quinta-feira, 28 de junho de 2012

Freud e as cartas de amor: o contraditório como marca de vida


Freud e as cartas de amor: o contraditório como marca de vida

Observando as cartas de Freud a Martha, sua esposa, decidi escrever algumas linhas. O que me veio ao ler a biografia de Freud por Peter Gay foi a relação humana que o pai da psicanálise tinha com Martha, principalmente durante os anos de noivado. As cartas de amor de Freud é realmente mais um delicioso acervo de análise.

Ao contrário do que é reproduzido pela ignorância, Freud não era a maldição e, muito menos, santo. Freud manteve por cerca de quatro anos uma relação à distância com a noiva, Martha... Ah, e com apenas dois meses de namoro já estava noivo. Nada mais contraditório, nada mais humano. Ainda, como se sabe, não era uma relação perfeita entre os dois, ao contrário, Freud nutriu bastante ciúmes por ela ao ponto de exigir que passasse a cumprimentar formalmente os primos, apenas pelo segundo nome. Mas, Martha sustentou os dilemas de Freud e possibilitou a longa gestação da psicanálise.

O que quero dizer é que o magnífico em Freud (assim como em qualquer sujeito) não é vê-lo como em relações clericais, prontas, santificadas ou demonizadas. Recentemente veio a público o filme "Um método perigoso" em que enfatizou um Freud tirano e adocicou a vida de Carl G. Jung. Ora, o que nos põe de orelha em pé não é simplesmente pelo filme ter pintado Freud de tirano (porque Peter Gay também deixa clara a relação tirânica de Freud com Martha), mas o fato de alguns tratarem a versão dada pelo filme como biografia. A falta de luz, portanto, está na perspectiva do gênero literário, de quem lê um filme como a biografia definitiva. Melhor, de quem prefere o discurso da desqualificação (que é bem importante na formação do laço social), do que a investigação minuciosa. A liberdade de criação deve ser dada a todos (inclusive, se criassem um Freud gay, apesar de cômico, não seria de tudo ruim!).

O magnífico é a vida. O magnífico é contradição! O magnífico é ver Freud contraditório, do final do século XIX, e que mesmo assim brindou a humanidade com uma teoria subversiva e importante aos dias de hoje - que precisa ser atualizada, mas não sem importância. Freud é mesmo profundamente influenciado pelo positivismo da época e, nem por isso, sua obra deixa de ter importância. O discurso da desqualificação que é perigoso, não o método. Elisabeth Roudinesco já respondeu suficientemente bem as desqualificações do antifilósofo M. Onfray, mas infelizmente parece mesmo que a sedução em torno de Freud não está relacionada à obra dele, mas às especificidades da vida de um homem, digo, do início do século XX. Preferem o discurso da desqualificação, da exclusão, do que realmente debruçar nos trabalhos desenvolvidos por Freud.

Finalizo essas poucas linhas apenas para dizer que presencio o belo na função especular conseguindo tirar a venda da ilusão. Enxergar Freud para além do discurso do politicamente correto, para além da demonização corrente. Afinal, é Freud mesmo que luta contra todo tipo de ilusão. Um ser paradoxal, um ser de mil folhas como diz Nasio, também pode criar a mais subversiva das teorias. É Freud, judeu, do início do século XX, que tinha diversos sentimentos contraditórios e que, por isso, encampou uma causa, a causa do inconsciente. E, é justamente por isso que o analista carrega consigo o efeito, o efeito militante da psicanalise.