terça-feira, 18 de outubro de 2011

TERCEIRO OLHO

            À janela de domingo, dou-me à arte da observação novamente: as mesmas sandálias aos pés, a camiseta, um tanto desgastada pelo poder do tempo, e defronte ao cenário perdido.

Há bastante tempo, observei os meus vizinhos, e escrevi compulsivamente algumas histórias – inclusive fiz a árvore genealógica da traição, buscando relatar as relações extraconjugais entre os moradores do edifício Mares do sul, onde moro até hoje. Cheguei à luz de reflexões profundas a partir dessas olhanças, e publiquei meu primeiro livro, ainda aos dezessete anos: Relações pervamistosas. Não parei por aí: sempre o mesmo cenário, as mesmas observações, e os vizinhos, embora diferenciados, praticando as velhas relações dos antepassados.

Não podia ser diferente! Os moradores do edifício Mares do sul passaram a protestar contra o fim da privacidade. Nos diversos livros publicados até os vinte e cinco anos, eu procurei não censurar nenhum nome, não camuflei a identidade de ninguém. Mas o sistema jurídico emperra o trabalho do artista! Por fim, fui obrigado a indenizar quatro famílias e interromper minha carreira por um longo tempo.

Após quatorze anos de janelas fechadas e escrevendo futilidades para sobreviver, ouço uma sirene e reabro a janela do quarto. Ao longe, uma ambulância, bastante correria. Contudo, foi a janela em frente, imediatamente abaixo do meu apartamento, que reviveu meus olhos: uma garotinha de aproximadamente onze anos estava deitada ao chão e seu dedo passava triturando a doce vagina infantil. A masturbação era incrível! Rapidamente o dedo médio dilacerava o clitóris... Fechei a janela, corri pelo apartamento, peguei minha luneta, calcei minhas sandálias franciscanas e vesti a camiseta corroída pelo tempo... Janelas abertas, lancei-me ao observatório – ainda não viera o gozo! Sem hesitar, peguei uma caneta e meu antigo bloco de anotações para relatar paulatinamente o que era visto.

Noutro dia, algo passou a me torturar: a pequena não tinha gozado! E sucedeu que todos os dias, às dez da manhã, a mocinha abria as janelas e se deitava ao chão, nua. Ela parecia saber da minha presença!Enquanto isso, eu escrevia tudo, tudo: a organização dos móveis, a disposição daqueles dedinhos... Nada me escapava, nenhum fio de cabelo.

Como cabe à minha arte, pesquisei a vida da garota detalhadamente. Ela, Paula, seria mais uma personagem real da própria história. Contudo, nessas manhãs de observações, algo passou a me afligir: Paula não conseguia gozar. E, mais, acontecia que, de quando em vez, ela se machucava tanto à procura do orgasmo que chorávamos juntos. Desciam lágrimas da pequena. Chorávamos: Paula e eu!

Já não conseguia escrever mais... Ela estava sempre chorando, se ferindo. Por fim, as janelas se fecharam: Paula desapareceu por uma semana. Não me contive, a loucura me tomou numa manhã de janelas fechadas. Desci um andar, aproximei-me da porta, que estava aberta, e entrei. Passei pela sala, não havia ninguém, e cheguei ao quarto. Paula estava deitada sobre meus livros... Olhos vermelhos, e dedo à vagina, que sangrava bastante, mas, em silêncio profundo, não se mexia. Olhando profundamente, percebi que meus livros haviam sido engolidos com voracidade pela pequena. Ainda pensei em levá-la ao hospital, todavia preferi deixá-la comigo... Coloquei meu dedo médio na vagina dela (tal como ela fazia!), mas já não havia pulsação. Pus-me ao lado da pequena, e reli páginas trituradas, amassadas, pelas metades... Novamente, um dedo ao pescoço, outro no clitóris: ...Não houve reação...!

4 comentários:

  1. Tire esse dedo aí, porra! Vai dar merda!
    eheheheheehehehehehehehe....

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  2. Eu levava uma garotinha para a escola todo o dia que me dava o maior mole. Eu pensava: Tá maluco! Não tem nem peito!
    Os anos se passaram....ela agora é uma mulher atraente...e eu, um velho babão!

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  3. Mais um excelente texto. E o livro, cara? Já lançou? Vou querer um!

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