sexta-feira, 10 de maio de 2013

unhas vermelhas

Afastado, um passo mais longe de minha genitora. Ela longe longe personificada em afetos: x-box e o escambau. Eu pintava quadros como quem pisa na terra, desde terna idade. Cada pincelada, um afago entorpecente. 

Há um cheiro convicto perseguidor: meu pai amava usar o ofato antes de comer qualquer alimento; meninote, eu adorava saborear terra vermelha. Daí a cor vermelho-terra, gosto de terra molhada. Pintura aconchegante, reunião de corpos. 

Luciana, minha mãe, foi embora ainda quando tinha dois anos. Verdade, verdade, nem dois anos tinha, e ela ao estrangeiro. Num misto de sei lá o que, eu comia as unhas pequeninas, buscando calor. Papai precisou dos meus cuidados; digo assim porque, diante da lonjura de mamãe, passei a dar um pouco de ar brando ao pai. Kafka escreveu uma carta que bem que o pai devia ter lido, digo, meu pai. Meu pai, Juliano, devia ter lido Carta ao pai às avessas. Ele não me deixava na varanda enquanto eu chorava, nunca! Papai dormia diante das minhas unhas pequeninas que eram esfaceladas. O pai de Kafka, a partir das palavras de K., era tão meninote que precisava impor a violência para calar as inquietações do jovem. Digo que é o mesmo: estar dormindo ou acordado demais.

Aqui, carta não é. Um conto, uma história autobiográfica. Não afirmo que seja meta biográfica, pois que ainda não fui convencido da potência, qualidade, "meta". Metalinguagem nenhuma existe para além da crítica; é, antes, linguagem por excelência. Eu cresci nessa corrida edipiana (se isso é critério para definir alguém, que interprete essa pirâmide). É inútil dizer que papai dificilmente alcançava êxito com as mulheres. Mais: meu pai, Juliano, não é/era feio, não; tampouco faltava habilidade no trato com as moças, entretanto, uma certa postura o dominava. 

Da farmácia, dois pontos: nesse contexto farmacológico é claro que vó Ana empurrou papai adentro a um consultório psiquiátrico. Era óbvio o diagnóstico: o médico não pestanejou e logo logo, disse: "Depressão com quadro esquizoide". Essa última parte foi o que deixou vó Ana numa situação nada confortável. Ela, de pouca leitura, boa de pintura e costura, foi longo perguntar meu avô Joel sobre o que era essa coisa "esquizoide". Vovô pouco importou com a esquisitice do nome e, diante da sabedoria que só a vida proporciona, avisou que era um tipo de sonolência. Deliberou sossegadamente um chá de ervas que podia curar o sono profundo do meu pai. Papai tomava todos os dias os remédios de vovô, preparados por vó Ana, enquanto o sono permanecia à espreita.

Eu - nessa situação conheci a pintura. Minha vó já tinha pintado bastante, ainda quando jovem. Logo casou-se, cedo casou-se, e passou a dedicar-se à vida familiar (vó Ana era a mãe de papai: verdade que conheci afetuosamente apenas a parte de pai). O que obviamente não impossibilitava a prática da pintura não era propriamente a convivência entre a vó e o vô, mas algo ainda nebuloso. Sei que vó Ana adorava pintar, assim como adorava tomar café à tarde, ou costurar nas horas de ócio. Ela, já casada, pintou um último quadro, "Palhaço Bozo", porém, daí algumas contradições advém. É sabido que vovô odiava (não às claras) o fato de vovó ficar horas à beira da tela. Um ciúmes (digo por minha conta) tomou meu avô, e ele tinha certa razão. Essa conversa de que a obra deve ter verossimilhança, ah, tamanha balela. Foi, entretanto, esse papo furado que fez vovô procurar obsessivamente a razão de cada quadro. O último logo fez sentido: minha vó Ana tinha sido, pois, apaixonada em um circense há tempos, antes mesmo de conhecer vô Joel. Proibido. Palavra, ponto.

Vó Ana passou a costurar com maior frequência, esqueceu o Bozo - o quadro foi dado a um vizinho que adorava o fato de alguém de idade deliciar-se às artes plásticas (ele provavelmente não gostou da pintura propriamente dita, digo eu). Mas, afirmo por minha conta e risco que não há nada mais inverossível que a realidade: vovó, anos depois de doar o quadro, segredou que não havia nenhum circense na história de vida dela. Ela foi capaz de dizer que o sujeito-bozo seria uma grande fantasia, uma vontade dessas que vão e vem, mas que nunca se esquece. "Vó, é bom essa coisa de tricô?"

Ouvir essas histórias pessoais não eram fáceis: sempre pensava na terra, o vermelho da terra. Catchup não é gostoso, jamais!, contudo tem longe um vermelho, longe longe vermelho-terra. Nessa longa trajetória, há meu vício nessa saudade que sinto, nessa reunião possível a partir do vermelho opaco da terra. O gosto está em tudo, mas mesmo assim ninguém é capaz de notá-lo; raspar a língua ao palato (mole/duro) é uma maneira possível de sujar-se nessa terra de ninguém. 

Tudo que ainda não vi torna-se espasmo durante a noite. Sonho pouco. É duro de assumir que quando a noite é alta meu olhos estremecem: espasmos laranjas (não muito fortes) tomam meus olhos inicialmente, em seguida sou todo vermelho, corpo todo!, gosto de terra vermelha molhada  Sou opaco, frio. Estremeço vermelho úmido e raramente acordo de supetão. Eu havia ouvido que acordar bruscamente é fruto de uma ameaça real... Não sou ameaçado, acordo leve, areia soprada.  "Bem ou mal, filho, tricotar passa tempo." 

Eu durmo perto de meu cavalete. Ganhar esse cavalete foi uma experiência para lá de provocante. Jamais tivera coragem de mostrar minhas pinturas a outrem, entretanto, estudando uma forma de ganhar um cavalete novo (até então usava o antigo de minha vó Ana) topei participar de um concurso. Não foi bem assim, aliás, nunca é bem assim. Se, por exemplo, eu fosse recontar toda minha história é nítido que não contaria da forma que é posto por hora. De qualquer forma, o motivo mesmo de ter participado daquele concurso se passa pela chamada que vi em um site de Artes. Era uma unha de esmalte carcomido - fizeram de tal forma a não identificar a antiga cor do esmalte. O dedo polegar apontava nalgum lugar, porém era a unha o foco principal. Hoje não sei até que ponto era essa a intenção do publicitário, de qualquer forma, foi, pois, a minha visão da propaganda. Lancei-me nesse concurso e venci: um cavalete novo.

Hoje, aqui, um cavalete novo, uma possível pintura. Depois de mais um sonho (acordei leve, seco), o cavalete não parecia apropriado ali, ao lado da cama. Levei-o à área, perto da garagem (não tenho carros, o que garante um espaço aberto maior). Dali, terra, terra vermelha que nutre toda a casa. Nesses dias, com a morte do vô Joel, seguida meses depois por vó Ana, a casa ficou mais silenciosa que o silêncio do tricô de vó Ana. Papai, hora dessa, deve estar em mais um colo de mulher: anos e anos repetidos de sono profundo parece tê-lo despertado, revive os vinte anos, anos que mamãe foi embora. Choveu essa noite. Dedos ao chão, pego um pouco de terra vermelha e levo à boca. Choveu. Os dedos lambuzados, pinto em uma folha A4 com a tinta da terra. Minha palheta são as unhas que dão um contorno gritado à silhueta: não sou eu, uma imagem, porém. Longínqua. 

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