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Entre feixes

Deuses somos, eu e você Demônios são os outros Demônios somos, eu e você Deuses são os outros Deuses somos nós nos Diabos dos outros

Boc'aberta

Saiu da casa de Yanca sem acender cigarros e entrou no primeiro ônibus. No caminho, a boca deixou de salivar e o cigarro saltou à mão, mas, diante dos colegas anônimos que dividiam o mesmo espaço, preferiu não causar polêmica. Em dias de jovialidade, Francisco teria acendido ali mesmo e deixado todos na perturbação da fumaça - o tempo é que salva das feridas egoicas! Desceu pisando firme e, sem notar, sua cabeça desenhava os seios de Yanca - a menininha que se tornou mulher da noite para o dia. Algumas imagens passavam de relance sem muita ênfase: os seios grandes de mamilos saltitantes, seios joviais dos dezesseis anos. Francisco, desde cedo, dizia gostar mais dos seios pequenos, que tivessem a medida da mão, contudo, os seios que ficaram para trás naturalmente formavam pares de melão ao som da colheita. Entrou em uma loja de eletrônicos e parou os olhos no primeiro modelo de tablet (os seios carnudos pareciam refletir no espelho multitoque do aparelho). O vendedor, dessa raça m...

Excreções do ócio

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Em breve, meu novo livro: "Excreções do ócio".

a linguagem como recusa

Do querer - a fala recusa a tradução. Do desejo, o oposto advém. Não vou dizer o contrário. Não vou dizer! Digo somente quando recuso o dito, e é mesmo na recusa que comparece o que iria a ser. Enfim, melhor seria dizer – digo NADA. Digo nada como quem diz algo que é nada; a recusa está no presente; a ausência é nítida e não digo o contrário. Não digo o contrário, já que o que digo já é o avesso da linguagem: digo NADA. Só há linguagem quando NADA diz além.

um-mais-além

O esquecimento é muito mais! Esquecer demonstra bem mais que o óbvio - o dito acaso é uma ocorrência de um-mais-além do discurso, ou seja, não há acaso. Lapsos, esquecimentos, ironias ou piadas são resquícios de algo não dito, um-mais-além do discurso. Ler Clarice Lispector é deparar com todo esse universo. E não é à toa! As formações poéticas estão completamente interligadas com as formações do inconsciente, já que possuem os mesmos pilares: metáfora e metonímia. Enfim, no esquecimento, nos chistes, nos lapsos, nas embromações, há sempre um-mais-além do discurso. 

da leitura

Ler um livro é transar com a obra! Os leitores que leem de forma distante, procurando observar apenas a forma, sem se colocar ali (sem depositar algo seu naquilo que é lido) fazem uma leitura no mínimo superficial. Não me interessa a leitura sem o corpo a corpo - obra/leitor. 

do câncer, do suicídio

Há sempre um marimbondo rondando pela árvore genealógica de cada um. A maldição é lançada pelas figuras parentais, diante de um passado mal contado, uma história de repetição. O câncer, o suicídio, não há nada por acaso quando a questão é a subjetividade. A infelicidade da alma, a repetição de nossa ancestralidade, é um grito por socorro que poucos escutam. Olhar o marimbondo de cada um é uma possibilidade de escapar da insígnia pré-programada do destino: uma (re)invenção possível.