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Mostrando postagens de novembro, 2010

Terra vazia

Os jornais estão sangrando... as pessoas, desconcertadas, vagam incansavelmente por lugares incertos. E eu, olhar meu, olhar incestuoso frustrado, não consegue distinguir as cenas que passam com tanta rapidez, são retinas deslocadas. Sentado, sou introspecção... apenas os jornais me ligam ao mundo exterior. Parece mesmo que preciso de sangue alheio para sentir o coração batendo. As mortes no Rio de Janeiro não me fazem chorar, muito menos me causam arrepios, mas me dão a terrível sensação de existência. É, minha subjetividade aprendeu a ler desgraças, o que antes era apenas exótico já tornou-se essencial. Mas o jornal me liga a mim. Essa corrida veloz faz qualquer piloto tentar olhar à arquibancada. Abri o jornal e trouxe a xícara de café para mais perto. Meus olhos pulam nas Coréias e sinto-me em São Paulo de guerra. As torturas policias "Ministério Público investiga possíveis casos..." são mais indícios da minha existência. Encontro-me perdido, mas o sofrimento alheio m...

lição de um jovem nazista

É a história de alguém que se apresenta feliz, saltitante em quase todos os momentos: "sorridente por ingenuidade", como gostavam de dizer. Ele não precisa de nome, uma vez que a intenção é resumir a vida de quase todos os humanos. Alguns diziam que sofria de obesidade mórbida, já que tinha prazer em engolir as casas ao redor. A casa, refém de nosso personagem, logo se via sem quadros, sem livros, filmes ou bugigangas. Enquanto apenas os bens culturais eram consumidos, todos o julgavam interessante: "apesar de tudo é um garoto sensível!", admiravam. Porém, a ambição crescia dia a dia... e os móveis e eletrodomésticos também desapareciam inexplicavelmente. Depois de alguns dias de ação, o que se via era uma casa vazia e um jovem grande em alegria, que engordava consideravelmente. O interessante é que sempre parasitava uma casa por vez, jamais duas, três, quatro... (não aprendera com Hitler ainda!). Depois de esvaziar tudo que havia, o moço já bastante grande não se c...

não chora pela boca alheia!

Quando um homem chora, as lágrimas tecem o ar do silêncio - os peitos de outrora não ouvem gemidos. Em mim, hoje, só o disparar incontido do coração... parece que é hora de explodir para ser reconstruído posteriormente - ciclo vital da existência. Por um tempo só cresci, e construí uma imensa bolha - pensei que não podia ser destruída -, mas tudo que é bolha se desmancha ao ar. Era imensa, eu era imenso, tornei-me líquido pela primeira vez aos dezesseis. Pensava que seria água eternamente, porém quem aprendeu a ser bolha retorna ao estágio inicial inevitavelmente. Assim cheguei ao hoje que é igual ao hoje de seis meses atŕas, igual ao hoje de um ano e meio, igual a bolha estourada pela primeira vez. Estou inchado como quem não suporta o próprio coração, estou imenso... o outro já é todo espelho, entretanto não sou eu quem reflete! Discute como eu, chora como eu, todavia não sou eu quem chora pela sua boca. Meu pedido talvez fosse: cala coração, e não chora pela boca alheia!

quadro cinza

hoje é vontade de parar deixar o carro ir e deitar deitar no quadrado humano vontade de não ver as malas abertas do carro que partiu apenas sentir meus óculos caindo a cegueira agora é um sonho e em minha lucidez não há uma gota de álcool só dores do dia que não acabou só morte da vida que começou mas penso no iraque ou afeganistão no Brasil de certezas, cegueiras e durmo, durmo em pedras cravadas (minha cabeça quer tomar forma de pedra!) sem bagagens, carro ou álcool