quarta-feira, 30 de novembro de 2011

a mim mesmo

Não compensa dedicar a vida a outrem
(jesus foi crucificado!)
não compensa dedicar um livro a outrem
(os livros são queimados)

Mas o amor
esse dedicado a mim
por interface a ti
faz tanto sentido quanto o dois e dois da professora retardada que não tive.


A mim mesmo.

paciência, cachorrinho

O coração sossegou
a arritmia de ontem é o compasso perfeito de hoje
mas a saudade...
é tão forte quanto a insônia passada.



(A.Q.M.C.C.N)

cama na hora de dormir

Bem melhor assim
sem ligações noturnas
sem procurar o colo da mamãe.

Que seja entorpecido
o bebê mama o leite do aconchego
e eu procuro cama na hora de dormir.



(A.Q.M.C.C.N)

dou-te um livro

a quem queria um poema
dou um livro
não de soneto
mas de formas distintas
(como cabe ao amor!)


A quem me conhece como ninguém

ressurreição, nega

Ah, estômago-unha-de-gato, eu disse que não doía, filho da puta.
Coração bandido, volta a esse peito de onde não devia ter saído.

Coração bandido, por que acomodastes tanto? Pequeno infeliz!
Por que esperastes o fim para uma nova pele habitar?
Não tenho vocação à santidade, mas só minha ausência causaria sua ressurreição.



A quem me conhece como ninguém.

crenças súbitas

pelo silêncio vou percebendo a tradição

de vidas passadas em centros de vidas em chá

de amigas mal amadas

amalgamadas por ervas daninhas das crenças súbitas.



À verdadeira amiga de quem me conhece como ninguém

akedah

tenho a akedah de dizer que fracassei
a akedah de dizer 'não era bem assim'
a akedah de sentir um coração fora do peito
a akedah de gritar a quem me acha 'desconhecido habitante do próprio corpo'

meu deus-cordeiro foi imolado com o filho de Abraão
e a akedah da noite me jogou no tremendo vazio desse chão.





A quem me conhece como ninguém

terça-feira, 29 de novembro de 2011

olha aí, negão!

só mais uma coisa, negão
mesmo ajoelhado, a guerra não acabou!

-ah é? e as amigas?

Negão, elas vivem num mar de chá
e não é verde (como o vestido do conhecimento)
mas faz neguim rebolar!

-ah, mas ela é amiga, pô!...

Ok, negão. Amiga não dá pra home de amiga, porra. Vai, negão, vai que a descoberta é breve no andar debaixo. Vai que a descoberta é o suicídio, matricídio principalmente...
Vai, negão, o amor é a cinza colhida de gravetos.










A quem me conhece como ninguém

frases de face, não fesceninas

Fecho com frases de face (não fesceninas!)
No silênico há mais respostas que em gritos infernais.
Fazer o quê? Sou mesmo um meninão-gritador!...
Aprendi somente a chorar!



A quem me conhece como ninguém

sua falta não é falácia

sabe o que é bom nisso tudo?
da falta nasce a erupção vulcânica do desejo.

sabe o que é péssimo nisso tudo?
a sua falta pode ser preenchida por um imbecil qualquer.





Ao ciúme causado pela falta de quem me conhece como ninguém

celta preto também pega no tranco

Sinceramente, isso não é um poema
pode ser uma carta desgraçada
que provavelmente não ficará nesse blog.






escuta:

o amor é essa haste verde colhida em greve
numa casa alheia. Entendeu?

escuta:

virei o carro numa esquina esburacada
e o motor entrou em erupção. Entendeu?

não terminei:

celta preto também pega no tranco!




Ao carro preto (que não é cinza) de quem me conhece como ninguém

soletrando

nunca fiz tanto poema pensando numa coisa só
só-le-tro seu nome milhões de vezes
mas nenhuma rima provoca meus ouvidos




Ao nome mais lindo
(A.Q.M.C.C.N)

O amor nunca existiu?


- O amor nunca existiu! (Marcos Lopes, em "Gozo desmedido")

Ok!
Mas e a dor que dilacera o peito?
e as lágrimas que flecham a boca?

As palavras são máquinas criadoras de sentimento!
dos seus olhos,
boca,
nariz,
pele,
cabelo
...
crio a palavra 'amor'
e já sinto o peito disparar
dos olhos lambuzados

crio a palavra 'dor'
e já sinto o peito disparar
dos olhos lambuzados

crio a palavra 'você'
para dizer que sou amador!



(A.Q.M.C.C.N)

manobra arriscada - um jogo sem volta?

Por opção,
o que muda é a falta da dor estomacal
é a falta do álcool nos momentos de solidão

O que muda é sempre por opção!
minhas lágrimas são só letras que caem blog adentro
meus erros - muitos como são!
é um rei em cheque, mas com saídas exímias de um bom jogador

E me refaço: 
na loucura, 
na insanidade da perda, 
à maior manobra de toda a história!



(A.Q.M.C.C.N)

Gozo por mim? Que seja por todos!

Na fala de hoje fiz minha escuta
agora, solitário como deve ser
sou
- todo -
 possibilidade de invenção.

O carro novo tem hálito de uma nova pele
construída durante um ano de não ser
TÃO-sem-TIDO
curtido em motéis
em segundinhos de gozo efêmero.

Hoje a pele tinha o brio do gozo diário
de horas gozadas, de carros comprados
de realizações familiares, de amor me transe!

Minha retirada...
que o gozo por mim seja por todos!




(A.Q.M.C.C.N)

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

hálito de uma nova pele

Minha fala não é ouvida agora
(sou o louco que desconhece o próprio grito!)

Mui breve iremos ver
----------------------
a-fala-flecha-alvo.

Vejo-te ao meu lado
refeita ao ar
num corpo próprio
de uma experiência vasta
na nova pele em que habitará.

Minhas palavras não serão sem sentidos
teus gestos carregarão outros símbolos
e nas bocas entrecruzadas de amor
nascerão rosas de espinhos carnudos.

E não haverá censura
ou ditos-mal-ditos
só o gozo do desejo habitará a pele em que habito.




A quem me conhece como ninguém!

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

vazar desaprumado II

Deixei a queda me tomar. Das cadeiras de balanço quebraram as pernas, as bengalas não se sustentam... Não há madeira, redenção, nada! Caí, mas não eram águas doces, ao contrário, o mar salga qualquer coração insano. Pensei que seria só solidão essas águas sôfregas. Não, não! Mesmo caído os peixes passaram pelos meus restos, mordiscando minha pele. 

Engraçado, deitado ao fundo do mar, os peixes parecem desejar minha presença. Mesmo morto insisto em gritar passagem à malandragem do sangue-bom brasileiro. Tubarões querem meu corpo, entretanto já os conheço bem e não me entrego. Tomo o sentido oposto, subo nas costas de um tububarão selvagem e faço a viagem pelo interior submarino. 

Os peixes são pérolas inacabadas, todavia os tubarões fazem o favor de acabar com os pobrezinhos. Não, não é questão de maldade! Os peixinhos são bem educados e fazem o favor de entrar goela abaixo. Eu gozo! De cima do tubarão branco recarrego minhas energias para também poder seguir viagem só. Pensei que estava na hora de me metamorfoser em tubarão... Contudo, não é questão de metamorfose, pois tubarão sou desde a minha terna infância. 

Preciso afiar meus dentes. Sobre um tubarão branco tudo é possível... escovo meus dentes, aparo minhas arestas e inicio o difícil caminho de fazer faca o que era dente. Durmo até tarde, porque o tubarão branco faz dos dias uma lente de aumento. E voo alto, aumentando minha percepção do mar. Quando vivia como humanos não sabia o doce sabor das águas. Agora, os peixinhos vem mastigados pelo tubarão maior, mas já vislumbro meus dentes afiados mastigando cada bocado. Talvez eu não queira comer um a um... melhor seria um bocado, uma overdose marítima. 

Não, não ficarei muito tempo aqui. Vou descer das costas desse animal para nadar uma quilometragem impossível. Após - meus dias estão delimitados - sairei do mar para deixar o cão pairar. Pensei que era possível tornar-me cão sendo humano. Mera fantasia! Para ser cão é preciso ter passado pela terra, água, fogo e ar. Da terra vim, n'água estou. Ao fogo chegarei no dia em que for ar. Apagado o fogo, minhas costas serão mais fortes que essa com a qual me sustento. Mas não colocarei peixes folgados aqui, não, deixarei os peixinhos morrerem afogados. 

Não há compaixão nesse ser que paira mar adentro.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

vácuo universal

são tantas faces torcidas sem lubrificação
azulejos azuis que se remexem
vai-e-vem
em panos podres de vidas em nó


à margem
procuro pó ao som da  imensidão devastada
enquanto andarilhos pedem passagem
tomo nota ao cheiro longínquo do vácuo universal



(A.Q.M.C.C.N)

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

mal é estar sem civilização

entre vácuos desço ao terreno mor(t)al

mal é estar no cume da montanha e não enxergar o outro
mal é estar sem viver as dores do dia
mal é estar sem enxergar os próprios olhos furados
mal-estar é viver sem amar

passei pelas nuvens pensando ser maravilha o que era dor
e tirei fotos de minhas próprias caricaturas
(cabelos grandes, nariz de negro e cenas pérfidas)
e tudo cá embaixo era só falsidade humana
e tudo cá embaixo era só mor(t)ais encenando uma imortalidade tosca
e tudo cá embaixo era só religião: reedição de verdades passadas

Não sem dor, ultrapasso as nuvens para ver o próximo, ainda que distante
e percebo que a hipocrisia era apenas os meus olhos nebulosos
e que esses mor(t)ais têm muito de imortalidade genuína
e que os cães nada mais são que mulheres imor(t)ais
e que a terra cheira a água doce em pleno mar
- a vida treme diante da passagem!

Desci e já não tenho o conforto de onde vim
agora, ainda que descalço, piso espinhos para dizer amor





segunda-feira, 14 de novembro de 2011

um cão pede passagem

no xadrez da vida
um cão pede passagem:

corre rios
planta bananeira
come carne de moela

e, diante do sono, por fim,
segue rumo ao próprio canil



(A.Q.M.C.C.N)

domingo, 13 de novembro de 2011

campo de guerra

no campo de guerra demarco meus desejos
(assassino amigos para mover meus anseios)
e não nego a demasiada importância do auto aniquilamento



(A.Q.M.C.C.N)

sacrifício necessário

Para a felicidade de um
vários precisam se sacrificar


(A.Q.M.C.C.N)

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Fresta do dia

Provar do cálice maduro
o suco febril dos lábios carnudos

Dedos e bocas: falo pulsante
a profecia do supremo deleite

Entre pernas cruzadas e bocas cansadas
o brilho do leite rompe a fumaça do dia

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

cãão!

estranho é ver do rastro negro
uma ambulância de dor

correndo rios ao desperdício potável
duma inteligência corroída

ou seguir os percalços da nicotina queimada 
pelas maçadas de árvores caídas

- cãão!

compreensíveis,
eticamente apetitosas,
são as negociatas de gravatas
a sal e camarão