sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Vazar desaprumado

O mar escorrendo águas a conta gotas. E, da pinguela, o pouco que radiou floresce como sombra. Chego talvez à minha forma: os versos não me curaram, a prosa deixou-me atado em finais escandalosos. O gotejado dos dias figura cá dentro! São sempre gotas de insanidade que me anunciam as próximas horas. Mas hoje parei, parei semana passada também; pelo que consta vou permanecer parado. Sono nenhum me consome; a cama é o simbólico de aventuras sonhadas. E as árvores ao longe gritam o fim, enquanto o tempo escorre pelos dedos.

No latido do cão, ouço o que se perdeu. Foi numa hora, num lapso de tempo, que desmanchei meu arcabouço infantil. A manhã era bela, e não tinha vontade de parar. Só a rapidez dos dias era capaz de me cansar, mas foi numa tarde qualquer que desfiz o laço da ombridade; que anunciei a possível queda, mas nem me projetei rumo ao chão. Lancei-me aos versos, contos, novelas: não havia linguagem. Quando havia movimento, os resultados eram de ordem finalista, o que iludia qualquer consciência. Entretanto, estático, não  sei laçar ninguém, nem a mim: só vejo o laço da natureza perdida.

Hoje, verso algum me traduz. Nem mesmo as ilusões me satisfazem agora. Quero estar sentado, porque não sei exatamente como querer; desejo águas, árvores, terras... é a escavação d'alma que anseio profundamente. Os insanos  não seduzem nem a ponta dos dedos. Incrível, não há gozo nessa fala deslocada. Quero parar; e, quem sabe, jogar-me rumo à queda. Cair seria a maior marca dessa natureza perdida. Quero cair nas águas que correm sem porquê. Essas águas que passam pelo fracasso e continuam seguindo... Quero cair nas águas e topar frente às pedras - quebrar a face! -, seguir viagem. Viajar pelo tempo líquido; vazar disforme entre formas desconexas. Rasgar dias e noites, e não saber aonde ir, mas indo numa rota que poderia bem ser circular ou retilínea. 

Haverá vida além de mim, nessas águas que cortam as horas. Dilacerar as vozes que tormam os dias insanos... Não é estar insano num carro desgovernado ou numa locomotiva desvairada, mas, tão somente, entrar nos poros dos gravetos cinzas, das águas doces, das folhas enrugadas, e seguir viagem... No rumo desaprumado!

O desaprender é requisito fundamental para a permissão da queda. Só cai quem não se sustenta! Enquanto houver uma cadeira de balanço, ventos aprazíveis... não haverá queda! Esse corpo flácido quer ser erguido, sentir as pernas bambas, caminhar o rumo das águas, e cair... Cair desaprumado é seguir viagem!...

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