem; corpoesteria. E transgride no ato (independente da vida levada em outros espaços). Todos os três aqui comparados ocupam lugares e, por isso, seria no mínimo ridículo dizer que toda prostituta é perversa. Ela ocupa um lugar de transgressão, mas há pouca distinção entre essa que vende o corpo e aquele que vende poemas; que vende análise. O neurótico pode ocupar todos esses espaços, através da sublimação, mecanismo da neurose, ele pode dar vazão ao desejo via prostituição, via poesia, via análise. O perverso igualmente: o desejo de ser um falo ambulante pode fazê-lo prostituir (que é ser desejado); poetizar ou analisar. Até o psicótico pode ocupar esses espaços, ou seja, não é a estrutura que faz o ato perverso, mas tão somente o sintoma de cada um que comparece ali.

Mas muitas perguntas nos fazem refletir sobre a prostituição. Se não é questão de estrutura, o que leva alguém àquele lugar? Por que é tão discriminada a prostituição? E as diversas formas de prostituir: o desejo é o mesmo? Não, de fato não é questão de estrutura (basta escutá-las para perceber neuróticas, perversas e psicóticas desempenhando a mesma função). Esse fenômeno está muito mais ligado ao lugar ocupado por aquele sujeito. Assim, uma mulher pode ser uma boa mãe (boa no juízo da moral civilizada) e comercializar o corpo à noite. Vejo no desejo de analista um pouco do desejo do poeta e da prostituta. Esse desejo, tão caro à psicanálise, não é algo objetivo, prático e determinado, ao contrário, o desejo do analista está implicado diretamente ao sintoma psicanálise. Freud, como se sabe, foi tomado por esse sintoma, assim como Ferreira Gullar foi tomado pelo sintoma poesia. O poeta também não escolhe racionalmente ser poeta: a linguisteria toma esse ser de tal forma que o sintoma já é a poesia. Não é questão de escolha, mas, tão somente, um desejo de ordem subjetiva que toma o sujeito. Quando o sintoma é a psicanálise, pode haver um analista em deformação. Na prostituição ou na poesia, não é diferente. O sujeito também é tomado pelo inconsciente.

No desejo da prostituta há o desejo de ser desejado. Arrisco-me a dizer que a linguagem mais apropriada da prostituta é o corpo, que o sintoma se manifesta via corpórea. Isso me lembra o momento autoerótico, narcísico, em que a criança se ama. Entretanto, a prostituta já está adiante, já que há um outro nessa relação. Dessa forma, ser desejada remete aos primeiros momentos de vida, em que o outro (pai) a observa, a deseja. Há um pai simbólico rondando a prostituta. Há uma relação intrínseca com a lei – não é à toa que o ato de prostituir seja considerado transgressão social, embora tolerado socialmente. Haveria (na promiscuidade da prostituição) um ato simbólico incestuoso. Todos os homens representariam o homem, o pai, a lei, o Outro.

Há uma diferença entre poeta-analista e a prostituta. Tanto o poeta quanto o analista não vão ao real do sexo. O poeta, via imaginário, pode construir um novo horizonte (um mundo melhor ou pior aos olhos do poeta): pode haver um poema que insulte o rei (mas a morte será simbólica ali). O analista, por sua vez, pode ocupar (via transferência) diversos lugares, simbólicos, para o analisando: ora como pai, ora como amante etc. Entretanto, para o sujeito entrar em análise é necessário que a ordem simbólica permaneça, ir ao ato sexual  poderia romper essa relação transferencial. Ou seja, estou a dizer que a prostituta é aquela que vai ao ato: o real do sexo comparece. Mas no final de tudo, tanto analista como o poeta e a prostituta, ocupam o lugar de objeto “a”, pequeno resto. Já não se sabe quem é o poeta (apenas o efeito da poesia); somente o efeito da análise do sujeito (fim de análise); só o alívio da fantasia e da libido serão postos após o ato com a profissional do sexo. 

A prostituta deseja ser desejada como a filha perante o pai. Além: o desejo da prostituta está diretamente ligado ao desejo inconsciente infantil, o incesto. A prostituta responde a um desejo infantil de ter o pai, ou seja, ela procura, nas relações sexuais, um pai que possa existir ao menos por alguns segundos. A relação com o pai teria deixado resquícios. Esse pai teria deixado sinais que retornariam na puberdade. Poderia ser pai que tivesse falhado perante a ordem normativa, mas não só. Talvez um pai que nos excessos de carinhos tivesse feito a filha desejá-lo tão profundamente que, após as fases erógenas, ela tivesse desejo de retornar àquelas carícias. Enfim, na prostituição feminina há resquícios do pai retornando. 


(texto não finalizado)

Puta(ria) da linguística

o poeta é a puta das palavras
transa de A a Z
só não recebe
faz por prazer

Genocity


Genocity

Estado genocida cria genocídias frondosas

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Pressuposto

Pressuponho que haja humano
família
amigo
a gente


Suponho
o pai, o amor
o suposto saber

Mas vejo libido
bagaço de cana contra a parede
caído

O inumano supõe o saber
transpõe a gente!

Gozo Desmedido



Em setembro nascerá o meu filho, o livro Gozo Desmedido. Em breve divulgarei a data do lançamento. 

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

máxima pós-moderna


É politicamente errado
questionar o politicamente correto

máxima pós-moderna

não há problema em ser ateu
desde que se creia num deus

terça-feira, 16 de agosto de 2011

No ovo da Ema brotou uma estrela


No ovo da Ema brotou uma estrela (Dedicado a Marcos Alves Lopes)
De Cacau Cruz.

Era um astrônomo que buscava desvendar as estrelas no interior dos homens.
Estrelas confusas, de cores difusas e brilhos secretos.
Cientista que colocava dentro de um microscópio as miudezas da natureza humana.
De dentro para fora ou de fora para dentro? Não importa. É pé na porta. E porta é para ser aberta.  
Tinha o dom da oratória e do paradoxo metafórico.
Era inspiração inspirada.
Mestre observador dos lances viscerais no tabuleiro da vida.
Literatura atrevida, psicanálise (re)inventada, poesia, proesia, poema.....
E a Ema? Que ema?
Não precisa de rima. Marcos é literatura feita de baixo para cima, ou será de cima para baixo?
Veio de ouro no lodo da terra, mas não é poeta ou escritor. É inventor!


(Esse poema é de Cacau Cruz, amiga e poeta, que me presenteou com esse belíssimo texto. Não sei o que dizer... Valeu, Cacau!)

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

A gente

A gente
é d'A gente
fato do acaso
agente de fato

sábado, 13 de agosto de 2011

Vadiagem noturna


Não quero o amor morno dos lençóis embaraçados
quero a fugacidade do desejo (não dito, mas profetizado)
dois corpos num anel de fluxos - fluidos e gemidos
quero, antes, o fim do dia
num crepúsculo que anuncia
mais uma noite vadia!



À Fernanda Gonçalves Padilha, minha nega.

noite vadia



Quero ser lágrima que nasce nos teus olhos
percorre a tua face e morre na tua boca.
Quero ser o gemido do teu corpo ao penetrar o meu.
Quero ser a fome que te consome ao me ver partir,
e a dor que te desola por não poder dizer que é só meu.


Sou o sussuro dos teus sonhos a me pedir para ficar


Não quero o amor morno dos lençóis embaraçados
quero a fugacidade do desejo (não dito, mas profetizado)
dois corpos num anel de fluxos - fluidos e gemidos
quero, antes, o fim do dia
num crepúsculo que anuncia
mais uma noite vadia!




Produção coletiva:
Eu e Cacau Cruz

(Minha parceria com Cacau Cruz está cada vez mais interessante! Valeu, Cacau!)




sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Canalhice pau no cu


Canalhice pau no cu


“Porra, mas que merda é essa?”
“Eu estou te pagando e nós combinamos que você não iria reclamar...”
“Eu não estou reclamando, estou te perguntando: que merda é essa?”
“Cale a boca, caralho!”
“O que é que você anda comendo? Meu Deus, que merda!”
“Você tirou? Por que você tirou? Eu falei que não podia tirar!”
“Olha, eu estou acostumado com essas coisas, mas eu juro: nunca vi uma porcaria dessas.”
“Não olhe então, caralho! Fique quieto! Cale-se e não olhe! Faça como combinamos.”
“É sério, não há dinheiro que pague isso, nunca mexi com tanta porcaria, isso é doente.”
“Fique quieto, está machucando, porra!”
“Aff! Toda vez é sempre a mesma coisa, eu não te entendo, dói?”
“Cale a boca, caralho!”
“Se não está bom por que não para com isso?”
“Quieto, cacete!”
“Tá ficando duro, viu?”
“Não faça isso!”
“Por que não? Não é melhor assim? Hein?”
“Sai, sai!”
“Nossa, mas que merda!”
“Fale baixo! Minha mãe pode ouvir!”
“Sua mãe? Mas ela não tinha morrido?”
“Se ela te ouvir, te mato, juro!”
”Tudo bem eu falo baixo, mas me responda: quem foi mesmo que você matou? Seu pai ou sua mãe?”
“Ai, ai, cacete! Não mexe, não mexe!”
“Não posso mexer, não posso falar, esse fedor... Vai se fuder seu merda, faça isso sozinho! Nem todo mundo é igual a você, entendeu? Eu vou embora, chega!”
“Não, não saia. Não se mexa e não saia, por favor.”
“Então me conte, me conte”
“Contar o quê?”
“Quem você matou? Seu pai ou sua mãe?”
“Eu não matei ninguém! De onde você tira essas ideias?”
“Esqueça, vou embora, já acabou o tempo”
“Já? Mas...”
“Ei, ei! O que é isso? O que foi que você fez? Meu Deus, o que é isso? Você cortou?”
“Não olhe, não olhe!”
“Por que isso?”
“Eu sinto um vazio...”
“Não me diga que você enfiou.... não fez isso, não é mesmo?”
“Fiz! Quer ver? Fiz há muito tempo. Veja! Veja!“
“Que caralho é esse? Merda! Isso tá apodrecendo aí, filho da puta!”
“Não fale assim!”
“Por isso é que ninguém te vê, né filho da puta? É nessa merda que você se enfiou, puta merda! Caralho! Vai tomar no seu cu, porra! Ainda faz eu me meter nisso! Porra!”
“Não vá embora, por favor!”
“Fique longe de mim, seu filho da mãe!”
“Não me deixe!”
“Chame ela! Quer foder alguém? Chame ela!  Filho da mãe! Filho da mãe!”
“Não vá embora! Não, não, não, nããããããããããão!”



Autoria: Matheus Padilha

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Máxima pós-moderna

"Bancos emprestam dinheiro a endividados!"
"[...]Compramos seu empréstimo. De quebra você ainda leva cinco reais mil a mais[...]"
 (de um jornal qualquer)

 - Ufa! É só deitar e rolar! 

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

A cara viva da morte

A sua piscina está cheia de ratos/
suas ideias não correspondem aos fatos/
Cazuza, O tempo não para


Minha grana acaba semana que vem. Quando pequeno, meu pai dizia "filho meu não foge à luta!", e não tinha mesmo como fugir, ele sempre me puxava pelo braço. Naquele tempo, há vinte cinco anos, papai vivia armado de um cajado, um laço (não de fitas) e a velha espingarda de chumbo. Não, ele não criava ovelhas. Mas os filhos, os treze filhos de papai, andavam no cabresto. Digo que foi educação de sucesso. Sucesso, porque todos nós, os pobres-diabos que sobreviveram, matamos um leão por dia, cada um à sua maneira.

Fui dando sempre o meu jeitinho: trabalhei como peão, auxiliar de serviços gerais, auxiliar de pedreiro, auxiliar do caralho! Sobrevivi. Entretanto, nos últimos seis anos venho num rumo diferente. Assistindo esses programas que passam depois da novela, aprendi que a vida podia ser melhor, "felicidade é questão de autoestima", dizia o repórter. O jornalista entrevistou uma série de velhos com dentes na cara, todos diziam que podiam ter sido bem mais felizes; que a vida podia ser mais bela a cada segundo. Se eu chegasse à velhice como aqueles velhos diabos, com todos aqueles dentes! Mas dei rumo diferente à vida - fui pela banda da Lei. 

Quando meu pai morreu, eu, ainda menino novo, passei a receber  dos meus colegas verdadeiros exemplos de felicidade. Eles matavam, roubavam, cheiravam, comiam de tudo... Viviam felizes: todos em bando, um bando de pau no cu. Morreram um a um, somente Pintão conseguiu permanecer vivo. Aquele povo assaltava juntos, comia a mãe do outro numa irmandade sem igual. Mas a morte, a morte  identifica a singularidade de cada um,  não leva todos ao mesmo tempo... foi um a um, a hora mais sublime não permitiu o coletivo reinar. Ah, o Pintão! Ele era o único que roubava, matava, o escambau, mas sempre só!  No início fazia parte do grupo, contudo, logo abandonou aqueles pau no cu. Não deixava ninguém botar as mãos nas armas dele: comentavam que Pintão tinha as melhores armas, comia as putas mais gostosas. Eu, que tinha que me virar da minha maneira, passei a observar os carros, não qualquer um, mas os veículos de gente bacana; de gente que tem pai, mãe e dentes na cara. Esse povo gente fina, que dá entrevista pra repórter, tem lá seus brios: gostam de adotar cachorros, crianças, casar gays, o caralho. São do bem. 

Foi num dia de fome, fome sem dentes na cara, que decidi ir pela primeira vez à casa de adoção. Já tinha observado aquele local. Uma faixa de pedestres que passava só carro fino. Às seis da tarde era o melhor horário: mães retornando com os filhos da escola, carros pra caralho, uma muvuca de gente atravessando, perfeito! Cheguei perto da faixa, esperando o momento certo, coloquei uma goma de mascar na boca, e dei os primeiros passos. Era um carro preto, desses grandes de viagem. Joguei-me na frente do automóvel e fui acordado no hospital após uma cirurgia no braço esquerdo. O bacana, um rapaz fino que beirava os trinta anos, dizia incessantemente “matei o coitado!”. Essa sensação era importante, não foi à toa que tirei três mil reais daquele pau no cu. Assim se deu minha vida: ora era atropelado por um homem, ora por uma mulher, velhos,  jovens, cornos e a puta que pariu. Todos, além de ricos, mostravam-se excelentíssimos pau no cu.

Daqui a uma semana meu dinheiro acaba. Mas o que ganhei nesses seis anos de trabalho não foi desperdiçado: comprei gados, cabritos e estou construindo uma tapera na chácara do Pintão. Ele, que ficou um bom tempo escondido, voltou bem de vida, comprou uma chacrinha, onde crio meus bichos e ele planta maconha. Daqui a seis dias não tenho mais dinheiro! Vou acabar tendo que vender toda a minha criação - foda! Agora aqui, olhando essa faixa, os carros passando, mas com medo de pular, de morrer. A última vez que saltei à frente de um carro, quase morri. Uma hemorragia na região abdominal me tomou por inteiro, foi por pouco. Os carros estão passando cada vez mais rápido, as donzelas não param, nem diminuem a velocidade quando avistam uma faixa de pedestres. O Brasil precisa mesmo de mais educação no trânsito. Ok, essa é a hora de mudar...

Vou até o meio-fio, bato meu antebraço contra a placa firme de concreto até quebrar o osso. Osso quebrado, vejo um carro de bancana em baixa velocidade e simulo um atropelamento. O motorista para o veículo e, completamente perplexo,  vem correndo em minha direção. Estico meu corpo sobre o asfalto e finjo um desmaio. Terei grana por mais alguns dias.