sexta-feira, 11 de outubro de 2019

proporção simples

quanto mais regras de bem-viver
mais espírito de solidão

tempo, então

do que se trata esse tempo, então?

ora, não é tempo de grandes projetos
o estar junto foi quase abolido: as reuniões e os saraus foram substituídos pela frieza das redes sociais
a luta social por ações individuais, a revolução por uma hastag de internet
eis o tempo da solidão: nada que seja minimamente coerente permanece vivo mais que por mais de                                                                                                                                     [poucos segundos]

difícil entender. que tem a ver sociedade da solidão com a sociedade do bem viver?

é matemática; é de simples explicação
difícil mesmo é sair das amarras da solidão, dos costumes de toda a global nação
eliminaram o animal interior para, daí, emergir a solidão
enfim, pois, a fórmula: menos inumano, mais solidão. ou, se quiser: mais regras do bem viver, mais                                                                                                                                    [espírito da solidão]

domingo, 18 de novembro de 2018

o abismo é logo ali

Cada um ergue a sua bandeira mais alto. Ao tentar levantar mais e mais, o cabo do estandarte esbarra e machuca o vizinho. Eis a máxima humana: cautela ao querer - não é difícil tropeçar no avatar ao lado. 

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

retidão


amor disléxico
toque sem sexo


é o acaso reescrito
na matemática científica
dos dias anexos

domingo, 16 de setembro de 2018

Sociedade Solidão

imagine acertar uma facada em um grande tirano
imagine que quase metade da população o reconhecesse como "o intragável"
imagine uma facada filmada, fotografada, presenciada pela multidão
pois bem, seria como a queda da bastilha, uma grande insurreição

mas não!

a facada veio em tempo de solidão
o tirano não foi alvejado pela massa enfurecida
tampouco por um projeto de revolução
a faca, caríssimo, entrou das mãos de mais um adepto da solidão
(e sequer houve perfuração profunda, vazada, infeccionada...)






                                                                                                                               

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

o inumano de cada um



isto aqui não é uma discussão sobre candidatos presidenciáveis
não é tampouco um manifesto de esquerda ou de direita
quando os ânimos muito se afloram


afirma-se aqui o inumano de cada um
talvez a maior heresia do século XXI


então, que assim seja, eis aí um estandarte sem séquitos: o anti-humano de cada um!


levantar essa questão é um tanto embaraçosa
isso porque o século das luzes ofuscou o animal interior
e fizeram o humano uma coisinha frágil a ser preservada
ora, a lei da preservação das espécies existe bem antes de qualquer revolução burguesa
mas não havia ali a negação do animal

a dificuldade é ainda maior porque muitos associam o anti-humano às experiências violentas do                                                                                                                                         [século passado]

mas não se trata disso
não se trata da defesa de nenhum "ismo"


o anti-humano é, portanto, o animal de cada um
e, insisto, ele está em extinção
prestes a ser totalmente devorado

quando o ímpeto animal corre na veia, a sociedade da vida logo o repudia
é, então, contra a sociedade da vida que o animal insurge
e é simples entender o porquê:
neste século, orgulham-se da vida excessiva e sem graça; estufam o peito e proclamam: "somos todos pela vida"
esquecem de dizer: "somos todos pela mesma coisa: a coisa-vida"
ou seja, são todos contra o tropeço
contra qualquer torção da alma; a diferença, em nossa sociedade, não tem lugar algum

viver tornou-se sinônimo de ausência de riscos
a chamada dignidade humana é antes uma negação do animal interior
tornaram-nos a todos frágeis e dóceis (mas não menos produtivos!)
anularam o inumano como forma de ampliar ainda mais o controle social
esse ser frágil, que requer cuidados, é o mesmo que atua na vigilância do inumano em si e nos outros


a anulação de todas as pequenas e incontáveis mortes diárias é o que fundamenta o discurso                                                                                                                          [dos bons costumes do viver]
       
já não se pode "morrer" na postura contemplativa do acaso
é risco de perder o trabalho; é risco de ser indigno no século da vida
é risco de não ser controlado

não há pequenas mortes sem riscos. eis aí a maior heresia do nosso tempo!
o tempo do agora não suporta as rupturas e adversidades advindas do que foge do controle
as pequenas mortes, as rupturas da vida controlada, não pode coabitar com o tempo dos bons                                                                                                                                                 [costumes]

daí que as identidades diversas são mesmo incentivadas hoje em dia
porque identificar-se é também aprisionar o ser a um ponto fixo; é negar a morte
cada vez que o sujeito diz "eu" de si mesmo, ele é colonizado em mais um contrato do viver
as identidades são maneiras de vigiar a gramática do sujeito
é até pode ser uma ampliação da gramática da vida
mas é preciso dizer que logo a identidade dissonante é incorporada às técnicas do bem viver

em suma, a sociedade dos bons costumes não permite que haja contradição com os pressupostos                                                                                                                                             [humanistas:]
"a vida é frágil e deve ser preservada a todo custo"
"a vida é frágil e não se pode correr riscos"

violência? palavra herética do nosso tempo
o ócio? é violência nesse tempo
a vida só é vida quando anulam as pequenas mortes
o fracasso? é violência nesse tempo
a vida só é vida quando anulam as pequenas mortes
a depressão? é violência nesse tempo
a vida só é vida quando anulam as pequenas mortes


nem mesmo o sexo foi capaz de fugir do cerco da gramática dos bons costumes
o sexo só é autorizado quando há o controle do risco zero
eis o contrato implícito da vida: "não pode atacar, não se pode correr riscos"
sexo entre homens e animais? jamais!


tudo, pois, que extravasa, avança sinal, hoje, é rechaçado!
nos tempos sombrios da moral excessiva, o animal foi quase por completo abatido
não se pode confessar, nem mesmo ao psicólogo
(o fiscal da moral e dos bons costumes)
as pretensões animalescas
logo, o padrólogo receitará uma série de exercícios de bons costumes
"crer no bem e o mal se afastará!"

nessa igreja da vida moderna, a arte é a bruxa do século
a arte quando se põe em prática reatualiza o animal interior
anuncia sonhos, imaginações de um tempo em que o animal corria solto
é por isso que a sociedade dos bons costumes luta com todas as armas contra a arte do homem animal
a alma artística não é capaz de coabitar com o silenciamento animal
é o fim da arte; o fim do inumano


e não são somente os artistas o centro da atuação dessa sociedade
o corpo talvez hoje seja o maior alvo dos bons costumes
nesse tempo, há várias receitas do que não se pode fazer com o corpo
"o animal não pode sequer violentar o próprio corpo"
"o suicídio é a fraqueza do humano, logo, deve ser combatido"
assim, o próprio animal não decide sobre a sua vida
eis o paradoxo dessa sociedade: ao mesmo tempo que reivindica a vida, ela a censura do viver, do                                                                                                                                                     [morrer]

de bom grado, o próprio sujeito deveria abdicar do animal interior, diz essa sociedade
em nome de quê?
da vida, da gramática do bom viver
mas quem fiscaliza essa coisa toda?
os juízes, meus caros, são todos aqueles que lutam pela vida excessiva e sem graça do século XXI
os juízes são todos aqueles que embarcaram na balela da imortalidade em vida
sem risco, sem mortes: pela vida!


quando se expõe as bizarrices das condenações públicas da sociedade dos bons costumes do viver
[que sequer permite a ampla defesa, porque a morte, o sexo e a violência são palavras heréticas deste tempo: pronunciou? morte ou isolamento!]
não se está dizendo que as pessoas não praticam atos violentos
ao contrário, as posturas ditas anti-humanas continuam insistindo em comparecer
inclusive no interior dos muros dos paladinos da moral
a despeito de tudo e todos, o inumano insiste em manifestar
porque, na verdade, essas ocorrências nada mais são que nós mesmos: animais sociais
o aspecto social nunca foi capaz de tamponar totalmente animal de cada um
[embora este século venha ainda mais forte combatendo o animal singular, este insiste em viver]


é daí que ensaiar a favor do animal interior é também lutar pela vida
mas não a vida padronizada, ausente de contradições
é, pois, reafirmar a diferença, a singularidade animalesca do sujeito

ao contrário do argumento de que o humano é "deus acima de tudo!"
é preciso enxergar (sem as torpes luzes iluministas) que em cada um brilha a diferença:
da norma, dos bons costumes, da vida humana

a vida [repleta de contradições]
longe das redes sociais [onde o animal morreu!]
as pequenas mortes do cotidiano
[longe dos holofotes da autorrealização]
a arte
o sexo
desde que não publicizados
eis a vida [e ainda é possível vivê-la, o animal insite]
ainda é possível tirar horinhas de sossego
contemplar o vazio
sustentar o bicho insano da diferença [eis o desafio deste tempo sombrio]

segunda-feira, 28 de maio de 2018

o que você entende por Literatura?

perguntaram-me como entendo a literatura
não soube responder sem lisura
e acabei fazendo do óbvio: meu Trivium



mas volto ao assunto
não satisfeito
hoje me pergunto

como retirar da poética
a tão esquecida ética?
como deixar a escrita
a mercê da crítica?
as editoras de arte
a mercê de encarte?

puro embuste

não se fala de poesia sem poésis
do mesmo jeito que não dá pra defecar sem fezes

como falar de poética sem criação
sem a palavra "invenção"?
é falta de ética
ética: de novo repito
porque o poético é também um apito
que sopra aos ouvidos
pra não deixar ninguém esquecido
do quão isso tudo é pra lá de esquesito

rima é poesia também
e a falta dela não deixa o verso aquém
quando se poetiza no abismo
há o encontro do olvido
no bem mais além


futuro professor de literatura,
poetizar é politizar as palavras
é rachar o óbvio
é falar o mesmo
é esquecer a rima
é rimar também
é deixar o novo, sem forma, disforme
ou dar forma aos velhos clichês
é brincar; é cantarolar
porque, amigo,
poetizar na escola é inventar o nada
e é até poesia (por que não?) fazer uma bela cantada.

quinta-feira, 15 de março de 2018

abatidos

O peso do mundo atingiu os meus ombros,
Porque do Rio veio a notícia
de mais UMA guerreira abatida.

Mari
ELLE alterava as rotas de um mundo sombrio.


Nesse mundo abatido,
MAIS uma vez sentimos o peso do mundo.



MariELLE Franco Presente!

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

amor ao fracasso

Vamos todos assistir ao nosso fracasso
Esse dedo podre (e longo) que aponta ao aquífero de coca, a coca preta de açúcar branco, ainda cairá...
No mundo vampirazado, repleto de úlceras herdadas, abertas, nossos filhos sobreviverão?!
Então, vamos celebrar o fracasso
Dos vales
De São Francisco
Dos montes, dos belos montes
Deixemos, pois, essa mão apodrecer Aplaudamos (com as mãos que ainda restam)
os dedos macabros ruírem
E as minas se acabarem
Num cabaré, quem sabe!,
Ou em versos
(Esse alimento dos desavisados!)
Porque de Mariana
Mesmo
Ninguém se lembrará!

domingo, 26 de fevereiro de 2017

monstro da desconfiança

A confiança alimenta a vida. É simples - grita a garotinha! Já o monstro da desconfiança, aliado perpétuo do espectro da segurança, destrói qualquer tentativa de amizade. É muro alto, papai! São os altos planos de isolamento. Mas de tudo ainda fica uma centelha: o sêmen da amizade ainda pode evitar uma castração compulsória.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

panelas de aço

As panelas se calam quando os cassetetes comem.
O couro docente não escuta o som do panelaço.
No aço, a marca da colher encobre os braços. Pernas.
E não há borracha que apague o silêncio das louças.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Ah, vendo-me

hÁ,
de haver, nada existo

Ah,
mas A ver-me com o que já feito foi,
hÁ séculos,
deve criar-me sublimemente

nA
vida deve haver algo ainda por fazer

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

A-mar

escreve-se na água
na alma
a salgada esteira da vida

Afora isso
escreve-se nada

e o toque (de letra a letra) move em ondas a água
é o mesmo que dizer: sangra-se a língua ao mar

diante do infinito, a escritura é chacoalhada, descompassada
arde-se, pois, no espaço inconstante das palavras

um barco sem remo lançou-nos às idiossincrasias do verbo
intransigente mar

e, no vai e vem das ondas
no toque dos dedos (recortando o infinito)
escrevemos o impossível
A-mar


quinta-feira, 13 de março de 2014

nas curvas do dito


nas curvas do dito, 


 o poder de um poema não se reduz aos versos contidos ali, assim como o poderio de uma guerra vai além de um tanque blindado - eis a força poética além das frestas do léxico, esquinas da vida. é nesse espaço não marcado (flashback de tempos, ou aventuras (in)contidas) que há a possibilidade de esbanjar o recomeço. o poderio lírico é uma semente do descabido.

e quando um poema não se finda na pretensa alegria ilusória da única interpretação? é nisso, pois, que reside a acusação ao poeta: falta-lhe Amor!; a falta da letra maiúscula Amor não denuncia apenas a ausência de um nome próprio, mas (quem sabe!) a inexistência de qualquer realidade possível. a falta de um ponto que absorva o eu, que o faça crer nele mesmo, a própria poesia. contudo, aos poetas que vivem sem chão, àqueles que a realidade - mesma nas diversas criações - está em consonância com a rebeldia incerta do fazer artístico... ora, ora! viverão a inexatidão do vulgo SeR,

as malditas identidades poéticas, eu.

a poesia é o sem lugar - a mentira que a verdade insiste em contar. o poeta é necessariamente um não querer, um não existir compreendido. uma rebelde de duzentos anos é o próprio poeta,

o poeta da poesia!

na escuridão da poesia, o poeta está embrenhado da cabeça aos pés. e não adianta dizer que o poeta não sabe o que diz - ele é o próprio dizer! não me venha com o tom racional de quem conhece a si mesmo - a poesia é o revestimento interno do desconhecido. e, no entanto, não faltam acusações ao pobre poeta! ele, que sequer existe além da poesia, é atacado veementemente. ele não está seguro; na corda bamba das palavras, tropeça (peca, tomba) justamente quando as reticências aparecem sem porquê. peca mais quando tenta iludir-se da poesia: julga dizer a verdade quando dela há pouco mais que riscos. arrisca-se, pobre poeta, porque não há a salvação. não há salvação para além dos versos. notem: jesus morreu na cruz e deixou o "cristo" na areia movediça das palavras dos que vieram. imagina, pois, a condenação daqueles cristãos; imagina, entçao, jesus furioso com aqueles que professaram o seu suposto nome em vão. não teriam entendido, o pobre coitado? da palavra nada sobra além dos riscos.

ah,

reticências são pontos em vão
porque as palavras continuam 
independente do querer poeta

é mais ou menos isso (aliás, "mais ou menos" podia mesmo ser a língua poética - incerta) a poesia é oblíqua, imprecisa, mais ou menos, porque o poeta salva-se após a própria morte (da poesia e do poeta voltam o dizer - voltam a dizer!). eis, então, a definição dicionária poética: salvação é a própria morte em si do poeta. Quando as palavras são elas mesmas pequeninas e reticentes, a imortalidade comparece,

nas curvas do dito.

quarta-feira, 12 de março de 2014

pôr do sol à vida

à vida,
de um tempo distante
(jamais perdido)






à vida,
marcas de lágrima
e pôr do sol


à vida,
um sol,
chuva de tempos
(nublado, cinza, azul)


Ah, o flamengo vai jogar agora.
basta!
o jogo da noite,
o refletor e a redundância necessária: cerveja gelada.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

epitáfio vivo













Os olhos são epitáfios vivos
"Aqui jaz um troglodita!"

Perfura a tumba
para inscrever o que há além do corpo
VERMES

Ferve intransigente
n' alma
um quê de desatenção

O nó do corpo camaleão
não reflete as retinas

E mesmo com toda pompa
lixo
roupa
caixão
funeral
casamento
luxo...
os olhos denunciam o soturno


A leitura do espírito
não se apresenta como obra do senhor
as  vistas são de quem ama a desilusão
o ócio
o louvor do nada

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Quer casar comigo?

A palavra advém da cumplicidade do ridículo
- Quer casar comigo?
Ainda não.
A palavra vai rumo à plateia delirante.
Os convites, portanto.
- Vamos, Japa! É casamento... vou morrer de rir.
O Japa vai, a Brenda, o João, o Manuel, Junhia, Rafaela, Wirna Vilma Gil

A plateia sustenta o circo do sentido anunciado.

Vejam, agora estão todos embriagados
Vinho
Champanha
Cerveja
Pinga

Sob a égide da droga
E a glória das palmas
(risos e comilança e buquê)
Um novo delírio se forma

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

olhos fechados













Um olho aberto
azul
preto
verde
insano ou medicinal
um olho pisca enquanto o outro permanece aberto
os olhos se fecham por alguns milésimos de segundo



Os olhos abertos, agora
é porto a um inseto
que pousa, descansa

As duas asas se movem
uma aquieta-se enquanto a outra move-se

Os olhos abertos

O inseto ameça voo
mas não assusta os olhos, nenhum

Por um segundo, as duas asas permanecem estáticas
em seguida, o inseto alça voo
e os olhos
(agora com alguma lágrima acumulada)
fecham-se para não mais abrir naquele asfalto quente.


Jotinha e a completude

        Jotinha entrou na confeitaria e pediu o primeiro bolo (recheado de doce de leite). Sem demora, comeu um, dois, três pedaços. Ainda, buscou uma garrafinha de coca cola (sem rato, mas repleta de formigas), bebeu e comeu. Levantou-se com a formiga no estômago (o bolo e o refrigerante davam voltas) e pediu ao garçom - balconista, porque em confeitarias não há aqueles que servem à mesa:
      - Ainda estou com fome. Pode me ver esse bolo maior? Pegaram uma boa fatia do bolo, e ele, ainda no balcão, engoliu o suculento pedaço. Voltando-se ao balconista, antes mesmo que um novo pedido fosse feito, Jotinha sentiu aflorar por entre as pernas gases ininterruptos. Diante da repressão, a boca abriu-se num violento e estrondoso arroto. 
         Conseguiu com muito custo fazer um novo pedido: ainda com um bolo na mão, passou a ouvir vozes que repetiam incessantemente "doce, leite"... "leite, doce".... Mas antes mesmo que pudesse ouvir a combinação perfeita (Jotinha fazia apologia ao doce de leite com coca cola), ouviu como pano de fundo sonoro, palavras que o completaram momentaneamente: "jiló, gonorreia, sífilis"... Num estrondo, olhou em volta - sentindo vertigem - e vomitou de um só gole o doce, o leite, a coca e a formiga. Em seguida, quando se punha a levantar, tornou ao chão um líquido esverdeado, cobertura de jurubeba e jiló.
         Vagarosamente, porém, a formiga levava uma dose de doce rumo ao formigueiro. 

licor sorvido


Escrevo despossuído de ideias.
Qualquer gole fortuito,
na mente de outrem,
é capaz de acender uma centelha.
Mesmo não nutrindo estima alguma
as faíscas se difundem sem porquê.



Recebo uma ligação:
um aperto de mão, uma piscadela.
Recordo, enfim, de que ali houve lição
mesmo aonde olhos não puderam alcançar.

                                                      o licor é um já-dito
sorvido por todos
que se julgam pioneiros!

É preciso antecipar, prever,
ainda que sem nenhuma garantia,
o passo dado pelo homem
o dito que fora dito
em milhões de palavras alheias.

Desprovido de sentido, porém,
às portas do ouvido
insisto sem pestanejar.

soneto (insustentável) de amor

Em Buenópolis, tempo que não me deixou
passo dois dedos sobre a sobrancelha direita
e não reparo nas minhas dúvidas
já que a incerteza fora a única marca dos anos

Mas sob a sobrecasaca e abaixo das sobrancelhas
uma certeza quer abrigar meu crânio
minha ossatura, meus nervos, sangue
e não se trata de pouca de coisa, vergonha

A certeza como um soneto mal escrito
que deixa traços sem métrica, rima
certamente, uma forma de sonhar

Na falta de vergonha, de abrigo constante, crânio
uma razão ultrapassa as grades dos olhos
a insustentável forma de tremer: amor

medo de agonizar

Os ruídos desenham músicas
intranquilas, no desassossego de quem partilha um pouco de agonia
como aranhas
nas teias, que formam novos pontilhados agonizantes, só



Um olhar
que não descreve
desenha
postula
pontua
seu olhar de lugar nenhum advém
nem detém alternativas




Quando, diante de telas
teias
tendas
a exatidão por uma porta passar
a fenda deixada será a única marca da incompletude

São ventos pobres aqueles que sugam da vida
o medo de agonizar


sábado, 9 de novembro de 2013

Cucuia inveterada

O que escrevo não é de hoje
nem será lido amanhã
o que escrevo é obra de um vendaval
perpétuo
inumano
invertebrado.


Não busque aqui seu mal-estar
ele estará na linha tênue
no desague
desmame
desarme
de tudo quanto há entre ti e o outro



Não tenho em mim o amor do mundo
nem o ódio
a indiferença tem um tom fósforo
(queima o que é inveterado!)

Não passe os olhos nos meus versos
aqueles que carregam plumas
e não reconhecem o plano sangrento de si


Que vá às cucuias!
que me deixem (versos) quietos
como os pássaros pousados no fio da estação
não vou explodir



Deixem aos cães
quem nasceu
CANINO

oceano que minha teia flutua

meus cabelos já ensandeceram

buscaram explicações em deus

diabos... mitos novos criados



mais um fracasso

daquele de quem duvidei

aquele por quem nutri ataques



e não me deixa de ser desastre

deus é a maior rebeldia

meu ateísmo: um oceano que minha teia flutua!

um ano depois

Na volta tudo o rio arrasa
um ano depois das mesmas palavras
as mesmas palavras
ausência é só um dito de outrora

ontem havia uma esteira, fábricas febris
na minha áurea, no meu porvir
um lance de além
(do quê que ruge sem palavras)
- torno-me humano e vertebrado

a esteira da fábrica rola peças de vários motores
vapt vupt, vapt vupt
uma senha, um passo...
vapt vupt, vapt vupt
uma senha, um passo

no outro dia, depois de um sono dormido
um novo baile, um novo curso
e lá!
Ele presentificado no sem porquê do nada.

sábado, 1 de junho de 2013

portão fechado

um palhaço diante do espelho
dançando 
fazendo o quatro

quando as pernas tornam-se viola
violão, guitarra
cordas

o giro do palhaço gira 
tonto, e faz o quatro
gira de quatro

é a insana lucidez
ao espelho, porém,
que retrata a alma em pedaços

sábado, 25 de maio de 2013

Tio dilatado

Ela tinha lá seus dotes. Não era bonita nem feia. Ainda quando pequena, acostumara a tirar a nota suficiente para passar, nem mais, nem menos. Alfrásia venceu certa etapa da vida, a vida escolar, com a necessidade de ter o necessário: pegava o ônibus escolar às cinco da manhã e lá se ia mais um dia. Morar no campo tem dessas coisas. A professora reclama de quando em vez da preguiça da menina, mas ela era pouco preguiçosa. Na verdade, a falta de sensibilidade dos professores parece dar margem a certas falácias. Alfrásia queria mesmo é aguentar o tempo obrigatório de classe para voltar ao sítio.

O pedaço de terra era de um tio distante, e havia sido arrendado para o pai de Alfrásia. Toda vez que os parentes (os donos da terra) vinham passear a coisa agitava. Aos nove, a menina não esquece dessa história, os tios afortunados vieram para mais uma visita e Alfrásia lá tomava o café da tarde. Já tinha ido à escola pela manhã e feito as obrigações do lar, aproveitava para sorver o café morno. As louças precisavam ficar brilhando ou a vara cantava perna a fora. O pai da garota, Seu Lancho, costumava dizer que café quente estraga a voz - era mesmo o sonho do pai ver Alfrásia, filha única, cantando como os filhos de Francisco. Cantar, cantar, a menina não gostava, melhor, não sabia se gostava de verdade. Essas coisas de abrir a garganta era um tanto ameaçador (o café quente queima as cordas vocais, mas boca fechada não entra mosquito).

Alfrasia tomava café morno quando os tios de dinheiro chegaram: o dia inesquecível. Foram logo na garrafa de café. O primeiro, tio João, o único que havia realmente dinheiro, os demais apenas o parasitava, cuspiu longe o café, café morno, desgraça! Dizer mesmo o que, tio... A menina consentiu com a cabeça em silêncio. Sempre que vinham visitar a família de Alfrásia, eles traziam alguma coisa para o pai. Esse era um costume naquela região, nada de muito valor, apenas algo que demonstrasse certo apreço pelo anfitrião. Dessa vez, o pai da garotinha ficou surpreendido por receber uma arma calibre 22. Afasta mal olhado, Lancho! O problema daquela região era o demasiado roubo a gados.

Esse dia não era mesmo para ser esquecido: Alfrásia, depois da partida dos visitantes, sentou-se ao colo do pai. Ela tinha uma maneira própria de sentar-se. Geralmente ela se sentava apenas em um lado da perna do pai, ali ficava horas a fio. Esse dia, porém, a curiosidade deixou um traço na pata de Jovinha, o cachorro da família. Ainda no colo, um disparo calibre 22, uma pata quebrada.

Jovinha não conhecia desonestidade. Sabia mesmo que a culpa não era da menina ou do pai. Entendeu que aquele era um momento de dor, curtir como se faz ao queijo. Jovinha ficava deitado olhando os queijos descansando; foi descansar.  A família adorava o cãozinho e cuidaram como puderam dele. A pata, entretanto, ficou marcada tanto a Alfrásia quanto ao mancar do cão. A partir daí, Jovinha e Alfrásia permitiram-se um contato mais intenso, mas próximo.

Era o dia da formatura de Alfrásia. As pessoas daquela região, em torno da Cidade de Goiás, não tinham hábito de finalizar o Ensino Médio. Alfrásia estava ansiosa porque todos os familiares iriam vê-la. Aquele dia, ela não ia precisar ir de ônibus, o tio a levaria no carro. Era como sonho, sonho de um casamento próspero ou uma festa de quinze anos, essas festas que mobilizam toda a família e a vizinhança, a garota ansiosamente não parava de locomover-se (quarto-sala-banheiro), nenhuma palavra: ela movimentava-se. Na frente do velho espelho trincado, encenava o momento exato de receber o diploma. Na família apenas três pessoas conseguiram passar por aquilo, uma façanha familiar.

 Esses rituais são mesmo interessantes, infelizmente nem todos os cães conseguem compreender. Jovinha estava triste, escondia e aparecia tentando dizer algo. Algo como um tiro, algo que o fizesse mexer as patas de forma de diferente. Alfrásia pouco compreendia o que acontecia com o companheiro de afeto, o cão. Ele procurava fazer-se claro... À frente do espelho, o cachorro tentava disputar espaço com a garota, escorava na perna dela e a empurrava. Nada. A festa aproximava e os convidados (o tio rico principalmente, claro) já estavam próximos. Era óbvio que trariam presentes, algo que a agradasse mesmo sendo de pouco valor. A tia Joana sabia fazer renda, traria algo do gênero, talvez. Perguntava-se o que de fato gostaria de receber: nenhuma resposta. O latido do cão, um latido.

Alfrásia não queria deixar Jovinha ali, solitariamente. Ela foi ao encontro do cão (perto do espelho da sala) e o levou ao quarto dela. Aproximaram-se, e Alfrásia passou a prever como seria aquele dia. Que presente ganharia do tio rico? O rosnava a cada palavra. Alfrásia não estava disposta a fazer essas coisas naquela hora, mas Jovinha já se manifestava com a força característica dele. Jovinha já estava claramente excitado e Alfrásia, diante de tanta expectativa para aquele dia, julgou necessário aquela entrega, naquele momento. A moça levantou o vestido e abaixou a calcinha. O cão, já sabendo o rumo de casa, penetrou várias vezes a moça. Depois de algum tempo, o pênis de Jovinha dilatou bastante de modo a não sair da vagina de Alfrásia, enquanto os familiares gritavam por Alfrásia:

- Seu tio chegou, menina!

sexta-feira, 10 de maio de 2013

unhas vermelhas

Afastado, um passo mais longe de minha genitora. Ela longe longe personificada em afetos: x-box e o escambau. Eu pintava quadros como quem pisa na terra, desde terna idade. Cada pincelada, um afago entorpecente. 

Há um cheiro convicto perseguidor: meu pai amava usar o ofato antes de comer qualquer alimento; meninote, eu adorava saborear terra vermelha. Daí a cor vermelho-terra, gosto de terra molhada. Pintura aconchegante, reunião de corpos. 

Luciana, minha mãe, foi embora ainda quando tinha dois anos. Verdade, verdade, nem dois anos tinha, e ela ao estrangeiro. Num misto de sei lá o que, eu comia as unhas pequeninas, buscando calor. Papai precisou dos meus cuidados; digo assim porque, diante da lonjura de mamãe, passei a dar um pouco de ar brando ao pai. Kafka escreveu uma carta que bem que o pai devia ter lido, digo, meu pai. Meu pai, Juliano, devia ter lido Carta ao pai às avessas. Ele não me deixava na varanda enquanto eu chorava, nunca! Papai dormia diante das minhas unhas pequeninas que eram esfaceladas. O pai de Kafka, a partir das palavras de K., era tão meninote que precisava impor a violência para calar as inquietações do jovem. Digo que é o mesmo: estar dormindo ou acordado demais.

Aqui, carta não é. Um conto, uma história autobiográfica. Não afirmo que seja meta biográfica, pois que ainda não fui convencido da potência, qualidade, "meta". Metalinguagem nenhuma existe para além da crítica; é, antes, linguagem por excelência. Eu cresci nessa corrida edipiana (se isso é critério para definir alguém, que interprete essa pirâmide). É inútil dizer que papai dificilmente alcançava êxito com as mulheres. Mais: meu pai, Juliano, não é/era feio, não; tampouco faltava habilidade no trato com as moças, entretanto, uma certa postura o dominava. 

Da farmácia, dois pontos: nesse contexto farmacológico é claro que vó Ana empurrou papai adentro a um consultório psiquiátrico. Era óbvio o diagnóstico: o médico não pestanejou e logo logo, disse: "Depressão com quadro esquizoide". Essa última parte foi o que deixou vó Ana numa situação nada confortável. Ela, de pouca leitura, boa de pintura e costura, foi longo perguntar meu avô Joel sobre o que era essa coisa "esquizoide". Vovô pouco importou com a esquisitice do nome e, diante da sabedoria que só a vida proporciona, avisou que era um tipo de sonolência. Deliberou sossegadamente um chá de ervas que podia curar o sono profundo do meu pai. Papai tomava todos os dias os remédios de vovô, preparados por vó Ana, enquanto o sono permanecia à espreita.

Eu - nessa situação conheci a pintura. Minha vó já tinha pintado bastante, ainda quando jovem. Logo casou-se, cedo casou-se, e passou a dedicar-se à vida familiar (vó Ana era a mãe de papai: verdade que conheci afetuosamente apenas a parte de pai). O que obviamente não impossibilitava a prática da pintura não era propriamente a convivência entre a vó e o vô, mas algo ainda nebuloso. Sei que vó Ana adorava pintar, assim como adorava tomar café à tarde, ou costurar nas horas de ócio. Ela, já casada, pintou um último quadro, "Palhaço Bozo", porém, daí algumas contradições advém. É sabido que vovô odiava (não às claras) o fato de vovó ficar horas à beira da tela. Um ciúmes (digo por minha conta) tomou meu avô, e ele tinha certa razão. Essa conversa de que a obra deve ter verossimilhança, ah, tamanha balela. Foi, entretanto, esse papo furado que fez vovô procurar obsessivamente a razão de cada quadro. O último logo fez sentido: minha vó Ana tinha sido, pois, apaixonada em um circense há tempos, antes mesmo de conhecer vô Joel. Proibido. Palavra, ponto.

Vó Ana passou a costurar com maior frequência, esqueceu o Bozo - o quadro foi dado a um vizinho que adorava o fato de alguém de idade deliciar-se às artes plásticas (ele provavelmente não gostou da pintura propriamente dita, digo eu). Mas, afirmo por minha conta e risco que não há nada mais inverossível que a realidade: vovó, anos depois de doar o quadro, segredou que não havia nenhum circense na história de vida dela. Ela foi capaz de dizer que o sujeito-bozo seria uma grande fantasia, uma vontade dessas que vão e vem, mas que nunca se esquece. "Vó, é bom essa coisa de tricô?"

Ouvir essas histórias pessoais não eram fáceis: sempre pensava na terra, o vermelho da terra. Catchup não é gostoso, jamais!, contudo tem longe um vermelho, longe longe vermelho-terra. Nessa longa trajetória, há meu vício nessa saudade que sinto, nessa reunião possível a partir do vermelho opaco da terra. O gosto está em tudo, mas mesmo assim ninguém é capaz de notá-lo; raspar a língua ao palato (mole/duro) é uma maneira possível de sujar-se nessa terra de ninguém. 

Tudo que ainda não vi torna-se espasmo durante a noite. Sonho pouco. É duro de assumir que quando a noite é alta meu olhos estremecem: espasmos laranjas (não muito fortes) tomam meus olhos inicialmente, em seguida sou todo vermelho, corpo todo!, gosto de terra vermelha molhada  Sou opaco, frio. Estremeço vermelho úmido e raramente acordo de supetão. Eu havia ouvido que acordar bruscamente é fruto de uma ameaça real... Não sou ameaçado, acordo leve, areia soprada.  "Bem ou mal, filho, tricotar passa tempo." 

Eu durmo perto de meu cavalete. Ganhar esse cavalete foi uma experiência para lá de provocante. Jamais tivera coragem de mostrar minhas pinturas a outrem, entretanto, estudando uma forma de ganhar um cavalete novo (até então usava o antigo de minha vó Ana) topei participar de um concurso. Não foi bem assim, aliás, nunca é bem assim. Se, por exemplo, eu fosse recontar toda minha história é nítido que não contaria da forma que é posto por hora. De qualquer forma, o motivo mesmo de ter participado daquele concurso se passa pela chamada que vi em um site de Artes. Era uma unha de esmalte carcomido - fizeram de tal forma a não identificar a antiga cor do esmalte. O dedo polegar apontava nalgum lugar, porém era a unha o foco principal. Hoje não sei até que ponto era essa a intenção do publicitário, de qualquer forma, foi, pois, a minha visão da propaganda. Lancei-me nesse concurso e venci: um cavalete novo.

Hoje, aqui, um cavalete novo, uma possível pintura. Depois de mais um sonho (acordei leve, seco), o cavalete não parecia apropriado ali, ao lado da cama. Levei-o à área, perto da garagem (não tenho carros, o que garante um espaço aberto maior). Dali, terra, terra vermelha que nutre toda a casa. Nesses dias, com a morte do vô Joel, seguida meses depois por vó Ana, a casa ficou mais silenciosa que o silêncio do tricô de vó Ana. Papai, hora dessa, deve estar em mais um colo de mulher: anos e anos repetidos de sono profundo parece tê-lo despertado, revive os vinte anos, anos que mamãe foi embora. Choveu essa noite. Dedos ao chão, pego um pouco de terra vermelha e levo à boca. Choveu. Os dedos lambuzados, pinto em uma folha A4 com a tinta da terra. Minha palheta são as unhas que dão um contorno gritado à silhueta: não sou eu, uma imagem, porém. Longínqua. 

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Palimpsesto nenhum


que leva, pois, a escrita
nenhum branco preto cabe nesse espaço
e não se trata necessariamente de uma falta


- uma sombra: tradução impossível
sombra, metáfora afora
áporo
auto-convencimento serve de definição


uma imagem que falha
sem que nenhuma outra imagem pré-configure
palimpsesto nenhum


sonhos passam aos mil
há mil outros espaços em algum terreno
que me refaz diante de um outro