terça-feira, 25 de setembro de 2012

a linguagem como recusa

Do querer - a fala recusa a tradução. Do desejo, o oposto advém. Não vou dizer o contrário. Não vou dizer! Digo somente quando recuso o dito, e é mesmo na recusa que comparece o que iria a ser. Enfim, melhor seria dizer – digo NADA. Digo nada como quem diz algo que é nada; a recusa está no presente; a ausência é nítida e não digo o contrário. Não digo o contrário, já que o que digo já é o avesso da linguagem: digo NADA. Só há linguagem quando NADA diz além.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

um-mais-além

O esquecimento é muito mais! Esquecer demonstra bem mais que o óbvio - o dito acaso é uma ocorrência de um-mais-além do discurso, ou seja, não há acaso. Lapsos, esquecimentos, ironias ou piadas são resquícios de algo não dito, um-mais-além do discurso. Ler Clarice Lispector é deparar com todo esse universo. E não é à toa! As formações poéticas estão completamente interligadas com as formações do inconsciente, já que possuem os mesmos pilares: metáfora e metonímia. Enfim, no esquecimento, nos chistes, nos lapsos, nas embromações, há sempre um-mais-além do discurso. 

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

da leitura

Ler um livro é transar com a obra! Os leitores que leem de forma distante, procurando observar apenas a forma, sem se colocar ali (sem depositar algo seu naquilo que é lido) fazem uma leitura no mínimo superficial. Não me interessa a leitura sem o corpo a corpo - obra/leitor. 

do câncer, do suicídio

Há sempre um marimbondo rondando pela árvore genealógica de cada um. A maldição é lançada pelas figuras parentais, diante de um passado mal contado, uma história de repetição. O câncer, o suicídio, não há nada por acaso quando a questão é a subjetividade. A infelicidade da alma, a repetição de nossa ancestralidade, é um grito por socorro que poucos escutam. Olhar o marimbondo de cada um é uma possibilidade de escapar da insígnia pré-programada do destino: uma (re)invenção possível.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Santo Antônio de Goiás


Na terra dos Antônios
terra fantástica dos poetas
Bacco tomará o rumo do além
E Apolíneo, mais uma vez
morrerá nos braços de ninguém

Na subjetividade do poeta
rumaremos à utopia
e Marx -lukács
serão nossa companhia

Sentados frente à frente
lado a lado ou em pé
que entre o primeiro Antônio

Bacco, de Michelangelo

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Disparate

A vida como arte
um mártir longe do abate

A vida num encarte
somente em partes
rumo aos trilhos do infarte


sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Do ódio, do amor

Ódio, velho primo-irmão do amor - companheiro fiel do tesão!

Funeral na linha: olha o gol!

Pedro aguarda o amigo
um amigo visto pela primeira vez
cinco e meia, seis, sete, oito e nada

- Ei, fio, meu menino já vem, sossega! - uma mulata dos quarenta grita da varanda. O rapazote aparece sem muita crença no jogo.

- Oi!

-Qual é o seu nome?

- João Marcos.

Sem palavras, a bola dança sem reclamar: de um lado a outro - um novo enfeite. Letra, calcanhar... A bola se enfeita toda e vai ao encontro dos pés descalços. Como um capoeira que não cai, que ginga sem atacar verdadeiramente, a bola procura o pé amigo. De tênis, descalço, de letra, calcanhar...

- Ah, vamos ficar só assim? Pergunta Pedro, como quem diz que mesmo aos cinco era tão bom quanto o rapazote de oito anos - queria desafios. A bola amiga, então, passa à trapaça, ao drible brasileiro. A angola já regional!

-Qual é o seu nome, hein?

-Quê? Ah, Pedro Rafael.

-Joga no gol, Pedro? Eu já quase fiz um gol de bicicletinha, sabia?!

O caçador procura a toca. Toca a bola para si mesmo rumo ao gol. E a permuta é feita eternamente: do gol à linha, da linha ao gol.

Ah, lá fora a avó de um é enterrada.

(Em memória de minha tia-avó, Cristina, 07 de setembro de 2012, em Sanclerlândia-GO)

Ah, meu pai!

Essas cabrochas feitas do campo
de chão vermelho e roupas rotas
que acordam cedo ao canto do galo
são belas de lamber os beiços

De olhar penetrante
cheiram a vizinhança café-fumê
arrepiam até o mais brabo touro sertanejo
e na lida diária lavam a relva com um cantar sem jeito de sofrido

Ah, meu pai! Se nascido e crescido fosse...
se meus pés tivessem os calos de milhões de espinhos...

Ah, meu pai!
eu tomava por esposa essa brabeza
que sentada à porta, às seis
me esperaria quente ao jantar!

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Com o tempo aprende!

Com o tempo aprende! Aprende que nem todos perseguem sua doce família, seu emprego, sua vida. Com o tempo se percebe que o que unifica o eu também o engessa. Aprende que a defesa excessiva não advém simplesmente da postura do colega ao lado, mas, tão somente, do próprio olhar - o olhar invertido de si mesmo perante as adversidades da vida. A megalomania e sua irmã paranoia são resquícios de uma infância não superada, um narcisismo de morte em vida adulta. Enquanto não enxergar que essa defesa excessiva do eu é um dilema, o sintoma continuará: ora em casa, ora na casa do vizinho, ora o amigo, ora inimigo. E não percebe que o estranho é o mais doce familiar.

manjar de Exu

rei, jamais fantasma
(poesia - a terrível aposta infernal da linguagem)

boto a mesa sem almoço e confio no manjar

no jantar, abro a mesa na encruzilhada
(o jantar está posto!)

e, ao longe, arriba o cajado de Exu!


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segunda-feira, 3 de setembro de 2012

cinema hollywoodiano

escrevo em versos somente pela licença
porque não preciso pedir licença (é poético!)
digo como muitos esfacelados
com a mesma fome da sua mãe (seu pai morreu e ela quer sexo!)
e transo e durmo

mas a licença me permite dizer sem avessos
ir ao encontro de minha humanidade sem desvios
o que até os mais próximos têm medo de falar
os poetas (sob as asas da poesia) gritam
o mesmo grito de milhares de anos
enquanto silenciosos mortais se apagam em filas de cinema hollywoodiano