sábado, 25 de maio de 2013

Tio dilatado

Ela tinha lá seus dotes. Não era bonita nem feia. Ainda quando pequena, acostumara a tirar a nota suficiente para passar, nem mais, nem menos. Alfrásia venceu certa etapa da vida, a vida escolar, com a necessidade de ter o necessário: pegava o ônibus escolar às cinco da manhã e lá se ia mais um dia. Morar no campo tem dessas coisas. A professora reclama de quando em vez da preguiça da menina, mas ela era pouco preguiçosa. Na verdade, a falta de sensibilidade dos professores parece dar margem a certas falácias. Alfrásia queria mesmo é aguentar o tempo obrigatório de classe para voltar ao sítio.

O pedaço de terra era de um tio distante, e havia sido arrendado para o pai de Alfrásia. Toda vez que os parentes (os donos da terra) vinham passear a coisa agitava. Aos nove, a menina não esquece dessa história, os tios afortunados vieram para mais uma visita e Alfrásia lá tomava o café da tarde. Já tinha ido à escola pela manhã e feito as obrigações do lar, aproveitava para sorver o café morno. As louças precisavam ficar brilhando ou a vara cantava perna a fora. O pai da garota, Seu Lancho, costumava dizer que café quente estraga a voz - era mesmo o sonho do pai ver Alfrásia, filha única, cantando como os filhos de Francisco. Cantar, cantar, a menina não gostava, melhor, não sabia se gostava de verdade. Essas coisas de abrir a garganta era um tanto ameaçador (o café quente queima as cordas vocais, mas boca fechada não entra mosquito).

Alfrasia tomava café morno quando os tios de dinheiro chegaram: o dia inesquecível. Foram logo na garrafa de café. O primeiro, tio João, o único que havia realmente dinheiro, os demais apenas o parasitava, cuspiu longe o café, café morno, desgraça! Dizer mesmo o que, tio... A menina consentiu com a cabeça em silêncio. Sempre que vinham visitar a família de Alfrásia, eles traziam alguma coisa para o pai. Esse era um costume naquela região, nada de muito valor, apenas algo que demonstrasse certo apreço pelo anfitrião. Dessa vez, o pai da garotinha ficou surpreendido por receber uma arma calibre 22. Afasta mal olhado, Lancho! O problema daquela região era o demasiado roubo a gados.

Esse dia não era mesmo para ser esquecido: Alfrásia, depois da partida dos visitantes, sentou-se ao colo do pai. Ela tinha uma maneira própria de sentar-se. Geralmente ela se sentava apenas em um lado da perna do pai, ali ficava horas a fio. Esse dia, porém, a curiosidade deixou um traço na pata de Jovinha, o cachorro da família. Ainda no colo, um disparo calibre 22, uma pata quebrada.

Jovinha não conhecia desonestidade. Sabia mesmo que a culpa não era da menina ou do pai. Entendeu que aquele era um momento de dor, curtir como se faz ao queijo. Jovinha ficava deitado olhando os queijos descansando; foi descansar.  A família adorava o cãozinho e cuidaram como puderam dele. A pata, entretanto, ficou marcada tanto a Alfrásia quanto ao mancar do cão. A partir daí, Jovinha e Alfrásia permitiram-se um contato mais intenso, mas próximo.

Era o dia da formatura de Alfrásia. As pessoas daquela região, em torno da Cidade de Goiás, não tinham hábito de finalizar o Ensino Médio. Alfrásia estava ansiosa porque todos os familiares iriam vê-la. Aquele dia, ela não ia precisar ir de ônibus, o tio a levaria no carro. Era como sonho, sonho de um casamento próspero ou uma festa de quinze anos, essas festas que mobilizam toda a família e a vizinhança, a garota ansiosamente não parava de locomover-se (quarto-sala-banheiro), nenhuma palavra: ela movimentava-se. Na frente do velho espelho trincado, encenava o momento exato de receber o diploma. Na família apenas três pessoas conseguiram passar por aquilo, uma façanha familiar.

 Esses rituais são mesmo interessantes, infelizmente nem todos os cães conseguem compreender. Jovinha estava triste, escondia e aparecia tentando dizer algo. Algo como um tiro, algo que o fizesse mexer as patas de forma de diferente. Alfrásia pouco compreendia o que acontecia com o companheiro de afeto, o cão. Ele procurava fazer-se claro... À frente do espelho, o cachorro tentava disputar espaço com a garota, escorava na perna dela e a empurrava. Nada. A festa aproximava e os convidados (o tio rico principalmente, claro) já estavam próximos. Era óbvio que trariam presentes, algo que a agradasse mesmo sendo de pouco valor. A tia Joana sabia fazer renda, traria algo do gênero, talvez. Perguntava-se o que de fato gostaria de receber: nenhuma resposta. O latido do cão, um latido.

Alfrásia não queria deixar Jovinha ali, solitariamente. Ela foi ao encontro do cão (perto do espelho da sala) e o levou ao quarto dela. Aproximaram-se, e Alfrásia passou a prever como seria aquele dia. Que presente ganharia do tio rico? O rosnava a cada palavra. Alfrásia não estava disposta a fazer essas coisas naquela hora, mas Jovinha já se manifestava com a força característica dele. Jovinha já estava claramente excitado e Alfrásia, diante de tanta expectativa para aquele dia, julgou necessário aquela entrega, naquele momento. A moça levantou o vestido e abaixou a calcinha. O cão, já sabendo o rumo de casa, penetrou várias vezes a moça. Depois de algum tempo, o pênis de Jovinha dilatou bastante de modo a não sair da vagina de Alfrásia, enquanto os familiares gritavam por Alfrásia:

- Seu tio chegou, menina!

sexta-feira, 10 de maio de 2013

unhas vermelhas

Afastado, um passo mais longe de minha genitora. Ela longe longe personificada em afetos: x-box e o escambau. Eu pintava quadros como quem pisa na terra, desde terna idade. Cada pincelada, um afago entorpecente. 

Há um cheiro convicto perseguidor: meu pai amava usar o ofato antes de comer qualquer alimento; meninote, eu adorava saborear terra vermelha. Daí a cor vermelho-terra, gosto de terra molhada. Pintura aconchegante, reunião de corpos. 

Luciana, minha mãe, foi embora ainda quando tinha dois anos. Verdade, verdade, nem dois anos tinha, e ela ao estrangeiro. Num misto de sei lá o que, eu comia as unhas pequeninas, buscando calor. Papai precisou dos meus cuidados; digo assim porque, diante da lonjura de mamãe, passei a dar um pouco de ar brando ao pai. Kafka escreveu uma carta que bem que o pai devia ter lido, digo, meu pai. Meu pai, Juliano, devia ter lido Carta ao pai às avessas. Ele não me deixava na varanda enquanto eu chorava, nunca! Papai dormia diante das minhas unhas pequeninas que eram esfaceladas. O pai de Kafka, a partir das palavras de K., era tão meninote que precisava impor a violência para calar as inquietações do jovem. Digo que é o mesmo: estar dormindo ou acordado demais.

Aqui, carta não é. Um conto, uma história autobiográfica. Não afirmo que seja meta biográfica, pois que ainda não fui convencido da potência, qualidade, "meta". Metalinguagem nenhuma existe para além da crítica; é, antes, linguagem por excelência. Eu cresci nessa corrida edipiana (se isso é critério para definir alguém, que interprete essa pirâmide). É inútil dizer que papai dificilmente alcançava êxito com as mulheres. Mais: meu pai, Juliano, não é/era feio, não; tampouco faltava habilidade no trato com as moças, entretanto, uma certa postura o dominava. 

Da farmácia, dois pontos: nesse contexto farmacológico é claro que vó Ana empurrou papai adentro a um consultório psiquiátrico. Era óbvio o diagnóstico: o médico não pestanejou e logo logo, disse: "Depressão com quadro esquizoide". Essa última parte foi o que deixou vó Ana numa situação nada confortável. Ela, de pouca leitura, boa de pintura e costura, foi longo perguntar meu avô Joel sobre o que era essa coisa "esquizoide". Vovô pouco importou com a esquisitice do nome e, diante da sabedoria que só a vida proporciona, avisou que era um tipo de sonolência. Deliberou sossegadamente um chá de ervas que podia curar o sono profundo do meu pai. Papai tomava todos os dias os remédios de vovô, preparados por vó Ana, enquanto o sono permanecia à espreita.

Eu - nessa situação conheci a pintura. Minha vó já tinha pintado bastante, ainda quando jovem. Logo casou-se, cedo casou-se, e passou a dedicar-se à vida familiar (vó Ana era a mãe de papai: verdade que conheci afetuosamente apenas a parte de pai). O que obviamente não impossibilitava a prática da pintura não era propriamente a convivência entre a vó e o vô, mas algo ainda nebuloso. Sei que vó Ana adorava pintar, assim como adorava tomar café à tarde, ou costurar nas horas de ócio. Ela, já casada, pintou um último quadro, "Palhaço Bozo", porém, daí algumas contradições advém. É sabido que vovô odiava (não às claras) o fato de vovó ficar horas à beira da tela. Um ciúmes (digo por minha conta) tomou meu avô, e ele tinha certa razão. Essa conversa de que a obra deve ter verossimilhança, ah, tamanha balela. Foi, entretanto, esse papo furado que fez vovô procurar obsessivamente a razão de cada quadro. O último logo fez sentido: minha vó Ana tinha sido, pois, apaixonada em um circense há tempos, antes mesmo de conhecer vô Joel. Proibido. Palavra, ponto.

Vó Ana passou a costurar com maior frequência, esqueceu o Bozo - o quadro foi dado a um vizinho que adorava o fato de alguém de idade deliciar-se às artes plásticas (ele provavelmente não gostou da pintura propriamente dita, digo eu). Mas, afirmo por minha conta e risco que não há nada mais inverossível que a realidade: vovó, anos depois de doar o quadro, segredou que não havia nenhum circense na história de vida dela. Ela foi capaz de dizer que o sujeito-bozo seria uma grande fantasia, uma vontade dessas que vão e vem, mas que nunca se esquece. "Vó, é bom essa coisa de tricô?"

Ouvir essas histórias pessoais não eram fáceis: sempre pensava na terra, o vermelho da terra. Catchup não é gostoso, jamais!, contudo tem longe um vermelho, longe longe vermelho-terra. Nessa longa trajetória, há meu vício nessa saudade que sinto, nessa reunião possível a partir do vermelho opaco da terra. O gosto está em tudo, mas mesmo assim ninguém é capaz de notá-lo; raspar a língua ao palato (mole/duro) é uma maneira possível de sujar-se nessa terra de ninguém. 

Tudo que ainda não vi torna-se espasmo durante a noite. Sonho pouco. É duro de assumir que quando a noite é alta meu olhos estremecem: espasmos laranjas (não muito fortes) tomam meus olhos inicialmente, em seguida sou todo vermelho, corpo todo!, gosto de terra vermelha molhada  Sou opaco, frio. Estremeço vermelho úmido e raramente acordo de supetão. Eu havia ouvido que acordar bruscamente é fruto de uma ameaça real... Não sou ameaçado, acordo leve, areia soprada.  "Bem ou mal, filho, tricotar passa tempo." 

Eu durmo perto de meu cavalete. Ganhar esse cavalete foi uma experiência para lá de provocante. Jamais tivera coragem de mostrar minhas pinturas a outrem, entretanto, estudando uma forma de ganhar um cavalete novo (até então usava o antigo de minha vó Ana) topei participar de um concurso. Não foi bem assim, aliás, nunca é bem assim. Se, por exemplo, eu fosse recontar toda minha história é nítido que não contaria da forma que é posto por hora. De qualquer forma, o motivo mesmo de ter participado daquele concurso se passa pela chamada que vi em um site de Artes. Era uma unha de esmalte carcomido - fizeram de tal forma a não identificar a antiga cor do esmalte. O dedo polegar apontava nalgum lugar, porém era a unha o foco principal. Hoje não sei até que ponto era essa a intenção do publicitário, de qualquer forma, foi, pois, a minha visão da propaganda. Lancei-me nesse concurso e venci: um cavalete novo.

Hoje, aqui, um cavalete novo, uma possível pintura. Depois de mais um sonho (acordei leve, seco), o cavalete não parecia apropriado ali, ao lado da cama. Levei-o à área, perto da garagem (não tenho carros, o que garante um espaço aberto maior). Dali, terra, terra vermelha que nutre toda a casa. Nesses dias, com a morte do vô Joel, seguida meses depois por vó Ana, a casa ficou mais silenciosa que o silêncio do tricô de vó Ana. Papai, hora dessa, deve estar em mais um colo de mulher: anos e anos repetidos de sono profundo parece tê-lo despertado, revive os vinte anos, anos que mamãe foi embora. Choveu essa noite. Dedos ao chão, pego um pouco de terra vermelha e levo à boca. Choveu. Os dedos lambuzados, pinto em uma folha A4 com a tinta da terra. Minha palheta são as unhas que dão um contorno gritado à silhueta: não sou eu, uma imagem, porém. Longínqua. 

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Palimpsesto nenhum


que leva, pois, a escrita
nenhum branco preto cabe nesse espaço
e não se trata necessariamente de uma falta


- uma sombra: tradução impossível
sombra, metáfora afora
áporo
auto-convencimento serve de definição


uma imagem que falha
sem que nenhuma outra imagem pré-configure
palimpsesto nenhum


sonhos passam aos mil
há mil outros espaços em algum terreno
que me refaz diante de um outro




Louca, não sou

Louca, não sou

Louca, não sou
Tão pouco sou normal
As fronteiras não existem nas raias de um ser inteiro

Loucura é ser pela metade
Ser humano parcial
Guardar amores e segredos
Nesses cofres virtuais

Eu sou toda
Ou não sou
Até minhas reservas e medos
São públicos
O que escondo me revela

Aí minha insanidade:
Não renegar a loucura
Aceitar no corpo todo
Minha alma desigual
Louca, não sou

Autoria: Lua Barreto

terça-feira, 7 de maio de 2013

ocorrência vultosa

Ocorrência vultosa

Retorno sem saída ao inominável
mesmo sabendo que em pouco avancei
nesse instante o corpo exige um novo romance
que ultrapasse as barreiras do léxico
'preciso de um romance' não é um poema
'preciso de um romance' é de fato uma necessidade, turbilhão
o que pulsa desenfreadamente

vértebras, entranhas
são dilaceradas diante da ocorrência vultosa
impregnada de natumanidade
já disse: as línguas estão mortas
Proclamo: as línguas estão mortas a sete palmos
a língua dos cães é língua viva - está escrito
é língua viva, na transparência da água límpida
(a morte é apenas um último capítulo)