quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

ritual silencioso

Nos diversos momentos de insanidade, o reino desabitado (vulgarmente habitado por substâncias disformes) toma espaço na subjetividade.




Desde gente, gosto de contemplar o velho jornal de notícias de ontem. Gosto desse hábito, porque sou afeito a costumes e, óbvio, a parte da manhã aliada a notícias de ontem devolvem o sublime da humanidade - café preto juntamente com o delicioso caldo da cana integram o cenário. Sugo cuidadosamente um gole de café e, logo após, bebo um gole largo do caldo. Sempre o curto e profundo no mesmo plano! Nesse instante, não leio o jornal por inteiro; prefiro as frases esparsadas: ora na sessão de opinião, ora no esporte - o interessante é que sempre faço link com situações irreais.

Meus pensamentos, apesar da tola tentativa de objetividade, funcionam como uma máquina repleta de parafusos soltos. Talvez seja por isso que eu tenha tanta relutância em escrever essas palavras. Não sei escrever como pedia a saudosa professora Joana. Coesão e coerência, meninos! Embora tenha um livro publicado, não posso me considerar 'escritor', assim como aquele que joga futebol toda quarta-feira não está incluído na categoria ‘jogador’. Eu sou um pescador de frases soltas. Os livros são lidos ou escritos diariamente através das frases distribuídas ao longo da obra: uma frase na página primeira, outra na segunda e outra na décima. A ordem é aquela pela qual fui feito: o acaso do gozo!

Entretanto, vejo meus dias com a complacência de um beato. Percebo os cães e a voracidade que devoram a carne e o osso; os homens à procura de mulheres na praça; as estrelas loucamente sobrevoando os astros. Percebo sem sobressalto, não me comovo um centavo sequer! Os gênios... Todos estão mortos por outros gênios que se fizeram de seus seguidores - sempre a burrice transpõe o gênero.

Ontem saí para ver algum quê que me chame atenção. Passei pelo campo de futebol, mas acabei parando em frente ao campo, no bar do ‘do céu’. Enquanto todos bebiam, meus pensamentos estavam nos cães, nas moças, no álcool, em nada. Foi quando de uma luz saltei e pus-me a refletir que para sentir o quê desejado precisava passar pelo ritual dos bêbados. A vida é um grande ritual. O nascimento, o café-da-manhã, o jantar, a missa-de-algum-dia, a embriaguez-do-final-de-semana, o futebol-de-quarta-feira... A vida é um eterno ritual silencioso! Pedi uma cerveja e uma dose de pinga - comecei o processo de embriaguez.

Há muito tinha parado de beber, já que jamais tinha conseguido me embriagar. Por longos anos bebi muito, todavia sem sentir o doce prazer da embriaguez. Bebia e logo-logo estava dormindo, sem nenhuma estripulia. Porém, ontem iniciei a beber, não exatamente para me embriagar, mas pelo insight que tive: um bêbado é bêbado não pela bebida que ingere, mas pelo processo de bebedeira. O processo possui um clímax que é o autoconvencimento de estar-bêbado.

Durante os primeiros goles saquei que em todas as mesas não havia ninguém bebendo solitariamente. O ritual exigia mais alguém ao lado. Um catador de materiais recicláveis passou com a carroça cheia de papelão e acabei por fazê-lo uma proposta. Vai um goró? Ele aceitou e recomecei o processo – agora, coletivamente. Ele me contou que, quando pequeno, gostava de comer pedras, terra e os cambaus. Ele riu bastante e percebi que era hora de eu rir também (o processo exigia!). Sorrimos e já estávamos amigos de infância. Contei que adorava beber um gole de cada bebida: um gole de café, outro de cana etc. Ele riu novamente e rimos juntos. Era a integração ao cosmo!

Bebemos bastante, sorrimos risos enormes e comprei de fato a teoria do ritual silencioso. É extremamente prazeroso viver assim. Saí do bar do ‘do céu’, despedi do agora desconhecido catador de recicláveis, e pensei em continuar vivendo o universo do rito. Parei perto do campo society em frente ao bar e pedi para jogar com o pessoal. Quando um menino atrevido sugeriu: o vovô paga a hora? Todos concordaram e eu realmente paguei quarenta paus no final da partida. Começamos a jogar, mas eu nunca chutara uma bola antes. Meu pai dizia que bola é coisa de gente que carrega carroça! Os garotos gritavam não toca para o velho, mas de vez em quando alguém insistia em passar a bola a mim. Era uma cena cômica! No começo pensei à maneira tradicional, estão me zombando, mas logo percebi que realmente estavam e que era parte do ritual em questão. Um rapaz forte fez um gol e todos jogadores do meu time gritaram de alegria, gritei junto e já estava integrado ao cosmo. Ah, crianças!

Deixei o campo e passei na porta de uma igreja cristã-de-não-sei-que-dia. Percebi todos integrados. Abstraí  que haveria o cosmo futebolístico, o cosmo da embriaguez, o cosmo religioso, infinitos cosmos. Entrei na igreja, peguei a coletânea de louvores e danei a cantar histericamente. Logo percebi que caía uma lágrima dos meus olhos (ao lado, um jovem também chorava). O choro era o grito do futebol, as gargalhadas da mesa de bar. O cosmo. Não censurei as lágrimas; chorei como a criança que espera o papai Noel, contudo é informada da inexistência do bom velhinho. A oferta passou e deixei uns cinquenta paus para o pastor. Ele merecia... Fiquei num êxtase louco com tudo aquilo.

Retornando ao meu humilde lar-de-integração parei e olhei a uma cadelinha negra. Olhamo-nos profundamente por alguns segundos e percebi que era mais um convite à integração. Peguei-a no colo e saquei o pau já rijo para fora. Atravessei a menina com o choro da igreja, o grito do futebol e a embriaguez do álcool.

Um comentário:

  1. essa palavra insanidade vai me perseguir..e pior ou melhor não sei me faz lembrar voce..rsrrs....amei o blog....

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