terça-feira, 16 de abril de 2013

Excreções do ócio



No dia 15-05-2013, na livraria NOBEL, às 19:00h, será o lançamento do meu novo livro: Excreções do ócio. Sintam-se convidados.



natumanidade perdida



Em meados do ano vinte do século vinte e um, Robson chegava a Salvador. Havia passado um bom tempo distante, muitos sequer apostavam que ele ainda estava vivo. Ele desceu de uma embarcação chique, esses cruzeiros que gringos adoram, e adentrou a Terra de Todos os Santos. Robson queria encontrar a família que há tanto tempo não via, nem ouvia falar. Com o seu fiel cão ao lado, Ori, acompanhado da gata siamesa filhote, Irta, e uma pequena mala com roupas, rompeu a cidade em busca de resquício de onde vivera. 

Uma águia, embora poucos notassem, sobrevoava os passos de Robson. Ele carregava uma face tranquila e as mãos leves, que, de quando em vez, paravam para acariciar Irta.  A gata, além da comum tranquilidade dos felinos, vinha pendurada no ombro dele e, sem que precisasse parar, passava os dedos abertos pelos pelos do bichano. Robson caminhava resolutamente sabendo aonde ia - encontraria os familiares e os beijaria. Não passava pela mente dele que alguns poderiam estar mortos, doentes ou já se mudado dali. Afinal, os anos costumam ser refém de grandes surpresas. 

Os bares estavam cheios. Robson tentou adivinhar que dia seria aquele. Ora, dia de Iemanjá não era, as roupas à beira mar logo teriam denunciado. Pensou que pudesse ser início do ano - janeiro? Descartou a ideia se justificando que nesse mês as pessoas andam mais lentas devido à ressaca de fim de ano. Parou em um semáforo e tentou ler algumas palavras escritas em um toldo comercial. Nada compreendeu. Olhou do outro lado e estava claramente escrito "hotel", o que não o incomodou. Mais à frente, alguns nomes, quando tentava lê-los, pareciam de outra terra. "Farmácia" o fez lembrar de "Pharmácia", mas alguns nomes não eram mesmo dali. A mente de Robson não se perguntava o porquê, entretanto, tomava nota de todas as estranhezas de um antigo mundo. 

Ao lado de tanto movimento, tanto carro, Robson começou a suspeitar que teria errado de lugar. E se aquela não fosse a terra onde se criara, Salvador. Tentou abordar um transeunte para perguntar-lhe alguma coisa, porém nenhum manteve os olhares nele, ninguém topou dar-lhe ouvidos. Entrou em um comércio que curiosamento o atraiu. De longe avistou em um toldo a escritura "Abelhuda, um momento de prazer". Ainda, no mesmo anúncio, a seguinte inscrição: "www.abelhuda.com.br". Nada dizia, nada compreendia, ainda assim, uma atração o arremessou loja adentro. 

Ao entrar, Robson sentiu seu membro ficar ereto - o que não era novidade para ele. Aproximou-se de uma mulher e a perguntou do que se tratava aquilo (apontando para um objeto pontudo). Diante da falta de resposta da suposta vendedora, Robson a empurrou e berrou ao pé do ouvido dela, porém uma boneca inflável caiu ao chão sem resposta. Sem compreender, deu-se a observar o espaço meticulosamente. 

Ori estava silencioso ao lado do fiel companheiro, Robson. Ori aproveitou a queda da boneca inflável e lançou-se sobre ela. Ainda conseguiu penetrá-la por duas vezes, porém, um rapaz alto e forte, repleto de bugigangas pelo corpo passou a agredir Ori, Robson e Irta. Os três foram colocados aos tapas para fora do estabelecimento comercial. Saíram sem muito compreender aquela experiência.

As ruas ainda gemiam os motores dos carros e os pedestres continuavam sem conseguir fitá-los, andavam apressadamente. Somente Ori andava calmamente. Não gostou obviamente de ser expulsado daquele lugar divino, daquela maneira estúpida, mas no lugar da raiva, passou a pensar no pedaço de roupa que estava na boca - tinha conseguido mordiscar a perna daquele troglodita. Sem muito o que dizer, Ori observava os cães daquela cidade com certa tristeza. Os cachorros daquele lugar geralmente andavam a sós, descuidados, machucados. Ora os cães dali estavam completamente hostilizados, ora eram bonequinhos de pano. Viu uma cadela que sentiu ojeriza - uma cadela de laço, de penacho, que isso?

Ori sabia exatamente o que Robson almejava, contudo, ponderava bastante aqueles instintos de Robson - , chegar depois de tantos anos na casa desses familiares não seria sinal de insanidade? A gata, embora filhote, parecia também entender as insanidades dos planos daqueles três: Ori, Irta e Robson. A mala de roupas pesava tanto que Robson já havia trocado de mão umas dez vezes. Ori, em reflexões profundas, pensava na loucura de carregar roupas, de ir a um lugar depois de tanto anos, de caminhar tão apressadamente. Ainda, Ori indagou-se se estava posicionando-se como um sabotador de sonhos, afinal, era nítido o desejo do amigo em rever esses parentes. Chegou a conclusão que não, imediatamente, mas logo sentiu uma ponta de ciúmes. Robson encontrar essas pessoas de tanto tempo esqueceria do amigo? Ou Ori já havia sido esquecido desde a primeira vez que Robson pensara nessas ideias insanas...

Irta não queria muito saber dos planos de Robson. Desde o primeiro dia havia ficado apaixonada em Robson por causa das mãos grossas dele. Era para lá de sedutor sentir as mãos dele correndo pelos pelos. Enquanto Robson mantivesse aquela postura, ah, sem dúvidas que Irta não o largaria. Robson era sua casa, seu lar, seu amor. Além do mais, Robson sempre protegera Irta de Ori, preferia deixá-los longes, bem distantes, e, quando Ori se aproximava.... Logo Robson se punha à frente e sequer permitia o contato entre eles.

A relação entre Ori e Robson era um tanto silenciosa, não sem amor. Eles não trocavam palavra nenhuma, mas entendiam-se perfeitamente. Ori sabia dos limites, do vazio que por certo tomava o companheiro, mas preferia bancar o despercebido do que tocar na ferida. Por exemplo, não estava óbvio que nenhum parente existiria ali? Ora, não estava óbvio que o tempo já havia refeito uma nova identidade para o desaparecido? Refazer isso podia ser muito mais doloroso, mas como dizer isso ao obstinado Robson? Muito melhor, assim pensava Ori, era permanecer lá onde estavam, na vida tranquila, sossegada. Rever quem há muito o esqueceu?...

A marcha de Robson parecia mais forte. O ritmo apressava, mas Ori parecia resistir diminuindo os passos, procurando contemplar outras faces, outras vidas. As árvores... Como Ori entendia cada folha, cada realização de fotossíntese... Ori parou. Robson continuou e Irta fechou os olhos diante das carícias. Ori, percebendo que ninguém o tinha notado, correu à frente dos dois e, após uns cinco minutos de caminhada-corrida, Ori caiu. Caiu tão aceleradamente que realmente machucou a pata dianteira. Robson, olhando fixamente os prédios, pisou na outra pata (aquela que não tinha machucado) e continuou viagem. Machucado tentou gritá-lo, mas já era tarde.

Robson, depois de uma longa caminhada, quase uma corrida, chegou ao destino. Não encontrando ninguém, Robson avistou uma caixa de maribondo e a cutucou com as patas de Irta. Ao voo rasante de uma águia, os marimbondos deixaram-se aproximar de Robson e Irta, permitindo encontros diante da natumanidade esquecida.