domingo, 26 de fevereiro de 2017

O monstro dá desconfiança

A confiança alimenta a vida. É simples - grita a garotinha! Já o monstro da desconfiança, aliado perpétuo do espectro da segurança, destrói qualquer tentativa de amizade. É muro alto, papai! São os altos planos de isolamento. Mas de tudo ainda fica uma centelha: o sêmen da amizade ainda pode evitar uma castração compulsória.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

panelas de aço

As panelas se calam quando os cassetetes comem.
O couro docente não escuta o som do panelaço.
No aço, a marca da colher encobre os braços. Pernas.
E não há borracha que apague o silêncio das louças.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Ah, vendo-me

hÁ,
de haver, nada existo

Ah,
mas A ver-me com o que já feito foi,
hÁ séculos,
deve criar-me sublimemente

nA
vida deve haver algo ainda por fazer

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

A-mar

escreve-se na água
na alma
a salgada esteira da vida

Afora isso
escreve-se nada

e o toque (de letra a letra) move em ondas a água
é o mesmo que dizer: sangra-se a língua ao mar

diante do infinito, a escritura é chacoalhada, descompassada
arde-se, pois, no espaço inconstante das palavras

um barco sem remo lançou-nos às idiossincrasias do verbo
intransigente mar

e, no vai e vem das ondas
no toque dos dedos (recortando o infinito)
escrevemos o impossível
A-mar


quinta-feira, 13 de março de 2014

nas curvas do dito, o poeta da poesia



nas curvas do dito, o poeta da poesia.


 o poder de um poema não se reduz aos versos contidos ali. o poderio de uma guerra vai além de um tanque blindado, tal como a força poética reside além da fresta, esquinas. é nesse espaço não marcado (flashback de tempos, ou aventuras contidas - apenas na mente do leitor) que há a possibilidade de esbanjar o recomeço. o poderio lírico é uma semente do descabido (mas vivo, óbvio), 
 ressuscitado em instante.

mas me propus a dizer do mal entendido poético, de quando um poema não se finda na pretensa alegria ilusória da única interpretação. é nisso, pois, que reside a acusação ao poeta: falta amor!; a falta da letra maiúscula não denuncia apenas a ausência de um nome próprio, mas tão somente a inexistência de qualquer realidade possível. a falta de um ponto que absorva o eu, que o faça acreditar que é a própria poesia... contudo aos poetas que vivem sem chão, àqueles que a realidade (mesma nas diversas criações) não estão em consonância com a rebeldia intrínseca do fazer artístico... ora, ora! viverão a inexatidão, vulgo sofrer,

as identidades poéticas, eu.

a poesia é o sem lugar. não há lugar comum nesse campo. o poeta é da ordem do impossível, a poesia, portanto. dessa maneira, não poderia ser diferente, o poeta é necessariamente um não querer, um não compreendido de cem anos de idade. uma rebelde de cem anos é o próprio poeta (sinônimo de sua poesia),

o poeta da poesia!

na escuridão da poesia, o poeta está embrenhado da cabeça aos pés. e não adianta dizer que o poeta não sabe o que diz - ele é o dizer! não me venha com o tom racional de quem conhece a si mesmo - a poesia reveste o poeta. entretanto, não falta acusações ao pobre poeta! ele não está seguro; na corda bamba das palavras tropeça (peca, tomba) justamente quando as reticências aparecem sem porquê. ah, mas há a salvação. jesus morreu na cruz e deixou apenas o "cristo" na areia movediça das palavras dos que vieram (pós-arena/ pós-areia). mas há salvação! a salvação daquele que escreve no devaneio da inexatidão,

reticências.

redenção é se apegar a algo minimamente firme. a poesia é oblíqua e imprecisa, multiforme. o poeta da salvação só existe, enfim, após a própria morte (porque a poesia e o poeta tornam-se aí). daí que a salvação é a morte por excelência do poeta, às vezes sem redenção. digo, no maior tom de obviedade, que as palavras são simplesmente elas mesmas (pequeninas), mas repleta de grandes amores,

nas curvas do dito.

quarta-feira, 12 de março de 2014

pôr do sol à vida

à vida,
de um tempo distante
(jamais perdido)






à vida,
marcas de lágrima
e pôr do sol


à vida,
um sol,
chuva de tempos
(nublado, cinza, azul)


Ah, o flamengo vai jogar agora.
basta!
o jogo da noite,
o refletor e a redundância necessária: cerveja gelada.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

epitáfio vivo













Os olhos são epitáfios vivos
"Aqui jaz um troglodita!"

Perfura a tumba
para inscrever o que há além do corpo
VERMES

Ferve intransigente
n' alma
um quê de desatenção

O nó do corpo camaleão
não reflete as retinas

E mesmo com toda pompa
lixo
roupa
caixão
funeral
casamento
luxo...
os olhos denunciam o soturno


A leitura do espírito
não se apresenta como obra do senhor
as  vistas são de quem ama a desilusão
o ócio
o louvor do nada

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Quer casar comigo?

A palavra advém da cumplicidade do ridículo
- Quer casar comigo?
Ainda não.
A palavra vai rumo à plateia delirante.
Os convites, portanto.
- Vamos, Japa! É casamento... vou morrer de rir.
O Japa vai, a Brenda, o João, o Manuel, Junhia, Rafaela, Wirna Vilma Gil

A plateia sustenta o circo do sentido anunciado.

Vejam, agora estão todos embriagados
Vinho
Champanha
Cerveja
Pinga

Sob a égide da droga
E a glória das palmas
(risos e comilança e buquê)
Um novo delírio se forma

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

olhos fechados













Um olho aberto
azul
preto
verde
insano ou medicinal
um olho pisca enquanto o outro permanece aberto
os olhos se fecham por alguns milésimos de segundo



Os olhos abertos, agora
é porto a um inseto
que pousa, descansa

As duas asas se movem
uma aquieta-se enquanto a outra move-se

Os olhos abertos

O inseto ameça voo
mas não assusta os olhos, nenhum

Por um segundo, as duas asas permanecem estáticas
em seguida, o inseto alça voo
e os olhos
(agora com alguma lágrima acumulada)
fecham-se para não mais abrir naquele asfalto quente.


Jotinha e a completude

        Jotinha entrou na confeitaria e pediu o primeiro bolo (recheado de doce de leite). Sem demora, comeu um, dois, três pedaços. Ainda, buscou uma garrafinha de coca cola (sem rato, mas repleta de formigas), bebeu e comeu. Levantou-se com a formiga no estômago (o bolo e o refrigerante davam voltas) e pediu ao garçom - balconista, porque em confeitarias não há aqueles que servem à mesa:
      - Ainda estou com fome. Pode me ver esse bolo maior? Pegaram uma boa fatia do bolo, e ele, ainda no balcão, engoliu o suculento pedaço. Voltando-se ao balconista, antes mesmo que um novo pedido fosse feito, Jotinha sentiu aflorar por entre as pernas gases ininterruptos. Diante da repressão, a boca abriu-se num violento e estrondoso arroto. 
         Conseguiu com muito custo fazer um novo pedido: ainda com um bolo na mão, passou a ouvir vozes que repetiam incessantemente "doce, leite"... "leite, doce".... Mas antes mesmo que pudesse ouvir a combinação perfeita (Jotinha fazia apologia ao doce de leite com coca cola), ouviu como pano de fundo sonoro, palavras que o completaram momentaneamente: "jiló, gonorreia, sífilis"... Num estrondo, olhou em volta - sentindo vertigem - e vomitou de um só gole o doce, o leite, a coca e a formiga. Em seguida, quando se punha a levantar, tornou ao chão um líquido esverdeado, cobertura de jurubeba e jiló.
         Vagarosamente, porém, a formiga levava uma dose de doce rumo ao formigueiro. 

licor sorvido


Escrevo despossuído de ideias.
Qualquer gole fortuito,
na mente de outrem,
é capaz de acender uma centelha.
Mesmo não nutrindo estima alguma
as faíscas se difundem sem porquê.



Recebo uma ligação:
um aperto de mão, uma piscadela.
Recordo, enfim, de que ali houve lição
mesmo aonde olhos não puderam alcançar.

                                                      o licor é um já-dito
sorvido por todos
que se julgam pioneiros!

É preciso antecipar, prever,
ainda que sem nenhuma garantia,
o passo dado pelo homem
o dito que fora dito
em milhões de palavras alheias.

Desprovido de sentido, porém,
às portas do ouvido
insisto sem pestanejar.

soneto (insustentável) de amor

Em Buenópolis, tempo que não me deixou
passo dois dedos sobre a sobrancelha direita
e não reparo nas minhas dúvidas
já que a incerteza fora a única marca dos anos

Mas sob a sobrecasaca e abaixo das sobrancelhas
uma certeza quer abrigar meu crânio
minha ossatura, meus nervos, sangue
e não se trata de pouca de coisa, vergonha

A certeza como um soneto mal escrito
que deixa traços sem métrica, rima
certamente, uma forma de sonhar

Na falta de vergonha, de abrigo constante, crânio
uma razão ultrapassa as grades dos olhos
a insustentável forma de tremer: amor

medo de agonizar

Os ruídos desenham músicas
intranquilas, no desassossego de quem partilha um pouco de agonia
como aranhas
nas teias, que formam novos pontilhados agonizantes, só



Um olhar
que não descreve
desenha
postula
pontua
seu olhar de lugar nenhum advém
nem detém alternativas




Quando, diante de telas
teias
tendas
a exatidão por uma porta passar
a fenda deixada será a única marca da incompletude

São ventos pobres aqueles que sugam da vida
o medo de agonizar


sábado, 9 de novembro de 2013

Cucuia inveterada

O que escrevo não é de hoje
nem será lido amanhã
o que escrevo é obra de um vendaval
perpétuo
inumano
invertebrado.


Não busque aqui seu mal-estar
ele estará na linha tênue
no desague
desmame
desarme
de tudo quanto há entre ti e o outro



Não tenho em mim o amor do mundo
nem o ódio
a indiferença tem um tom fósforo
(queima o que é inveterado!)

Não passe os olhos nos meus versos
aqueles que carregam plumas
e não reconhecem o plano sangrento de si


Que vá às cucuias!
que me deixem (versos) quietos
como os pássaros pousados no fio da estação
não vou explodir



Deixem aos cães
quem nasceu
CANINO

oceano que minha teia flutua

meus cabelos já ensandeceram

buscaram explicações em deus

diabos... mitos novos criados



mais um fracasso

daquele de quem duvidei

aquele por quem nutri ataques



e não me deixa de ser desastre

deus é a maior rebeldia

meu ateísmo: um oceano que minha teia flutua!

um ano depois

Na volta tudo o rio arrasa
um ano depois das mesmas palavras
as mesmas palavras
ausência é só um dito de outrora

ontem havia uma esteira, fábricas febris
na minha áurea, no meu porvir
um lance de além
(do quê que ruge sem palavras)
- torno-me humano e vertebrado

a esteira da fábrica rola peças de vários motores
vapt vupt, vapt vupt
uma senha, um passo...
vapt vupt, vapt vupt
uma senha, um passo

no outro dia, depois de um sono dormido
um novo baile, um novo curso
e lá!
Ele presentificado no sem porquê do nada.

sábado, 1 de junho de 2013

portão fechado

um palhaço diante do espelho
dançando 
fazendo o quatro

quando as pernas tornam-se viola
violão, guitarra
cordas

o giro do palhaço gira 
tonto, e faz o quatro
gira de quatro

é a insana lucidez
ao espelho, porém,
que retrata a alma em pedaços

sábado, 25 de maio de 2013

Tio dilatado

Ela tinha lá seus dotes. Não era bonita nem feia. Ainda quando pequena, acostumara a tirar a nota suficiente para passar, nem mais, nem menos. Alfrásia venceu certa etapa da vida, a vida escolar, com a necessidade de ter o necessário: pegava o ônibus escolar às cinco da manhã e lá se ia mais um dia. Morar no campo tem dessas coisas. A professora reclama de quando em vez da preguiça da menina, mas ela era pouco preguiçosa. Na verdade, a falta de sensibilidade dos professores parece dar margem a certas falácias. Alfrásia queria mesmo é aguentar o tempo obrigatório de classe para voltar ao sítio.

O pedaço de terra era de um tio distante, e havia sido arrendado para o pai de Alfrásia. Toda vez que os parentes (os donos da terra) vinham passear a coisa agitava. Aos nove, a menina não esquece dessa história, os tios afortunados vieram para mais uma visita e Alfrásia lá tomava o café da tarde. Já tinha ido à escola pela manhã e feito as obrigações do lar, aproveitava para sorver o café morno. As louças precisavam ficar brilhando ou a vara cantava perna a fora. O pai da garota, Seu Lancho, costumava dizer que café quente estraga a voz - era mesmo o sonho do pai ver Alfrásia, filha única, cantando como os filhos de Francisco. Cantar, cantar, a menina não gostava, melhor, não sabia se gostava de verdade. Essas coisas de abrir a garganta era um tanto ameaçador (o café quente queima as cordas vocais, mas boca fechada não entra mosquito).

Alfrasia tomava café morno quando os tios de dinheiro chegaram: o dia inesquecível. Foram logo na garrafa de café. O primeiro, tio João, o único que havia realmente dinheiro, os demais apenas o parasitava, cuspiu longe o café, café morno, desgraça! Dizer mesmo o que, tio... A menina consentiu com a cabeça em silêncio. Sempre que vinham visitar a família de Alfrásia, eles traziam alguma coisa para o pai. Esse era um costume naquela região, nada de muito valor, apenas algo que demonstrasse certo apreço pelo anfitrião. Dessa vez, o pai da garotinha ficou surpreendido por receber uma arma calibre 22. Afasta mal olhado, Lancho! O problema daquela região era o demasiado roubo a gados.

Esse dia não era mesmo para ser esquecido: Alfrásia, depois da partida dos visitantes, sentou-se ao colo do pai. Ela tinha uma maneira própria de sentar-se. Geralmente ela se sentava apenas em um lado da perna do pai, ali ficava horas a fio. Esse dia, porém, a curiosidade deixou um traço na pata de Jovinha, o cachorro da família. Ainda no colo, um disparo calibre 22, uma pata quebrada.

Jovinha não conhecia desonestidade. Sabia mesmo que a culpa não era da menina ou do pai. Entendeu que aquele era um momento de dor, curtir como se faz ao queijo. Jovinha ficava deitado olhando os queijos descansando; foi descansar.  A família adorava o cãozinho e cuidaram como puderam dele. A pata, entretanto, ficou marcada tanto a Alfrásia quanto ao mancar do cão. A partir daí, Jovinha e Alfrásia permitiram-se um contato mais intenso, mas próximo.

Era o dia da formatura de Alfrásia. As pessoas daquela região, em torno da Cidade de Goiás, não tinham hábito de finalizar o Ensino Médio. Alfrásia estava ansiosa porque todos os familiares iriam vê-la. Aquele dia, ela não ia precisar ir de ônibus, o tio a levaria no carro. Era como sonho, sonho de um casamento próspero ou uma festa de quinze anos, essas festas que mobilizam toda a família e a vizinhança, a garota ansiosamente não parava de locomover-se (quarto-sala-banheiro), nenhuma palavra: ela movimentava-se. Na frente do velho espelho trincado, encenava o momento exato de receber o diploma. Na família apenas três pessoas conseguiram passar por aquilo, uma façanha familiar.

 Esses rituais são mesmo interessantes, infelizmente nem todos os cães conseguem compreender. Jovinha estava triste, escondia e aparecia tentando dizer algo. Algo como um tiro, algo que o fizesse mexer as patas de forma de diferente. Alfrásia pouco compreendia o que acontecia com o companheiro de afeto, o cão. Ele procurava fazer-se claro... À frente do espelho, o cachorro tentava disputar espaço com a garota, escorava na perna dela e a empurrava. Nada. A festa aproximava e os convidados (o tio rico principalmente, claro) já estavam próximos. Era óbvio que trariam presentes, algo que a agradasse mesmo sendo de pouco valor. A tia Joana sabia fazer renda, traria algo do gênero, talvez. Perguntava-se o que de fato gostaria de receber: nenhuma resposta. O latido do cão, um latido.

Alfrásia não queria deixar Jovinha ali, solitariamente. Ela foi ao encontro do cão (perto do espelho da sala) e o levou ao quarto dela. Aproximaram-se, e Alfrásia passou a prever como seria aquele dia. Que presente ganharia do tio rico? O rosnava a cada palavra. Alfrásia não estava disposta a fazer essas coisas naquela hora, mas Jovinha já se manifestava com a força característica dele. Jovinha já estava claramente excitado e Alfrásia, diante de tanta expectativa para aquele dia, julgou necessário aquela entrega, naquele momento. A moça levantou o vestido e abaixou a calcinha. O cão, já sabendo o rumo de casa, penetrou várias vezes a moça. Depois de algum tempo, o pênis de Jovinha dilatou bastante de modo a não sair da vagina de Alfrásia, enquanto os familiares gritavam por Alfrásia:

- Seu tio chegou, menina!

sexta-feira, 10 de maio de 2013

unhas vermelhas

Afastado, um passo mais longe de minha genitora. Ela longe longe personificada em afetos: x-box e o escambau. Eu pintava quadros como quem pisa na terra, desde terna idade. Cada pincelada, um afago entorpecente. 

Há um cheiro convicto perseguidor: meu pai amava usar o ofato antes de comer qualquer alimento; meninote, eu adorava saborear terra vermelha. Daí a cor vermelho-terra, gosto de terra molhada. Pintura aconchegante, reunião de corpos. 

Luciana, minha mãe, foi embora ainda quando tinha dois anos. Verdade, verdade, nem dois anos tinha, e ela ao estrangeiro. Num misto de sei lá o que, eu comia as unhas pequeninas, buscando calor. Papai precisou dos meus cuidados; digo assim porque, diante da lonjura de mamãe, passei a dar um pouco de ar brando ao pai. Kafka escreveu uma carta que bem que o pai devia ter lido, digo, meu pai. Meu pai, Juliano, devia ter lido Carta ao pai às avessas. Ele não me deixava na varanda enquanto eu chorava, nunca! Papai dormia diante das minhas unhas pequeninas que eram esfaceladas. O pai de Kafka, a partir das palavras de K., era tão meninote que precisava impor a violência para calar as inquietações do jovem. Digo que é o mesmo: estar dormindo ou acordado demais.

Aqui, carta não é. Um conto, uma história autobiográfica. Não afirmo que seja meta biográfica, pois que ainda não fui convencido da potência, qualidade, "meta". Metalinguagem nenhuma existe para além da crítica; é, antes, linguagem por excelência. Eu cresci nessa corrida edipiana (se isso é critério para definir alguém, que interprete essa pirâmide). É inútil dizer que papai dificilmente alcançava êxito com as mulheres. Mais: meu pai, Juliano, não é/era feio, não; tampouco faltava habilidade no trato com as moças, entretanto, uma certa postura o dominava. 

Da farmácia, dois pontos: nesse contexto farmacológico é claro que vó Ana empurrou papai adentro a um consultório psiquiátrico. Era óbvio o diagnóstico: o médico não pestanejou e logo logo, disse: "Depressão com quadro esquizoide". Essa última parte foi o que deixou vó Ana numa situação nada confortável. Ela, de pouca leitura, boa de pintura e costura, foi longo perguntar meu avô Joel sobre o que era essa coisa "esquizoide". Vovô pouco importou com a esquisitice do nome e, diante da sabedoria que só a vida proporciona, avisou que era um tipo de sonolência. Deliberou sossegadamente um chá de ervas que podia curar o sono profundo do meu pai. Papai tomava todos os dias os remédios de vovô, preparados por vó Ana, enquanto o sono permanecia à espreita.

Eu - nessa situação conheci a pintura. Minha vó já tinha pintado bastante, ainda quando jovem. Logo casou-se, cedo casou-se, e passou a dedicar-se à vida familiar (vó Ana era a mãe de papai: verdade que conheci afetuosamente apenas a parte de pai). O que obviamente não impossibilitava a prática da pintura não era propriamente a convivência entre a vó e o vô, mas algo ainda nebuloso. Sei que vó Ana adorava pintar, assim como adorava tomar café à tarde, ou costurar nas horas de ócio. Ela, já casada, pintou um último quadro, "Palhaço Bozo", porém, daí algumas contradições advém. É sabido que vovô odiava (não às claras) o fato de vovó ficar horas à beira da tela. Um ciúmes (digo por minha conta) tomou meu avô, e ele tinha certa razão. Essa conversa de que a obra deve ter verossimilhança, ah, tamanha balela. Foi, entretanto, esse papo furado que fez vovô procurar obsessivamente a razão de cada quadro. O último logo fez sentido: minha vó Ana tinha sido, pois, apaixonada em um circense há tempos, antes mesmo de conhecer vô Joel. Proibido. Palavra, ponto.

Vó Ana passou a costurar com maior frequência, esqueceu o Bozo - o quadro foi dado a um vizinho que adorava o fato de alguém de idade deliciar-se às artes plásticas (ele provavelmente não gostou da pintura propriamente dita, digo eu). Mas, afirmo por minha conta e risco que não há nada mais inverossível que a realidade: vovó, anos depois de doar o quadro, segredou que não havia nenhum circense na história de vida dela. Ela foi capaz de dizer que o sujeito-bozo seria uma grande fantasia, uma vontade dessas que vão e vem, mas que nunca se esquece. "Vó, é bom essa coisa de tricô?"

Ouvir essas histórias pessoais não eram fáceis: sempre pensava na terra, o vermelho da terra. Catchup não é gostoso, jamais!, contudo tem longe um vermelho, longe longe vermelho-terra. Nessa longa trajetória, há meu vício nessa saudade que sinto, nessa reunião possível a partir do vermelho opaco da terra. O gosto está em tudo, mas mesmo assim ninguém é capaz de notá-lo; raspar a língua ao palato (mole/duro) é uma maneira possível de sujar-se nessa terra de ninguém. 

Tudo que ainda não vi torna-se espasmo durante a noite. Sonho pouco. É duro de assumir que quando a noite é alta meu olhos estremecem: espasmos laranjas (não muito fortes) tomam meus olhos inicialmente, em seguida sou todo vermelho, corpo todo!, gosto de terra vermelha molhada  Sou opaco, frio. Estremeço vermelho úmido e raramente acordo de supetão. Eu havia ouvido que acordar bruscamente é fruto de uma ameaça real... Não sou ameaçado, acordo leve, areia soprada.  "Bem ou mal, filho, tricotar passa tempo." 

Eu durmo perto de meu cavalete. Ganhar esse cavalete foi uma experiência para lá de provocante. Jamais tivera coragem de mostrar minhas pinturas a outrem, entretanto, estudando uma forma de ganhar um cavalete novo (até então usava o antigo de minha vó Ana) topei participar de um concurso. Não foi bem assim, aliás, nunca é bem assim. Se, por exemplo, eu fosse recontar toda minha história é nítido que não contaria da forma que é posto por hora. De qualquer forma, o motivo mesmo de ter participado daquele concurso se passa pela chamada que vi em um site de Artes. Era uma unha de esmalte carcomido - fizeram de tal forma a não identificar a antiga cor do esmalte. O dedo polegar apontava nalgum lugar, porém era a unha o foco principal. Hoje não sei até que ponto era essa a intenção do publicitário, de qualquer forma, foi, pois, a minha visão da propaganda. Lancei-me nesse concurso e venci: um cavalete novo.

Hoje, aqui, um cavalete novo, uma possível pintura. Depois de mais um sonho (acordei leve, seco), o cavalete não parecia apropriado ali, ao lado da cama. Levei-o à área, perto da garagem (não tenho carros, o que garante um espaço aberto maior). Dali, terra, terra vermelha que nutre toda a casa. Nesses dias, com a morte do vô Joel, seguida meses depois por vó Ana, a casa ficou mais silenciosa que o silêncio do tricô de vó Ana. Papai, hora dessa, deve estar em mais um colo de mulher: anos e anos repetidos de sono profundo parece tê-lo despertado, revive os vinte anos, anos que mamãe foi embora. Choveu essa noite. Dedos ao chão, pego um pouco de terra vermelha e levo à boca. Choveu. Os dedos lambuzados, pinto em uma folha A4 com a tinta da terra. Minha palheta são as unhas que dão um contorno gritado à silhueta: não sou eu, uma imagem, porém. Longínqua. 

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Palimpsesto nenhum


que leva, pois, a escrita
nenhum branco preto cabe nesse espaço
e não se trata necessariamente de uma falta


- uma sombra: tradução impossível
sombra, metáfora afora
áporo
auto-convencimento serve de definição


uma imagem que falha
sem que nenhuma outra imagem pré-configure
palimpsesto nenhum


sonhos passam aos mil
há mil outros espaços em algum terreno
que me refaz diante de um outro




Louca, não sou

Louca, não sou

Louca, não sou
Tão pouco sou normal
As fronteiras não existem nas raias de um ser inteiro

Loucura é ser pela metade
Ser humano parcial
Guardar amores e segredos
Nesses cofres virtuais

Eu sou toda
Ou não sou
Até minhas reservas e medos
São públicos
O que escondo me revela

Aí minha insanidade:
Não renegar a loucura
Aceitar no corpo todo
Minha alma desigual
Louca, não sou

Autoria: Lua Barreto

terça-feira, 7 de maio de 2013

ocorrência vultosa

Ocorrência vultosa

Retorno sem saída ao inominável
mesmo sabendo que em pouco avancei
nesse instante o corpo exige um novo romance
que ultrapasse as barreiras do léxico
'preciso de um romance' não é um poema
'preciso de um romance' é de fato uma necessidade, turbilhão
o que pulsa desenfreadamente

vértebras, entranhas
são dilaceradas diante da ocorrência vultosa
impregnada de natumanidade
já disse: as línguas estão mortas
Proclamo: as línguas estão mortas a sete palmos
a língua dos cães é língua viva - está escrito
é língua viva, na transparência da água límpida
(a morte é apenas um último capítulo)




sábado, 27 de abril de 2013

Devívido *projeto de um novo romance*






Preciso de um novo romance
(Cap. I)


O jornal aberto não é nada mais que um jornal aberto. Tudo ali, sem salvaguardar o proibido. Os livros sobre a mesa de jacarandá, os livros abertos não encerram nada. Minha esposa que cozinha um prato novo também não diz nada além de um prato novo que será cozido. Nem mesmo o xadrez montado aos modos de Fischer, agora, demonstra algum sentido. A mesa, o jornal aberto, livros diversos abertos, o novo prato de minha esposa, o tabuleiro de Fischer – apenas nomes repetidos desde minha terna infância.
Por um tempo achei que abrir um jornal fosse a experiência maior de adentrar em um novo sangue, um novo corpo entre vértebras. A leitura não me arrebata, na verdade, nunca me arrebatou; somente palavras lançadas. Leio, leio como todos que abrem o jornal na manhã à procura de algo que mude o rumo. Algo que transcenda e traga o sol ao dia nublado, que deixe o sal a gosto, a leitura entusiasmo.
Primeiro instante: já não quero saber sequer o autor ou o gênero da obra. Um livro. Uma página. Um livro, uma página de outro livro *um latido do cão lá fora*. Jamais me atreveria a olhar o som do latido. Raramente virei as páginas: o jornal está na mesma página aberta dos dias anteriores, desde minha chegada aqui. Os livros estão todos abertos, todos marcados no mesmo parágrafo de ontem.
Agora, minha esposa traz um prato novo *é manhã sem cheiro*. O mesmo prato que eu comia quando pequenino. Na Bahia, era comum o cuscuz temperado pela manhã. Minha mãe botava na cuscuzeira uma série sem fim: carne seca, mussarela, aipim, um infinito de tempero. Minha mulher traz cuscuz temperado, café e pouca manhã – jornais do dia e um livro que é surpresa. Como e bebo, deixo os jornais abertos, sem novidade alguma, um livro permanece ao lado.
Enquanto, diante desse torpor, meu computador insiste sinalizando com o marcador de texto. Mas em mente só há a tola ideia de escrever um romance novo. Preciso de um romance novo. O xadrez. Escrever nesse velho computador e nesse velho sítio e nessa casa de fazenda é um novo problema de xadrez. Escrever um novo problema de xadrez não é uma decisão, mas um instante que me acolhe. Escrever sobre vinhos, sobre a vinícola de meu avô *não houve na família ninguém que entendesse verdadeiramente de vinhos, nenhum escritor (a mãe sabia cozinhar) *.
Nenhum escritor deveria desejar estar nesse corpo. Todos querem um novo romance. Se eu fosse falar de família teria muito do que dizer: diria de igrejas. Igrejas. Diria de quando meu pai abriu uma nova igreja na Bahia. Os olhares espantados. O pastor (meu pai) pregava a palavra, meu irmão tocava o órgão, que foi dado ao vizinho e, posteriormente, jogado fora, porque os cupins já tinham carcomido os pés do instrumento. Não tive compaixão. Alguém me disse que para escrever é preciso uma dose de ternura, de afeto. Não tive compaixão pelo órgão, por isso não escrevo, não escrevo nenhuma linha agora. Bobagem de professores é definir um poema, um texto; não há metalinguagem *todo texto é metalinguístico, porque há linguagem, óbvio*. Ternura e compaixão: eu confundo os nomes como quem os esquece.
Café, ternura e compaixão. Tomei o café depois de esfriar.  Abri o livro e a primeira frase não me satisfez – fechei-o de supetão. O susto. Fechei o livro como quem não quer encontrar de novo alguma coisa. De novo é sempre de ontem, anteontem. É novo. O jornal que chegou hoje trouxe notícias que eu vi há anos.
Mais um gole desse café gelado. Passei a página do jornal e li não mais que uma linha. Quando meninote, eu lia todo o jornal e contava tudo para o pai. Um dia me disseram que essas coisas tinham que ficar guardadas com a gente *o pai morreu num instante mesmo dessa notícia*. Não contei mais a ninguém. Lia todo o jornal e lia todo o romance. Alguns eu lia até chegar perto do fim e, quando eu percebia que estava pronto a acabar, eu parava. Relia o romance até a linha onde estive a ler. Parava. Começava a ler outro livro.
Contudo não escolho livros pelo autor ou pela temática, não escolho. Até quando me atrevo a estudar xadrez, também não o faço por tema. Estudo abertura do mesmo modo que estudo os finais de jogo (e até simultaneamente). Uma única vez, eu resolvi estudar xadrez com um professor, M.I. (mestre internacional), mas ele dizia para calcular cada milímetro do jogo; que eu devia estudar primeiramente aberturas, após, meio jogo e finais. Eu tomo café frio ou morno e não me apercebo do gosto, se gosto deveras assim. Leio livros e os deixo pelas metades. Às vezes até chego ao final de um romance, porque leio o livro inteiro e vou tomar um café nessas casas de café. Não há final nenhum de nenhuma obra que me faça lembrar do último capítulo. Leio cegamente o desfecho de livros. Leio e não me recordo de nada parecido - aprendi a ler para desconhecer o final. 
Esse vinho à mesa de jacarandá *é cabernet*. Sorvo o gole e tento recordar o último gosto do vinho à boca – não há recordação. O vinho fica à boca e, enquanto há liquido, há gosto. Depois que bebo a última gota já não há cabernet, vinícola, vinho, carta, gosto, nada. Apago o derradeiro gosto e bebo novamente.  Apago o derradeiro gole e bebo novamente.
Bebo novamente, o derradeiro gole que inexistirá de minhas reminiscências. Minha mulher chegou da capital ontem de tardezinha – eu já estou aqui há um mês. Eu, os livros, o xadrez, os vinhos, os jornais e a mesa de jacarandá. Pedi ao moço que cuida da fazenda para trazer todo dia um novo santo jornal e leite e comida, que pouco como. Pedi ao moço que trouxesse o jornal, mas que o jogasse por debaixo da porta para que eu não o visse *que a comida ficasse ao lado – que ele desse no pé*. Não queria ver o rosto do moço, não quero saber do nome do moço. Ver o moço ou saber o nome do moço é não ser mais moço. José e Fabiano não são moços. O José de Drummond é o José Drummondiano, o Fabiano de Graciliano é de Graciliano Ramos. Eu não quero José de ninguém, Fabiano de ninguém. Agora, por exemplo, ele já é o moço do jornal. Queria que o fosse, apenas. O moço do jornal é o moço da fazenda. É o moço que cuida da fazenda e me traz todas as manhãs o jornal.
 Maria chegou ontem e trouxe cá uns livros, os livros da minha biblioteca que ficara na cidade. Trouxe vinhos de diversas vinícolas, jornais e um novo tabuleiro de xadrez. Ela chegou com a mesma roupa de quando a vi no aeroporto? O corpo era o mesmo corpo de quando a deixei sem lágrimas no aeroporto?
Minha Nega, Maria, trouxe os vinhos. Eu os olhei frente a frente, um por um. Os livros que recebi foram abertos e postos juntamente com os demais, em cima da mesa de jacarandá. Olhei a capa de todos e reli cada imagem contida nas capas dos livros que chegaram ontem. Os vinhos foram cuidadosamente olhados. Li o rótulo de cada um. Não bebi nem um gole de nenhum vinho, não queria me esquecer do último gole da bebida. Não bebi e não comecei nenhuma leitura de nenhuma obra. Os jornais que chegaram com minha esposa também estão abertos. Eles foram expostos lado a lado com os jornais dos dias anteriores, que sempre tiveram notícias de dias passados. Li a capa de todos os jornais que chegaram – o café está frio, Nega. O objetivo de ler jornais deve ser o mesmo da existência, um passado presente. Passado presentificado no presente *porque futuro é o que não há*. 
– O café está frio, Nega! Ela faz um novo café. Bebo café ainda quente e queimo a língua, a ponta da língua. – O café está quente, Nega. Queimei a língua. Da língua; é para sentir o gosto que vou esquecer após o último gole, o gole tragesquecido. A língua é para esquecer o som da palavra dita pelo profeta já morto na encruzilhada. A língua assassina a última palavra já esquecida. A língua é por excelência morta. O latido dos cães é língua viva, pois qualquer um se recordaria do último ganido. – Como é mesmo o latido do cão, Nega? *au-au é o caralho, não é isso que os cães dizem*. Na língua dos cães não há esquecimento, é língua viva. O latim já é vivo porque ninguém nunca soube esquecê-lo. Nenhum vivo em sã consciência sabe falar o latim, mas sabem falar do latim. Se não houve esquecimento é língua viva.
Devia escrever meu livro em latim... Devia começar com as expressões consagradas, mas que ninguém sabe exatamente como dizer. Haveria um personagem advogado, esses que vomitam à própria maneira as expressões em latim. A língua é viva porque jamais cairá no esquecimento* não se esquece do que já foi posto de lado*. O advogado, que deveria ser meu personagem, falaria várias expressões em latim, e, entre uma e outra, falaria uma expressão que ele mesmo criou. Seria língua viva uma língua nascida morta, a língua criada pelo personagem inexistente.
Um personagem, assim como o cuscuz temperado deveria de ter tempero, como tudo quanto há *como o cavaleiro inexistente de Calvino*. Tirei as folhinhas que recobriam o cuscuz, que já estava frio, esteve quente um dia e com folhinhas. Sem folhinhas, sem a carne seca, sem o milho. Tirei tudo, mas ficou o sal. O sal é isso que não se tira, é o som da língua viva ou morta da boca de quem disse a última palavra que será esquecida por alguém.
O sal fica. Eu me lembro de que deixei a porta do carro aberta no aeroporto. Queria muito chegar logo aqui. Saí correndo, o avião estava prestes a decolar – as portas do meu carro ficaram abertas. Havia entre mim e esse sítio, o checklist, que foi feito pelas cucuias. – E o porta-malas, ficou aberto? O porta-luvas. Minhas portas estão sempre abertas, e sei que há espaço vazio em minhas entranhas. 
Os quartos dessa casa todos têm portas abertas. – Nega, você chegou ontem e não saiu da sala, notou os quartos? Só sala, cozinha, banheiro. Eu também não me interessei em conhecer o interior dos quartos. Todos esses dias, eu dormi na sala. Apesar das portas todas abertas. Também não conheci a varanda, sei que o vento vem de lá, vento forte. A vidraça que me separa da varanda está aberta, só um véu, a cortina, entretanto, que me faz a separação. Todos os quartos dessa antiga casa, os sete quartos dessa casa antiga *são oito portas na casa (sete dos quartos e uma da porta principal)*, estão abertos com uma fina película negra cobrindo a imagem interior, o interior que não quero ver, não quero me esquecer – o banheiro não tem divisória, não se preocupe. Passei pelo corredor, caminho para o banheiro, e vi alguns quartos de portas abertas, apenas com a película cobrindo o olhar. Se em cada porta ficasse um jornal aberto, um vidro de vinho aberto, uma peça de xadrez e um livro. Se em cada porta tivesse um pedaço de minha mulher. Fazer já alguma coisa.
Conduzi os jornais rumo às portas, quase que automaticamente. Os vinhos têm pernas e andam trôpegos às encruzilhadas – cada peão ficará à espreita, à espera. Todos os caminhos ficarão embebecidos de vinho-cor-de-sangue, vigiado por um peão que haverá de ler jornais de antigas notícias – à espera de quê, Wilke? Todos os peões ficarão à espreita, guardiães. Todos, guardiães das portas – não entende, Nega?
Todas as portas estão repletas dessa mesa, as portas que não são de jacarandá. Coloquei os peões, vinhos e jornais nas portas sem nenhuma garantia de segurança. Tenho todas as portas totalmente abertas *cada entrada dos quartos resguardados pelos objetos à entrada*. Coloquei os peões às portas dos quartos (as sete), juntamente com os vinhos e jornais *a mulher julga loucura*. Guardiães das portas, sentinelas de minhas entranhas.  

...

Muitos leitores já me disseram que gostariam de ter o nome em um de meus livros, eles me entregam todo o segredo, historietas até belas, algumas. Nunca escrevi um livro cujo título fosse meu próprio nome *o título Wilke não atrairia nem a mãe*. O que esperam meus leitores ao desejar o próprio nome nos livros? Abandonei a cidade fruto de tantas histórias, e não me sinto seguro aqui.
Os enredos da vida não se completam; não se encaixam em corpo nenhum. O editor queria um livro de contos, contos populares de primeira mão *uma coletânea*, que ninguém tivesse ouvido. Até mesmo quem os tivesse contado... Que só os tivessem confidenciado a mim. Eu queria um romance. Eu quero um romance. Não desses já escritos sobre coisas banais do cotidiano, quero um romance novo. O editor quer um livro de contos para rebater a tola crítica *a mesquinharia da crítica literária diz somente dos romances pastelões*. É só ver um escritor ganhando dinheiro com livros que a síndrome Joãozinho Trinta bate à porta. O editor quer que eu prove ao mundo das letras que sei escrever. O editor quer.
Meu sangue. Eu quero romance. Minha mulher chegou ontem: vinhos, xadrez, jornais e livros sobre a mesa de jacarandá (não senti falta do cheiro da buceta dela nesse último mês). O word continua pedindo bênção para escrever. Agora, todas as portas possuem uma peça de xadrez, um peão, um vidro de vinho aberto, jornais e livros. Os quartos estão cheios de mim; a cidade é um tédio nato (não me sinto bem aqui). Meu rosto ao espelho era tédio sem espanto. Esse novo ar, essa nova terra vermelha e essa mesa de jacarandá estão sem espanto, convivem comigo na tola harmonia insana do campo. Haverá aqui um novo tédio? Um tédio longe dos tédios das capitais. Um tédio sem gás carbônico e efeito estufa – um tédio sustentável. Os carros voavam por cima dos homens, que atropelavam os animais, nas cidades. Os carros atropelavam os animais, que eram humanos vestidos de terno de linho. A cidade esmaga tanto que é preciso ir ao interior à espera de histórias que sejam novas.
Que sejam novas mesmo repetidas por milhões de velhos gagás de trezentos anos. Que sejam novas mesmo em cidades velhas, de fósseis cadavéricos que engatinham para se locomover, beijam o chão a cada passo. O avião me trouxe para uma cidade maior, não me lembro do nome, e algumas pessoas já me aguardavam com o tom fúnebre do interior. Fui arremessado em um corcel no qual me conduziram a esse sítio. Os velhos já devem ter morrido, porque desde que cheguei aqui não vi nenhum, sequer saí da sala: sala-banheiro, sala-cozinha. Somente minha mulher entrou aqui, aqui, tudo encerra nesse tabuleiro montado aos moldes de Fischer.
Bob Fischer foi o maior de jogador de xadrez de toda a história, apesar da história oficial considerar Kasparov. Fischer é o maior jogador de xadrez de todos os tempos, apesar de já ter morrido e ter sido caçado pelo governo norte americano. Teria hoje... Não sei. Fischer morreu, mas o jogo desenvolvido por ele continua sendo jogado por todos os aprendizes de xadrez. Há um sorteio das peças da última linha, somente os peões continuam intactos. A torre fica onde o acaso mandar, o bispo, o cavalo, também. Fischer desenvolveu o xadrez, embora meu tabuleiro esteja ainda parado, o novo jogo de xadrez é extremamente dinâmico. Aqui, não há adversários *provavelmente não jogaria partida alguma, com nenhum adversário*.
Ainda meninote, observava os jogos dos outros, não me atrevia a mexer uma peça sequer. Várias pessoas já me perguntaram o porquê de não desafiar os outros. Preferia ver a beleza do xadrez pelas mãos dos mestres. Meus livros são partidas feitas por outrem *procurar imperfeição em partidas mestres pode ser um tanto desafiador*. Tenho uma fórmula eficaz para escrever um romance, o problema é que a crítica acaba dizendo que é romance pastelão. Nunca me disseram isso claramente, mas sinto que comentam. Não quero um romance pastelão. Quero um novo romance. Todos os meus livros é como um pastel gigante: cheio de massa e com pouco recheio.
Recheio é o que faz um livro não ser lido por muita gente. Recheio é o que faz o livro ser lido por poucos, que são considerados intelectuais. Meus quinze livros são todos cheios de palavras, as mesmas palavras e com os mesmos significados *todos os livros com ampla tiragem*. Meu editor, diante da fala do publicitário, disse que eu devia escrever um livro cult, um livro que deixasse a crítica deslocada. Coletar as histórias desse povoado *Santo Antônio de Goiás*, dessas pessoas que pouco mencionaram as suas histórias a outrem – seria uma forma de rebater os termos pejorativos que perpassam minha imagem.
Minha imagem pública é uma casa de sete quartos de portas abertas *a oitava é a porta de entrada*. Sete quartos com vinho, peças de xadrez, jornais e livros à porta e um cão que late lá fora, que ouço o renitente latido. Minha imagem é um sítio no interior, lugar de terra vermelha, onde um moço entrega jornais e traz leite todos os dias pela manhã. Minha imagem é a mesa de jacarandá. As portas abertas e o café frio  *o marcador do word aterroriza até o diabo*. Minha mulher silenciosa fazendo um novo café que ficará gelado, que será tragado fazendo cara feia. Minha imagem são quinze livros escritos de massa de pastel.
Pastel quente – vou ao banheiro, Amor. Não vou comer, não vou queimar minha boca. O pastel está cheio de recheio, pesado, enquanto meus livros são pastelões com pouca alternância de léxico. Se minha mulher escrevesse um livro, seria um livro de recheio, de receitas quentes e açucarada. Se minha mulher escrevesse-escrevesse o café matinal, o café quente que se torna frio diante de minhas mãos. O pastel que, mesmo frito na hora, se metamorfoseia em pão amanhecido diante de mim, diante das minhas mãos...
 Corpo, tudo. Tudo em mim é massa sem recheio. Meu corpo é gordo como uma bola de neve. Não há músculo para perfazer a silhueta, nem gordura propriamente dita. O que há é retenção de líquido. Meu corpo é inchado – inchado de quê? Meu corpo é inchado de massa de pastel que não é possível ingerir. Atrás de mim tem uma varanda de portas abertas e o vento, insistente, sacode os cabelos da cortina, mas prefiro apenas ouvir o chiado. Não vou olhar. Lá deve haver uma paisagem, que pode ser bela, mas que o nome é paisagem. E, como sei o nome, o que hei eu de fazer olhando algo que já sei soletrar? Paisagem é o vinho, o marcador do word, a mesa de jacarandá, os jornais, os livros e meu tabuleiro de xadrez aos moldes de Fischer *passagem*.
Xadrez já me é parte. Meu tio foi preso em um presídio de segurança máxima, porque comercializava tabuleiros de xadrez do exterior, comércio ilegal. Meu tio jogava xadrez por detrás das grades e vencia a todos. Enxadrista do caralho! Não tinha para ninguém. Será preciso ser o próprio livro para escrever uma obra minimamente original? Comercializar tabuleiros para vencer a todos? Só conhece o vinho quem o traz à boca, quem faz o vinho correr pelo palato mole, duro, língua, tudo. Só lê jornais quem quer ser notícia um dia. Vou dormir com um livro de cabeceira, um livro como aquele que quero escrever. Cadê?






Varanda-sem-jacarandá
 (Cap II)

        
– Maria, eu vou dormir aqui.
Na sala, mesa de jacarandá e colchão – vou dormir aqui. É colchão de solteiro, mas vai bem, vai bem. Durmo grosso como quem toma remédios. Sexo, não, hoje não. Estou um saco arremessado do décimo andar, um saco de pastelão que cai e espatifa ao chão.
Que sonhos dos diabos. Sonhei que do lado oposto, pela varanda, a cortina era aberta por um vulto. O vulto, que era algum diabo, queria me dizer alguma coisa, de onde viera *o diabo traz mensagens em códigos*. Eu não escutei nada, apesar daquele vulto ter gritado de minhas entranhas, de minhas costelas, de minhas vértebras. A coisa gritou, gritou como um grito vibrado em meu peito – eu fui gritado. Direto à alma, na alma. Uma flecha que sangra mesmo depois de acordar. Como hei de estar nessa manhã?
Arrastei-me rumo às cortinas. O vulto já tinha saído dali, sem dúvidas, sem remorso e gritando de mil palavras-entranhas. Encostei-me na renda de seda acariciando sem medo os cabelos de uma bela adormecida. Vagarosamente arredei as cortinas, começando a surgir cenas por detrás do véu. As cortinas são cabelos compridos que escondem os olhos da casa. Devo mesmo atravessar a cortina rumo à varanda *os sonhos podem permanecer mesmo depois de acordado, alguns sonhos lúcidos*. Os trilhos da cortina gemem a terrível existência do vulto que me perturbou em meu peito durante toda a noite. Aberta a cortina: disparei em cada batida cardíaca e avancei. Adiante. A varanda tem um mármore frio como o tabuleiro montado na mesma posição, como a mesa de jacarandá. A varanda varre o vulto e me arremessa além.
Uma vaca pasta sossegadamente. Um cachorro corre cem metros rasos atrás de um preá assustado. O capim chora orvalhos da madrugada. Não posso ver nada. Não posso distinguir o que há além da varanda. Sem exatidão nas palavras, senti o obscuro passar com o arrepio d’alma *como o vulto noturno*. Ali não há paisagem. Senti um quê sem palavras que esfria o abdome, o corpo, a amplidão. A amplidão que me tomou todo o grito sem palavras da silhueta noturna.
Hoje, não quero café-quente-gelado-morno. Ninguém, nem mesmo os cães seriam capazes de me retirar desse torpor. Ao longe, ao longe, ao longe. Nada.
Sofreguidão nas palavras nasce para atormentar a alma vã. Não há como dizer o que é a palavra. Palavra nenhuma traduziria o instante, a palavra do instante é inexistente, apalavra. Nem o silêncio daria conta desse choro universal. O choro da varanda-sem-palavras.
                                                                                                                                                   
...

As palavras são guardiãs da lei *dizia a professora de português da sexta-feira*. A lei do existir. Queria adormecer nesse instante-sem-palavras. Queria não mais dizer de romances. Não queria desdizer meus romances. O Pior de tudo é pensar: pensar é abrir mão das entranhas, tudo. Queria não pensar agora e permanecer eternamente nessa bolha-sem-nome; não quero tentar traduzir o instante. Que seja por um segundo, esse instante sensitivo da varanda; o vento que arroja o oco da varanda é parte disso que não sei nomear. Disso que faz procurar palavras, palavras que acorrentarão meu silêncio.
Um barulho. Alguém esbarrou no tabuleiro de xadrez e as peças brra-brro-brr ao chão. O som estridente das peças contra o solo me faz retornar ao café frio e a mesa de jacarandá. O silêncio universal foi calado pelo grito das peças de xadrez *um grifo de sanidade em quem estava absorto no prazer sensitivo*. O universo mágico me observa pelas costas, enquanto, de quatro patas, recolho peça a peça, pata a pata, meus pedaços do chão.
Qual era a posição do tabuleiro antes da queda? Era a desordem de Fischer?  Apesar de eu não possuir o hábito de jogar contra adversários reais, eu busquei aprimorar o meu jogo me desafiando. Na verdade, defendi de mim mesmo com a melhor das defesas desenvolvidas, o dragão da siciliana *assim ficará o tabuleiro agora*. Contra as minhas aleatórias ofensivas, somente o dragão. A posição das peças era a de Fischer e, contra essa desordem, só o dragão. Dizem que esse nome “dragão” advém de uma constelação específica que teria o formato do animal. Não, a história oficial é feita para ser desdita. “Dragão”, no meu desdizer, é fruto do bispo em fianqueto sobre o resguardo do cavalo. A saída do cavalo deixa transparecer o fogo cruzado do bispo. A língua só pode mover-se na boca como fruto do bangue-bangue ocasionado pelo bispo em fianqueto, as línguas como um xadrez em jogo.
Procuro as palavras, embora não as queira. Procuro a posição certa e remonto o tabuleiro, agora, as negras de siciliana e as brancas a partir de Fisher, aleatoriamente. As negras, minha defesa, estão de agora em diante de siciliana, dragão da siciliana *não estava assim antes da queda*. O café. O café da garrafa pulou à minha xícara, que soltou à minha boca, que queimou minha língua, a ponta da língua, fazendo de mortas algumas células. Café quente queima como o vulto que arrasa a alma sem razão. O café esfriou. Bebi frio e reclamei do café que estava frio. Café frio derruba todas as peças do tabuleiro interior. Por um segundo não pensei no arriscado café cheio de borra e gelado, senti o peso da alma, o silêncio do deserto, o deserto noturno do vulto. O deserto real. Soturno. Não há o que o defina, nem a hora certa a chegar, o vulto comparece fora do tempo, da razão. Palavras não definem sequer um terço desse silêncio real.
 – Nega, estou tocando em algum ponto branco, branco-branco! Nega, quero sua presença, que basta. Nega, o café açucarado, cheio de borra e gelado é tudo que tenho agora. Não vou deixar as palavras gritarem mais alto que meu silêncio, o silêncio de todos: barulho não escutado. Nega, acho que estou em silêncio. 
Não. Não estou em silêncio, penso, e pensar é falar sozinho. Quando tinha quatro anos, eu descobri que pensar é falar sozinho. Pensar é se acompanhar. Pensar é ordenar o real para tentar suportar o silêncio interior. 
– Maria, eu ainda não estou em silêncio.
– Deita um pouco, Wilke, vai. 
As palavras não sou eu, sou o próprio instante do desdizer. As palavras ditas são capazes de traduzir-me em algo que não sou: palavras, uma falsidade quase necessária. Deitado, sentado ou de pé. Sou onde não há o que dizer. Sou o silêncio universal: a fala hermética do vulto, que grita em silêncio e quebranta todo coração vazio de recheio. Silêncio: mais que mil palavras inquietam o disperso coração, não, somente no sonhorreal do vulto me refaz nesse tabuleiro.


...


Os quartos dessa casa velha estão fechados de portas abertas *a encruzilhada abre caminhos, e Exu é que une a matéria ao imaterial*. O quarto não está fechado, há portas abertas. O peão protege, mas impede que eu veja além da película negra. Quando olhei há pouco as cortinas, não via o que estava do outro lado. Ora o pano mexia, ora fechava-se. Eu via parte do que estava do lado oposto, mas pensava que fosse paisagem o que era amplidão *passagem*. Pensar em paisagem é trair-me; era ver todos aqueles quebra-cabeças da infância – juntando, formava uma paisagem de mil peças, lembra? Papai trazia jogos e jogos, enquanto eu quebrava a cabeça. A paisagem é quebradiça como neurônios que jamais se tocam. Mesmo em sinapses, os neurônios são paisagens, peças que não se beijam. A varanda é o oposto. Não é paisagem, muito menos neurônio, a varanda-sem-palavras.
O tabuleiro de xadrez agora tem uma defesa, o dragão da siciliana. Antes do tabuleiro ir ao chão, eu estava todo à lá Bobby Fischer, um sorteio de cada lado, e os peões da segunda linha intactos. Agora, as brancas continuam aleatórias, embora as negras estejam alinhadas com o bispo em fianqueto, conforme ordena o dragão. Dizem que essa defesa é chamada de dragão por ter semelhança a um composto estrelar, uma constelação. Particularmente, esse nome é interessante não pela constelação, mas pelo fogo aberto ao se retirar o cavalo *a velha boca aberta*. A saída do cavalo vem como o vulto noturno, que chamam de sonho, que arrasa um homem mesmo acordado, que chamam delírio. Assusta. Assusta e proclama o fogo cruzado. Eu acho que já vi esse vulto outrora, mas acordado, não me recordo bem. Todavia, o arrancar de minhas vértebras, a passagem pelas entranhas (isso que fui gritado) – eu já presenciei coisa parecida aos seis ou sete.
A encruzilhada abre caminhos. 
– Nega, meu amor, esses quartos estão abertos. Quando cheguei, as portas estavam escancaradas, assim como eu as deixei, mas lá dentro havia uma película fina de cor preta, dentro de cada quarto. Estava fechado. O peão lê jornais e livros velhos, regado a vinho. O peão abre caminhos. Eu os coloquei assim, Nega. O peão abre a película negra rumo ao acaso da varanda. O peão não precisa de palavras, pois que já habita o silêncio universal. No xadrez, a qualquer momento, o peão é capturado para dar passagem a outras peças mais potentes. O peão abre caminhos. O peão é o Exu do xadrez e do quarto, que agora está aberto, minha proteção, portanto.
 Meu tabuleiro tem as peças negras contra o vulto, que é de jacarandá e palavras. As palavras berradas no sonho eram tão intensas que ouvi o branco *o sonho era branco, o vulto era branco-gelo*. Meu peito não suportaria outro grito, o grito surdo do vulto, por isso a siciliana é a minha melhor defesa. À noite, os peões abrem caminhos, enquanto o dragão prepara-se ao sopro do inferno. De onde vem essa coisa de São Jorge e dragão? Pode ser mais um desdizer da defesa siciliana, porque o fogo do dragão só aparece quando o cavalo desloca. As palavras vultosas são ensurdecedoras, contudo, após ouvi-las, não há distinção de cada fonema. A varanda não tem fonemas, não forma morfemas, muito menos palavras. No som da varanda não há texto: a sintaxe e a semântica são iguais a zero *Inicialmente o esquecimento, apagamento de qualquer reminiscência, após, um salto, uma invenção*.
A varanda não é um número e nem encerra uma palavra. Zero é nada, é um interstício, um intervalo entre a sala de jacarandá e o restante da casa. A varanda não conclui, não finaliza a casa. Ponto do meio, um meio que há sempre outro entre ele. A varanda está entre, um meio entre os demais. Não há começo, nem meio exatamente, não encerra o fim.
Preciso descobrir esses quartos, todavia, enquanto necessitar especificamente de algo, algo será ausente de mim *o essencial é aquilo que ainda não há*. Preciso dos quartos da mesma forma que exijo dos jornais uma notícia vermelha, mas queria tudo como o que vivi na varanda – impossível. A varanda é o que há independente de qualquer um; sou eu (dos outros) em mim. Os quartos, enquanto externos, enquanto objetos puros, não trazem nada além de quartos. Os percevejos, as aranhas, serão aranhas que dirão tudo diante das palavras: p-e-r-c-e-v-e-j-o/a-r-a-n-h-a. Os nomes são peças de um alfabeto morto, uma língua morta como as células que morrem ao tomar café quente e açucarado (prefiro café gelado e com menos açúcar), porque o esquecimento é a marca registrada de quem morre. Não existe relembrar: relembrar é sempre *sempre!* uma língua de novo. A morte é que nos arremata de supetão para impor uma nova vida, uma nova vida que é tudo bulhufas de vidas de outros. A morte não se impõe aos mortos, uma vez que ainda não foi esquecida – talvez só o ato de morrer seja vida, vida por excelência. A morte é o instante do grito do vulto que arrasou meu peito; a varanda é a vista sem palavras, que nem jacarandá na floresta. Não quero os quartos, ainda preciso deles.
Esse tabuleiro é uma arma. Os jornais que chegaram são armaduras contra a intromissão do vazio. Ler as notícias me deixa ligado, interligado, com um início e meio e fim – fim que não existe. Fim: uma palavra sem existência como todas essas palavras temidas coletivamente. Mas saí da cidade, da capital, para me ocupar do silêncio propiciado pelo retorcer do cerrado. Essas árvores daqui são pinturas barrocas naturais e deveriam me tragar daqui. As árvores do cerrado me fizeram repetir a mesma incompetência da capital *o cerrado tem árvores do ponto do meio*.
A varanda-sem-palavras foi a experiência necessária para que eu pudesse dizer da falta de necessitar de algo especificamente: precisar algo é chegar a um ponto final *para afastar em seguida*. A necessidade é o oposto da vida-sem-palavras da varanda, está dito! O vento é o que nos toma por completo, o vento de outro lugar também sem palavras, da paixão. Vou dizer ao contrário: não preciso de um novo romance. O contrário de novo, ou seja, velho, então, dizendo ao avesso – preciso de um velho romance de novo. Ainda as palavras estão intermediando o inexprimível *pura futilidade*. Não preciso de um velho romance. As palavras são correntes que aprisionam a alma. A prisão que meu tio se submeteu por contrabandear tabuleiros importados foi à consagração dele como enxadrista. Um bom enxadrista, excelente *ideal, ideal de enxadrista*. As palavras devem ser correntes que aprisionam a alma para libertá-la. Os jornais abertos estão do lado de lá; os livros, ainda que de capas lindas, estão do lado oposto *a repetição demarcar o inominável, não?*. A varanda continua no mesmo lugar, mas não irei a ela, porque tudo seria palavra do desdizer. Se eu disser palavras, as coisas serão palavras e só. Só haverá varanda-sem-palavra se eu não estiver ao alcance dela – somente não dizendo é que as coisas se tornam, tornarão, sem virar ao avesso, sem tornar excesso.
- Nega, queria falar com você. 
Do querer: – a fala recusa traduções. Do desejo, o oposto advém. Não vou dizer o contrário. Não vou dizer! Digo somente quando me recuso a dizer, e, é mesmo na recusa que comparece o que iria a ser. Enfim melhor seria dizer – digo NADA, um desdizer. Digo nada como quem diz algo que é nada; a recusa está no presente; a ausência é nítida e não digo o contrário. Não digo o contrário, já que o que digo já é o avesso da linguagem: digo NADA. Só há linguagem quando NADA diz além.
– Que tal você voltar à capital, Maria? Sim, você vai e eu continuo nessa casa *causa*. Você vai e eu fico aqui, ainda com a necessidade da sua presença, com certeza; os objetos ainda externos (xadrez, jornais, vinho, jacarandá) são seus dedos fora da mão, são! Mãos sujas de dedos colados à mão.





Amor-de-palavras
(Cap. III)




Maria saiu dessa casa velha em prantos. Mas o que disse eu? Apenas para ela ir à cidade, afinal, ficar aqui comigo deve ser insuportável. Insuportável. Ela chorou e não gosto de ver lágrimas cristais, causam arrepios intoleráveis. Quando me despedi dela, no aeroporto, ela não chorou – isso me confortou para passar esse mês à sós. Não quero chorar também. Sangrar alguém para lidar com o próprio mal-estar é de profundo mal gosto.
Sangrar em lágrimas porque Maria partiu. Partiu o espaço cinza que nos unia *o café não será frio, nem quente*. O avião nessa hora decola para dizer adeus ao Deus de nós, que é. Há entre mim e ela um nó de peito, mas ela me permanece enxuta no varal do tempo, tempo meu.
O café que tomaria agora, nesse fim de tarde, seria feito por ela. Não há sequer o olhar dela perante minhas pernas insossas, que não param de mexer inquietas. Do olhar: meus olhos querem sangrar como aqueles olhos, por-mim-por-ela. 
Esse peito que geme o vulto do grito, o silêncio, a varanda *não chora palavras*. Quando ela saiu, lágrimas caíram. Meus olhos silenciaram, mas em minha costela opera um quê sem razão, desmedido de vulto. A razão lançou-se adiante – fico na inquietude tomando notas de olhos alheios, olhos meus também.
Eram olhos alheios, dois, que eram meus. Não tinham a cor dos meus, nem sei se tinham cor. Eu estava do lado de fora, minhas retinas não refletiam um centavo. As palavras intervêm nas lembranças, inscrevem lembranças em epitáfios de vivos. Dos olhos, uma cor: a amplidão parece atravessar as costelas. A cor será. Um dia, vou ter sangue, corpo, costelas. Um dia, sentirei coisas sem-nome-sem-palavras, e Maria voltará na surpresa do acaso. Eu quero. Enquanto o querer é um desejo, será um quando sem culpa.
Queria poder sentir um novo amor. Um novo romance. Quero um novo amor, que sangre sem avisar. Que arrase minhas vértebras, arranque minha costela, que faça uma nova mulher. Mas ainda quero – se quero é porque não sou. Um quando, que será a vez num instante, mas é futuro. Um quando, que não permitirá um querer, porém, serei todo, todo amor. Sem quando, tudo será o próprio instante da beleza *o futuro é desabitado, o hall do que não há*.
Não há amor quando o desejo é marca indelével. Um pai devia ensinar isso aos filhos - meu pai sabia bem disso, embora não tenha atrevido a tecer comentário nenhum sobre o desejo. O desejo demarcava o espaço do meio na minha casa, entre o que sentia e um quê de propriamente dito. Amar é toda excomunhão sem motivo. É permitir o proibido a quem já ultrapassou a barreira do “não”. O amor é o que não tive *o amor é um quê do que não há*.
Eu dizia a ela, Maria, que a amava. Eu reclamava do café como quem diz que quer amar novamente. Nosso amor estava um café morno, um dia cinza, porque era todo palavras. As letras dos jornais, dos romances, eram o nosso melhor, um amor empalhado numa mesa de jacarandá. Meu amor era um tabuleiro montado aos moldes de Fisher, peças aleatórias sem história *um animal virtual*. Eu salvava o amor bebendo o café já frio; lendo as capas dos jornais. De quando em vez, bebia o café quente, no gosto das células mortas eu refazia um novo momento, meu novo romance. Eu alimentava a boca terrível do amor com tudo isso: xadrez de Fisher, jornais, livros, café e a mesa de jacarandá. Meu amor foi alimentado por palavras. Amor é intraduzível *o fracasso das letras sem plateia*.
O xadrez de Fisher não é xadrez; é o amor de Robert James Fischer, o "Bobby". Esse grande campeão mundial, um gênio da história do xadrez, além de conhecer a fundo as aberturas tradicionais, desenvolveu um novo xadrez em que as posições das peças eram dispostas através de sorteio, era o amor de Fischer *aposta diária sem razão*. Somente os peões ficavam na segunda e sétima linhas, o restante era via sorteio. Fiz da minha vida um perpétuo desejo de amar *um empate perpétuo, repetição de três lances*. Minha mulher voltou à capital.
Em cada porta, um peão. O peão saiu da linha de frente do xadrez e ficou à espreita, à porta, tal como Exu na encruzilhada. O peão não protege o quarto, mas abre caminhos, liga minha matéria ao imaterial do quarto diante de um portal imenso, que me conduz à película negra do interior do quarto. Ainda há pouco, coloquei mais um peão na porta de entrada. Já são oito peões: sete nas portas abertas de cada quarto e um na porta de entrada – abra os caminhos da varanda (o banheiro daqui não tem portas). Letras me perseguem. Não é a Nega, não é o xadrez de Fisher ou jornais e livros e vinhos, mas, tão somente, as palavras. Elas estão em todos os lugares e não precisam de Exu para abrir caminhos. As palavras fecham os caminhos, diante delas não existe portal algum.
Quando pequeninote, eu não entendia bem a língua portuguesa. A compensação resume minha vida: minha família compensou a carência de palavras pela via do excesso. Estudei pelo método japonês de aprendizagem, Método Kumom, e trago de lá a disciplina de quem escreve seis horas seguidas, seis horas de tudo que não tem a ver com a própria existência. Os métodos ensinam a afastar-se da própria existência. Lia como um condenado pelas letras – escrevi quinze livros para tentar abortar o excesso de mim, contudo, abortei a mim a mesmo. Lia, escrevia, mas permaneci escravo do dito.
A palavra amor me deteve por vários anos. Xadrez de Fischer, mulher, jornal, livro, café. Aprendi não a jogar xadrez, mas o xadrez das palavras, uma tranca *Exu*. Não jogo xadrez com adversário reais, porque os oponentes não entendem a crueldade das palavras. Talvez eu não ame de fato, já que dizer “amor” já reduz o fato ao impossível. O desdito é o que há.


...


Sair da capital rumo ao interior não são promessas, mas um pedido *uma aposta*. Saí da cidade sem saber o que me esperava no escuro, a penumbra dessa casa é tão terrível quanto habitar esse corpo pastelão, quanto escrever quinze livros torpes. Se o soubesse como era viver aqui, talvez, tivesse continuado escrevendo romances pastelões dentro da minha casa. Sair da grandeza da cidade, da masturbação que é viver sendo elogiado, e entrar no marasmo de uma casa escura, sem café, sem ninguém, apenas o vulto da noite, a tenebrosa e pacata noite. Ao marasmo infernal desse lugar, sem a obrigação de estar aqui, mas permanecer longe da correria insana do dia-a-dia. É o oposto. Quando o oposto se presentifica é um tanto desolador *a crueldade do óbvio*.
Estive puro na palavra ‘elogio’. Eu me resumia na palavra esquecimento – esquecer-me dos elogios que me eram feitos. Sair da minha casa, casa de condomínio de luxo, foi um atravessamento. Não foi através da palavra que cheguei aqui (esses pensamentos estão me consumindo). Estive em palavras, do meu nascimento à vida adulta. Na verdade, nunca cheguei à vida adulta, porque havia uma palavra (várias palavras) me separando da experiência. A experiência esteve subjugada ao dito, previsto.
A previsão é um estado de coisas que possivelmente não chegará a ser. Fui um desejo esdrúxulo de sucesso. Era desejo de. Isso é grande agora. Não há formas para dizer que eu não era um desdizer que repetia do intraduzível. Pecado. É um tropeço fazer da fantasia uma vida, uma atrocidade. Fui atroz comigo. Mas ainda o sou, porque digo que fui. Ah, eu separo meu passado do presente. Eu sou atroz comigo. Serei honesto o dia em que não disser o que sou – serei.
 Maldição. Sou todo amaldiçoado. Não há vida alguma em quem diz alguma coisa. Não quero dizer, não quero falar. Pois as lágrimas de palavras são frutos de expectativas, carne sem tempero. Eu desço aos trilhos do caos. Direi sim, um dia, mas preciso de um NÃO forte, capaz de romper com esse ostracismo. Essa casa, ao inverso do condomínio, é meu não.
É, Nega. Maria, não há nada em você agora que cause identificação. Nem eu mesmo consigo me identificar com essa história. Ela estará em outro lugar (terá esquecido minha última palavra), entretanto, ela pertence ao além da palavra pensada. Então, o problema não são as palavras, são os pensamentos que se inscrevem através delas. Jamais. As palavras são expectativas frustradas de um passado presente.
Maria estará fisicamente em qualquer lugar, mas certamente os atos a convocam como no instante que a conheci. Numa premiação havia alguém que havia lido toda minha escritura. “Uma retardada!”, pensei. Com o tempo, entretanto, passei a encontrá-la em diversos espaços *poucos frequentados*. Ela será então isso que não é, meus livros. Porque desdizendo ela parece presentificar. Ela é porque nada diz. 
Parece que minha mente desmente tudo que eu penso. Eu estou sem saber, mas considero o contraditório. Esses quartos, sete quartos, no sétimo dia de descansar. Mas haverá um oitavo. O sétimo preanuncia o oitavo. Ei, eu não quero pensar. Eu não sou tolo de desejar um fio sequer. É maldição. MALDIÇÃO. Eu sei que haverá um sétimo, um oitavo, e aguardo como quem morre a cada fim de dia - a terra foi criada em seis ou sete dias? Um dia, uma morte, uma noite, uma vida sem fim. É perturbador saber que um novo dia está por vir. Tomo nota. Desminto meu dizer. Há algo além. Algo nisso tudo.
.O que houve, portanto? O xadrez já me é um passado alheio. Os jornais estão na mesma página (imagino eu), já que não vejo letra alguma, permanece distante. E, ainda, os livros estão na mesma casa maldita, essa casa de fazenda. O livro deve ter seu brilho de varanda no além da palavra, além da consolidação do significado da palavra. Esse livro maldito tem um mal no dizer, que deve ser nada, apenas uma tola indisposição que agora me abate. Nada, furo universal. É espelho refratado em outro espelho.
As cortinas estão cada vez mais abertas, não perfazem um véu pela vidraça e o romance está descortinando. Viver é um descortinando *na bíblia consta a passagem do véu espatifado, Velho Testamento*.
Mamãe brincava comigo de bem-me-quer. Ela quis meu bem: ansiosa, desejosa de um filho que a tirasse da mesmice da vida de esposa. Era a hora de ela se ver no espelho, uma menina que não fui. Eu seria uma menina. Uma moça bonita que usaria laços de fita e transaria escondida, atrás da igreja. Eu seria a expectativa dela *o outro dela*. Eis-me! Sou o furo de um desejo. Mas mesmo diante de minha severa virilidade, uma mãe me prefigura. E eu digo isso agora. Digo, porque é tudo o que me resta. São esses pensamentos que me consomem: tudo que sou. Não, serei meu próprio não dizer, quando a necessidade falecer na esquina debaixo. É no devir que o outro se desmancha. Minha fique com a filha que não teve... Que vá às cucuias!





Um-quarto-a-mais
(Cap. IV) 




Se fosse uma questão de ritualizar a vida, eu já teria adentrado os quartos, cada qual um ritual, mas não é tão simples assim. Eu ainda não entrei em quarto algum por motivos escusos, que não cabem palavras. Nem tudo exige explicação; nem a mais bela pintura é capaz de traduzir o incognoscível. E não me tome como insensível. Claro que é um ciclo de vida como nascer, crescer e morrer: sala e cozinha e banheiro. A vida é mais, sempre um-a-mais. O ritual da vida trapaceia a existência, um sorriso, uma piada diante da seriedade. A passagem pela proposta do ritual, a mudança através do ritual, não reproduz a vida, a existência. Ritualizar é fazer símbolos de palavras – evitar o sentir, a vivacidade do devir.
Ainda não passei pelo ritual da vida. Fiz da vida símbolos que eram rituais obrigatórios. Eu passei pelo ritual da vida, porém não vi nada e botei palavras para não lembrar nada. Até mesmo as palavras que foram usadas para esconder a vida, eu as esqueci, as últimas sempre foram esquecidas. Eu falo e não entendo. Eu passo pelo ritual de passagem, a passagem ao nada. O quarto ao lado é por onde começarei. Se ainda não entrei no quarto (se deixei um peão, um vidro de vinho e um jornal), talvez seja porque eu quis atribuir aos objetos o que não entendo, um pouco do meu corpo. O ritual de passagem é a limitação de minhas percepções.
Quando penso nos rituais, primeira namorada, primeiro emprego, primeiro porre *primeira buceta*... Não me vejo em nada. Ritual? Eu não passei por nenhum. Eu me esquivei de tudo que me fizesse adulto, maduro, eu me esquivei dos últimos capítulos. Releguei a vida a algo que botasse palavras-cobertor.
A varanda não foi traduzida, mas uma dor imensa me faz querer botar um símbolo. Começa a sangrar um peito sem lágrimas – Maria foi embora. Eu sempre a usava para desabafar essas coisas sem nome. Ficará o peito gemendo como portão velho. Não há palavras que traduza a dor suave do peito, nenhuma garantia. Esse corpo pagão diz dos limites prefigurados. 
– Caralho, cadê as pastilhas? Hidróxido do cacete. Meu estômago dói, caralho. 

...

Esse quarto será também tudo que não vi, não deixarei a película negra do quarto perturbar meu sono através de vultos. Mas o vulto foi o melhor de minhas costelas, de minhas entranhas. O vulto me resgatou ao inominável da varanda (desde que aqui cheguei, foi a única coisa pertinente que me ocorreu).
Fui ao primeiro quarto e cheirei o gosto sombrio. Atrevi, e meus pés adentraram o quarto, um cheiro de amor esquecido, velho. Não há luz, pensei que fosse branca a cor do amor, que tivesse um lugar para acender a luz – nada. Meus pés deslizam pelo interior do quarto, escuridão delicada. Uma cama para o sono, um armário, uma pintura, um quadro – nenhum objeto que desvie a sutileza do espaço escuro.
Um quarto de ausência de palavras. Maria está como quem é todo esse espaço. Ela está como uma bolha que perfaz toda a minha silhueta. 
Não há objeto algum dentro do quarto. Ele não tem nada a oferecer, mas é tão confortável deslizar a cada centímetro. O escuro é meu sono sem vulto. Todo vulto, toda imagem desfigurada deve ser isso que cheir’amor. Vou deitar aqui.





Uma-questão-a-menos  (apresentação)
 (Cap. V)

            Dormir nesse quarto-sem-sonhos foi regurgitar velhos problemas. Cheguei aqui na dinâmica de escrever aquele livro do editor, em forma de um romance histórico. Coletar historietas desse povo daqui seria até interessante, mas para jornalista. Minha resistência é ficar aqui. *Explorar cada centímetro do quarto, da sala, do banheiro, da mesa de Jacarandá, do xadrez, dos jornais é explorar tudo que não é varanda. Meu problema parece ficar mais claro, o que me cria mais problemas*.
Se eu continuasse desconhecendo meu engatinhar, talvez, estivesse mais próximo do que busco. Não quero o livro do editor, meu dilema parece estar um andar e-mail. Parece mesmo que quanto mais tento me aproximar, mais distante torno. A questão é não conseguir dizer o que quero. Recordo-me de um verso de algum autor desconhecido, que dizia: "Só ama profundamente quem desconhece o amor". Talvez por isso até agora só desdigo numa produção insana. Não quero as palavras, os quartos, a casa. Nesse momento toda forma de enunciação concentra-se na varanda. E a varanda não é resumida em linhas (poucas ou muitas), não há mesmo forma alguma de atingi-la. E é isso que me convoca; é isso que me faz rasgar-me ao meio em busco de outro corpo que ultrapasse as palavras. Quando eu era pequenino, uma professora (dessas imbecis que acreditam no poder do léxico) disse que meu problema era a falta da palavra certa. Essa professora diagnosticou meu problema como “falta constante de palavras”. Nenhuma imbecilidade maior.
Minha infância foi repleta de diagnósticos. *Quanto maior o número de diagnósticos, mais se distanciava desse quê*. Foi tentando me compreender que fui levado ao psiquiatra ainda aos oito anos. Ele disse à minha mãe que meu sofrimento chamava-se depressão e, ainda, voltou-se especialmente a mim para dizer que o apelido disso era 'ansiedade'. Eu era ansioso. Descoberta. Ansiedade-por-falta-de-palavras, disse mamãe. Minha mãe tinha também um quê de burrice, porque sempre fazia disso meu rumo. A verdade da infância é que a criança não existe um centímetro sequer. E fui estudar línguas. Estudei o quanto pude à procura do que fosse lá o que fosse - línguas dos diabos! Era a cura desse mutismo. Cem línguas e nenhuma solução. *Mundo, mundo, vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo seria uma rima, não uma solução*. A mania da genialidade também assolou minha porta. Hoje não entro em quarto nenhum. Entrei nesse quarto (o primeiro) e meu problema não foi resolvido, talvez ampliado. Quando fui ao psicólogo, ele me disse que tudo seria logo-logo resolvido. Um ano e nada. Não fiquei ouvindo as baboseiras daquele que me trazia a maneira certa de viver. Para ele, o problema já não era a falta de palavras, muito menos se chamava depressão. Meu problema seria denominado “repressão”. Esse idiota queria (insistia) que eu dissesse o que não sabia. Ele queria a todo custo que eu falasse do que me perturbava. 
O problema básico da minha infância era que nada me perturbava – fazendo com que tudo se misturasse nas minhas decisões. A falta específica do que reclamar (reclamavam por mim) me colocava em situação à lá Fischer, na completa desordem. Minhas peças não tinham um lugar certo para amanhecer. Meu café, desde cedo, era gelado, quente, morno (açucarado). Hoje, somente agora, prefiro o café gelado. Talvez a questão tenha sido a falta de elaboração. Fiz Letras, um curso que ensina a como não ser escritor. Fiz o curso de Letras para aprender a dar nome ao que não sentia. Persigo essa palavra que nunca vi. Os textos, os livros, todos os livros que escrevi não há nada além de uma visita ao quarto, uma ida ao banheiro. Nenhum traz a marca da varanda, o ponto do meio, no interstício de um novo ponto. Nada me convoca e, por isso mesmo, fico preso a essas bugigangas inúteis. Amarrado à mesa de Jacarandá.
Essa vida até agora foi uma vida de várias mulheres, de vários cheiros. Sempre gostei de cheirar as bucetas de minhas mulheres. A mulher que mandei embora cheirava branco-gelo. Mas já cheirei uma azul-maça-sutil, que me deixou num desses estados de torpor (acabei dando um nome porque me esqueci completamente do odor). Incrível é que toda vez que me vejo com um cheiro diferente  *os cheiros substituem nomes?*, eu me desfaleço, procuro cama. Eu procuro as peças quando a posição do tabuleiro parece insolúvel. Eu procuro um novo cheiro quando uma buceta tem um novo odor. Eu procuro palavras e deixo a verossimilhança para os críticos. Quando o gosto do vinho some (sempre sempre some), eu sugo atroz as palavras e defino o que senti. Não sinto nada depois de uma tragada de vinho. As bucetas existem para por um ponto onde não há lembranças. Pode ser. Pode ser que enquanto se lembre, não seja mesmo possível escrever uma linha sequer. Talvez por isso todo livro que escrevi tenha ficado borrado, porque escrevi lembrando passo a passo, planejamento otimizado do início ao final. Se o que há aqui fosse um livro, não seria possível saber se haveria de ter um desfecho. É isso que no desdizer procuro sem busca alguma. Porque falar de vinho, de cores, de xadrez, de família, de bucetas... 
Falar de tudo que se lembra é de profunda idiotice. Exatamente por isso que não desmancho meu tabuleiro. É por isso que me revolto quando cedo à inconstante fome de vida e bebo o líquido. Eu sempre sucumbo no final do vinho. Odeio o vinho quando o engulo. O vinho não foi feito para ser engolido. As uvas líquidas são mesmo para viverem de um lado ao outro da boca. Certa vez resolvi praticar uma grande heresia: bebi vinho na frente dos amigos de uma de minhas mulheres * Era Periquita*. Tomei de um gole, já que estava numa incompreensão total perto de tamanha tolice. Os amigos de minhas mulheres são profundamente idiotas. Nenhum soube ouvir a língua dos cães, e todos, sem exceção, falam línguas mortas obsessivamente. Minha heresia não foi submeter a minha presença aos tolos, mas, tão somente, beber o vinho como bebiam os amigos de minha mulher.




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Meu nome é Marques Wilke Devívido. Não tem "Santos". Sempre achei de profundo mau gosto chamar qualquer coisa dos Santos. Eu, ao contrário, chamaria Marques da Mãe, Marques dos Livros, Marques Xadrez, Marques do Caralho. Sair de casa não é problema – resolvo problemas de mortais, como, bebo, fumo e cago, embora prefira ficar em casa mesmo. Entretanto, se eu fosse dar um nome para meus problemas (o que não faço sem hesitação), chamaria de véu. O véu da cortina que me separa da varanda. Os quartos não me perturbam um milímetro. Os quartos (os sete) tem toda uma maneira própria de me olhar. O cheiro deles mistura constantemente à cor sombria que perpassa as portas. E não me assusta.
Sobre a varanda-do-meio prefiro não dizer prontamente o que passa ali porque não paro de pensar nela. Ontem quando abri o véu da cortina e pisei naquele lugar eu não sei mesmo o que havia além-aquém *amém*. Eu não tinha ideia e não tinha palavra. Quando o vulto me visitou na noite antepassada, eu não vi palavra alguma. Meu desdizer vai num rumo de não querer explicar o que passa no reino desabitado. "Reino desabitado" foi posto em um livro de contos que escrevi, embora ali não tivesse nada a ver com as experiências sensitivas. Deve ser mesmo diante da falta de lembrança que a palavra comparece para dizer alguma coisa daquilo que não se diz. Mas quando se lembra do que aconteceu, uma lembrança de fato corporal, aí, sim, as palavras devem são engolidas pelo soturno. Na varanda, eu era visto. Eu era visto do meu corpo para lá. O cão que corria atrás do preá, corria também um olhar à varanda. O preá corria e me era visto. Eu ainda não disse nada, porque tentei dizer demais. Eu sou dito quando sou visto visão além.

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Vamos lá: até agora o que sei é que me chamam de Marques Devívido *constantemente omitem o "Wilke"*. Escrevo livros para a editora e preciso coletar histórias desse povoado, Santo Antônio de Goiás. Sou para lá de prolixo * esses pensamentos se movimentam de lá-pra-cá*; sou casado há quinze anos com a mesma mulher cujo nome é Maria (engraçado, não decorei o nome completo dela). Simplesmente gosto de Fisher e adoro a defesa dragão da siciliana. Não jogo xadrez com ninguém vivo, mas me desafio a cada momento analisando *jogando* contra as partidas clássicas. Gosto de vinho enquanto está na boca e odeio o vinho quando sucumbo – quando o bebo. Estou há um mês nesse sítio e até agora só entrei em um quarto. Tive um sonho com vultos e não tenho medo dele *os vultos hiperbolizam a própria imaginação*. Passo por uma problemática: os nomes aumentam, entretanto não os sinto como verdadeiros. Não acho que palavra alguma encerre algo, ou alguém. E não se trata da arbitrariedade do signo. Não. As palavras (mesmo encenadas e cheias de expressão) dizem menos que um centavo. E o pior é que todas as línguas se prefiguram como mortas. Não há palavra que dê conta de traduzir isso. Vou ao quarto *quando isso é possível* e durmo na escuridão que é sem sem palavras. Vou ao quarto e durmo.
 Mas sei das querelas de infância. Quando penso nos pensamentos de criança não vem palavra alguma. Já ouvi teorias ridículas que dizem uma cem-coisas da infância, entre elas aquela que diz da amnésia infantil. Não há nada mais bobo que isso. As crianças não apagam nada, ao contrário, os eventos ocorridos ali são apagados pelo adulto, que os toma por completo. Não me vem palavra alguma quando recordo do rosto da Carla *garota que foi pedida em namoro aos quatro anos de idade*. O rosto da Carla, que era doce branco-nuvem. Nada vem quando me recordo do demônio da mãe da Carla sugerindo "criança não namora!" O caralho. O instante ainda prevalece. A velha amaldiçoou o que tentou dizer. A mãe da Carla não nos deixou namorar *família de interior, Buenópolis, Minas Gerais*.
Depois que cresci aprendi a beber vinho sem engolir o líquido, embora meu fracasso seja constante. Quando cresci, dei que ficaria com a Carla de quatro *quatro anos de idade*. Fui a Buenópolis à procura dela. Não queria palavra que fizesse lembrá-la de uma forma invertida, traída. Essa cidadela do interior é pequena como cu. Procurei por ela e lá eu vi uma Carla de vinte anos. Não tenho a Carla de quatro, muito menos aquela de quatro anos. Novamente o velho gosto de traição me carcomeu o fígado; ela, Carla-de-quatro-anos, nada tinha a ver com quem via. Vinha uma mulher de bunda gigante *as bundas grandes com celulites podem ser interessantes, uma vez que parecem querer esconder algo ali, entre cada furo, um novo furo que há*, mas não era quem procurava.
A professora de português da sexta-série fora minha primeira médica. Ela diagnosticara meu problema que hoje contesto. Contesto sem uma hipótese melhor a me ofertar. Sei que não são palavras que preciso. A varanda, afastada como é. A varanda que se afasta da mesa de jacarandá é algo instigante. Sempre tive nojo de textos com orações curtas, rápidas, repleto de ponto final. Parece que o autor não aprendeu a coordenar as orações.  Ir à varanda é impossível *ao menos agora* sem ponto final. A cada passo um ponto, que me encerra na professora de português. O médico também do contradizer. Se o ponto final interrompe um fluxo, interrompe um fluxo que ora não me faz pensar, ora somente repito. O ponto final é fundamental na ida à varanda, e mesmo pensando cá no médico, na depressão, no caralho. O médico ouviu falar que eu não saia de casa, não saio mesmo... Para ele isso era resultado de um suposto mal-estar cujo nome ele deu de depressão. Mas ainda não encontrei mal-estar nenhum. Não sinto essa coisa de angústia *entrada no latido dos cães*.
  Eu tinha uma namorada que morava *namorada e morada prenunciam algo?* no Novo Mundo, um bairro de Goiânia. Eu ia vê-la toda sexta-feira, antes, porém, parava na Anhanguera, um bar por ali, e bebia oito doses. Ela dizia que eu era alcoólatra *não se ama deus nenhum*, e cuidava de mim. Ia com oito doses observando os cães. Eles sempre estavam embriagados a ladrar constantemente. Era de praxe nessas sextas-feiras eu enxergar um cão por entre os olhos caninos. Eu também os ouvia *a língua viva canina*. Não tenho palavras para dizer daquilo que me ouvia, que me via; do corpo quando brota o torpor há sempre um quê de maravilha. Eu ouvia e era ouvido, carro nenhum soava naquele momento.
  Lendo sobre a Nigéria *era um livro que o editor pedira para combater o racismo*, eu saquei certas nuanças para lá de instigantes. Os povos Iorubas topavam com certas divindades que os tomavam por completo. O cão estava ali, as árvores ali. Eu não quero a palavra que diga o que me ouviu naquele momento. A varanda sem jacarandá também me ouviu *no cachorro que corria atrás de um preá assustado*, também me ouviu desde o momento em que o véu da cortina (os olhos da casa) transpareceu.
 Minha doença é a falta de palavras *poliglota, mãe-do-céu*. Seu mal-estar é denominado, segundo o D.S.M. IV, depressão *não sabe bulhufas do que seja mal-estar*. Angústia é o outro nome disso que é o contrário.  O fato *Doutor* é que nunca nunca nunca eu senti coisa assim, como se diz. Tem um pé de jambo na casa que minha mãe morava e antes de ela falecer eu subia o pé acima... Tem um pé de jambo, acho que vi um ali, perto do cachorro que corria atrás do preá. Eu vi pássaros que não participavam da composição, mas estavam como efeito coadjuvante.
Até quando vou manter um tabuleiro aleatório aos moldes de Fischer, ao passo que, do outro lado, uma defesa tão bem arregimentada? Até onde o marcador do word vai piscar à procura.
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                Do editor, o recado.
                       (Cap. VI)


A campainha do susto soou. Não espero ninguém (Maria não seria). Até conto com a possibilidade de ser arrancado desse torpor por ela, mas não agora. A campainha soa, grita, geme. Não posso me aquietar, o barulho insistente retoma como batida cardíaca.
É do editor, o recado: “Já não é possível aguardar. Ninguém do vilarejo foi entrevistado e há mais de um mês você permanece nesse lugarejo. Todo dia alguém leva comida e nada de você escrever (pelo menos nada me foi apresentado). Está precisando de alguma coisa? É bom que escreva, melhor, é preciso que entreviste os moradores, que conheça as origens da cidade, a relação com a Igreja Católica, com o campo... É bom que não se atrase: duas pessoas estarão amanhã à sua porta para dar o primeiro depoimento (pela manhã). A editora tem tempo contado para publicar o texto. Bom trabalho!”.
Infelizmente terei duas pessoas no meu encalço amanhã pela manhã – vou urinar à noite (enurese dos diabos). Quando moleque, toda vez que ficava pendente algo para o dia seguinte, batata, eu acordava ensopado. Preciso dormir (o sonho, o vulto. A espinha dorsal foi revirada. Não como a primeira vez, porém a curva da coluna, um evento que faz Marques Wilker Devívido ser arremessado ao chão). Que horas? Ainda não deve ter passado uma ou duas horas. No Embalo novamente ao sono *não se lembra do sonho*. Mãos aos olhos esfregando cada milímetro da retina, água gelada ao rosto, a pé. A campainha.
As duas pessoas entram na casa timidamente. Foram convidadas a sentarem-se à mesa, sentaram-se. Seus pais vieram de onde? São Católicos? As perguntas, embora nada complexas, foram elaboradas demoradamente. Uma última pergunta: alguma palavra traduz sua vida? Os dois entrevistados sorriram simultaneamente. Não responderam e foram embora. Para as respostas das perguntas elaboradas era mesmo necessário começar pela última, porque, nenhuma pergunta teria sentido para além do questionamento da palavra. O vulto, a varanda, o latido dos cães, o cão correndo atrás do preá, sim, são valiosos numa perspectiva que não é necessário responder a última questão. As pessoas que vieram à minha casa são Católicas, amam crianças e cresceram nessa terra. Conversei com pessoas que usavam as palavras às escondidas *não há caminho para casa, não há casa alguma*.
 Luciana, uma garota que estava a pouco aqui, disse que queria voltar para Minas Gerais. Ainda, que Santo Antônio não teria sido fundada a partir da Igreja Católica, ao contrário, fora a partir do plantio que teriam aglomerado pessoas naquele local. A Igreja Católica seria apenas a religião daqueles que vieram explorar essa terra, jamais o fim de eles chegarem *ninguém da História Cultural iria confirmar essa tese*. Eu, menos ainda: o que foi dito à distância, sem nenhum afeto. Luciana disse que ouvira de outros daqui, dizia ela, pelos cantos. Não é por aí. Luciana não diz algo que a tome, que consome as entranhas. O vulto me tomou essa noite mais uma vez.
Certa vez li que os sonhos são uma espécie de termômetro, ou seja, que um sonho recorrente seria sinal que algo não ia nada bem. Contudo desde meninote nenhum mal me possuiu *gripe, dengue, sarampo, malária nenhuma*.  Meu mal é a falta de palavras, como dizia a professora Jucimaria da sexta-série. Meu mal é depressão, como dizia o doutor psiquiatra. Eu queria mesmo indagar alguém: se eu perguntasse ao psiquiatra (que não me recordo o nome) se depressão é o mesmo que a falta de palavra. Se fosse perguntado à professora Juciamaria: depressão é a falta de palavra? Eu sofreria de dois males, que, como em um complô, conspirariam contra minha integridade. É paranoia.
                
...
Minha mãe é essa da foto. O meu tabuleiro tem mais afeto que se imagina. Aliás, a foto de minha mãe está no verso do tabuleiro, basta virá-lo para notar que a foto está intacta. É minha mãe ainda criança. Nunca gostei das fotos de pessoas adultas, parecem ser falsas. Fotos não foram feitas para serem expostas por aí, sem critério. As fotos é que nos arremessam às entranhas, as fotos de criancinhas *o imaginário que forma o eu*. E se deve tirar mais que uma; é sempre uma foto apenas. Tiraram essa foto de minha mãe e jamais o corpo dela foi tirado para dançar novamente por uma câmera. Eu ainda não conheço a minha foto ainda, talvez alguém já a tenha guardado por detrás de um tabuleiro de damas, não acho seria digna de um tabuleiro de xadrez.
Minha mãe, Wirna, depois de ouvir o meu primeiro diagnóstico, oriundo da professora de português, tratou de me matricular em tudo quanto há de cursos de línguas. Não é à toa que conheço os diversos métodos de ensino e resolvi cursar Letras. Essa escolha não foi simplesmente porque gostava de escrever, ao contrário, já tinha ouvido que o curso ensinava o estudante a como deixar de escrever. Minha primeira tentativa de me curar *?* foi iniciar esse curso. Eu sabia mesmo que era preciso abolir a obsessão da palavra, de escrever desmedidamente, o curso ensinaria a livrar-me do meu sintoma – poderia mesmo ter me tornado um crítico, um pesquisador que odeia literatura.
A palavra da busca continuava travada num meio de peões *Exu*, poucas peças grandes. A palavra-busca sempre esteve no cerne de um caminho que não conseguia seguir. O que havia antes da professora de português? Essa é uma pergunta que sei que não devo me fazer. Naturalmente, anteriormente havia outro cenário. Naturalmente.
Minha mãe tinha um nome próprio, o pai não, senhor forte (jogo sólido com poucas possibilidades de intrusões). Wirna, mamãe, era quem (nos poucos momentos) buscava acalentar minhas solidões. O pai, embora presente, nunca assim foi chamado. Ele era o provedor, o provedor do lar. Engraçado, amigo, descolado... Quando faleceu, estive no velório, silencioso. De boca, já que minha mente desenhava palavras a todo o momento. Logo após o pai ser enterrado, nenhuma palavra me veio. Quando virei às costas à cova, tive o primeiro encontro. A força do vulto percorreu toda a espinha, cada vértebra, passando pelo estômago. A topada não tem tempo certo, mas o vulto passou a comparecer de quando em vez.
Eu nunca quis dar nome ao vulto. Mamãe me levou ao Centro Espírita, mas toda vez que eu entrava no Centro André Luiz havia uma palavra – tentavam aplacar o desespero com palavras. A professora era retomada – busca como uma incógnita.   


...

Ela era viciada em fotos. Mamãe insistia em registrar todos os momentos sem pudor... Certo dia, diante de convidados, alguém deixou escapar uma flatulência. Não deu outra, logo apareceu uma máquina fotográfica para guardar o momento. Era sempre a mesma justificativa: "Não se poder perder o instante!". Um saco. A lembrança dos meus pais parece me fazer cair na mesma armadilha *falar o óbvio*. É claro que minhas recordações estão atreladas à primeira casa. Na verdade fui expatriado, de certo modo. Isso porque nasci em um hospital que me abrigou por menos de quarenta e oito horas, e logo já estava noutro canto, outra cidade - Buenópolis. 
Essas pessoas vêm aqui e contam histórias esperando a máquina fotográfica de mamãe *ou a benção do Papa*. Essas pessoas estão fartas daqui, do olhar ensandecidamente mortificado dessas terras, e, ainda assim, aceitam conversar comigo. Saco nenhum! Um pouco de longevidade no que é narrado é fundamental, todavia essas lavadeiras trazem apenas a roupa do corpo, do dia anterior. Queria algo de longe, uma energia que consumisse meus nervos, uma história que pudesse me arrebatar tal como ocorria na sétima-série: os romances de Pedro Bandeira me enlouqueciam. Não só. Li os três volumes de "O estudante" (não recordo de quem seja)... Meu pai precisou ir à Brasília para buscar o volume três. Na verdade, ele fez a viagem por outros motivos (coisa de igreja), mas acabou comprando o livro que tanto queria.
Como é triste o poder clerical da crítica literária. Depois de mais idade, li um texto de algum puto crítico que cuspia em quase todos os livros de minha infância. Pedro Bandeira, Adelaide etc. eram somente agentes trabalhando para a Ditadura Militar, profunda falta do que fazer. Eu penso todos os dias, esses putos seriam mais felizes se escrevessem romances. Outra desgraça: Rubem Fonseca *pai do conto urbano brasileiro* é massacrado por idiotas aprisionados na vida do autor. Buceta. Se o desgraçado fudeu alguém ou não, não sei, mas o fato é que o puto escreve bem que nem o diabo. 
A sensação é que minha história está correndo melhor, agora. Uma esteira em velocidade avançada... A merda dessa casa me botava para lá de comovido. Os quartos (esses que não entrei) permanecerão sem cheirar minha presença. E pronto. Esses romances que escrevi não são de todo ruim. É mesmo uma merda tirar uma foto de quem está do seu lado todos os dias? É assim, porra. Meus romances são fotos tiradas da mesma mesa *há quem goste*. Imbecis. Ainda assim, ficar nessa casa por tanto tempo (sem ver quase ninguém) também é uma fotografia incessante. É ver a mesma merda. 






VII (Outro ponto)


       Acordei mais disposto. Ontem à noite, eu já anunciava certo bem-estar: meus pensamentos estavam correndo livremente e essa casa não estava tão impregnada de minhas coisas. Quando aqui cheguei, pensava que ficar só era a minha salvação, porque vinha de uma correria danada. Se fosse tão fácil assim, Zaratustra não teria descido da montanha.
            Não sei fazer café, mas me atrevi a botar a água no fogo e fazer desse chá um café. Um desafio. Qualquer atividade desempenhada na cozinha é um tanto tortuosa, porém me recordo que quando criança eu mesmo fazia meu leite com toddy. Era uma lambança só! Às vezes meus irmãos mais velhos também pediam para eu preparar em maior quantidade... Tomávamos todos rapidamente. Naquela época, eu não tinha a terrível obsessão de tentar me lembrar das sensações. Bebíamos e logo estávamos jogando bola ou brincando de Playmobil.
            Hoje, ao acordar, aferi a pressão. Ok. Geralmente tenho pressão baixa, baixa mesmo. Tomei meu chafé e abri a porta que dá para o quintal. Esse lugar é uma graça: galinhas ciscam sem questionamentos, adiante, os porcos aguardam a lavagem. Ah, os cães. Essa porta está localizada na parte oposta da varanda, enquanto de um lado vê-se o horizonte (preás e animais mais exóticos, penso), do outro os bichos do dia-a-dia.
            Caminhei descalço. Logo me lembrei de que queria ler alguma coisa. Além disso, meu estômago já anunciava a ausência total de energia. Retornei rapidamente ao interior da casa e comi uma banana que ali estava apodrecendo. Em seguida, com a porta fechada, sentei-me à mesa e abri o primeiro livro. Veja só. “Assim falava Zaratustra”, um romance que eu podia ter escrito se tivesse nascido antes do autor. Esse tipo de pensamento fode tudo. Hoje, entretanto, não tenho disposição para estar quebradiço. Vou lendo. Escrevo *escrevendolendo*.