sexta-feira, 30 de setembro de 2011

A vida é doce

A vida é doce
anfetamina
cocaína
estricnina

A vida é a doce falta de vergonha na cara!

Das tripas, um coração

Das tripas, meu coração,
rasgado em versos de jornais.

Rumo ao armazém do sexo,
compro minha boneca inflável,
afinal, tenho o vazio de gerações.


quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Falo de mulher

A força da fala é uma língua rija
brutalmente feminina como falo de mulher.


segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Perdido num samba, encontrado na cama

Rasguei a aurora
numa taça de cicuta
e, cambaleante ao teatro de cuíca,
fui toda vastidão do lençol branco,
do terno preto,
do chapéu-coco,
do algodão ao nariz-defunto,
um mero perdido à cama do samba.



Lançamento do meu livro "Gozo Desmedido"




Poucos dias para o lançamento do meu livro "Gozo Desmedido". Caso queira dividir esse momento sublime comigo, basta entrar em contato (8487-7672) para pegar o convite. Espero contar com você. Data: 05 de Outubro, às 19:30.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Desaprumado

Nas correntezas de gravetos sem nome
quero jogar meu corpo
seguir embaraçado nas águas
rasgando dias, rompendo noites
e, disforme, tomar a forma da pedra
da folha, do menino que dança n'água
disforme: tomar a forma que convém

Nessa cadeira de balanço
na sesta de domingo
meu corpo não caminhou uma légua
mas está parado, cansado!

Agora caminho sossego
embora cansado, desaprumado
sigo viagem

Vazar desaprumado

O mar escorrendo águas a conta gotas. E, da pinguela, o pouco que radiou floresce como sombra. Chego talvez à minha forma: os versos não me curaram, a prosa deixou-me atado em finais escandalosos. O gotejado dos dias figura cá dentro! São sempre gotas de insanidade que me anunciam as próximas horas. Mas hoje parei, parei semana passada também; pelo que consta vou permanecer parado. Sono nenhum me consome; a cama é o simbólico de aventuras sonhadas. E as árvores ao longe gritam o fim, enquanto o tempo escorre pelos dedos.

No latido do cão, ouço o que se perdeu. Foi numa hora, num lapso de tempo, que desmanchei meu arcabouço infantil. A manhã era bela, e não tinha vontade de parar. Só a rapidez dos dias era capaz de me cansar, mas foi numa tarde qualquer que desfiz o laço da ombridade; que anunciei a possível queda, mas nem me projetei rumo ao chão. Lancei-me aos versos, contos, novelas: não havia linguagem. Quando havia movimento, os resultados eram de ordem finalista, o que iludia qualquer consciência. Entretanto, estático, não  sei laçar ninguém, nem a mim: só vejo o laço da natureza perdida.

Hoje, verso algum me traduz. Nem mesmo as ilusões me satisfazem agora. Quero estar sentado, porque não sei exatamente como querer; desejo águas, árvores, terras... é a escavação d'alma que anseio profundamente. Os insanos  não seduzem nem a ponta dos dedos. Incrível, não há gozo nessa fala deslocada. Quero parar; e, quem sabe, jogar-me rumo à queda. Cair seria a maior marca dessa natureza perdida. Quero cair nas águas que correm sem porquê. Essas águas que passam pelo fracasso e continuam seguindo... Quero cair nas águas e topar frente às pedras - quebrar a face! -, seguir viagem. Viajar pelo tempo líquido; vazar disforme entre formas desconexas. Rasgar dias e noites, e não saber aonde ir, mas indo numa rota que poderia bem ser circular ou retilínea. 

Haverá vida além de mim, nessas águas que cortam as horas. Dilacerar as vozes que tormam os dias insanos... Não é estar insano num carro desgovernado ou numa locomotiva desvairada, mas, tão somente, entrar nos poros dos gravetos cinzas, das águas doces, das folhas enrugadas, e seguir viagem... No rumo desaprumado!

O desaprender é requisito fundamental para a permissão da queda. Só cai quem não se sustenta! Enquanto houver uma cadeira de balanço, ventos aprazíveis... não haverá queda! Esse corpo flácido quer ser erguido, sentir as pernas bambas, caminhar o rumo das águas, e cair... Cair desaprumado é seguir viagem!...

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

excreções do ócio

No início era o verbo
verborrou os macacos
e tornou-se verborreia

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Amortece, pelego!

Quando o traidor ao lado acorda
eu durmo pra não ver o estrago

Diarreia noturna


Agora, durmo
expeli o dia numa baforada de vaso!

Vulcão social

A febre aumenta a temperatura interna dos corpos

quente que Saara as horas

contudo, a temperatura social já entrou em erupção

J. P. Fernandes


Pra li foi J. Fernandes
Só esqueceu-se do Pinto
Numa lata de lixo qualquer

Jesus de Goiás

Aqui, nasceu Jesus

menino custoso de Goiás

milagrava urinando nas águas

só pra ver o rio corar


Erotomania

Põe sal na ferida

e tempera com água fervida

Diacho!

Régua de lã é para ovelha

ringue é pra macho

tic-ataca


Compasso,
marca meu passado no chão
que o tic-ataca qualquer coração

restos sublimes do dia


A diarreia impele ao sono
Antes, porém, expele verborragia
Com o odor sublime do dia

Neurose



Sofrer de reminiscências é a cura da amnésia

Amor real


Amor de um é a masturbação de vários

Slogan do M.E.C. (Mal-Estar na Cultura)

Educação para tolos
Ensino para ninguém

Tira-o-calção de todos

Pornografia pra quem?

não!


Não devo me alienar
Virei Hippie e não vou trabalhar
Não vou trabalhar
Não vou
Não!

Contra-cheque

O tic-ataca o coração!

Satisfeito, camará!


Pra que muito?
Pouco me satisfaz

Alerta


Dando-linha-linha-e-mais-linha
e-mais-tinha
quando-a-linha-é-grande
a pipa se  v a i!



(Inspirado no texto de Cacau Cruz, "Carretel")

DONADA

Dizer porrada

não basta
é mera fala deslocada

Falar donada
num contexto de pancada
em grupo ou perdido
é, enfim, o GOZO DESMEDIDO

domingo, 11 de setembro de 2011

pé da letra

Não me tomem ao pé da letra
enquanto meus pés se juntam
minhas palavras se vão

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

S.O.S


Quem pouco tem
carrega em si
um alto-falante abacaxi
cor-laranja-amor






É, ele, som ambulante
pungente,
azedo,
que geme a flor


Socorro é correr só
do próprio, do bicho, da vida a SÓS

- Marimbondo quebrantado de dor!

De manhã se faz ninguém
de noite confirma: eu já ferrei alguém

De Goiânia a Belém
são picadas de trem

(Espera, com essa rima
não sei se passo bem!)

Socorro!
é correr só
da rima, da métrica,
do próprio, do bicho, da vida a SÓS

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O latido dos cães (Produção Coletiva )






Parte I – Para Isabel  ( Por Cacau Cruz)

Eu desisti de você
Não me pergunte em que momento,
mas, acho que sei como foi.

Foi tentando encontrar motivos em suas frases vagas,
buscando pistas em suas charadas,
tentando decifrar o teu olhar... minha doce Isabel.

Eu desisti de você.
Você nunca me pediu para ficar
Sequer pensou em me ligar
Ou dar-me um espaço qualquer.

Fecha os olhos e me apaga da memória
Pois, não estou escrito na tua história
fui o beijo que não foi dado,
sou a lembrança de um adeus.


Parte II – Para quem me deixa ( Por Marcos Alves Lopes)

Apagar...
O que já me derreteu a memória
Também torturou meus dias noturnos
- É fácil ficar quando a carniça não fede!
- É fácil pensar com a cabeça na rede!

Meu falar torto é pena de viagem
(vadiagem)
Pro rio ou à puta que pariu

Mas, se não entende o latido dos cães
Vai, ou não me venha mais!

domingo, 4 de setembro de 2011

sonhos diurnos


Apagar...
O que já me derreteu a memória
Também torturou meus sonhos diurnos

- É fácil ficar quando a carniça não fede!
- É fácil pensar com a cabeça na rede!

Meu falar torto é pena de viagem
Vadiagem
Pro rio 
(ou à puta que pariu!)

Mas, se não entende o latido dos cães
Vai, ou não me venha mais!

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Para além do bem-estar poético




*Texto elaborado ao Comício Poético (Revirada Cultural Goiânia-GO - 2011)


Para além do bem-estar poético

Poeta, profeta, protesta. A profecia anuncia o que virá: partindo do imaginário, o profeta constrói e proclama um novo momento. Não é diferente ao poeta! Através da escrita, há a possibilidade de reinvenção subjetiva. O poeta subverte a linguagem, como a dar forma ao desejo, como a realizá-lo. A transgressão é característica básica de quem é tomado pelo desejo, uma vez que o querer não segue os ditames morais. Poesia não é falar de si, já que o poeta é tomado pelo furo, pelo inumano, pela linguagem.








Assim, nasce o poema, e, em seguida, outro vem subsequente (o desejo não pode ser satisfeito completamente). Não há realização plena, o furo permanece! Há uma fome poética, fonte d'alma, que momentaneamente consegue se dar por satisfeita (nasce o poema), há o gozo, mas, momentos depois, a fome (da fonte do desejo) toma o artista novamente - mais um ato subversivo pode comparecer via linguagem; é poesia.


O poeta é subversivo! Se o material primitivo da poesia é o desejo, o poema só pode ser um ato de transgressão. O desejo é o gigante que não se cala. O desejo é o inumano que esbraveja n'alma por um grito por satisfação. Ora, se somos estruturados pela linguagem, a moral não resistirá ao submundo poético. Os sonhos podem ser completamente imorais, a ponto daquele que sonhou esquecê-lo, ou não conseguir se esquecer - a poesia não foge desse pressuposto! Apesar de a repressão ser menor durante os sonhos, o poeta transita em um sonho acordado, um devaneio. Toda parafernália linguageira (portanto, inconsciente, imoral, inumana) tomará a poesia, inevitavelmente.

Entretanto, a moral civilizada cada vez mais toma os espaços reivindicados à poesia. São os poemas light que começam a proliferar; aqueles que dizem do superficial de maneira nada abrangente. A poesia restart, tão consumida pela geração Orkut, parece ser o que está em voga atualmente. Já não mostram a face do inumano, mas, tão somente, esforçam-se para contê-lo.

Não é de hoje que a linguagem vem sendo colonizada (afinal, é pela linguagem que se coloniza!). Em um momento em que é caro\raro estabelecer laços sociais, em que as relações estão cada vez mais automatizadas, mecânicas, utilitárias, há uma tendência de a poesia seguir o mesmo rumo. Esses aclamados poetas, de academia “A” ou “B”, parecem louvar todos os símbolos que nos deixam distantes dos nossos desejos, do desejo do outro. Ou seja, a arte hegemônica, arte Coelho, enfatiza o politicamente correto, relativiza o elemento inumano n’agente, comparece a hipocrisia do bem-estar social. Essa é talvez a maior problemática da linguagem hoje. Criaram o modelo do “bem”, que mais parece a face distorcida do diabo, e proclamam arte aos humanos.

Todavia, os laços de fato construídos são aqueles que levam em conta o desejo, a identificação com o desejo do outro, o próprio desejo. A poesia reside o terreno desabitado, convive com o mal-estar social, é o próprio mal-estar. O poeta sensibiliza (constrói laços), possibilita a entrada do outro via linguagem. O universo poético, onde as palavras correm soltas, está na mesma dimensão dos desejos, ou seja, as palavras são postas para expressar o que ainda não foi acomodado, comprado. Enfim, a poesia não possui obrigação nenhuma com a hipocrisia do bem-estar social.

Hoje, quando um poeta declama um poema, poucos se emocionam; é como querer lágrimas de pedras. As normas, tão danosas à linguagem, tomaram os espaços ditos poéticos e o gozo via efeito poético está escasso. A linguagem marginal nunca foi tão necessária. Talvez o susto causado pela linguagem marginal possa mobilizar o sujeito a compreender de outra forma os eventos tão banalizados atualmente. No susto pode haver um furo na camada do politicamente correto, do bem-estar social! Assim, novos poetas podem se formar a partir daquilo que é novo, transgressor, a linguagem.

Para a emoção via efeito poético, o leitor deve ser também um poeta, mesmo que em germinação. Ainda, toda criança é um poeta, já que é dotada quase que exclusivamente do inumano! Entretanto, os ditames morais fazem com que boa parte delas perca a sensibilidade (moldam o barro para tornar-se gesso!). Aqueles que escapam dessa norma-forma são os poetas, mesmo quando nunca escreveram um poema. Ser poeta é criar com as palavras, subverter via linguagem, tal como fazem as crianças. Quem de fato consegue se emocionar, ou seja, emocionar através do outro, construir laços (que é sempre via linguagem), é um poeta, ainda que em germinação. Assim, concluo, haverá poesia um dia?


quinta-feira, 1 de setembro de 2011

mundo sem macacos



A primeira máquina
salta adiante a peça frouxa
da engrenagem baiana
(roda a baiana!)




A segunda,
sem óleo,
filha postiça,
não consegue girar a roldana.

Numa mesma indústria,
uma engrenagem encontra-se com a outra.
A segunda torna-se objeto,
enquanto a primeira esbanja óleo e dentes tortos.