sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Para além do bem-estar poético




*Texto elaborado ao Comício Poético (Revirada Cultural Goiânia-GO - 2011)


Para além do bem-estar poético

Poeta, profeta, protesta. A profecia anuncia o que virá: partindo do imaginário, o profeta constrói e proclama um novo momento. Não é diferente ao poeta! Através da escrita, há a possibilidade de reinvenção subjetiva. O poeta subverte a linguagem, como a dar forma ao desejo, como a realizá-lo. A transgressão é característica básica de quem é tomado pelo desejo, uma vez que o querer não segue os ditames morais. Poesia não é falar de si, já que o poeta é tomado pelo furo, pelo inumano, pela linguagem.








Assim, nasce o poema, e, em seguida, outro vem subsequente (o desejo não pode ser satisfeito completamente). Não há realização plena, o furo permanece! Há uma fome poética, fonte d'alma, que momentaneamente consegue se dar por satisfeita (nasce o poema), há o gozo, mas, momentos depois, a fome (da fonte do desejo) toma o artista novamente - mais um ato subversivo pode comparecer via linguagem; é poesia.


O poeta é subversivo! Se o material primitivo da poesia é o desejo, o poema só pode ser um ato de transgressão. O desejo é o gigante que não se cala. O desejo é o inumano que esbraveja n'alma por um grito por satisfação. Ora, se somos estruturados pela linguagem, a moral não resistirá ao submundo poético. Os sonhos podem ser completamente imorais, a ponto daquele que sonhou esquecê-lo, ou não conseguir se esquecer - a poesia não foge desse pressuposto! Apesar de a repressão ser menor durante os sonhos, o poeta transita em um sonho acordado, um devaneio. Toda parafernália linguageira (portanto, inconsciente, imoral, inumana) tomará a poesia, inevitavelmente.

Entretanto, a moral civilizada cada vez mais toma os espaços reivindicados à poesia. São os poemas light que começam a proliferar; aqueles que dizem do superficial de maneira nada abrangente. A poesia restart, tão consumida pela geração Orkut, parece ser o que está em voga atualmente. Já não mostram a face do inumano, mas, tão somente, esforçam-se para contê-lo.

Não é de hoje que a linguagem vem sendo colonizada (afinal, é pela linguagem que se coloniza!). Em um momento em que é caro\raro estabelecer laços sociais, em que as relações estão cada vez mais automatizadas, mecânicas, utilitárias, há uma tendência de a poesia seguir o mesmo rumo. Esses aclamados poetas, de academia “A” ou “B”, parecem louvar todos os símbolos que nos deixam distantes dos nossos desejos, do desejo do outro. Ou seja, a arte hegemônica, arte Coelho, enfatiza o politicamente correto, relativiza o elemento inumano n’agente, comparece a hipocrisia do bem-estar social. Essa é talvez a maior problemática da linguagem hoje. Criaram o modelo do “bem”, que mais parece a face distorcida do diabo, e proclamam arte aos humanos.

Todavia, os laços de fato construídos são aqueles que levam em conta o desejo, a identificação com o desejo do outro, o próprio desejo. A poesia reside o terreno desabitado, convive com o mal-estar social, é o próprio mal-estar. O poeta sensibiliza (constrói laços), possibilita a entrada do outro via linguagem. O universo poético, onde as palavras correm soltas, está na mesma dimensão dos desejos, ou seja, as palavras são postas para expressar o que ainda não foi acomodado, comprado. Enfim, a poesia não possui obrigação nenhuma com a hipocrisia do bem-estar social.

Hoje, quando um poeta declama um poema, poucos se emocionam; é como querer lágrimas de pedras. As normas, tão danosas à linguagem, tomaram os espaços ditos poéticos e o gozo via efeito poético está escasso. A linguagem marginal nunca foi tão necessária. Talvez o susto causado pela linguagem marginal possa mobilizar o sujeito a compreender de outra forma os eventos tão banalizados atualmente. No susto pode haver um furo na camada do politicamente correto, do bem-estar social! Assim, novos poetas podem se formar a partir daquilo que é novo, transgressor, a linguagem.

Para a emoção via efeito poético, o leitor deve ser também um poeta, mesmo que em germinação. Ainda, toda criança é um poeta, já que é dotada quase que exclusivamente do inumano! Entretanto, os ditames morais fazem com que boa parte delas perca a sensibilidade (moldam o barro para tornar-se gesso!). Aqueles que escapam dessa norma-forma são os poetas, mesmo quando nunca escreveram um poema. Ser poeta é criar com as palavras, subverter via linguagem, tal como fazem as crianças. Quem de fato consegue se emocionar, ou seja, emocionar através do outro, construir laços (que é sempre via linguagem), é um poeta, ainda que em germinação. Assim, concluo, haverá poesia um dia?


Nenhum comentário:

Postar um comentário