segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Bicho-home


Nasci aqui mesmo e não pretendo sair tão cedo. Meus pais, Ravié e Mona, que Deus os tenha, fundaram esse vilarejo há uns quarenta anos – eu nem nascido era, meu pai! Papai foi homem de visão; percebeu que esse matagal tinha bicho chique: onça pintada, tamanduá bandeira e bicho preguiça. Naquela época, não precisava dessas coisas de papel passado, não! Bastava dizer no dente e o negócio não voltava atrás! Assim fez meu falecido – papai comprou todas essas terras sem um cruzeiro no bolso.

Já tinha plano – pensa que não? Anunciou em tudo quanto é lugarejo "venha conhecer bicho importado: europeu, asiático e americano". A peãozada vinha de longe ver os animais, mas ninguém sabia diferenciar qual era o estrangeiro. Era aí que morava a ousadia do pai! Ele logo começou a oferecer cursos para ensinar a distinguir os supostos bichos de outros países. No começo nem minha mãe botou fé, mas logo, logo tinha uma bruta gente querendo descobrir a arte do bicho de fora. Papai começou cobrando uma galinha, depois uma vaca... Fez tudo aqui assim, sozinho-de-zinho!

Essa gente pensa que a vida é fácil. Falo é nada! Prefiro me lembrar de papai, que bobo não era! Eu continuei os negócios do pai... "Filho bom é de outra laia!", dizia o velho. E, modéstia a parte, sou forte como era o trator do meu pai, minha astúcia é grande, de ver o povo corar. Continuei os cursos, contudo, com a morte do pai, as coisas foram modificando, a clientela estava minguando. É que Zé-da-Magia, dono de circo, resolveu entrar no pário. O que Zé tinha de forte, tinha de burro, era como um pasto sem gado. Seria fácil tirar o Zé da jogada, porém preferi usar os serviços dele para continuar os projetos do pai. Incumbi a ele a tarefa de ministrar os cursos: Zé ensinava o povo que vinha de fora a ver os bichos exóticos de outra maneira. Eu, porém, fiquei com a parte de fazer os animais ficarem distintos. Enquanto Zé convencia a multidão com palavras e gestos bonitos, eu inventava os animaizinhos. Criava espécies de tudo quanto é jeito: peixes de cores diversas, onça sem pinta, com pinta, sem pinto. Os brutos apareciam de longe para entender o que acontecia com os animais, ninguém tinha resposta.

A sacada de papai foi fornecer palestras, cursos, aulas ao povo que acredita em cruz viva. Eu, que nunca fui de falar muito, preferi inventar novos bichanos. Claro que era preciso o mínimo de talento para que ninguém descobrisse minha astúcia. Usava as magias do Zé para que todos se distraíssem e logo apresentava o novo bicho: Leão-de-Sete-Cordas, Peixe-Cabra, Cachorro-Juba-Leão etc. Nosso negócio já estava consagrado para além do vilarejo: era doutor, político e toda espécie de terno que vinha entender as aparições de novos seres.

Acontece que na vida os rumos mudam como égua desdentada perdida num redemoinho que se aproxima. Passei a olhar minha pele, meus cabelos, meus dentes, tudo de maneira diferente. Via minha boca no espelho, entretanto, parecia faltar algo. Meus dedos não estavam conforme gostaria, contudo, não sabia exatamente como os queria. Pintei meus dentes caninos de preto; gostei, mas não foi o suficiente. Tatuei patas de animais nos dedos, colei couro de Jacaré-Peludo (espécie rara criada por mim) no abdome, implantei dentes de sabre na minha boca... Tudo parecia em vão! Eu não me sentia bem.

Nesse pé, os negócios iam de mal a pior, isso porque o Zé-Magia percebera meu estado de fraqueza (minha reclusão excessiva) e aproveitou-se disso para continuar sozinho a empreitada iniciada pelo pai. Eu já não recebia ninguém em casa, somente meus animais – aqueles elaborados cuidadosamente por mim – tinham livre acesso ao meu quarto. Os Cachorros-sem-Patas, Onça-sem-Pinto, Cabra-Zebra, todas as espécies criadas por mim viviam constantemente comigo, conversávamos horas a fio. Cheguei a colocar um aquário no meu quarto somente com minhas obras de arte aquáticas –  peixes de toda sorte! 

Os peixes pareciam sem graça inicialmente, porém foi com o passar do tempo (já havia passado mais de ano que eu não saia do quarto) que os bichos passaram a ter sentido. Era por eles que eu esperava! Observava os bichos de cores tão diversas e dava a ele remédios aleatórios, mas, como reação, mudavam de cor. Jogava no aquário dipirona, refrigerante, cerveja, tudo que vinha na cabeça... O incrível é que funcionava bem: quando não morriam, mudavam de cor, de jeito, de forma. O encanto não cessava! Quase todos os dias meus filhos, cientes da minha situação, traziam novos peixes – era a única maneira de eu os receber. Na verdade, os animais que me traziam eram como pedágio obrigatório a quem queria me ver. Lógico, somente minha família tinha a curiosidade de saber como eu estava. 

O gostoso da vida é que se o homem faz um filho macho – macho pra valer! –, o filho acaba por cuidar do pai. Era minha vez, entretanto, não queria me entregar àquela sina. Precisava dos meninos porque sentia falta de novos bichos e, ao mesmo tempo, não conseguia sair daquele asqueroso quarto. Minha filha, todos os dias, fielmente, me trazia comida três vezes ao dia, sempre acompanhada por algum animal rejeitado pela comunidade. Às vezes, Joana, minha caçula, trazia sapo, rã, cobra... Ela adorava os répteis – eu mais ainda. Rafael, meu filho mais velho, gostava de me mostrar fotos de sua vasta criação animalesca. De quando em vez, ele trazia peixinhos, fruto de novas invenções e uma imensidão de fotos. Apesar de Zé-da-Magia ter rompido com minha família, meus filhos continuaram os negócios, claro, não com a clientela de antes, mas com a criatividade jamais vista. Eu passava horas contemplando o árduo trabalho do meu filho, tentando entender a técnica usada por ele, mas nem sempre era possível compreender o ofício. Os dias passavam com complacência. Aos meus filhos, o tormento os havia resignado – já tinham se acostumado com minha situação. Quanto a mim, os Peixinhos-Mancos, rara espécie criada por Rafael, me comoviam como nunca.

Mais uma virada de ano: os fogos de artifício rompiam a noite e eu calmamente conversava com Rasta, um Peixe-Manco. Eu dizia sobre as dificuldades que o pai tivera outrora, que a vida era isso mesmo... Essas coisas que eu costumava contá-los nos dias de feira. Quando, como num despertar, percebi que o problema não estava nos animais... Era preciso que eu mesmo me tornasse outra coisa! Saquei o peixe do aquário e o esfreguei à exaustão no meu corpo. Em seguida, peguei um dente de sabre e rasguei minha pele rapidamente... Gatos banhados a urucum foram triturados no meu corpo. De soslaio, olhei, já havia sangue por toda parte. Botei a mão no aquário, trouxe Rasta para perto do solo e o misturei ao sangue. Rapidamente, tirei o resto de roupa do corpo e, nu, pus-me a tomar a gosma que cobria o quarto. 


sábado, 7 de janeiro de 2012

o ar-intelectual-frustrado e os anseios mortíferos

O ar-intelectual-frustrado não consegue romper o amanhã
e passa como ventos de Jó
rumo à cruz de anseios paralisantes.

silêncio de dormir

a paralisia mortifica o ar do ser
e faz do quê avassalador da vida
um nada de sete palmas

as pernas são para possibilitar um novo ângulo de visão!


quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Aforismo

Despreza-te a ti e serás como a água doce recusada pelo deserto.

O excesso não satisfaz tanto quanto a falta também não o faz, porque da completude o esta-só abrutece, assim como do não-ser o devir rompe passagem.

De onde se olha não é nunca de onde partiu o olhar. Da função escópica subjetiva não é possível ver o que se anela: o oposto já é invertido pelo filtro parcial dos meus desejos.

A fantasia de mim é sempre uma imagem distorcida de ti, já que a máscara supostamente ideal é um além do olhar, um ponto do não-ser.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

ritual silencioso

Nos diversos momentos de insanidade, o reino desabitado (vulgarmente habitado por substâncias disformes) toma espaço na subjetividade.




Desde gente, gosto de contemplar o velho jornal de notícias de ontem. Gosto desse hábito, porque sou afeito a costumes e, óbvio, a parte da manhã aliada a notícias de ontem devolvem o sublime da humanidade - café preto juntamente com o delicioso caldo da cana integram o cenário. Sugo cuidadosamente um gole de café e, logo após, bebo um gole largo do caldo. Sempre o curto e profundo no mesmo plano! Nesse instante, não leio o jornal por inteiro; prefiro as frases esparsadas: ora na sessão de opinião, ora no esporte - o interessante é que sempre faço link com situações irreais.

Meus pensamentos, apesar da tola tentativa de objetividade, funcionam como uma máquina repleta de parafusos soltos. Talvez seja por isso que eu tenha tanta relutância em escrever essas palavras. Não sei escrever como pedia a saudosa professora Joana. Coesão e coerência, meninos! Embora tenha um livro publicado, não posso me considerar 'escritor', assim como aquele que joga futebol toda quarta-feira não está incluído na categoria ‘jogador’. Eu sou um pescador de frases soltas. Os livros são lidos ou escritos diariamente através das frases distribuídas ao longo da obra: uma frase na página primeira, outra na segunda e outra na décima. A ordem é aquela pela qual fui feito: o acaso do gozo!

Entretanto, vejo meus dias com a complacência de um beato. Percebo os cães e a voracidade que devoram a carne e o osso; os homens à procura de mulheres na praça; as estrelas loucamente sobrevoando os astros. Percebo sem sobressalto, não me comovo um centavo sequer! Os gênios... Todos estão mortos por outros gênios que se fizeram de seus seguidores - sempre a burrice transpõe o gênero.

Ontem saí para ver algum quê que me chame atenção. Passei pelo campo de futebol, mas acabei parando em frente ao campo, no bar do ‘do céu’. Enquanto todos bebiam, meus pensamentos estavam nos cães, nas moças, no álcool, em nada. Foi quando de uma luz saltei e pus-me a refletir que para sentir o quê desejado precisava passar pelo ritual dos bêbados. A vida é um grande ritual. O nascimento, o café-da-manhã, o jantar, a missa-de-algum-dia, a embriaguez-do-final-de-semana, o futebol-de-quarta-feira... A vida é um eterno ritual silencioso! Pedi uma cerveja e uma dose de pinga - comecei o processo de embriaguez.

Há muito tinha parado de beber, já que jamais tinha conseguido me embriagar. Por longos anos bebi muito, todavia sem sentir o doce prazer da embriaguez. Bebia e logo-logo estava dormindo, sem nenhuma estripulia. Porém, ontem iniciei a beber, não exatamente para me embriagar, mas pelo insight que tive: um bêbado é bêbado não pela bebida que ingere, mas pelo processo de bebedeira. O processo possui um clímax que é o autoconvencimento de estar-bêbado.

Durante os primeiros goles saquei que em todas as mesas não havia ninguém bebendo solitariamente. O ritual exigia mais alguém ao lado. Um catador de materiais recicláveis passou com a carroça cheia de papelão e acabei por fazê-lo uma proposta. Vai um goró? Ele aceitou e recomecei o processo – agora, coletivamente. Ele me contou que, quando pequeno, gostava de comer pedras, terra e os cambaus. Ele riu bastante e percebi que era hora de eu rir também (o processo exigia!). Sorrimos e já estávamos amigos de infância. Contei que adorava beber um gole de cada bebida: um gole de café, outro de cana etc. Ele riu novamente e rimos juntos. Era a integração ao cosmo!

Bebemos bastante, sorrimos risos enormes e comprei de fato a teoria do ritual silencioso. É extremamente prazeroso viver assim. Saí do bar do ‘do céu’, despedi do agora desconhecido catador de recicláveis, e pensei em continuar vivendo o universo do rito. Parei perto do campo society em frente ao bar e pedi para jogar com o pessoal. Quando um menino atrevido sugeriu: o vovô paga a hora? Todos concordaram e eu realmente paguei quarenta paus no final da partida. Começamos a jogar, mas eu nunca chutara uma bola antes. Meu pai dizia que bola é coisa de gente que carrega carroça! Os garotos gritavam não toca para o velho, mas de vez em quando alguém insistia em passar a bola a mim. Era uma cena cômica! No começo pensei à maneira tradicional, estão me zombando, mas logo percebi que realmente estavam e que era parte do ritual em questão. Um rapaz forte fez um gol e todos jogadores do meu time gritaram de alegria, gritei junto e já estava integrado ao cosmo. Ah, crianças!

Deixei o campo e passei na porta de uma igreja cristã-de-não-sei-que-dia. Percebi todos integrados. Abstraí  que haveria o cosmo futebolístico, o cosmo da embriaguez, o cosmo religioso, infinitos cosmos. Entrei na igreja, peguei a coletânea de louvores e danei a cantar histericamente. Logo percebi que caía uma lágrima dos meus olhos (ao lado, um jovem também chorava). O choro era o grito do futebol, as gargalhadas da mesa de bar. O cosmo. Não censurei as lágrimas; chorei como a criança que espera o papai Noel, contudo é informada da inexistência do bom velhinho. A oferta passou e deixei uns cinquenta paus para o pastor. Ele merecia... Fiquei num êxtase louco com tudo aquilo.

Retornando ao meu humilde lar-de-integração parei e olhei a uma cadelinha negra. Olhamo-nos profundamente por alguns segundos e percebi que era mais um convite à integração. Peguei-a no colo e saquei o pau já rijo para fora. Atravessei a menina com o choro da igreja, o grito do futebol e a embriaguez do álcool.