sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

procedência maligna do discurso

A fala é força capaz de mobilizar-se. Além, é óbvio, de causar o outro. Entretanto, sempre respondo diante do que posso dizer. Diante do que é posto e que causa polêmica, porém a afetação do outro é somente diante das próprias questões. Não digo que vou a Roma se posso somente ir a Brasília; não digo que farei algo que não posso me comprometer. O desejo do outro é que a resposta seja sempre "sim" e sair do anseio do outro é bastante delicado. Meu "sim" será dado diante das minhas questões, não em função de um desejo metafísico. Enfim, considero que há responsabilidade no acaso, responsabilidade naquilo em que se compromete. É por isso que o versículo da Bíblia faz muito sentido hoje em dia: "Sim, sim, não, não: o que passa disso é procedência maligna".

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Entre feixes

Deuses somos, eu e você
Demônios são os outros

Demônios somos, eu e você
Deuses são os outros

Deuses somos nós
nos Diabos dos outros

sábado, 3 de novembro de 2012

Boc'aberta

Saiu da casa de Yanca sem acender cigarros e entrou no primeiro ônibus. No caminho, a boca deixou de salivar e o cigarro saltou à mão, mas, diante dos colegas anônimos que dividiam o mesmo espaço, preferiu não causar polêmica. Em dias de jovialidade, Francisco teria acendido ali mesmo e deixado todos na perturbação da fumaça - o tempo é que salva das feridas egoicas!

Desceu pisando firme e, sem notar, sua cabeça desenhava os seios de Yanca - a menininha que se tornou mulher da noite para o dia. Algumas imagens passavam de relance sem muita ênfase: os seios grandes de mamilos saltitantes, seios joviais dos dezesseis anos. Francisco, desde cedo, dizia gostar mais dos seios pequenos, que tivessem a medida da mão, contudo, os seios que ficaram para trás naturalmente formavam pares de melão ao som da colheita. Entrou em uma loja de eletrônicos e parou os olhos no primeiro modelo de tablet (os seios carnudos pareciam refletir no espelho multitoque do aparelho). O vendedor, dessa raça miserável por natureza, aproximou-se habilmente para fazer valer sua função - os seios ficavam mais distantes, porém nitidamente refletidos no espelho do eletrônico.

Os pensamentos de Francisco sempre foram dados às imagens, cenas imediatas e fugazes perfaziam o imaginário do rapaz. Ele nunca parara para pensar o porquê revia aquilo, que não queria esquecer. As imagens vistas quase que aleatórias eram verdadeiras convocações. As conversas, de quando em vez, com a tia-avó, Dona Rotina, deixava-o intrigado, uma vez que Dona Rotina dizia que uma voz a perturbava diariamente: a contradição da existência. Francisco achava tudo aquilo uma bobagem sem tamanho. "A voz que ouço me diz aonde ir!" - bobagem sem fim, pensava Francisco. Ele não ouvia voz alguma (nem mesmo os gemidos deixados no quarto do apartamento dos pais de Yanca), mas via com uma nitidez peculiar os seios daquele menina-moça. 

"Gostou desse?" 'Não, só estou olhando mesmo.' "Esse aqui é mais interessante, porque navega em 3g e wi fi.." (Silêncio). "Quer ver mais algum?" 'Só os seios de Yanca.' Deu de ombros e saiu da loja apenas com os mamilos à boca. As lojas do centro depositam os produtos já na calçada e desviar deles é praticamente impossível. A mãe de Francisco contava que ele mamara até longa idade, mas que nunca procurou um substituto (dedo, chupeta ou o caralho!). Na verdade, Francisco tinha o hábito de transar sem beijar, porque o beijo é de extrema intimidade. A transa é como o acasalamento de animais, força do hábito. Beijar nunca foi algo aprazível a Francisco, que dizia nas rodas de amigos que o beijo seria somente à esposa, e como não pretendia casar, o beijo ficaria apenas ao cinema. 

Pensava absorto nos beijos que não dera ao longo da vida. Pensava em Yanca que, como as demais, havia transado sem beijo nenhum, porém como um detalhe que o perturbava agora: os infindos beijos aos seios dela. Nas televisões das vitrines só refletiam o par de mamas e o gosto suave, o gosto estridente. Pêssego. Outra loja, novos eletrônicos idênticos àqueles que havia visto - inclusive o mesmo preço. As coincidências pareciam lembrar os seios de Yanca. Quando nova, Francisco não dera o valor à meninota que brincava de bonecas, casinha... Será que já havia traços que denunciassem a maravilha que se tornou? Por que naquele tempo não entrou na fantasia e foi brincar de médico? E não tinha sido diferente com outras garotas. Francisco nunca sentiu remorso por transar (sem beijos) com as primas, as amigas das primas, as primas das primas. Cedo, cedo já transava com a rua e o bairro já o conhecia... os meninos acostumaram a invejá-lo por tamanha performance. Diziam que ele tinha o pau grande, fato que era logo desmentido por todas as meninas que tinham transado com ele. Na verdade, o mito do pau grande foi desenvolvido pelos garotos, em especial por Rafael, um garotão que bancava o macho, mas que às escuras dava para quase todos os coleguinhas. Rafael dizia e os demais garantiam: Francisco tem o pau grande! Se Rafael dizia, devia ter algo de sincero - pelo menos o desejo.

Na loja, em outra loja idêntica às demais, Francisco compra um tablet sem ler as descrições do produto. O vendedor logo foi contar vantagem para os colegas, dizia que a argumentação dele teria provocado o cliente que acabara de sair satisfeito com o produto. Nessa loja, era de praxe incluir "garantias" aos produtos que já vinham com garantia de fábrica - uma maneira de pagar o adicional aos peões do comércio. Francisco saia com o tablet às mãos (garantias eternas, até que a morte os separe!), e Yanca parecia despontar do fundo do aparelho. Francisco não tinha costume de pensar longamente no mesmo tema. Quando secundarista, resolvia facilmente os problemas lógicos, entretanto, odiava as questões de abstração. Jamais abstraia por mais de dez segundos na mesma coisa - a mente se dava à tarefa de pensar em outra coisa, ou em nada. O tablet aceitava o toque e respondia efetivamente a cada suave aperto. Deslizava os dedos com sofreguidão e pensava em nada - via o tablet sem nenhum pensamento metafísico.

Francisco não morava só. Na casa dele moravam o irmão, a mãe e o pai. Naquele dia chegou cedo, porque tinha dormido na casa de Yanca e passado no centro para adquirir o aparelho eletrônico. A família fazia o lanche matinal, no silêncio que exige esse ofício, Francisco, com um "bom dia" seco, foi para o seu quarto. Por horas, ali ficou tocando o novo brinquedo.  

Francisco vivia só. Só com o tablet e algumas imagens que resistiam: os seios volumosos de Yanca. As meninas ligavam constantemente à procura dele, mas ele raramente saia às baladas. Preferia o sabor dos videogames, dos Ipads, dos tablets. Yanca ligou. Uma chamada não atendida. O telefone está tocando - ele não vai atender! Francisco anda de um lado a outro no quarto, deita na cama, mas não vai atender, sequer desligar o celular. Ele não atenderá os seios lagrimejantes de Yanca, que exigem a sua saliva. Yanca ligará para outro que queria depositar toda saliva através da ponta da língua nos seios gigantescos dela. Ele não atenderá - os beijos falaram mais alto. 

Francisco, sem expressão de raiva, desliga o celular após a última chamada dos seios de melão. Olha para o tablet novo e passa a deslizar os dedos por ele. Entra em um site pornô, mulheres de seios gigantes, maiores que os melões de Yanca... masturba-se e goza rapidamente. À tela do aparelho as gotas de esperma cor amarelada, cor esbranquecida sabor melão. Estavam (ele e o tablet) em cima da cama - gotejava ao chão. 

Francisco deitou-se no chão posicionando-se de forma que as gotas de esperma caíssem boca adentro.













sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Excreções do ócio

Em breve, meu novo livro: "Excreções do ócio".





terça-feira, 25 de setembro de 2012

a linguagem como recusa

Do querer - a fala recusa a tradução. Do desejo, o oposto advém. Não vou dizer o contrário. Não vou dizer! Digo somente quando recuso o dito, e é mesmo na recusa que comparece o que iria a ser. Enfim, melhor seria dizer – digo NADA. Digo nada como quem diz algo que é nada; a recusa está no presente; a ausência é nítida e não digo o contrário. Não digo o contrário, já que o que digo já é o avesso da linguagem: digo NADA. Só há linguagem quando NADA diz além.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

um-mais-além

O esquecimento é muito mais! Esquecer demonstra bem mais que o óbvio - o dito acaso é uma ocorrência de um-mais-além do discurso, ou seja, não há acaso. Lapsos, esquecimentos, ironias ou piadas são resquícios de algo não dito, um-mais-além do discurso. Ler Clarice Lispector é deparar com todo esse universo. E não é à toa! As formações poéticas estão completamente interligadas com as formações do inconsciente, já que possuem os mesmos pilares: metáfora e metonímia. Enfim, no esquecimento, nos chistes, nos lapsos, nas embromações, há sempre um-mais-além do discurso. 

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

da leitura

Ler um livro é transar com a obra! Os leitores que leem de forma distante, procurando observar apenas a forma, sem se colocar ali (sem depositar algo seu naquilo que é lido) fazem uma leitura no mínimo superficial. Não me interessa a leitura sem o corpo a corpo - obra/leitor. 

do câncer, do suicídio

Há sempre um marimbondo rondando pela árvore genealógica de cada um. A maldição é lançada pelas figuras parentais, diante de um passado mal contado, uma história de repetição. O câncer, o suicídio, não há nada por acaso quando a questão é a subjetividade. A infelicidade da alma, a repetição de nossa ancestralidade, é um grito por socorro que poucos escutam. Olhar o marimbondo de cada um é uma possibilidade de escapar da insígnia pré-programada do destino: uma (re)invenção possível.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Santo Antônio de Goiás


Na terra dos Antônios
terra fantástica dos poetas
Bacco tomará o rumo do além
E Apolíneo, mais uma vez
morrerá nos braços de ninguém

Na subjetividade do poeta
rumaremos à utopia
e Marx -lukács
serão nossa companhia

Sentados frente à frente
lado a lado ou em pé
que entre o primeiro Antônio

Bacco, de Michelangelo

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Disparate

A vida como arte
um mártir longe do abate

A vida num encarte
somente em partes
rumo aos trilhos do infarte


sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Do ódio, do amor

Ódio, velho primo-irmão do amor - companheiro fiel do tesão!

Funeral na linha: olha o gol!

Pedro aguarda o amigo
um amigo visto pela primeira vez
cinco e meia, seis, sete, oito e nada

- Ei, fio, meu menino já vem, sossega! - uma mulata dos quarenta grita da varanda. O rapazote aparece sem muita crença no jogo.

- Oi!

-Qual é o seu nome?

- João Marcos.

Sem palavras, a bola dança sem reclamar: de um lado a outro - um novo enfeite. Letra, calcanhar... A bola se enfeita toda e vai ao encontro dos pés descalços. Como um capoeira que não cai, que ginga sem atacar verdadeiramente, a bola procura o pé amigo. De tênis, descalço, de letra, calcanhar...

- Ah, vamos ficar só assim? Pergunta Pedro, como quem diz que mesmo aos cinco era tão bom quanto o rapazote de oito anos - queria desafios. A bola amiga, então, passa à trapaça, ao drible brasileiro. A angola já regional!

-Qual é o seu nome, hein?

-Quê? Ah, Pedro Rafael.

-Joga no gol, Pedro? Eu já quase fiz um gol de bicicletinha, sabia?!

O caçador procura a toca. Toca a bola para si mesmo rumo ao gol. E a permuta é feita eternamente: do gol à linha, da linha ao gol.

Ah, lá fora a avó de um é enterrada.

(Em memória de minha tia-avó, Cristina, 07 de setembro de 2012, em Sanclerlândia-GO)

Ah, meu pai!

Essas cabrochas feitas do campo
de chão vermelho e roupas rotas
que acordam cedo ao canto do galo
são belas de lamber os beiços

De olhar penetrante
cheiram a vizinhança café-fumê
arrepiam até o mais brabo touro sertanejo
e na lida diária lavam a relva com um cantar sem jeito de sofrido

Ah, meu pai! Se nascido e crescido fosse...
se meus pés tivessem os calos de milhões de espinhos...

Ah, meu pai!
eu tomava por esposa essa brabeza
que sentada à porta, às seis
me esperaria quente ao jantar!

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Com o tempo aprende!

Com o tempo aprende! Aprende que nem todos perseguem sua doce família, seu emprego, sua vida. Com o tempo se percebe que o que unifica o eu também o engessa. Aprende que a defesa excessiva não advém simplesmente da postura do colega ao lado, mas, tão somente, do próprio olhar - o olhar invertido de si mesmo perante as adversidades da vida. A megalomania e sua irmã paranoia são resquícios de uma infância não superada, um narcisismo de morte em vida adulta. Enquanto não enxergar que essa defesa excessiva do eu é um dilema, o sintoma continuará: ora em casa, ora na casa do vizinho, ora o amigo, ora inimigo. E não percebe que o estranho é o mais doce familiar.

manjar de Exu

rei, jamais fantasma
(poesia - a terrível aposta infernal da linguagem)

boto a mesa sem almoço e confio no manjar

no jantar, abro a mesa na encruzilhada
(o jantar está posto!)

e, ao longe, arriba o cajado de Exu!


!      !      !
!      !      !
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       !
       !
       !
       !

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

cinema hollywoodiano

escrevo em versos somente pela licença
porque não preciso pedir licença (é poético!)
digo como muitos esfacelados
com a mesma fome da sua mãe (seu pai morreu e ela quer sexo!)
e transo e durmo

mas a licença me permite dizer sem avessos
ir ao encontro de minha humanidade sem desvios
o que até os mais próximos têm medo de falar
os poetas (sob as asas da poesia) gritam
o mesmo grito de milhares de anos
enquanto silenciosos mortais se apagam em filas de cinema hollywoodiano

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Do amor

Do amor

O medo de amar não é merecedor de um grande amor. Amar é prosa não contada! Uma aposta diária de quem não é jogador, um eterno imprevisível real. Não há certezas, garantias também não há. Para os defensores de um mundo interessado, utilitário, o amor não cabe... Não cabe na lata de cerveja, no copo, no armário também não cabe. Não basta colocar em uma planilha e calcular as variáveis - sempre haverá um quê não examinado. Catalogar o amor é viver uma sobrevida prevendo os movimentos possíveis de um jogador de xadrez, e nunca mover uma peça. Amar, enfim, não é estandarte seguro para adulto levantar!

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Furo

É fundamental acreditar nas imagens que se vê! As vozes anunciam o desejo e mesmo assim tapamos os ouvidos, permanecendo diante da couraça do cotidiano - preso às armaduras do passado. A repetição é peça que impede galgar novos espaços, o que é sintoma de uma couraça enraizada. Não se trata, porém, de retirar à força o que os anos assentaram a ferro e fogo, mas, tão somente, enxergar/ouvir e creditar no que está por vir como elemento de repetição. Ah, aí sim pode haver escolhas! Não o livre arbítrio cristão (faça o que quiser e venha morar com o diabo!), mas a possibilidade de fazer o furo, uma possibilidade outra de se reinventar. 

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

autoconfecção

O tempo de vida é o atelier cujo material a ser inventado é a própria subjetividade. Aqui, em terras de lama e em tempo presente, nos é reservada a autoconfecção.

Da verdade, um efeito

O que importa não é a verdade factual, mas o império do efeito de verdade. Esse efeito avança no maior mal-entendido, nonsense. É que o desejo de convencer (o desejo de demonstrar a exatidão dos fatos) demonstra somente a pressa por concluir prematuramente - remontar perfeitamente os erros do quebra-cabeças. Entretanto, procurar a exatidão histórica esconde longe-longe o sujeito, o sujeito do desejo. O efeito, o estilo, é que devolve o sujeito aos olhos do Outro.

escuta diária

Falam-falam-falam e permanecem feridas abertas, já que não há ouvidos no vazio. O maior exercício de escuta é ouvir a si mesmo. 

Do ódio

O ódio é expressão máxima de um amor desejado. É estar de mãos dadas com Eros sob o império de Tânatos. 

terça-feira, 3 de julho de 2012

(pode até ser pedra)

medo não é palavra de caminho 
porque embora torto
a frieza do asfalto rasga sempre um quê de não

peso juvenil


não sem o vazio
que já transborda


a percepção do nada
é o alvorecer do amanhã


transposição do rio Araguaia



a adolescência esconde um nome
(os nomes do pai)


e é no momento que os cabelos encostam no teto
que peso juvenil retoma seu lugar

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Freud e as cartas de amor: o contraditório como marca de vida


Freud e as cartas de amor: o contraditório como marca de vida

Observando as cartas de Freud a Martha, sua esposa, decidi escrever algumas linhas. O que me veio ao ler a biografia de Freud por Peter Gay foi a relação humana que o pai da psicanálise tinha com Martha, principalmente durante os anos de noivado. As cartas de amor de Freud é realmente mais um delicioso acervo de análise.

Ao contrário do que é reproduzido pela ignorância, Freud não era a maldição e, muito menos, santo. Freud manteve por cerca de quatro anos uma relação à distância com a noiva, Martha... Ah, e com apenas dois meses de namoro já estava noivo. Nada mais contraditório, nada mais humano. Ainda, como se sabe, não era uma relação perfeita entre os dois, ao contrário, Freud nutriu bastante ciúmes por ela ao ponto de exigir que passasse a cumprimentar formalmente os primos, apenas pelo segundo nome. Mas, Martha sustentou os dilemas de Freud e possibilitou a longa gestação da psicanálise.

O que quero dizer é que o magnífico em Freud (assim como em qualquer sujeito) não é vê-lo como em relações clericais, prontas, santificadas ou demonizadas. Recentemente veio a público o filme "Um método perigoso" em que enfatizou um Freud tirano e adocicou a vida de Carl G. Jung. Ora, o que nos põe de orelha em pé não é simplesmente pelo filme ter pintado Freud de tirano (porque Peter Gay também deixa clara a relação tirânica de Freud com Martha), mas o fato de alguns tratarem a versão dada pelo filme como biografia. A falta de luz, portanto, está na perspectiva do gênero literário, de quem lê um filme como a biografia definitiva. Melhor, de quem prefere o discurso da desqualificação (que é bem importante na formação do laço social), do que a investigação minuciosa. A liberdade de criação deve ser dada a todos (inclusive, se criassem um Freud gay, apesar de cômico, não seria de tudo ruim!).

O magnífico é a vida. O magnífico é contradição! O magnífico é ver Freud contraditório, do final do século XIX, e que mesmo assim brindou a humanidade com uma teoria subversiva e importante aos dias de hoje - que precisa ser atualizada, mas não sem importância. Freud é mesmo profundamente influenciado pelo positivismo da época e, nem por isso, sua obra deixa de ter importância. O discurso da desqualificação que é perigoso, não o método. Elisabeth Roudinesco já respondeu suficientemente bem as desqualificações do antifilósofo M. Onfray, mas infelizmente parece mesmo que a sedução em torno de Freud não está relacionada à obra dele, mas às especificidades da vida de um homem, digo, do início do século XX. Preferem o discurso da desqualificação, da exclusão, do que realmente debruçar nos trabalhos desenvolvidos por Freud.

Finalizo essas poucas linhas apenas para dizer que presencio o belo na função especular conseguindo tirar a venda da ilusão. Enxergar Freud para além do discurso do politicamente correto, para além da demonização corrente. Afinal, é Freud mesmo que luta contra todo tipo de ilusão. Um ser paradoxal, um ser de mil folhas como diz Nasio, também pode criar a mais subversiva das teorias. É Freud, judeu, do início do século XX, que tinha diversos sentimentos contraditórios e que, por isso, encampou uma causa, a causa do inconsciente. E, é justamente por isso que o analista carrega consigo o efeito, o efeito militante da psicanalise.

domingo, 13 de maio de 2012

O espantalho

People are strange
when you're a stranger
(People are strange, The doors)


Aqui é campo, mata fechada mesmo! Nasci nessas terras e morei junto com meus pais até o falecimento dos dois. É, pode parecer estranho, mas sou filho único (pelo menos é o que me contaram) e não conheço outras terras. Confesso que não falta curiosidade... A coragem é que deve ter nascido bem longe daqui.

Hoje fui tomado por um ato de coragem: a escrita. Minha mãe era professora aposentada de língua portuguesa e sempre dizia que a escrita é uma caminhada: "As quedas são consequências da aprendizagem, Fabiano". Sei disso e concordo com ela... Mas, nesses últimos dias, depois da morte dos meus pais, fiquei ainda mais confuso. Papai e mamãe viajavam constantemente à cidade e sempre me advertiam dos males urbanos - como defesa, jamais me levaram nessas viagens. Entendo o amor deles... Como eles sempre diziam: "amor é um cuidando eterno". 

E não é só isso! Meus pais sempre diziam que eu tinha uma vocação crucial: zelar das plantações. Eles iam à cidade e resolviam os problemas relacionados à lei (papai era tão certo que todo ano pagava uma fortuna para o Leão!). Quando chegavam da viagem, o sol raiava incansavelmente sobre o canavial e as pragas estavam bem longe dali. Lembro que todo contato que eu tinha com as pessoas da cidade era através dos caminhoneiros que buscavam nossa joia, a cana-de-açúcar. Fazia bem minhas obrigações: conversava pouco para não atrapalhar o carregamento.

Tínhamos alguns vizinhos perto da fazenda, mas, por bem, não conheci nenhum deles. Quando em raras ocasiões eles vinham nos visitar, mamãe logo me levava para o porão, que, por sinal, era um lugar maravilhoso. Ali, embaixo da casa grande, além de iluminação, havia meu hobby predileto: canas prontas para serem descascadas. Ficava ali chupando cana e pensando na plantação! Planejava meticulosamente meus dias seguintes... Ainda, tinha o Jotão... meu cachorro, meu amigo! Jotão sempre me acompanhava quando ia campear. Ele gostava de caçar - buscava animais de todo gênero nos dentes. Ah, eu sabia como era perigoso aquilo! 

Um dia, era um dia belo de sol radiante, eu e Jotão saímos para espantar as pragas. Quando estávamos perto do nosso destino, Jotão avistou um animal rasteiro... Correu velozmente, como só ele sabia, mas dessa vez não retornou tão cedo. Fiquei em prantos por dias e, como se não bastasse aquele sofrimento, Jotão voltou muito machucado, completamente esfacelado. Aquilo partiu meu coração! Tratei calmamente dele... Bastante tempo de cuidado, Jotão foi se recuperando: ficava todo serelepe, todo corre-solto pela manhã. Entretanto, eu sabia da minha responsabilidade - como podia ter deixado meu fiel companheiro vulnerável a toda sorte de ataques? Tinha sido bastante inconsequente! Agora, sim, meu companheiro passou a andar seguro comigo, de coleira ao pescoço. 

Papai era muito amável! Ele só não gostava das pragas que assolavam a plantação. Não me esqueço do dia que papai chegara de cabeça quente da cidade e percebeu que as pragas tinham atacado o canavial. Aquele dia, eu tirara para passear com Jotão. Papai não perdoou minha ausência e apanhei como um burro empacado. Fiquei alguns dias de salmoura. Como foi doído! Mas sei que era preciso. Aprendi a não desobedecer os pedidos do pai, porque ele sempre sabia como agir conosco. Jotão é que não gostou nada daquela surra... Ele ficava chorando do meu lado, enquanto mamãe curava as minhas feridas. Os olhos dele pareciam exigir vingança! Eu, prudente como sou, desistia Jotão daqueles intentos... Em vários momentos percebi o olhar entristecido do meu fiel companheiro, o rosnar vingativo, como só competem aos cães. Jotão queria morder papai, cabeça de cachorro, vai entender!

Minha mãe... Ela sempre estava por perto para aplacar minha dor. Mamãe me dizia do valor daquela surra, o amor de papai (que nunca duvidei!) e, ainda, que Jotão não queria vingança, mas que estava triste com tudo aquilo, assim como ela. Sinceramente, quanto a Jotão, mamãe não convenceu. Ele queria pegar papai mesmo! Cachorro pensa assim mesmo, é instinto! Era uma época legal. Gostava de cada centímetro do meu porão, dos latidos de Jotão, do amor de papai e mamãe... Ah, depois da morte de papai as coisas mudaram repentinamente. Não gosto de escrever sobre isso.  Penso que não é a escrita um ato de coragem como mamãe insistia... mas escrever o que dói que é coragem autêntica. 

Mamãe e papai foram à cidade e não mais voltaram. Deixaram tudo por aqui esperando ansiosamente o retorno de ambos. Os dias passaram silenciosamente. Jotão me olhava entristecido pedindo o retorno dos meus pais, mas nada. Nenhuma notícia! Evito pensar sobre o que aconteceu... Um dia desses vieram aqui um casal junto com um rapaz de terno, olharam toda a casa e campearam pelo canavial. Como papai sempre dizia, fiquei junto com Jotão no porão. Mas Jotão também não resistiu à ausência e faleceu. Acho que foi no dia seguinte à ida dos estranhos... Ele não avisou nada, morreu. Fiz o sepultamento digno de meu fiel amigo. Ah... não sabia o que andava acontecendo comigo!....

Só depois da morte de Jotão é que comecei a entender: a morte dos meus pais e de Jotão era só um anúncio para eu assumir minha verdadeira identidade. Isso acalma meu coração!... Passam os dias e eu começo a perceber que devo ficar aqui nesse ponto (onde eu sempre ficava com meu fiel companheiro). É bem perto da mangueira, no quintal, pertinho de casa. Fico aqui, pensando em tudo que está acontecendo... Papai e mamãe aparecerão a qualquer momento! Aquele casal: por que vieram aqui? E eu, aqui, perto da mangueira, no quintal. Hoje, não deixo um pensamento passar: penso detalhadamente em cada um... E vou tomando consciência, cada vez compreendendo melhor o meu devir. Meu corpo é templo do pensar e, por isso mesmo, cubro toda parte de mim com palhas e pinto meu corpo com urucum... Durmo aqui mesmo, perto da mangueira - sempre chupando cana, sempre, sempre. É certo, percebo o que mamãe e papai tanto receavam de dizer a mim, a minha verdadeira função social, minha identidade de fato: o espantalho da vegetação. 



quinta-feira, 3 de maio de 2012

útero vibrante

Deixei meus olhos nos pelos pubianos de minha fantasia
é que no útero dos dias
há a razão das emoções vibrantes dançando

Pelos rosados, o doce virginal das prostitutas

Ao leve toque fazem ressoar os antigos dilemas da vida contemporânea
antigos, já que cônscios de existência

Provar é a via máxima do gozo eternamente incompleto
e não é esperar o sábado, domingo ou feriado
o gozo é sempre de hoje o principal rival
preciso e meticuloso
jamais pleno de satisfação

E pode ser...
meu retorno à estética do gozo (poético)
é sinal aberto à razão que se apodera agora de mim

O silêncio dos deuses

Silenciar os mitos é respirar a cor do fracasso
do caos ordenar o vazio

Meu revestimento plástico é a cara viva
não da morte exatamente
é a cara, vida da morte
são os cabelos longos arrojados de alguém careca

- Ordem ao caos! - gritaram opacamente.

Os médicos criaram a cura
mas não havia doenças
os médicos particularizaram os sintomas
mas não havia cura

O caos reina na ordem do vazio
A ordem impera no contraste do caos

carne de coração

no ziguezague do dia
um pouco de razão

sonho
para acordar
vivo
de batidas
e carne de coração

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Em um dia banal

Em um dia banal/ fui embalado pela cantata celestial,/ embalagem de natal,/ para ser empalado pelo poder do capital/ pura imprevisibilidade do real!

sexta-feira, 30 de março de 2012

Prostituição diária

Num mundo corrupto
só não se prostitui quem já nasceu embalado pra presente!


terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A greve do profissionais da educação estadual: anúncio de uma esquerda


Rede de ensino estadual goiana: mais de 80 % do interior parado e cerca de 75 % da capital em greve. Esses dados nos mostram como a educação é linha de frente contra o fascismo. Os profissionais da educação foram tratados historicamente como uma classe perigosa (vide o gigantesco poder de persuasão) e, portanto, o achatamento salarial, as medidas fascistas dos governos de plantão, são maneiras de tentar blindar o acesso à transformação social. Entretanto, essa greve nos traz três elementos a pensar.
Primeiro, o poder da mobilização via internet: antes os profissionais ficavam reféns dos sindicatos, das notícias nos telejornais, agora um grupo de discussão possibilita maior dinamicidade à classe.
Segundo, antes do início, a greve já era considerada ilegal. Esse fator nos remete à política velha, a política da repressão, ao tempo em que se dava um pé do sapato em troca do voto e o outro viria se o candidato fosse eleito (o decreto precoce de ilegalidade da greve é como lançar a dama no início da partida de xadrez, se não for efetivado um ataque rápido, o oponente trabalhará em prol da péssima posição do adversário). Em entrevista, o secretário de educação do estado, Thiago Peixoto, afirmou que, se os profissionais voltassem a trabalhar, haveria negociações - o que leva novamente ao pé do sapato perdido ou a dama em péssima posição, o desespero. A carta na manga, ou seja, a ilegalidade da greve, já foi usada, porém não surtiu efeito.
Por fim, a participação efetiva dos estudantes em apoio à greve é nota de destaque e desespero da lei. Como convencer a sociedade de que os professores são preguiçosos, estão na ilegalidade, se as famílias estão participando de fato das ações da greve? Entendo esses fatores como decisivos de uma nova esquerda. Já não há o poder verticalizado de um partido, de um sindicato, de um telejornal, entretanto, há uma multiplicidade de vozes atuando lado a lado. Enquanto o governo Estadual procura a política velha, a política vertical, a política da voz única, os novos cenários apontam para uma perspectiva horizontal.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Bicho-home


Nasci aqui mesmo e não pretendo sair tão cedo. Meus pais, Ravié e Mona, que Deus os tenha, fundaram esse vilarejo há uns quarenta anos – eu nem nascido era, meu pai! Papai foi homem de visão; percebeu que esse matagal tinha bicho chique: onça pintada, tamanduá bandeira e bicho preguiça. Naquela época, não precisava dessas coisas de papel passado, não! Bastava dizer no dente e o negócio não voltava atrás! Assim fez meu falecido – papai comprou todas essas terras sem um cruzeiro no bolso.

Já tinha plano – pensa que não? Anunciou em tudo quanto é lugarejo "venha conhecer bicho importado: europeu, asiático e americano". A peãozada vinha de longe ver os animais, mas ninguém sabia diferenciar qual era o estrangeiro. Era aí que morava a ousadia do pai! Ele logo começou a oferecer cursos para ensinar a distinguir os supostos bichos de outros países. No começo nem minha mãe botou fé, mas logo, logo tinha uma bruta gente querendo descobrir a arte do bicho de fora. Papai começou cobrando uma galinha, depois uma vaca... Fez tudo aqui assim, sozinho-de-zinho!

Essa gente pensa que a vida é fácil. Falo é nada! Prefiro me lembrar de papai, que bobo não era! Eu continuei os negócios do pai... "Filho bom é de outra laia!", dizia o velho. E, modéstia a parte, sou forte como era o trator do meu pai, minha astúcia é grande, de ver o povo corar. Continuei os cursos, contudo, com a morte do pai, as coisas foram modificando, a clientela estava minguando. É que Zé-da-Magia, dono de circo, resolveu entrar no pário. O que Zé tinha de forte, tinha de burro, era como um pasto sem gado. Seria fácil tirar o Zé da jogada, porém preferi usar os serviços dele para continuar os projetos do pai. Incumbi a ele a tarefa de ministrar os cursos: Zé ensinava o povo que vinha de fora a ver os bichos exóticos de outra maneira. Eu, porém, fiquei com a parte de fazer os animais ficarem distintos. Enquanto Zé convencia a multidão com palavras e gestos bonitos, eu inventava os animaizinhos. Criava espécies de tudo quanto é jeito: peixes de cores diversas, onça sem pinta, com pinta, sem pinto. Os brutos apareciam de longe para entender o que acontecia com os animais, ninguém tinha resposta.

A sacada de papai foi fornecer palestras, cursos, aulas ao povo que acredita em cruz viva. Eu, que nunca fui de falar muito, preferi inventar novos bichanos. Claro que era preciso o mínimo de talento para que ninguém descobrisse minha astúcia. Usava as magias do Zé para que todos se distraíssem e logo apresentava o novo bicho: Leão-de-Sete-Cordas, Peixe-Cabra, Cachorro-Juba-Leão etc. Nosso negócio já estava consagrado para além do vilarejo: era doutor, político e toda espécie de terno que vinha entender as aparições de novos seres.

Acontece que na vida os rumos mudam como égua desdentada perdida num redemoinho que se aproxima. Passei a olhar minha pele, meus cabelos, meus dentes, tudo de maneira diferente. Via minha boca no espelho, entretanto, parecia faltar algo. Meus dedos não estavam conforme gostaria, contudo, não sabia exatamente como os queria. Pintei meus dentes caninos de preto; gostei, mas não foi o suficiente. Tatuei patas de animais nos dedos, colei couro de Jacaré-Peludo (espécie rara criada por mim) no abdome, implantei dentes de sabre na minha boca... Tudo parecia em vão! Eu não me sentia bem.

Nesse pé, os negócios iam de mal a pior, isso porque o Zé-Magia percebera meu estado de fraqueza (minha reclusão excessiva) e aproveitou-se disso para continuar sozinho a empreitada iniciada pelo pai. Eu já não recebia ninguém em casa, somente meus animais – aqueles elaborados cuidadosamente por mim – tinham livre acesso ao meu quarto. Os Cachorros-sem-Patas, Onça-sem-Pinto, Cabra-Zebra, todas as espécies criadas por mim viviam constantemente comigo, conversávamos horas a fio. Cheguei a colocar um aquário no meu quarto somente com minhas obras de arte aquáticas –  peixes de toda sorte! 

Os peixes pareciam sem graça inicialmente, porém foi com o passar do tempo (já havia passado mais de ano que eu não saia do quarto) que os bichos passaram a ter sentido. Era por eles que eu esperava! Observava os bichos de cores tão diversas e dava a ele remédios aleatórios, mas, como reação, mudavam de cor. Jogava no aquário dipirona, refrigerante, cerveja, tudo que vinha na cabeça... O incrível é que funcionava bem: quando não morriam, mudavam de cor, de jeito, de forma. O encanto não cessava! Quase todos os dias meus filhos, cientes da minha situação, traziam novos peixes – era a única maneira de eu os receber. Na verdade, os animais que me traziam eram como pedágio obrigatório a quem queria me ver. Lógico, somente minha família tinha a curiosidade de saber como eu estava. 

O gostoso da vida é que se o homem faz um filho macho – macho pra valer! –, o filho acaba por cuidar do pai. Era minha vez, entretanto, não queria me entregar àquela sina. Precisava dos meninos porque sentia falta de novos bichos e, ao mesmo tempo, não conseguia sair daquele asqueroso quarto. Minha filha, todos os dias, fielmente, me trazia comida três vezes ao dia, sempre acompanhada por algum animal rejeitado pela comunidade. Às vezes, Joana, minha caçula, trazia sapo, rã, cobra... Ela adorava os répteis – eu mais ainda. Rafael, meu filho mais velho, gostava de me mostrar fotos de sua vasta criação animalesca. De quando em vez, ele trazia peixinhos, fruto de novas invenções e uma imensidão de fotos. Apesar de Zé-da-Magia ter rompido com minha família, meus filhos continuaram os negócios, claro, não com a clientela de antes, mas com a criatividade jamais vista. Eu passava horas contemplando o árduo trabalho do meu filho, tentando entender a técnica usada por ele, mas nem sempre era possível compreender o ofício. Os dias passavam com complacência. Aos meus filhos, o tormento os havia resignado – já tinham se acostumado com minha situação. Quanto a mim, os Peixinhos-Mancos, rara espécie criada por Rafael, me comoviam como nunca.

Mais uma virada de ano: os fogos de artifício rompiam a noite e eu calmamente conversava com Rasta, um Peixe-Manco. Eu dizia sobre as dificuldades que o pai tivera outrora, que a vida era isso mesmo... Essas coisas que eu costumava contá-los nos dias de feira. Quando, como num despertar, percebi que o problema não estava nos animais... Era preciso que eu mesmo me tornasse outra coisa! Saquei o peixe do aquário e o esfreguei à exaustão no meu corpo. Em seguida, peguei um dente de sabre e rasguei minha pele rapidamente... Gatos banhados a urucum foram triturados no meu corpo. De soslaio, olhei, já havia sangue por toda parte. Botei a mão no aquário, trouxe Rasta para perto do solo e o misturei ao sangue. Rapidamente, tirei o resto de roupa do corpo e, nu, pus-me a tomar a gosma que cobria o quarto. 


sábado, 7 de janeiro de 2012

o ar-intelectual-frustrado e os anseios mortíferos

O ar-intelectual-frustrado não consegue romper o amanhã
e passa como ventos de Jó
rumo à cruz de anseios paralisantes.

silêncio de dormir

a paralisia mortifica o ar do ser
e faz do quê avassalador da vida
um nada de sete palmas

as pernas são para possibilitar um novo ângulo de visão!


quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Aforismo

Despreza-te a ti e serás como a água doce recusada pelo deserto.

O excesso não satisfaz tanto quanto a falta também não o faz, porque da completude o esta-só abrutece, assim como do não-ser o devir rompe passagem.

De onde se olha não é nunca de onde partiu o olhar. Da função escópica subjetiva não é possível ver o que se anela: o oposto já é invertido pelo filtro parcial dos meus desejos.

A fantasia de mim é sempre uma imagem distorcida de ti, já que a máscara supostamente ideal é um além do olhar, um ponto do não-ser.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

ritual silencioso

Nos diversos momentos de insanidade, o reino desabitado (vulgarmente habitado por substâncias disformes) toma espaço na subjetividade.




Desde gente, gosto de contemplar o velho jornal de notícias de ontem. Gosto desse hábito, porque sou afeito a costumes e, óbvio, a parte da manhã aliada a notícias de ontem devolvem o sublime da humanidade - café preto juntamente com o delicioso caldo da cana integram o cenário. Sugo cuidadosamente um gole de café e, logo após, bebo um gole largo do caldo. Sempre o curto e profundo no mesmo plano! Nesse instante, não leio o jornal por inteiro; prefiro as frases esparsadas: ora na sessão de opinião, ora no esporte - o interessante é que sempre faço link com situações irreais.

Meus pensamentos, apesar da tola tentativa de objetividade, funcionam como uma máquina repleta de parafusos soltos. Talvez seja por isso que eu tenha tanta relutância em escrever essas palavras. Não sei escrever como pedia a saudosa professora Joana. Coesão e coerência, meninos! Embora tenha um livro publicado, não posso me considerar 'escritor', assim como aquele que joga futebol toda quarta-feira não está incluído na categoria ‘jogador’. Eu sou um pescador de frases soltas. Os livros são lidos ou escritos diariamente através das frases distribuídas ao longo da obra: uma frase na página primeira, outra na segunda e outra na décima. A ordem é aquela pela qual fui feito: o acaso do gozo!

Entretanto, vejo meus dias com a complacência de um beato. Percebo os cães e a voracidade que devoram a carne e o osso; os homens à procura de mulheres na praça; as estrelas loucamente sobrevoando os astros. Percebo sem sobressalto, não me comovo um centavo sequer! Os gênios... Todos estão mortos por outros gênios que se fizeram de seus seguidores - sempre a burrice transpõe o gênero.

Ontem saí para ver algum quê que me chame atenção. Passei pelo campo de futebol, mas acabei parando em frente ao campo, no bar do ‘do céu’. Enquanto todos bebiam, meus pensamentos estavam nos cães, nas moças, no álcool, em nada. Foi quando de uma luz saltei e pus-me a refletir que para sentir o quê desejado precisava passar pelo ritual dos bêbados. A vida é um grande ritual. O nascimento, o café-da-manhã, o jantar, a missa-de-algum-dia, a embriaguez-do-final-de-semana, o futebol-de-quarta-feira... A vida é um eterno ritual silencioso! Pedi uma cerveja e uma dose de pinga - comecei o processo de embriaguez.

Há muito tinha parado de beber, já que jamais tinha conseguido me embriagar. Por longos anos bebi muito, todavia sem sentir o doce prazer da embriaguez. Bebia e logo-logo estava dormindo, sem nenhuma estripulia. Porém, ontem iniciei a beber, não exatamente para me embriagar, mas pelo insight que tive: um bêbado é bêbado não pela bebida que ingere, mas pelo processo de bebedeira. O processo possui um clímax que é o autoconvencimento de estar-bêbado.

Durante os primeiros goles saquei que em todas as mesas não havia ninguém bebendo solitariamente. O ritual exigia mais alguém ao lado. Um catador de materiais recicláveis passou com a carroça cheia de papelão e acabei por fazê-lo uma proposta. Vai um goró? Ele aceitou e recomecei o processo – agora, coletivamente. Ele me contou que, quando pequeno, gostava de comer pedras, terra e os cambaus. Ele riu bastante e percebi que era hora de eu rir também (o processo exigia!). Sorrimos e já estávamos amigos de infância. Contei que adorava beber um gole de cada bebida: um gole de café, outro de cana etc. Ele riu novamente e rimos juntos. Era a integração ao cosmo!

Bebemos bastante, sorrimos risos enormes e comprei de fato a teoria do ritual silencioso. É extremamente prazeroso viver assim. Saí do bar do ‘do céu’, despedi do agora desconhecido catador de recicláveis, e pensei em continuar vivendo o universo do rito. Parei perto do campo society em frente ao bar e pedi para jogar com o pessoal. Quando um menino atrevido sugeriu: o vovô paga a hora? Todos concordaram e eu realmente paguei quarenta paus no final da partida. Começamos a jogar, mas eu nunca chutara uma bola antes. Meu pai dizia que bola é coisa de gente que carrega carroça! Os garotos gritavam não toca para o velho, mas de vez em quando alguém insistia em passar a bola a mim. Era uma cena cômica! No começo pensei à maneira tradicional, estão me zombando, mas logo percebi que realmente estavam e que era parte do ritual em questão. Um rapaz forte fez um gol e todos jogadores do meu time gritaram de alegria, gritei junto e já estava integrado ao cosmo. Ah, crianças!

Deixei o campo e passei na porta de uma igreja cristã-de-não-sei-que-dia. Percebi todos integrados. Abstraí  que haveria o cosmo futebolístico, o cosmo da embriaguez, o cosmo religioso, infinitos cosmos. Entrei na igreja, peguei a coletânea de louvores e danei a cantar histericamente. Logo percebi que caía uma lágrima dos meus olhos (ao lado, um jovem também chorava). O choro era o grito do futebol, as gargalhadas da mesa de bar. O cosmo. Não censurei as lágrimas; chorei como a criança que espera o papai Noel, contudo é informada da inexistência do bom velhinho. A oferta passou e deixei uns cinquenta paus para o pastor. Ele merecia... Fiquei num êxtase louco com tudo aquilo.

Retornando ao meu humilde lar-de-integração parei e olhei a uma cadelinha negra. Olhamo-nos profundamente por alguns segundos e percebi que era mais um convite à integração. Peguei-a no colo e saquei o pau já rijo para fora. Atravessei a menina com o choro da igreja, o grito do futebol e a embriaguez do álcool.