quarta-feira, 13 de novembro de 2013

epitáfio vivo













Os olhos são epitáfios vivos
"Aqui jaz um troglodita!"

Perfura a tumba
para inscrever o que há além do corpo
VERMES

Ferve intransigente
n' alma
um quê de desatenção

O nó do corpo camaleão
não reflete as retinas

E mesmo com toda pompa
lixo
roupa
caixão
funeral
casamento
luxo...
os olhos denunciam o soturno


A leitura do espírito
não se apresenta como obra do senhor
as  vistas são de quem ama a desilusão
o ócio
o louvor do nada

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Quer casar comigo?

A palavra advém da cumplicidade do ridículo
- Quer casar comigo?
Ainda não.
A palavra vai rumo à plateia delirante.
Os convites, portanto.
- Vamos, Japa! É casamento... vou morrer de rir.
O Japa vai, a Brenda, o João, o Manuel, Junhia, Rafaela, Wirna Vilma Gil

A plateia sustenta o circo do sentido anunciado.

Vejam, agora estão todos embriagados
Vinho
Champanha
Cerveja
Pinga

Sob a égide da droga
E a glória das palmas
(risos e comilança e buquê)
Um novo delírio se forma

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

olhos fechados













Um olho aberto
azul
preto
verde
insano ou medicinal
um olho pisca enquanto o outro permanece aberto
os olhos se fecham por alguns milésimos de segundo



Os olhos abertos, agora
é porto a um inseto
que pousa, descansa

As duas asas se movem
uma aquieta-se enquanto a outra move-se

Os olhos abertos

O inseto ameça voo
mas não assusta os olhos, nenhum

Por um segundo, as duas asas permanecem estáticas
em seguida, o inseto alça voo
e os olhos
(agora com alguma lágrima acumulada)
fecham-se para não mais abrir naquele asfalto quente.


Jotinha e a completude

        Jotinha entrou na confeitaria e pediu o primeiro bolo (recheado de doce de leite). Sem demora, comeu um, dois, três pedaços. Ainda, buscou uma garrafinha de coca cola (sem rato, mas repleta de formigas), bebeu e comeu. Levantou-se com a formiga no estômago (o bolo e o refrigerante davam voltas) e pediu ao garçom - balconista, porque em confeitarias não há aqueles que servem à mesa:
      - Ainda estou com fome. Pode me ver esse bolo maior? Pegaram uma boa fatia do bolo, e ele, ainda no balcão, engoliu o suculento pedaço. Voltando-se ao balconista, antes mesmo que um novo pedido fosse feito, Jotinha sentiu aflorar por entre as pernas gases ininterruptos. Diante da repressão, a boca abriu-se num violento e estrondoso arroto. 
         Conseguiu com muito custo fazer um novo pedido: ainda com um bolo na mão, passou a ouvir vozes que repetiam incessantemente "doce, leite"... "leite, doce".... Mas antes mesmo que pudesse ouvir a combinação perfeita (Jotinha fazia apologia ao doce de leite com coca cola), ouviu como pano de fundo sonoro, palavras que o completaram momentaneamente: "jiló, gonorreia, sífilis"... Num estrondo, olhou em volta - sentindo vertigem - e vomitou de um só gole o doce, o leite, a coca e a formiga. Em seguida, quando se punha a levantar, tornou ao chão um líquido esverdeado, cobertura de jurubeba e jiló.
         Vagarosamente, porém, a formiga levava uma dose de doce rumo ao formigueiro. 

licor sorvido


Escrevo despossuído de ideias.
Qualquer gole fortuito,
na mente de outrem,
é capaz de acender uma centelha.
Mesmo não nutrindo estima alguma
as faíscas se difundem sem porquê.



Recebo uma ligação:
um aperto de mão, uma piscadela.
Recordo, enfim, de que ali houve lição
mesmo aonde olhos não puderam alcançar.

                                                      o licor é um já-dito
sorvido por todos
que se julgam pioneiros!

É preciso antecipar, prever,
ainda que sem nenhuma garantia,
o passo dado pelo homem
o dito que fora dito
em milhões de palavras alheias.

Desprovido de sentido, porém,
às portas do ouvido
insisto sem pestanejar.

soneto (insustentável) de amor

Em Buenópolis, tempo que não me deixou
passo dois dedos sobre a sobrancelha direita
e não reparo nas minhas dúvidas
já que a incerteza fora a única marca dos anos

Mas sob a sobrecasaca e abaixo das sobrancelhas
uma certeza quer abrigar meu crânio
minha ossatura, meus nervos, sangue
e não se trata de pouca de coisa, vergonha

A certeza como um soneto mal escrito
que deixa traços sem métrica, rima
certamente, uma forma de sonhar

Na falta de vergonha, de abrigo constante, crânio
uma razão ultrapassa as grades dos olhos
a insustentável forma de tremer: amor

medo de agonizar

Os ruídos desenham músicas
intranquilas, no desassossego de quem partilha um pouco de agonia
como aranhas
nas teias, que formam novos pontilhados agonizantes, só



Um olhar
que não descreve
desenha
postula
pontua
seu olhar de lugar nenhum advém
nem detém alternativas




Quando, diante de telas
teias
tendas
a exatidão por uma porta passar
a fenda deixada será a única marca da incompletude

São ventos pobres aqueles que sugam da vida
o medo de agonizar


sábado, 9 de novembro de 2013

Cucuia inveterada

O que escrevo não é de hoje
nem será lido amanhã
o que escrevo é obra de um vendaval
perpétuo
inumano
invertebrado.


Não busque aqui seu mal-estar
ele estará na linha tênue
no desague
desmame
desarme
de tudo quanto há entre ti e o outro



Não tenho em mim o amor do mundo
nem o ódio
a indiferença tem um tom fósforo
(queima o que é inveterado!)

Não passe os olhos nos meus versos
aqueles que carregam plumas
e não reconhecem o plano sangrento de si


Que vá às cucuias!
que me deixem (versos) quietos
como os pássaros pousados no fio da estação
não vou explodir



Deixem aos cães
quem nasceu
CANINO

oceano que minha teia flutua

meus cabelos já ensandeceram

buscaram explicações em deus

diabos... mitos novos criados



mais um fracasso

daquele de quem duvidei

aquele por quem nutri ataques



e não me deixa de ser desastre

deus é a maior rebeldia

meu ateísmo: um oceano que minha teia flutua!

um ano depois

Na volta tudo o rio arrasa
um ano depois das mesmas palavras
as mesmas palavras
ausência é só um dito de outrora

ontem havia uma esteira, fábricas febris
na minha áurea, no meu porvir
um lance de além
(do quê que ruge sem palavras)
- torno-me humano e vertebrado

a esteira da fábrica rola peças de vários motores
vapt vupt, vapt vupt
uma senha, um passo...
vapt vupt, vapt vupt
uma senha, um passo

no outro dia, depois de um sono dormido
um novo baile, um novo curso
e lá!
Ele presentificado no sem porquê do nada.

sábado, 1 de junho de 2013

portão fechado

um palhaço diante do espelho
dançando 
fazendo o quatro

quando as pernas tornam-se viola
violão, guitarra
cordas

o giro do palhaço gira 
tonto, e faz o quatro
gira de quatro

é a insana lucidez
ao espelho, porém,
que retrata a alma em pedaços

sábado, 25 de maio de 2013

Tio dilatado

Ela tinha lá seus dotes. Não era bonita nem feia. Ainda quando pequena, acostumara a tirar a nota suficiente para passar, nem mais, nem menos. Alfrásia venceu certa etapa da vida, a vida escolar, com a necessidade de ter o necessário: pegava o ônibus escolar às cinco da manhã e lá se ia mais um dia. Morar no campo tem dessas coisas. A professora reclama de quando em vez da preguiça da menina, mas ela era pouco preguiçosa. Na verdade, a falta de sensibilidade dos professores parece dar margem a certas falácias. Alfrásia queria mesmo é aguentar o tempo obrigatório de classe para voltar ao sítio.

O pedaço de terra era de um tio distante, e havia sido arrendado para o pai de Alfrásia. Toda vez que os parentes (os donos da terra) vinham passear a coisa agitava. Aos nove, a menina não esquece dessa história, os tios afortunados vieram para mais uma visita e Alfrásia lá tomava o café da tarde. Já tinha ido à escola pela manhã e feito as obrigações do lar, aproveitava para sorver o café morno. As louças precisavam ficar brilhando ou a vara cantava perna a fora. O pai da garota, Seu Lancho, costumava dizer que café quente estraga a voz - era mesmo o sonho do pai ver Alfrásia, filha única, cantando como os filhos de Francisco. Cantar, cantar, a menina não gostava, melhor, não sabia se gostava de verdade. Essas coisas de abrir a garganta era um tanto ameaçador (o café quente queima as cordas vocais, mas boca fechada não entra mosquito).

Alfrasia tomava café morno quando os tios de dinheiro chegaram: o dia inesquecível. Foram logo na garrafa de café. O primeiro, tio João, o único que havia realmente dinheiro, os demais apenas o parasitava, cuspiu longe o café, café morno, desgraça! Dizer mesmo o que, tio... A menina consentiu com a cabeça em silêncio. Sempre que vinham visitar a família de Alfrásia, eles traziam alguma coisa para o pai. Esse era um costume naquela região, nada de muito valor, apenas algo que demonstrasse certo apreço pelo anfitrião. Dessa vez, o pai da garotinha ficou surpreendido por receber uma arma calibre 22. Afasta mal olhado, Lancho! O problema daquela região era o demasiado roubo a gados.

Esse dia não era mesmo para ser esquecido: Alfrásia, depois da partida dos visitantes, sentou-se ao colo do pai. Ela tinha uma maneira própria de sentar-se. Geralmente ela se sentava apenas em um lado da perna do pai, ali ficava horas a fio. Esse dia, porém, a curiosidade deixou um traço na pata de Jovinha, o cachorro da família. Ainda no colo, um disparo calibre 22, uma pata quebrada.

Jovinha não conhecia desonestidade. Sabia mesmo que a culpa não era da menina ou do pai. Entendeu que aquele era um momento de dor, curtir como se faz ao queijo. Jovinha ficava deitado olhando os queijos descansando; foi descansar.  A família adorava o cãozinho e cuidaram como puderam dele. A pata, entretanto, ficou marcada tanto a Alfrásia quanto ao mancar do cão. A partir daí, Jovinha e Alfrásia permitiram-se um contato mais intenso, mas próximo.

Era o dia da formatura de Alfrásia. As pessoas daquela região, em torno da Cidade de Goiás, não tinham hábito de finalizar o Ensino Médio. Alfrásia estava ansiosa porque todos os familiares iriam vê-la. Aquele dia, ela não ia precisar ir de ônibus, o tio a levaria no carro. Era como sonho, sonho de um casamento próspero ou uma festa de quinze anos, essas festas que mobilizam toda a família e a vizinhança, a garota ansiosamente não parava de locomover-se (quarto-sala-banheiro), nenhuma palavra: ela movimentava-se. Na frente do velho espelho trincado, encenava o momento exato de receber o diploma. Na família apenas três pessoas conseguiram passar por aquilo, uma façanha familiar.

 Esses rituais são mesmo interessantes, infelizmente nem todos os cães conseguem compreender. Jovinha estava triste, escondia e aparecia tentando dizer algo. Algo como um tiro, algo que o fizesse mexer as patas de forma de diferente. Alfrásia pouco compreendia o que acontecia com o companheiro de afeto, o cão. Ele procurava fazer-se claro... À frente do espelho, o cachorro tentava disputar espaço com a garota, escorava na perna dela e a empurrava. Nada. A festa aproximava e os convidados (o tio rico principalmente, claro) já estavam próximos. Era óbvio que trariam presentes, algo que a agradasse mesmo sendo de pouco valor. A tia Joana sabia fazer renda, traria algo do gênero, talvez. Perguntava-se o que de fato gostaria de receber: nenhuma resposta. O latido do cão, um latido.

Alfrásia não queria deixar Jovinha ali, solitariamente. Ela foi ao encontro do cão (perto do espelho da sala) e o levou ao quarto dela. Aproximaram-se, e Alfrásia passou a prever como seria aquele dia. Que presente ganharia do tio rico? O rosnava a cada palavra. Alfrásia não estava disposta a fazer essas coisas naquela hora, mas Jovinha já se manifestava com a força característica dele. Jovinha já estava claramente excitado e Alfrásia, diante de tanta expectativa para aquele dia, julgou necessário aquela entrega, naquele momento. A moça levantou o vestido e abaixou a calcinha. O cão, já sabendo o rumo de casa, penetrou várias vezes a moça. Depois de algum tempo, o pênis de Jovinha dilatou bastante de modo a não sair da vagina de Alfrásia, enquanto os familiares gritavam por Alfrásia:

- Seu tio chegou, menina!

sexta-feira, 10 de maio de 2013

unhas vermelhas

Afastado, um passo mais longe de minha genitora. Ela longe longe personificada em afetos: x-box e o escambau. Eu pintava quadros como quem pisa na terra, desde terna idade. Cada pincelada, um afago entorpecente. 

Há um cheiro convicto perseguidor: meu pai amava usar o ofato antes de comer qualquer alimento; meninote, eu adorava saborear terra vermelha. Daí a cor vermelho-terra, gosto de terra molhada. Pintura aconchegante, reunião de corpos. 

Luciana, minha mãe, foi embora ainda quando tinha dois anos. Verdade, verdade, nem dois anos tinha, e ela ao estrangeiro. Num misto de sei lá o que, eu comia as unhas pequeninas, buscando calor. Papai precisou dos meus cuidados; digo assim porque, diante da lonjura de mamãe, passei a dar um pouco de ar brando ao pai. Kafka escreveu uma carta que bem que o pai devia ter lido, digo, meu pai. Meu pai, Juliano, devia ter lido Carta ao pai às avessas. Ele não me deixava na varanda enquanto eu chorava, nunca! Papai dormia diante das minhas unhas pequeninas que eram esfaceladas. O pai de Kafka, a partir das palavras de K., era tão meninote que precisava impor a violência para calar as inquietações do jovem. Digo que é o mesmo: estar dormindo ou acordado demais.

Aqui, carta não é. Um conto, uma história autobiográfica. Não afirmo que seja meta biográfica, pois que ainda não fui convencido da potência, qualidade, "meta". Metalinguagem nenhuma existe para além da crítica; é, antes, linguagem por excelência. Eu cresci nessa corrida edipiana (se isso é critério para definir alguém, que interprete essa pirâmide). É inútil dizer que papai dificilmente alcançava êxito com as mulheres. Mais: meu pai, Juliano, não é/era feio, não; tampouco faltava habilidade no trato com as moças, entretanto, uma certa postura o dominava. 

Da farmácia, dois pontos: nesse contexto farmacológico é claro que vó Ana empurrou papai adentro a um consultório psiquiátrico. Era óbvio o diagnóstico: o médico não pestanejou e logo logo, disse: "Depressão com quadro esquizoide". Essa última parte foi o que deixou vó Ana numa situação nada confortável. Ela, de pouca leitura, boa de pintura e costura, foi longo perguntar meu avô Joel sobre o que era essa coisa "esquizoide". Vovô pouco importou com a esquisitice do nome e, diante da sabedoria que só a vida proporciona, avisou que era um tipo de sonolência. Deliberou sossegadamente um chá de ervas que podia curar o sono profundo do meu pai. Papai tomava todos os dias os remédios de vovô, preparados por vó Ana, enquanto o sono permanecia à espreita.

Eu - nessa situação conheci a pintura. Minha vó já tinha pintado bastante, ainda quando jovem. Logo casou-se, cedo casou-se, e passou a dedicar-se à vida familiar (vó Ana era a mãe de papai: verdade que conheci afetuosamente apenas a parte de pai). O que obviamente não impossibilitava a prática da pintura não era propriamente a convivência entre a vó e o vô, mas algo ainda nebuloso. Sei que vó Ana adorava pintar, assim como adorava tomar café à tarde, ou costurar nas horas de ócio. Ela, já casada, pintou um último quadro, "Palhaço Bozo", porém, daí algumas contradições advém. É sabido que vovô odiava (não às claras) o fato de vovó ficar horas à beira da tela. Um ciúmes (digo por minha conta) tomou meu avô, e ele tinha certa razão. Essa conversa de que a obra deve ter verossimilhança, ah, tamanha balela. Foi, entretanto, esse papo furado que fez vovô procurar obsessivamente a razão de cada quadro. O último logo fez sentido: minha vó Ana tinha sido, pois, apaixonada em um circense há tempos, antes mesmo de conhecer vô Joel. Proibido. Palavra, ponto.

Vó Ana passou a costurar com maior frequência, esqueceu o Bozo - o quadro foi dado a um vizinho que adorava o fato de alguém de idade deliciar-se às artes plásticas (ele provavelmente não gostou da pintura propriamente dita, digo eu). Mas, afirmo por minha conta e risco que não há nada mais inverossível que a realidade: vovó, anos depois de doar o quadro, segredou que não havia nenhum circense na história de vida dela. Ela foi capaz de dizer que o sujeito-bozo seria uma grande fantasia, uma vontade dessas que vão e vem, mas que nunca se esquece. "Vó, é bom essa coisa de tricô?"

Ouvir essas histórias pessoais não eram fáceis: sempre pensava na terra, o vermelho da terra. Catchup não é gostoso, jamais!, contudo tem longe um vermelho, longe longe vermelho-terra. Nessa longa trajetória, há meu vício nessa saudade que sinto, nessa reunião possível a partir do vermelho opaco da terra. O gosto está em tudo, mas mesmo assim ninguém é capaz de notá-lo; raspar a língua ao palato (mole/duro) é uma maneira possível de sujar-se nessa terra de ninguém. 

Tudo que ainda não vi torna-se espasmo durante a noite. Sonho pouco. É duro de assumir que quando a noite é alta meu olhos estremecem: espasmos laranjas (não muito fortes) tomam meus olhos inicialmente, em seguida sou todo vermelho, corpo todo!, gosto de terra vermelha molhada  Sou opaco, frio. Estremeço vermelho úmido e raramente acordo de supetão. Eu havia ouvido que acordar bruscamente é fruto de uma ameaça real... Não sou ameaçado, acordo leve, areia soprada.  "Bem ou mal, filho, tricotar passa tempo." 

Eu durmo perto de meu cavalete. Ganhar esse cavalete foi uma experiência para lá de provocante. Jamais tivera coragem de mostrar minhas pinturas a outrem, entretanto, estudando uma forma de ganhar um cavalete novo (até então usava o antigo de minha vó Ana) topei participar de um concurso. Não foi bem assim, aliás, nunca é bem assim. Se, por exemplo, eu fosse recontar toda minha história é nítido que não contaria da forma que é posto por hora. De qualquer forma, o motivo mesmo de ter participado daquele concurso se passa pela chamada que vi em um site de Artes. Era uma unha de esmalte carcomido - fizeram de tal forma a não identificar a antiga cor do esmalte. O dedo polegar apontava nalgum lugar, porém era a unha o foco principal. Hoje não sei até que ponto era essa a intenção do publicitário, de qualquer forma, foi, pois, a minha visão da propaganda. Lancei-me nesse concurso e venci: um cavalete novo.

Hoje, aqui, um cavalete novo, uma possível pintura. Depois de mais um sonho (acordei leve, seco), o cavalete não parecia apropriado ali, ao lado da cama. Levei-o à área, perto da garagem (não tenho carros, o que garante um espaço aberto maior). Dali, terra, terra vermelha que nutre toda a casa. Nesses dias, com a morte do vô Joel, seguida meses depois por vó Ana, a casa ficou mais silenciosa que o silêncio do tricô de vó Ana. Papai, hora dessa, deve estar em mais um colo de mulher: anos e anos repetidos de sono profundo parece tê-lo despertado, revive os vinte anos, anos que mamãe foi embora. Choveu essa noite. Dedos ao chão, pego um pouco de terra vermelha e levo à boca. Choveu. Os dedos lambuzados, pinto em uma folha A4 com a tinta da terra. Minha palheta são as unhas que dão um contorno gritado à silhueta: não sou eu, uma imagem, porém. Longínqua. 

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Palimpsesto nenhum


que leva, pois, a escrita
nenhum branco preto cabe nesse espaço
e não se trata necessariamente de uma falta


- uma sombra: tradução impossível
sombra, metáfora afora
áporo
auto-convencimento serve de definição


uma imagem que falha
sem que nenhuma outra imagem pré-configure
palimpsesto nenhum


sonhos passam aos mil
há mil outros espaços em algum terreno
que me refaz diante de um outro




Louca, não sou

Louca, não sou

Louca, não sou
Tão pouco sou normal
As fronteiras não existem nas raias de um ser inteiro

Loucura é ser pela metade
Ser humano parcial
Guardar amores e segredos
Nesses cofres virtuais

Eu sou toda
Ou não sou
Até minhas reservas e medos
São públicos
O que escondo me revela

Aí minha insanidade:
Não renegar a loucura
Aceitar no corpo todo
Minha alma desigual
Louca, não sou

Autoria: Lua Barreto

terça-feira, 7 de maio de 2013

ocorrência vultosa

Ocorrência vultosa

Retorno sem saída ao inominável
mesmo sabendo que em pouco avancei
nesse instante o corpo exige um novo romance
que ultrapasse as barreiras do léxico
'preciso de um romance' não é um poema
'preciso de um romance' é de fato uma necessidade, turbilhão
o que pulsa desenfreadamente

vértebras, entranhas
são dilaceradas diante da ocorrência vultosa
impregnada de natumanidade
já disse: as línguas estão mortas
Proclamo: as línguas estão mortas a sete palmos
a língua dos cães é língua viva - está escrito
é língua viva, na transparência da água límpida
(a morte é apenas um último capítulo)




terça-feira, 16 de abril de 2013

Excreções do ócio



No dia 15-05-2013, na livraria NOBEL, às 19:00h, será o lançamento do meu novo livro: Excreções do ócio. Sintam-se convidados.



natumanidade perdida



Em meados do ano vinte do século vinte e um, Robson chegava a Salvador. Havia passado um bom tempo distante, muitos sequer apostavam que ele ainda estava vivo. Ele desceu de uma embarcação chique, esses cruzeiros que gringos adoram, e adentrou a Terra de Todos os Santos. Robson queria encontrar a família que há tanto tempo não via, nem ouvia falar. Com o seu fiel cão ao lado, Ori, acompanhado da gata siamesa filhote, Irta, e uma pequena mala com roupas, rompeu a cidade em busca de resquício de onde vivera. 

Uma águia, embora poucos notassem, sobrevoava os passos de Robson. Ele carregava uma face tranquila e as mãos leves, que, de quando em vez, paravam para acariciar Irta.  A gata, além da comum tranquilidade dos felinos, vinha pendurada no ombro dele e, sem que precisasse parar, passava os dedos abertos pelos pelos do bichano. Robson caminhava resolutamente sabendo aonde ia - encontraria os familiares e os beijaria. Não passava pela mente dele que alguns poderiam estar mortos, doentes ou já se mudado dali. Afinal, os anos costumam ser refém de grandes surpresas. 

Os bares estavam cheios. Robson tentou adivinhar que dia seria aquele. Ora, dia de Iemanjá não era, as roupas à beira mar logo teriam denunciado. Pensou que pudesse ser início do ano - janeiro? Descartou a ideia se justificando que nesse mês as pessoas andam mais lentas devido à ressaca de fim de ano. Parou em um semáforo e tentou ler algumas palavras escritas em um toldo comercial. Nada compreendeu. Olhou do outro lado e estava claramente escrito "hotel", o que não o incomodou. Mais à frente, alguns nomes, quando tentava lê-los, pareciam de outra terra. "Farmácia" o fez lembrar de "Pharmácia", mas alguns nomes não eram mesmo dali. A mente de Robson não se perguntava o porquê, entretanto, tomava nota de todas as estranhezas de um antigo mundo. 

Ao lado de tanto movimento, tanto carro, Robson começou a suspeitar que teria errado de lugar. E se aquela não fosse a terra onde se criara, Salvador. Tentou abordar um transeunte para perguntar-lhe alguma coisa, porém nenhum manteve os olhares nele, ninguém topou dar-lhe ouvidos. Entrou em um comércio que curiosamento o atraiu. De longe avistou em um toldo a escritura "Abelhuda, um momento de prazer". Ainda, no mesmo anúncio, a seguinte inscrição: "www.abelhuda.com.br". Nada dizia, nada compreendia, ainda assim, uma atração o arremessou loja adentro. 

Ao entrar, Robson sentiu seu membro ficar ereto - o que não era novidade para ele. Aproximou-se de uma mulher e a perguntou do que se tratava aquilo (apontando para um objeto pontudo). Diante da falta de resposta da suposta vendedora, Robson a empurrou e berrou ao pé do ouvido dela, porém uma boneca inflável caiu ao chão sem resposta. Sem compreender, deu-se a observar o espaço meticulosamente. 

Ori estava silencioso ao lado do fiel companheiro, Robson. Ori aproveitou a queda da boneca inflável e lançou-se sobre ela. Ainda conseguiu penetrá-la por duas vezes, porém, um rapaz alto e forte, repleto de bugigangas pelo corpo passou a agredir Ori, Robson e Irta. Os três foram colocados aos tapas para fora do estabelecimento comercial. Saíram sem muito compreender aquela experiência.

As ruas ainda gemiam os motores dos carros e os pedestres continuavam sem conseguir fitá-los, andavam apressadamente. Somente Ori andava calmamente. Não gostou obviamente de ser expulsado daquele lugar divino, daquela maneira estúpida, mas no lugar da raiva, passou a pensar no pedaço de roupa que estava na boca - tinha conseguido mordiscar a perna daquele troglodita. Sem muito o que dizer, Ori observava os cães daquela cidade com certa tristeza. Os cachorros daquele lugar geralmente andavam a sós, descuidados, machucados. Ora os cães dali estavam completamente hostilizados, ora eram bonequinhos de pano. Viu uma cadela que sentiu ojeriza - uma cadela de laço, de penacho, que isso?

Ori sabia exatamente o que Robson almejava, contudo, ponderava bastante aqueles instintos de Robson - , chegar depois de tantos anos na casa desses familiares não seria sinal de insanidade? A gata, embora filhote, parecia também entender as insanidades dos planos daqueles três: Ori, Irta e Robson. A mala de roupas pesava tanto que Robson já havia trocado de mão umas dez vezes. Ori, em reflexões profundas, pensava na loucura de carregar roupas, de ir a um lugar depois de tanto anos, de caminhar tão apressadamente. Ainda, Ori indagou-se se estava posicionando-se como um sabotador de sonhos, afinal, era nítido o desejo do amigo em rever esses parentes. Chegou a conclusão que não, imediatamente, mas logo sentiu uma ponta de ciúmes. Robson encontrar essas pessoas de tanto tempo esqueceria do amigo? Ou Ori já havia sido esquecido desde a primeira vez que Robson pensara nessas ideias insanas...

Irta não queria muito saber dos planos de Robson. Desde o primeiro dia havia ficado apaixonada em Robson por causa das mãos grossas dele. Era para lá de sedutor sentir as mãos dele correndo pelos pelos. Enquanto Robson mantivesse aquela postura, ah, sem dúvidas que Irta não o largaria. Robson era sua casa, seu lar, seu amor. Além do mais, Robson sempre protegera Irta de Ori, preferia deixá-los longes, bem distantes, e, quando Ori se aproximava.... Logo Robson se punha à frente e sequer permitia o contato entre eles.

A relação entre Ori e Robson era um tanto silenciosa, não sem amor. Eles não trocavam palavra nenhuma, mas entendiam-se perfeitamente. Ori sabia dos limites, do vazio que por certo tomava o companheiro, mas preferia bancar o despercebido do que tocar na ferida. Por exemplo, não estava óbvio que nenhum parente existiria ali? Ora, não estava óbvio que o tempo já havia refeito uma nova identidade para o desaparecido? Refazer isso podia ser muito mais doloroso, mas como dizer isso ao obstinado Robson? Muito melhor, assim pensava Ori, era permanecer lá onde estavam, na vida tranquila, sossegada. Rever quem há muito o esqueceu?...

A marcha de Robson parecia mais forte. O ritmo apressava, mas Ori parecia resistir diminuindo os passos, procurando contemplar outras faces, outras vidas. As árvores... Como Ori entendia cada folha, cada realização de fotossíntese... Ori parou. Robson continuou e Irta fechou os olhos diante das carícias. Ori, percebendo que ninguém o tinha notado, correu à frente dos dois e, após uns cinco minutos de caminhada-corrida, Ori caiu. Caiu tão aceleradamente que realmente machucou a pata dianteira. Robson, olhando fixamente os prédios, pisou na outra pata (aquela que não tinha machucado) e continuou viagem. Machucado tentou gritá-lo, mas já era tarde.

Robson, depois de uma longa caminhada, quase uma corrida, chegou ao destino. Não encontrando ninguém, Robson avistou uma caixa de maribondo e a cutucou com as patas de Irta. Ao voo rasante de uma águia, os marimbondos deixaram-se aproximar de Robson e Irta, permitindo encontros diante da natumanidade esquecida.


terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

ouvidos - sem palavras

se as palavras correm entre línguas
não é porque o projeto faliu

enquanto sua língua rejeitar a fala ôntica
a fala do sonhos
dos poetas (que não falam, mas são falados)
as letras não formarão imagens plenas

o projeto não faliu
falo sem palavras quando os corpos se dão a ouvir

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Nada, além

Rejeito as palavras como quem as ama
e amo de fato!
amo o ponto do meio que foge de toda objetividade
(um pombo sobre o muro)
amo as palavras impossíveis de sinonimação

Ainda, a comunicação é veículo capaz de esconder as palavras
do meio, sem-palavras
o interstício, o inominável
nada
além

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Do poeta, um corpo - projeto sem palavras



Do corpo o sangue resta
o poeta nada com o corpo de Iemanjá
sem transgressão, sem rebeldia
nenhuma revolução
o nado sem palavras se instala e refaz o instante limítrofe dos navegantes
e não impõe um novo limite ao inominável

Se me atrevo a considerar a poesia sem palavras é porque considero o corpo
de escritas infindas, mares revoltos e água doce
se me atrevo a considerar a fala sem palavras é porque considero o instante
a fala que flui, frui, sem nenhuma expectativa

Do corpo que fala sem palavras não há o que se possa dizer
entretanto, considerá-lo no meu nado é fundamental
se meu corpo rasga o leitor no indescritível que é a linguagem
sem palavras e pontos
(não costuro mais)
há de longe, sem palavras, o nado de Iemanjá

Dela vários nomes são ditos
porque nem Janaína ou Iemanjá podem traduzir
nada
o inominável é congênito a quem se atreve saltar às ondas, perdido da lupa, da bússola
nada
e atreve com o corpo o salto da braçada além

porvir - projeto sem palavras



Não crê que posso dizer sem palavra?
meu mal ainda é querer explicar
porque disso não provem explicação nenhuma

Crê que os pontos são pombos de partida e chegada?
Não há interrupção a quem dialoga sem palavras
parada, partida
parada e partida já não se distingue ao olhar

Os pontos demarcam, enquanto o louvor propõe uma braçada além
Os pontos desistem de pensar
(é quando levanta-se para o preparo do café)
O louvor (sem palavras) permanece no devir

Se a vida é pura palavra é porque o limite da visão ainda não permite a hipótese do porvir


Enunciação - projeto sem fala

Enunciação - projeto sem fala

2013 figura sem palavras
em verdade vos digo sem palavras
sou, pois, a verdadeira passagem

Enunciei 2012
usei de palavras-bengalas, de gozo, de desmedido, de falatório sem ato

2013 figura sem palavras
enunciação

vida - projeto sem palavras

vida - projeto sem palavras

vida não é açúcar que adoce a manhã
[com 55% show de cacau]

Vida não tem definição ou adjetivo
não há ponto ou vírgula
ponto e vírgula
atropelada como é

vida