sábado, 3 de novembro de 2012

Boc'aberta

Saiu da casa de Yanca sem acender cigarros e entrou no primeiro ônibus. No caminho, a boca deixou de salivar e o cigarro saltou à mão, mas, diante dos colegas anônimos que dividiam o mesmo espaço, preferiu não causar polêmica. Em dias de jovialidade, Francisco teria acendido ali mesmo e deixado todos na perturbação da fumaça - o tempo é que salva das feridas egoicas!

Desceu pisando firme e, sem notar, sua cabeça desenhava os seios de Yanca - a menininha que se tornou mulher da noite para o dia. Algumas imagens passavam de relance sem muita ênfase: os seios grandes de mamilos saltitantes, seios joviais dos dezesseis anos. Francisco, desde cedo, dizia gostar mais dos seios pequenos, que tivessem a medida da mão, contudo, os seios que ficaram para trás naturalmente formavam pares de melão ao som da colheita. Entrou em uma loja de eletrônicos e parou os olhos no primeiro modelo de tablet (os seios carnudos pareciam refletir no espelho multitoque do aparelho). O vendedor, dessa raça miserável por natureza, aproximou-se habilmente para fazer valer sua função - os seios ficavam mais distantes, porém nitidamente refletidos no espelho do eletrônico.

Os pensamentos de Francisco sempre foram dados às imagens, cenas imediatas e fugazes perfaziam o imaginário do rapaz. Ele nunca parara para pensar o porquê revia aquilo, que não queria esquecer. As imagens vistas quase que aleatórias eram verdadeiras convocações. As conversas, de quando em vez, com a tia-avó, Dona Rotina, deixava-o intrigado, uma vez que Dona Rotina dizia que uma voz a perturbava diariamente: a contradição da existência. Francisco achava tudo aquilo uma bobagem sem tamanho. "A voz que ouço me diz aonde ir!" - bobagem sem fim, pensava Francisco. Ele não ouvia voz alguma (nem mesmo os gemidos deixados no quarto do apartamento dos pais de Yanca), mas via com uma nitidez peculiar os seios daquele menina-moça. 

"Gostou desse?" 'Não, só estou olhando mesmo.' "Esse aqui é mais interessante, porque navega em 3g e wi fi.." (Silêncio). "Quer ver mais algum?" 'Só os seios de Yanca.' Deu de ombros e saiu da loja apenas com os mamilos à boca. As lojas do centro depositam os produtos já na calçada e desviar deles é praticamente impossível. A mãe de Francisco contava que ele mamara até longa idade, mas que nunca procurou um substituto (dedo, chupeta ou o caralho!). Na verdade, Francisco tinha o hábito de transar sem beijar, porque o beijo é de extrema intimidade. A transa é como o acasalamento de animais, força do hábito. Beijar nunca foi algo aprazível a Francisco, que dizia nas rodas de amigos que o beijo seria somente à esposa, e como não pretendia casar, o beijo ficaria apenas ao cinema. 

Pensava absorto nos beijos que não dera ao longo da vida. Pensava em Yanca que, como as demais, havia transado sem beijo nenhum, porém como um detalhe que o perturbava agora: os infindos beijos aos seios dela. Nas televisões das vitrines só refletiam o par de mamas e o gosto suave, o gosto estridente. Pêssego. Outra loja, novos eletrônicos idênticos àqueles que havia visto - inclusive o mesmo preço. As coincidências pareciam lembrar os seios de Yanca. Quando nova, Francisco não dera o valor à meninota que brincava de bonecas, casinha... Será que já havia traços que denunciassem a maravilha que se tornou? Por que naquele tempo não entrou na fantasia e foi brincar de médico? E não tinha sido diferente com outras garotas. Francisco nunca sentiu remorso por transar (sem beijos) com as primas, as amigas das primas, as primas das primas. Cedo, cedo já transava com a rua e o bairro já o conhecia... os meninos acostumaram a invejá-lo por tamanha performance. Diziam que ele tinha o pau grande, fato que era logo desmentido por todas as meninas que tinham transado com ele. Na verdade, o mito do pau grande foi desenvolvido pelos garotos, em especial por Rafael, um garotão que bancava o macho, mas que às escuras dava para quase todos os coleguinhas. Rafael dizia e os demais garantiam: Francisco tem o pau grande! Se Rafael dizia, devia ter algo de sincero - pelo menos o desejo.

Na loja, em outra loja idêntica às demais, Francisco compra um tablet sem ler as descrições do produto. O vendedor logo foi contar vantagem para os colegas, dizia que a argumentação dele teria provocado o cliente que acabara de sair satisfeito com o produto. Nessa loja, era de praxe incluir "garantias" aos produtos que já vinham com garantia de fábrica - uma maneira de pagar o adicional aos peões do comércio. Francisco saia com o tablet às mãos (garantias eternas, até que a morte os separe!), e Yanca parecia despontar do fundo do aparelho. Francisco não tinha costume de pensar longamente no mesmo tema. Quando secundarista, resolvia facilmente os problemas lógicos, entretanto, odiava as questões de abstração. Jamais abstraia por mais de dez segundos na mesma coisa - a mente se dava à tarefa de pensar em outra coisa, ou em nada. O tablet aceitava o toque e respondia efetivamente a cada suave aperto. Deslizava os dedos com sofreguidão e pensava em nada - via o tablet sem nenhum pensamento metafísico.

Francisco não morava só. Na casa dele moravam o irmão, a mãe e o pai. Naquele dia chegou cedo, porque tinha dormido na casa de Yanca e passado no centro para adquirir o aparelho eletrônico. A família fazia o lanche matinal, no silêncio que exige esse ofício, Francisco, com um "bom dia" seco, foi para o seu quarto. Por horas, ali ficou tocando o novo brinquedo.  

Francisco vivia só. Só com o tablet e algumas imagens que resistiam: os seios volumosos de Yanca. As meninas ligavam constantemente à procura dele, mas ele raramente saia às baladas. Preferia o sabor dos videogames, dos Ipads, dos tablets. Yanca ligou. Uma chamada não atendida. O telefone está tocando - ele não vai atender! Francisco anda de um lado a outro no quarto, deita na cama, mas não vai atender, sequer desligar o celular. Ele não atenderá os seios lagrimejantes de Yanca, que exigem a sua saliva. Yanca ligará para outro que queria depositar toda saliva através da ponta da língua nos seios gigantescos dela. Ele não atenderá - os beijos falaram mais alto. 

Francisco, sem expressão de raiva, desliga o celular após a última chamada dos seios de melão. Olha para o tablet novo e passa a deslizar os dedos por ele. Entra em um site pornô, mulheres de seios gigantes, maiores que os melões de Yanca... masturba-se e goza rapidamente. À tela do aparelho as gotas de esperma cor amarelada, cor esbranquecida sabor melão. Estavam (ele e o tablet) em cima da cama - gotejava ao chão. 

Francisco deitou-se no chão posicionando-se de forma que as gotas de esperma caíssem boca adentro.













Um comentário:

  1. Porra, Marcão! só vc msm pra (d)escrever uma trela dessa. Abraço

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