quarta-feira, 13 de novembro de 2013

epitáfio vivo













Os olhos são epitáfios vivos
"Aqui jaz um troglodita!"

Perfura a tumba
para inscrever o que há além do corpo
VERMES

Ferve intransigente
n' alma
um quê de desatenção

O nó do corpo camaleão
não reflete as retinas

E mesmo com toda pompa
lixo
roupa
caixão
funeral
casamento
luxo...
os olhos denunciam o soturno


A leitura do espírito
não se apresenta como obra do senhor
as  vistas são de quem ama a desilusão
o ócio
o louvor do nada

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Quer casar comigo?

A palavra advém da cumplicidade do ridículo
- Quer casar comigo?
Ainda não.
A palavra vai rumo à plateia delirante.
Os convites, portanto.
- Vamos, Japa! É casamento... vou morrer de rir.
O Japa vai, a Brenda, o João, o Manuel, Junhia, Rafaela, Wirna Vilma Gil

A plateia sustenta o circo do sentido anunciado.

Vejam, agora estão todos embriagados
Vinho
Champanha
Cerveja
Pinga

Sob a égide da droga
E a glória das palmas
(risos e comilança e buquê)
Um novo delírio se forma

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

olhos fechados













Um olho aberto
azul
preto
verde
insano ou medicinal
um olho pisca enquanto o outro permanece aberto
os olhos se fecham por alguns milésimos de segundo



Os olhos abertos, agora
é porto a um inseto
que pousa, descansa

As duas asas se movem
uma aquieta-se enquanto a outra move-se

Os olhos abertos

O inseto ameça voo
mas não assusta os olhos, nenhum

Por um segundo, as duas asas permanecem estáticas
em seguida, o inseto alça voo
e os olhos
(agora com alguma lágrima acumulada)
fecham-se para não mais abrir naquele asfalto quente.


Jotinha e a completude

        Jotinha entrou na confeitaria e pediu o primeiro bolo (recheado de doce de leite). Sem demora, comeu um, dois, três pedaços. Ainda, buscou uma garrafinha de coca cola (sem rato, mas repleta de formigas), bebeu e comeu. Levantou-se com a formiga no estômago (o bolo e o refrigerante davam voltas) e pediu ao garçom - balconista, porque em confeitarias não há aqueles que servem à mesa:
      - Ainda estou com fome. Pode me ver esse bolo maior? Pegaram uma boa fatia do bolo, e ele, ainda no balcão, engoliu o suculento pedaço. Voltando-se ao balconista, antes mesmo que um novo pedido fosse feito, Jotinha sentiu aflorar por entre as pernas gases ininterruptos. Diante da repressão, a boca abriu-se num violento e estrondoso arroto. 
         Conseguiu com muito custo fazer um novo pedido: ainda com um bolo na mão, passou a ouvir vozes que repetiam incessantemente "doce, leite"... "leite, doce".... Mas antes mesmo que pudesse ouvir a combinação perfeita (Jotinha fazia apologia ao doce de leite com coca cola), ouviu como pano de fundo sonoro, palavras que o completaram momentaneamente: "jiló, gonorreia, sífilis"... Num estrondo, olhou em volta - sentindo vertigem - e vomitou de um só gole o doce, o leite, a coca e a formiga. Em seguida, quando se punha a levantar, tornou ao chão um líquido esverdeado, cobertura de jurubeba e jiló.
         Vagarosamente, porém, a formiga levava uma dose de doce rumo ao formigueiro. 

licor sorvido


Escrevo despossuído de ideias.
Qualquer gole fortuito,
na mente de outrem,
é capaz de acender uma centelha.
Mesmo não nutrindo estima alguma
as faíscas se difundem sem porquê.



Recebo uma ligação:
um aperto de mão, uma piscadela.
Recordo, enfim, de que ali houve lição
mesmo aonde olhos não puderam alcançar.

                                                      o licor é um já-dito
sorvido por todos
que se julgam pioneiros!

É preciso antecipar, prever,
ainda que sem nenhuma garantia,
o passo dado pelo homem
o dito que fora dito
em milhões de palavras alheias.

Desprovido de sentido, porém,
às portas do ouvido
insisto sem pestanejar.

soneto (insustentável) de amor

Em Buenópolis, tempo que não me deixou
passo dois dedos sobre a sobrancelha direita
e não reparo nas minhas dúvidas
já que a incerteza fora a única marca dos anos

Mas sob a sobrecasaca e abaixo das sobrancelhas
uma certeza quer abrigar meu crânio
minha ossatura, meus nervos, sangue
e não se trata de pouca de coisa, vergonha

A certeza como um soneto mal escrito
que deixa traços sem métrica, rima
certamente, uma forma de sonhar

Na falta de vergonha, de abrigo constante, crânio
uma razão ultrapassa as grades dos olhos
a insustentável forma de tremer: amor

medo de agonizar

Os ruídos desenham músicas
intranquilas, no desassossego de quem partilha um pouco de agonia
como aranhas
nas teias, que formam novos pontilhados agonizantes, só



Um olhar
que não descreve
desenha
postula
pontua
seu olhar de lugar nenhum advém
nem detém alternativas




Quando, diante de telas
teias
tendas
a exatidão por uma porta passar
a fenda deixada será a única marca da incompletude

São ventos pobres aqueles que sugam da vida
o medo de agonizar


sábado, 9 de novembro de 2013

Cucuia inveterada

O que escrevo não é de hoje
nem será lido amanhã
o que escrevo é obra de um vendaval
perpétuo
inumano
invertebrado.


Não busque aqui seu mal-estar
ele estará na linha tênue
no desague
desmame
desarme
de tudo quanto há entre ti e o outro



Não tenho em mim o amor do mundo
nem o ódio
a indiferença tem um tom fósforo
(queima o que é inveterado!)

Não passe os olhos nos meus versos
aqueles que carregam plumas
e não reconhecem o plano sangrento de si


Que vá às cucuias!
que me deixem (versos) quietos
como os pássaros pousados no fio da estação
não vou explodir



Deixem aos cães
quem nasceu
CANINO

oceano que minha teia flutua

meus cabelos já ensandeceram

buscaram explicações em deus

diabos... mitos novos criados



mais um fracasso

daquele de quem duvidei

aquele por quem nutri ataques



e não me deixa de ser desastre

deus é a maior rebeldia

meu ateísmo: um oceano que minha teia flutua!

um ano depois

Na volta tudo o rio arrasa
um ano depois das mesmas palavras
as mesmas palavras
ausência é só um dito de outrora

ontem havia uma esteira, fábricas febris
na minha áurea, no meu porvir
um lance de além
(do quê que ruge sem palavras)
- torno-me humano e vertebrado

a esteira da fábrica rola peças de vários motores
vapt vupt, vapt vupt
uma senha, um passo...
vapt vupt, vapt vupt
uma senha, um passo

no outro dia, depois de um sono dormido
um novo baile, um novo curso
e lá!
Ele presentificado no sem porquê do nada.